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sábado, maio 19, 2012

A PARTIR DE AMANHÃ, EM PORTEL



_O CASTELO EM IMAGENS – 2012
Texto de Apresentação
Faz dez anos este pequeno festival de cinema, “O Castelo em Imagens”, que nasceu da ideia de homenagear e sublinhar a importância histórica, social, cultural, artística e cinematográfica do “castelo”. Algo que este ano, nos apraz registar, foi seguido por Guimarães, Capital Europeia da Cultura, que desde o dia 7 de Abril, numa iniciativa a que deu o nome “O Castelo em 3 Actos”, um projecto de Paulo Cunha e Silva em volta do símbolo mais mediático de Guimarães, salientou igualmente a simbologia do seu castelo através de diversas manifestações artísticas a que não faltou o cinema. Interessante verificar esta convergência de intenções.
No ano passado, referimos que este “O Castelo em Imagens” “emanou de um conjunto de vontades com interesses comuns à volta das muralhas de um castelo (o de Portel), de todos os castelos (inicialmente os portugueses, como é óbvio, mas também todos os castelos do mundo, do mundo “visível”, dito “real”, mas também do mundo da fantasia, que só existe no interior de cada um de nós). Falamos de utopias, de castelos idealizados como vida em comum, harmoniosa e fraterna, não dos castelos da violência, da ocupação, da usurpação e da prepotência. O castelo da defesa dos ideais. De Camelot, o castelo dos Cavaleiros da Távora Redonda, por exemplo”. Este ano vamos mais longe e, explorando o tema do western, entramos por terrenos bravios do Velho Oeste norte-americano, para, com base nas incipientes fortificações que por ali se ergueram em tempos de conquista da fronteira e de desbravamento de terras selvagens, muitas vezes ocupadas por índios que se viram espoliados pelos invasores, funcionaram igualmente como símbolo de um tempo e de um espaço.
Não se trata quase nunca do castelo tradicional, enquanto constituição militar, que foram raros, mas neste caso o castelo tanto podia ser uma missão religiosa transformada em forte, como foi o caso de “The Alamo”, como de uma caravana de colonos, fechada em círculo, resguardando-se de ataques adversos, como de uma aldeia mexicana, vítima da prepotência de bandos de pistoleiros saqueadores, ou de uma aldeia índia, a braços com agressores. Por vezes, uma única casa, perdida na planície, é o castelo de resistência de uma família de agricultores. Ou a diligência que atravessa os grandes espaços, exposta à fúria dos elementos e dos assaltantes. O castelo é, pois, o local de refúgio e resistência.
Para lá desse pequeno ciclo que relembra a importância do western que André Bazin considerou “o cinema americano por excelência”, haverá ainda sessões com animação para o público mais jovem, uma sessão com “Frei Luís de Sousa”, integrada no Dia do Autor Português”, e um pequeno workshop sobre “O que é o Cinema”, onde se tentará uma iniciação à linguagem cinematográfica e audiovisual.
Desde a segunda edição de “O Castelo em Imagens” que se alargaram os horizontes do festival e se criou o Concurso Nacional Escolar, dedicado aos jovens em idade escolar, do ensino básico ao superior, que quisessem expressar as suas artes e sensibilidades, os seus conhecimentos e a sua fantasia, em pintura, desenho, fotografia ou vídeo. Com o castelo como tema inspirador, o concurso nasceu, e em boa hora o fez, porque desde a primeira edição se mostrou uma certeza motivadora. Quaisquer que sejam os outros balanços que se possam fazer deste festival (e esperemos que sejam francamente positivos), esta afluência de obras de escolas e alunos de todas as regiões de Portugal (e igualmente de muitas outras partes do mundo onde há comunidades portuguesas, de Timor ao Brasil, da Europa à América!) é já uma realidade insofismável que coloca Portel no centro nevrálgico de uma nova aproximação do nosso património histórico, cultural e artístico que o “castelo” representa. E demonstra uma vez mais que só é preciso um pouco de imaginação para mobilizar jovens e docentes para novos e aliciantes projectos pedagógicos.
As obras concorrentes serão, como sempre, apreciadas por um Júri independente, que incorporará elementos de reconhecida idoneidade ligados ao campo da Cultura, do Cinema e do Audiovisual ou da História, escolhidos pela organização do Festival, e ainda outros convidados de Portel. Este ano estão previstas no Júri as presenças de Alice Vieira e Fernando Dacosta, escritores, Frederico Corado, realizador e encenador, Aurora da Conceição Carapinha, Delegada Regional de Cultura do Alentejo, Jorge Luís Marques Garcia, professor da Escola de Portel, e Patrícia Gomes da Silva, representante da Câmara Municipal de Portel. Teremos ainda outras actividades paralelas, como concertos a abrir e a fechar o certame, reunindo Anabela e Carlos Guilherme e o flamengo de Serva la Bari.

Lauro António
Director de “O Castelo em Imagens”


Programação:

Domingo, 20 de Maio de 2012
21,30 Espectáculo de Abertura: Concerto com Anabela, Carlos Guilherme 
e Banda do Lavre
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), A Lebre e a Tartaruga, A
Deusa da Primavera, Crianças no Bosque, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: OS SETE MAGNIFICOS (The Magnificent Seven), de John Sturges
(EUA, 1960), com Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, etc.
125 m; M/ 12 anos.
21,30 WESTERN: A QUADRILHA SELVAGEM (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah (EUA,
1969); com William Holden, Robert Ryan, Ernest Borgnine, etc. 140 m; M/ 12 anos.

Terça-feira, 22 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), O Príncipe e o Pobre, O
Flautista de Hamelin, O Rei Cole, Cavaleiro por um Dia, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: FORTE APACHE (Fort Apache), de John Ford (EUA, 1948), com John
Wayne, Henry Fonda, Shirley Temple, etc. 127 m; M/ 12 anos.
21,30 WESTERN: JUSTICEIRO SOLITARIO (Pale Rider), de Clint Eastwood (EUA, 1985),
com Clint Eastwood, Michael Moriarty, etc. 111 m; M/ 12 anos.
Quarta-feira, 23 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), O Dragão Relutante, O
Touro Fernando, Golias, Johnny Semente de Maçã, etc. M/ 4 anos.
14,00 DIA DO AUTOR PORTUGUÊS: FREI LUIS DE SOUSA, de António Lopes Ribeiro
(Portugal, 1950); com Maria Sampaio, Maria Dulce, Raul de Carvalho, João
Villaret, Barreto Poeira, Tomás de Macedo, etc. 118 m; M/12 anos.
21,30 WESTERN: O HOMEM QUE MATOU LIBERTY VALANCE (The Man who Shot
Liberty Valance), de John Ford (EUA, 1962), com James Stewart, John Wayne, Vera
Miles, Lee Marvin, etc. 118 m; M/ 6 anos.
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), Os Três Porquinhos, O Lobo Mau, Lambert, o Leão Ovelhudo, Os Três Mosrateiros, etc. M/ 4 anos.
14,00 WESTERN: SILVERADO, de Laurence Kasdan (EUA, 1985), com Kevin Kline, Kevin Kostner, Scott Glwenn, Danny Glover, etc. 127 m; M/ 12 anos.
17,00 OBRAS A CONCURSO
21,30 WESTERN: ALAMO, de John Wayne (EUA, 1960), com John Wayne, Richard
Widmark, Laurence Harvey, etc. 154 m; M/ 12 anos.
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012
10,00 ANIMAÇÃO: CLÁSSICOS DE ENCANTAR (Walt Disney), A Lebre e a tartaruga, A
Deusa da Primavera, Crianças no Bosque, etc. M/ 4 anos.
14,00 WORKSHOP: “O que é o cinema?” – Lauro António e Frederico Corado
17,00 OBRAS A CONCURSO
21,30 WESTERN: OS PROFISSIONAIS (The Professionals), de Richard Brooks (EA, 1966),
com Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Cláudia Cardinale, etc. 
112 m; M/ 12 anos. 

Sábado, 26 de Maio de 2012
14,00 WORKSHOP: “O que é o cinema?” – Lauro António e Frederico Corado
17,00 ENCERRAMENTO E ENTREGA DE PRÉMIOS
18,00 ESPECTÁCULO COM SERVA LA BARI E OS SEUS “AIRES FLAMENCOS”



segunda-feira, abril 30, 2012

O CASTELO EM IMAGENS Portel

O CASTELO EM IMAGENS
Entre 20 e 26 de Maio próximo, em Portel, vai decorrer a 10ª edição do Festival "O Castelo em Imagens" e o 9º Concurso Nacional Escolar subordinado ao mesmo tema.
Este ano o western e as fortificações do velho Oeste servem de base à selecção de filmes da mostra, que inclui ainda sessões de animação para jovens, uma sessão dedicada ao Dia do Autor Português, um workshop sobre "O que é o Cinema?", exposições, concertos e etc. A capa do livro catálogo, cujo dossier central é sobre o western, já aqui fica.

sábado, fevereiro 02, 2008

CINEMA: O COMBOIO DAS 3 E 10

Revisão critica do western

O Bom (que não é "bom")...

O Mau (que não é "mau")...

e o Vilão (que é gay).

O COMBOIO DAS 3 E 10

Por que será que, sempre que aparece uma nova revoada de westerns, há umas quantas almas penadas que resolvem dizer que o western está morto e enterrado, mas… este estertor, etc e tal. Nada de mais errado. O western não morre, porque o western é grande parte da história dos EUA. Pode andar uns anos adormecido, pode emigrar para outras bandas (isto é, outros géneros. O que é grande parte do cinema de ficção-cientifica do que westerns nas galácticas?). De resto, nada morre, tudo se transforma. Um dos períodos de maior criatividade no western (os anos 50 e 60) já foi visto como agonia do género. Os mitos são eternos, renovam-se, adaptam-se aos novos tempos, são olhados por prismas diferentes, mas não desaparecem.
Depois de “Jesse James”, eis “O Comboio das 3 e 10”, um clássico de Delmer Daves, rodado em 1957, segundo um conto de Elmore Leonard, adaptado por Halsted Welles. 50 anos depois, o preto e branco deu lugar a uma cor macerada e dorida, por entre duros azuis e uma vasta paleta de ocres e castanhos; a limpidez das personagens de Glenn Ford e Van Heflin dão origem a conturbadas e complexas figuras vividas por Russell Crowe (Ben Wade) e Christian Bale (Dan Evans), e até o esquivo Charlie Prince (Richard Jaeckel) da década de 50 dá origem a um assumidíssimo gay (magnificamente interpretado por Ben Foster) nesta versão de James Mangold. Aliás, western sem gay, hoje em dia não é western. Digamos que a revisão crítica do western se está a processar nesse registo, ultrapassando mais um tabu que vigorou até há pouco.
A pequena história de Elmore Leonard conta-se rapidamente e não é na intriga que vai buscar a sua principal fonte de interesse. Dan Evans (Christian Bale) perdeu uma perna na Guerra da Secessão, e instalou-se num rancho no Arizona, onde vê a sua terra cobiçada por um latifundiário interessado na especulação que o caminho-de-ferro vai trazer. Por isso faz a vida negra a Dan, que tem mulher e dois filhos e não quer fazer má figura perante eles.
Para lá da ameaça das milícias civis do vizinho que lhes incendeiam o estábulo, Dan Evans tem ainda outras preocupações (menores, diga-se de passagem!): os índios que habitam por perto e o gang de Ben Wade (Russell Crowe), um fora da lei que gosta de assaltar diligências, bancos e demais símbolos do poder económico e político. Nesse aspecto, Wade é mais do que um fora-da-lei, é um provocador nato.
Dir-se-ia, no entanto, que Dan e Ben tinham mais razões para se associarem contra inimigos comuns do que para se oporem. Ambos, aliás, percebem isso, mas o destino leva-os por outros caminhos. Divergentes. Para ganhar 200 dólares Dan resolve oferecer-se para escoltar o bandido aprisionado até ao comboio das 3 e 10 que passa pela cidade de Contention, com destino à prisão de Yuma. E tudo se define nessa espera, no dilatar de um tempo que não tem fim, ou no aproximar galopante dos minutos que antecedem o apito do comboio a anunciar a chegada.
O filme vive da tensão que se cria entre estes dois homens, estas duas personalidades nada simples de analisar. Dois excelentes actores, um bom ritmo de narrativa, algumas proezas técnicas de registo (da fotografia à banda sonora, do guarda-roupa à direcção artística), uma realização que procura estar atenta sobretudo ao essencial (e o essencial é aqui a respiração descompassada desses dois homens, o que os move, o que os separa e o que os une, a descoberta de valores lá onde se julga que nada existe, a cumplicidade que no final se estabelece entre ambos, aparentemente contra natura, mas quem sabe?) fazem de “3: 10 to Yuma” um filme extremamente interessante e uma nova boa surpresa neste início de 2008 cheio de bons filmes nas salas de cinema (correspondendo a um óptimo final de 2007, nas correspondentes salas de cinema americanas!).
Os Oscars este ano vão ser um caso sério!

O COMBOIO DAS 3 E 10
Titulo original: 3:10 to Yuma
Realização: James Mangold (EUA, 2007); Argumento: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas, segundo conto de Elmore Leonard; Música: Marco Beltrami; Fotografia (cor): Phedon Papamichael; Montagem: Michael McCusker; Casting: Lisa Beach, Sarah Katzman; Design de produção: Andrew Menzies; Direcção artística: Greg Berry; Decoração: Jay Hart; Guarda-roupa: Arianne Phillips; Maquilhagem: John Caglione Jr., Jane Galli, Kathrine Gordon, Lisa Taylor Roberts, Betty Lou Skinner, Linda Vallejo, Corey Welk; Direcção de produção: Stuart M. Besser, Aaron Downing; Assistentes de realização: Todd Amateau, Kate Marie Boyle, Maria Mantia, Nicholas Mastandrea, Trish 'The Dish' Stanard; Departamento de arte: John Coven, Mick Cummings, Roger Lundeen, Rich Romig; Som: Donald Sylvester; Efeitos especiais: Ron Bolanowski; Efeitos visuais: Mark Dornfeld, Christina Graff, Paul Graff, Robert Stromberg; Produção: Stuart M. Besser, Dixie J. Capp, Aaron Downing, Ryan Kavanaugh, Cathy Konrad, Lynwood Spinks; Companhias de produção: Relativity Media, Tree Line Films;
Intérpretes: Russell Crowe (Ben Wade), Christian Bale (Dan Evans), Logan Lerman (William Evans), Dallas Roberts (Grayson Butterfield), Ben Foster (Charlie Prince), Peter Fonda (Byron McElroy), Vinessa Shaw (Emmy Nelson), Alan Tudyk (Doc Potter), Luce Rains (Marshal Weathers), Gretchen Mol (Alice Evans), Lennie Loftin (Glen Hollander), Rio Alexander (Campos), Johnny Whitworth, Shawn Howell, Pat Ricotti, Ramon Frank, Deryle J. Lujan, James 'Scotty' Augare, Brian Duffy, Jason Rodriguez, Kevin Durand, Chris Browning, Chad Brummett, Forrest Fyre, Luke Wilson, Benjamin Petry, Arron Shiver, Sean Hennigan, Girard Swan, Christopher Berry, David Oliver, Jason Henning, Darren Gibson, Billy Lockwood, etc.
Duração: 122 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: LNK; Locais de filmagem: Bonanza Creek Ranch - 15 Bonanza Creek Lane, Santa Fe, New Mexico, EUA.

O COMBOIO DAS 3 E 10
Titulo original: 3:10 to Yuma
Realização: Delmer Daves (EUA, 1957); Argumento: Halsted Welles, segundo conto de Elmore Leonard; Música: George Duning; Fotografia (cor): Charles Lawton Jr.; Montagem: Al Clark; Direcção artística: Frank Hotaling; Decoração: William Kiernan, Robert Priestley; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Sam Nelson; Som: John P. Livadary, J.S. Westmoreland; Produção: David Heilweil; Companhias de produção: Columbia Pictures Corporation.
Intérpretes: Glenn Ford (Ben Wade), Van Heflin (Dan Evans), Felicia Farr (Emmy), Leora Dana (Mrs. Alice Evans), Henry Jones (Alex Potter), Richard Jaeckel (Charlie Prince), Robert Emhardt (Mr. Butterfield), Sheridan Comerate (Bob Moons), George Mitchell, Robert Ellenstein, Ford Rainey, Dorothy Adams, Danny Borzage, John L. Cason, Woody Chambliss, Barry Curtis, Richard Devon, William Dyer Jr., Frank Hagney, Bill Hale, Jerry Hartleben, Joe Haworth, Robert 'Buzz' Henry, Tex Holden, Fred Marlow, Tony Mayo, Erwin Neal, Jerry Oddo, William Rhinehart, Boyd Stockman, Guy Teague, Guy Wilkerson, etc.
Duração: 92 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: ; Locais de filmagem: Amerind Foundation, Texas Canyon, Arizona, EUA; Data de estreia: 7 de Augusto de 1957 (EUA);

sexta-feira, janeiro 18, 2008

CINEMA: JESSE JAMES



“O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES

PELO COBARDE ROBERT FORD”
Jesse James não é personagem de lenda. Existiu realmente na América do Far West e da “conquista da fronteira”. Chamava-se Jesse Woodson James, mas tinha vários pseudónimos, como o de Thomas Howard, viveu entre 5 de Setembro de 1847 e 3 de Abril de 1882, morreu com 35 anos de idade e, nesse curto espaço de tempo, ganhou fama de ser um dos mais temíveis fora-da-lei da história americana. Assaltou bancos e comboios, assassinou muita gente que se lhe opôs, e a perícia com que manejava o revolver trouxe-lhe fama acrescida. Nascido de uma família de agricultores, ele e o irmão Frank só se lançaram no caminho do banditismo depois de terem visto a mãe ser morta e o seu rancho destruído por uma arrogante companhia ferroviária que, para levar a bom porto o traçado da sua via intercontinental, passou por cima de interesses privados sem olhar a meios.
Jesse James durante a vida era já uma lenda, mas depois de morto tornou-se um mito, tanto mais que viria a ser assassinado, à traição, por um dos membros do seu gang, um tal Robert Ford, de que a História retém apenas a abominação do acto. Antes de morrer era cantado com temor e reverência, depois de morto passou a vítima suja de um qualquer Judas de má memória. “The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”, produzido e interpretado por Brad Pitt, numa realização do neozelandês Andrew Dominik (que anteriormente havia só dirigido uma longa-metragem, “Chopper”, 2000, que o haveria de lançar internacionalmente), tem como tema precisamente este facto, retratando os últimos meses de vida de Jesse James (entre 7 de Setembro de 1881 e 3 de Abril de 1882) e o que restou de vida (amaldiçoada) do seu carrasco.
Com esta obra (e outras que se anunciam com idêntica inspiração), se diz que o western regressa ao cinema. Não tanto assim: o western nunca deixou de estar presente no cinema americano, constituindo um género que um dos mais célebres críticos e ensaístas cinematográficos de sempre, o francês André Bazin, considerou “o cinema americano por excelência.” Na verdade, o western é a História mais genuína de uma nação que nunca deixou de se reflectir neste género, com mais ou menos intensidade, é verdade. Mas a própria história do western cinematográfico acompanha a História dos últimos cento e tal anos dos EUA. Pode analisar-se a América através das suas componentes sociais, politicas, militares, psicanalíticas, olhando para os westerns que se foram realizando ao longo das décadas. Neles se espelha com uma nitidez insofismável o melhor e o pior de um povo, temores e esperança, vícios e virtudes, e nem sempre a virtude está do lado da lei.
Este “Jesse James”, de Brad Pitt, que se baseia num romance histórico de Ron Hansen, publicado em1983, é uma obra extremamente interessante, construída contra a narrativa dominante, procurando e recuperando olhares e silêncios, em detrimento de acções galopantes. Arrojada opção que nos permite surpreender uma obra diferente, sedutoramente intensa, vivendo sobretudo do olhar. Este é um filme que “olha” personagens que se “olham entre si”, criando uma floresta de íntimos e secretos relacionamentos que inquietam e criam o suspense.
Jesse James e Bob Ford, sobretudo, olham-se com insistência, analisam-se, estudam-se, reflectem-se um no outro (“queres ser como eu, ou queres ser eu”?, pergunta JJ), e pelo olhar tentam penetrar-se um no outro (sim, este é um filme de homossexualidade mal resolvida, obviamente: Bob Ford ama Jesse James e mata-o para fazer desaparecer dentro de si esse desejo que ele renega). Todo o filme está pautado por cenas que remetem para esse voyeurismo amoroso (JJ toma banho, nu, Bob Ford espreita-o e julga-o desarmado, mas JJ revela-lhe a arma, elemento fálico opor excelência, encoberta por uma toalha). Mas, para lá dessa vertente psicanalítica, há uma outra que se lhe cola: Jesse James é o protótipo que se procura copiar, mas, tal como acontece sempre que tal acontece, a atracção para a afirmação pessoal, passa pela “morte do pai”, a rejeição e separação do modelo, por forma mais ou menos violenta. Neste ponto a colagem ao cristianismo é óbvia: Bob é o Judas desta ceia familiar pouco católica, onde estão familiares e apóstolos, reunidos em conciliábulo. Antes de assaltar o comboio, uma das grandes cenas deste filme, reúnem-se numa floresta (que só por acaso não é o jardim das oliveiras), mas, pouco depois, a figura de Jesse James surge espectral, recortada em silhueta da luz intensa do comboio que avança. Também ele irá ter o seu Judas, que o matará à traição, pelas costas, quando sobe a uma cadeira para endireitar um quadro. Tal como Cristo, Jesse James é atraiçoado sabendo ao que vai. Assassinato ou suicídio? Não terá sido o cobarde Bob Ford apenas o meio encontrado por JJ para atingir os seus fins, que o cansaço da fama tornava inevitável?
Uma excelente meditação, madura e inesperada, sobre temas de enorme modernidade, a que um elenco fabuloso (Brad Pitt, melhor actor em Veneza, Casey Affleck, Sam Shepard são fulgurantes) empresta uma dimensão trágica, bem servida pela fotografia de Roger Deakins, e a inspirada banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Se houver justiça, vão aparecer várias nomeações.
O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD
Título original: The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford
Realização: Andrew Dominik (EUA, 2007); Argumento: Andrew Dominik, segundo romance de Ron Hansen; Música: Nick Cave, Warren Ellis; Fotografia (cor): Roger Deakins; Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor; Casting: Mali Finn, Deb Green, Jackie Lind; Design de produção: Patricia Norris; Direcção artística: Martin Gendron, Troy Sizemore; Decoração: Janice Blackie-Goodine; Guarda-roupa: Patricia Norris; Maquilhagem: Brian Hillard, Gail Kennedy, Rochelle Pomerleau, Dave Snyder, Christien Tinsley; Direcção de produção: David Dresher, Ravi D. Mehta, Brian Leslie Parker, Brian Parker; Assistentes de realiazação: Megan Basaraba, Jesse Cooper, Richard Duffy, Martin Ellis, Lisa Jemus, Carole O'Brien, Scott Andrew Robertson; Departamento de arte: Ricardo Alms, Michael Madden, Brad Milburn, Grant Van Der Slagt; Som: Christopher S. Aud; Efeitos especiais: Diane Woodhouse; Efeitos visuais; Dick Edwards, Mark Edwards, Deak Ferrand, Bryan Hirota, Sophie Leclerc, Julie Orosz; Produção: Tom Cox, Jules Daly, Lisa Ellzey, Dede Gardner, Brad Grey, Murray Ord, Brad Pitt, Jordy Randall, Ridley Scott, Tony Scott, David Valdes, Ben Waisbren; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, Jesse Films Inc., Scott Free Productions, Plan B Entertainment, Alberta Film Entertainment, Virtual Studios.
Intérpretes: Brad Pitt (Jesse James), Mary-Louise Parker (Zee James), Brooklynn Proulx (Mary James), Dustin Bollinger (Tim James), Casey Affleck (Robert Ford), Sam Rockwell (Charley Ford), Jeremy Renner (Wood Hite), Sam Shepard (Frank James), Garret Dillahunt (Ed Miller), Paul Schneider (Dick Liddil), Joel McNichol, James Defelice, J.C. Roberts, Darrell Orydzuk, Jonathan Erich Drachenberg, Torben Hansen, Alison Elliott, Lauren Calvert, Kailin See, Tom Aldredge, Jesse Frechette, Pat Healy, Michael Parks, Ted Levine, Joel Duncan, James Carville, Stephanie Wahlstrom, Adam Arlukiewicz, Ian Ferrier, Michael Rogers, Calvin Bliid, Sarah Lind, Nick Cave, Matthew Walker, Zooey Deschanel, Michael Copeman, Laryssa Yanchak, Hugh Ross (Narrador), etc.
Duração: 160 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Columbia / CTW; Locais de Filmagem: Alberta; Burton Cummings Theatre, Winnipeg, Manitoba; Calgary, Alberta; Canmore, Alberta; Edmonton, Alberta, Canadá; Hidden Hills, California, EUA.