domingo, outubro 15, 2006

EXPOSIÇÃO EM LISBOA: AMOR-TE (1)



AMOR-TE










“Amor-te” é uma exposição inquietante, sobretudo numa sociedade que não sabe confrontar-se com a morte. Dizemos nós da nossa, cristã ocidental. Mas quem sabe confrontar-se com a morte? Haverá alguém, por mais preparado que pense estar, que no momento decisivo não vacile, não se interrogue, não tenha medo? No momento decisivo, ou algum tempo antes, ou muito antes do momento decisivo, apenas quando as inquietações se acentuam, com o avolumar da idade ou o andar da doença? Quem ficará impune perante a presença do velho esqueleto encapuzado que traz na mão a foice?
Pois bem um fotógrafo alemão, Walter Schels, e a sua mulher, a jornalista Beate Lakotta, do “Der Spiegel”, têm 30 anos de diferença de idade. E o fotógrafo pensou: “o que farás quando eu morrer? Como será quando morreres?” Como não podiam saber por experiência própria (ninguém voltou ainda para contar como era, e não consta que tão cedo tal aconteça), foram procurar doentes terminais e seguiram os seus percursos por hospitais e tratamentos, até à morte. Os doentes sabiam que iam morrer em breve, e tudo leva a crer que autorizaram esta invasão de privacidade. Estávamos no ano de 2003. Depois disso a exposição foi inaugurada em Dresden, e passou por várias cidades europeias, nomeadamente Berlim, Basileia e Roma, onde foi vista por mais de 200 mil pessoas.
O que vemos são 21 imagens duplas de um mesmo rosto: primeiro, durante a doença, com a vida ainda presente, apesar do sopro estar já desgastado, a dor e o sofrimento se terem instalado, e depois, o rosto da morte. A conclusão imediata a extrair é que antes se nota a inquietação e o sofrimento, depois a uma serena paz. Não me parece. O que se vê é primeiro a presença e depois a ausência, e quando não há presença da vida não há nada neste corpo que espera regressar à terra donde veio. Logo qualquer tipo de aparente serenidade quando não há capacidade de decisão, não há escolha, é uma serenidade de pedra. Não estão em causa questões de fé. A fé passa ao lado das fotos, pressente-se nalguns dos comentários que a jornalista Lakotta acrescenta, testemunhando cada “estória” pessoal (“Uns desejam a morte como fim do sofrimento. Outros sentem-se revoltados com o que lhes aconteceu”), mas não está nunca presente, quer se trate de um velho que espera a morte por cancro, ou de uma criança ou de um bebé precocemente levados pela doença. A única excepção das 21 fotos duplas é uma trilogia dramática: uma criança ainda viva, já morta, e o retrato da mãe que a seguiu alguns dias depois da morte da filha. O drama em estado puro, o “voeyrismo” na morte, sem que o termo aqui acuse qualquer valorização moralista. Toda a arte do espectáculo é voeyrista quer se queira quer não. Fotógrafos e cineastas nada mais fazem do que olhar e tirar prazer desse olhar, mesmo quando é horror o que se vêem. O prazer advém então da possibilidade de transmitir o horror, e, na melhor das hipóteses, de através da imagem captada se tentar anular, ou atenuar, o horror futuro. Neste caso, a fotografia alerta para o convívio com a morte, mas em lugar de preparar para a morte (bom princípio, mas de resultados duvidosos), deve preparar para enfrentar, o melhor possível, os últimos dias de vida. Com ou sem doença. Por isso esta exposição que marca definitivamente quem a vê, se encontra incluída numa semana relacionada com “os cuidados paliativos.” A conjugação das palavras Amor e Morte não me parece ir num sentido necrófilo, mas no sentido de, perante a morte, se amar cada vez mais a vida.

“Amor-te” está aberta de 3 a 28 de Outubro, todos os dias, também domingos, das 10 às 18 horas, no Museu da Água, Mãe d'Água das Amoreiras, Lisboa.
Quem quiser pode e deve visitar o site da exposição em:
http://www.exposicaoamor-te.blogspot.com/
se quiser, este texto continua aqui

sábado, outubro 14, 2006

CINE ECO 2006: PROGRAMAÇÃO DEFINITIVA



CINE ECO 2006

CASA DA CULTURA
CINE TEATRO DE SEIA
GRANDE AUDITÓRIO
PROGRAMAÇÃO
DEFINITIVA
veja aqui

domingo, outubro 08, 2006

CINEMA: Alguns Dias em Setembro

“ALGUNS DIAS EM SETEMBRO”

Santiago Amigorena nasceu argentino, em Buenos Aires, a 15 de Fevereiro de 1962. Mas passou grande parte da sua vida em Paris. Antes de assinar “Quelques Jours en Septembre” como realizador, estreia na direcção, tem uma carreira vasta como argumentista (“Le Péril Jeune”, “Peut-être”, “Tokyo Eyes”, “Les Gens Normaux n'ont rien d'Exceptionnel”, “Le fils du requin” ou “Post Coïtum, Animal Triste”, entre muitos outros), produtor, dialoguista, até actor. Também como escritor (“Une Enfance Laconique”, “Une Jeunesse Aphone”, “Une Adolescence Taciturne”, “Le Premier Amour”: os títulos dizem um pouco do que serão as obras). Paulo Branco deu-lhe a oportunidade e o resultado aí está: “Alguns Dias em Setembro”, um filme que procura caminhar pelos trilhos do policial, do “thriller”, “uma tragédia de espionagem” (disse o próprio).
“Alguns Dias em Setembro” é um projecto curioso, mas apenas isso. Falhado em vários planos, é, todavia, um falhanço simpático, com algumas ideias curiosas e outras que nem por isso. A história não é muito interessante, apesar de jogar com os atentados de 11 de Setembro de 2001 como pano de fundo. Mas esse pano de fundo funciona mais como chamariz do que como referência política ou policial intencional. Oportunismo de bilheteira.
Tudo começa a 1 de Setembro, quando Elliot, um agente secreto norte-americano desaparece, sabendo demasiado sobre algo que vai acontecer nos EUA dentro de muito em breve. Desaparecido, consegue ainda assim informar um grupo financeiro para retirar todo o capital dos bancos norte-americanos, para desta forma fazerem fortuna imediata (e ele por tabela), e, por outro lado, reunir a filha Orlando, que já não vê há anos, um enteado, David, e uma ex-camarada de armas e amiga, Irene, primeiro e Paris, depois em Veneza, com a finalidade de esperarem por ele, para as partilhas. Mas nem tudo são rosas na vida de um gente secreto e atrás de Elliot anda o seu antigo colaborador William Pound, transformado em assassino poeta que vai comentando diariamente com o seu psiquiatra o estado da sua vida psicológica. Afinal ele “anda a matar o pai”, aquilo que o psiquiatra lhe tinha recomendado. Mas em vez de o fazer de uma forma simbólica, tenta fazê-lo fisicamente, de uma maneira absolutamente radical.
E pronto, temos as “deixas”, os cenários míticos, actores de renome, prestígio e competência (Juliette Binoche, John Turturro, Sara Forestier, Nick Nolte, entre outros), insinuações anti-americanas (os atentados foram preparados com conhecimento de alguns americanos, que certamente os incentivaram por motivos económicos e políticos) e pouco mais. Santiago Amigorena pretendeu um filme pouco espectacular, onde a acção exterior fosse vista do interior. Conseguiu-o por vezes, andou à deriva noutros casos. No final assinou uma obra que se vê sem enfado, mas se esquece sem tristeza. John Torturo assina a única personagem que apetece recordar. O que é grave surgindo Juliette Binoche no elenco.

ALGUNS DIAS EM SETEMBRO (Quelques Jours en Septembre), de Santiago Amigorena (França, Itália, Portugal, 2006), com Juliette Binoche, John Turturro, Sara Forestier, Nick Nolte, etc. 112 minutos; M/12 anos; Atalanta.

O LADRÃO DE IMAGENS: Hooper

Edward Hopper

"No Whitney Museum of American Art, New York: ter o arrepio de contemplar o original", diz Tomás Vasques, e eu confirmo. Tomás Vasques tem a sorte de lá estar agora, eu vi-o há uns aninhos já. Mas o arrepio voltou, agora que o revi. E lembrei-me de algo, muito curioso: devo ter visto esse quadro em 1980 e poucos (andava eu com a "Manhã Submersa" às costas pelo mundo). Muitos anos depois (inícios de 2000), imaginei uma encenação de uma peça, de que desenhei cenário e escolhi cores, sem me lembrar obviamente de Hooper. Ao rever o quadro agora compreendo como somos todos feitos de tanta coisa que ficou para trás, mas bem dentro de nós. Imagens, sons, cores, textos, sensações que nos povoam. Dizem que a cultura é o fica depois de esquecermos tudo... Será? Obrigado TV pela recordação.

sexta-feira, outubro 06, 2006

TEATRO EM LISBOA - Música no Coração

“MÚSICA NO CORAÇÃO”

Dia 5 de Outubro (“Viva a República!”), 21,30 horas, Rua das Portas de Santo Antão, Lisboa. Ante-estreia de “Música no Coração”, no Politeama, estreia de “Cats”, no fronteiriço Coliseu. A nossa pequena Broadway a fervilhar de público. Milhares a esgotarem salas de teatro. Crise de teatro, onde?
No Politeama, um belo catálogo, com um texto meu, que transcrevo:


Meu Caro Filipe La Féria,
É mais uma vez com imenso prazer que respondo a um seu convite: escrever um texto para o programa de “Música no Coração”, tendo por base o filme de Robert Wise (1965). Mas desta vez o convite é embaraçoso. Há alguns filmes sobre os quais tenho uma recordação ambígua. Este é um deles. Ao longo da vida fui gostando e desgostando. Gostando de Robert Wise (sempre!), gostando e desgostando de tudo o resto, porque a vida é feita de bons e maus humores.
Quando somos mais novos, mais radicais, menos dados à sensatez, “The Sound of Music” deve ser pasto de toda a nossa verrinosa maledicência. Que dizer desta empastelada aventura sentimental da família Trapp? Pois nada melhor que arrear-lhe em cima. Mesmo um cliente habitual e um fanático do “musical” (no teatro ou no cinema) como eu, nunca viu com bons olhos esta lamechice da freira cantante que se apaixona pelo barão viúvo com sete filhos e foge dos nazis a cantar num festival de Salzburg. Mas a verdade é que vi várias vezes o filme, ou excertos do filme (sobretudo nas vésperas de Natal, num qualquer canal de TV). É que “Música no Coração” tem muito que se lhe diga, tanto a peça, como sobretudo o filme.
“The Trapp Family Singers” foi a biografia escrita por Maria Augusta Trapp, publicada em 1947, quando a família já tinha terminado a sua carreira como cantores, contando as mirabolantes peripécias de uma preceptora de criancinhas que interrompe o seu estágio para freira para descobrir a verdadeira “vida” na casa dos Trapp, com todo o seu caudal de promessas de felicidade e ameaças de tragédia. Com base nesta autobiografia, surgiu na RFA, em 1956, um filme, “Die Trapp-Familie” (ou “The Trapp Family”), assinado por Lee Kresel e Wolfgang Liebeneiner, com argumento de George Hurdalek e Herbert Reinecker, que parece estar na origem do interesse dos produtores norte-americanos. Entre os intérpretes, contava-se a memorável Ruth Leuwerik (no papel de Maria), ao lado de Hans Holt (Barão von Trapp), Maria Holst, Josef Meinrad, Friedrich Domin, Hilde von Stolz, Agnes Windeck, Gretl Theimer, etc. Na estreia, a baronesa Von Trapp, sobrevivente ainda da gesta coral da família, teve uma deixa memorável: “Nada é verdadeiro, mas é tudo maravilhoso!” A música era de Franz Grothe, e a premissa do filme enquadrava-se bem no espírito da reconstrução alemão, “para todos os problemas, há uma solução”.
O realizador Wolfgang Liebeneiner era um homem experimentado neste tipo de obras, e teve um sucesso inequívoco. Há no argumento desta obra um final que deixa supor que a família Trapp fugiu da Alemanha nazi directamente para os EUA, o que não aconteceu na realidade, pois ficaram na Europa e só em 1939 iniciaram a tournée pelos Estados Unidos. Essa estadia daria origem a uma continuação, “Die Trapp-Familie in Amerika” (“The Trapp Family in America”) (1958), desta feita dirigida unicamente por Wolfgang Liebeneiner. Ruth Leuwerik regressaria no papel da Baronesa von Trapp, e Hans Holt, no de Barão von Trapp.
Foram estes filmes, e a biografia escrita, que inspiraram Oscar Hammerstein II a escrever as líricas e Richard Rodgers a compor a música para um guião de Hopward Lindsay e Russell Crouse, que subiu a cena no Lunt-Fontanne Theatre (Nova Iorque), em 16 de Novembro de 1959, para iniciar uma carreira épica na história do musical norte-americano. Mary Martin e Theodore Bikel eram os protagonistas inspirados que “conquistaram os corações” de todos os espectadores na noite da estreia, com excepções de alguns críticos que colocaram ressalvas a este espectáculo. Mas neste caso os críticos escreveram e a caravana passou incólume. O sucesso estava na rua. Nada o detinha.

Versões teatrais anteriores, em Londres e Nova Iorque: veja e compare. La Féria dá banhada: a sua versão é muito melhor.


“Música no Coração” transformou-se daí em diante, seguramente, num dos mais célebres e rentáveis espectáculos de toda a história do teatro e do cinema musicais. O seu êxito triunfal em (quase) todas as temporadas teatrais e o seu apoteótico sucesso nas salas de cinema, aquando da estreia do filme assinado por Robert Wise, que esteve em Lisboa (quem não recorda?), quase dois anos consecutivos no Tivoli, com sessões esgotadas e espectadores que repetiam a sua visão vezes sem conta, não termina de surpreender tudo e todos. Ninguém se furta agora, por exemplo, ao fascínio de um novo lançamento em DVD (com dezenas e dezenas de extras, a explicar como foi o que foi), e ninguém pode negar a genialidade de Robert Wise a conduzir este filme, muito embora alguns possam não suportar o tom algo lamechas e o peso de um argumento que, não sendo convencional, acaba por não se furtar a todos os rodriguinhos do melodrama musical.

Acontece que gosto de melodramas (ah, o Douglas Sirk!) e adoro musicais. Logo, por que não gostar deste “dois em um” que, para mais tem uma soberba partitura musical? Revisto agora o filme, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Roberto Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a “mise-en-scène”, em suma) é realmente brilhante. Depois a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem.
Fui remexer em papéis antigos e descobri uma nota minha no DN sobre uma reposição do filme de Julho de 1977. Não se esqueçam da data e atentem no que escrevi: “Falando do filme, o melhor será passar por cima das aventuras e desventuras da família Trapp (que todos conhecem), para reconhecer a maestria extrema deste produto de uma cinematografia virada essencialmente para o “divertimento para toda a família.” Veiculando uma filosofia da vida de base “pequeno-burguesa”, jogando com os sentimentos e as emoções a seu belo prazer, “The Sound of Music” é, por outro lado, uma verdadeira lição de técnica e de “métier”. Por alguma razão Mao Tse Tung, quando quis que os chineses aprendessem cinema, lhes comprou, entre outras (poucas), uma cópia deste “manual”.

Ora bem: com uma ou outra alteração terminológica, mantenho o que então disse, acrescentando que, trinta anos depois, os chineses demonstraram ter aprendido, e muito bem, a fazer cinema. Robert Wise foi um dos grandes cineastas de Hollywood, um homem que começou a carreira ao lado de Orson Welles (colaborador essencial em “Citizen Kane”) e construiu depois uma filmografia invejável. Eu sou um fã incondicional. De tal forma, que há uns anos, num festival de Óbidos, ele foi o presidente de um Júri de que eu também fazia parte. Infelizmente adoeci e não pude estar presente nos trabalhos do festival, mas fui a Óbidos conhecê-lo, só para ter o prazer de o olhar nos olhos. Afinal ele assinou uma dezena de obras-primas, desde “O Túmulo Vazio” (1945), até “West Side Story” (1961), passando por “Nascido para Matar”, “Nobreza de Campeão”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Marcado pelo Ódio”, “Quero Viver”, “Homens no Escuro”, não contando com os ameaços.
Uma informação final: outro filme surgiu na continuação de “Música no Coração”. Foi “Celebrate the Sound of Music”, de 2005, uma realização de John L. Spencer, para televisão, e, tal como o próprio título sugere, trata-se de uma homenagem ao filme, com participação de cantores e personalidades que evocam a obra. Graham Norton era o apresentador, e apareciam vozes de Big Brovaz, Clare Buckfield, Fearne Cotton, Rosemarie Ford, Lesley Garrett, Carrie Grant, Jill Halfpenny, Gloria Hunniford, Bonnie Langford, Jon Lee, Robert Lindsay, Richard McCourt, Linda Robson, Denise Van Outen, entre outras.
Agora anuncia-se a versão teatral portuguesa de “Música no Coração”, com a sua assinatura, Filipe La Féria, e com um elenco prestigiado, à frente do qual Lúcia Moniz e Anabela alternam no papel de “A Noviça Rebelde” (título do filme no Brasil). Com a partitura de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers, que contém só “hits” inesquecíveis, o seu bom gosto, o seu sentido do espectáculo, o seu ritmo e a sua direcção de actores estou certo que desta minha embaraçosa ambiguidade vão ressaltar as virtudes e atenuarem-se os lamentos.
Lá estarei na estreia, a torcer como sempre. Até lá, um abraço de um cúmplice dos musicais,
Lauro António (14 de Agosto de 2006).

La Feria em ensaios, em Agosto de 2006.

E assim foi, Lá estive na estreia, a torcer como sempre. Mas sem necessidade de torcer por amizade. Esta montagem portuguesa de “Música no Coração” é verdadeiramente surpreendente e um enorme passo em frente na história do musical em Portugal, mas mais ainda, na história do teatro em Portugal.
A encenação e o trabalho da equipa que La Feria dirigiu conseguiu, não direi subverter (porque a fidelidade ao original é total), mas nuancear o tom da obra, conferindo-lhe uma outra força e densidade, tornando-a mais adulta, mais madura, menos dependente desses excessos piegas que dela me afastavam por vezes. Tudo o que o filme de Robert Wise tinha de moralista, pequeno burguês, por vezes chato, foi ultrapassado pela notável encenação de Filipe La Féria. Não há um ponto morto, atenuou-se o moralismo serôdio, não há o gosto duvidoso do “pequeno-burguês” “pimbalheiro” que aqui e ali aflorava no filme admiravelmente cantado por Julie Andrews. Como por milagre, esta é uma versão expurgada de quase todos os defeitos das versões teatrais e cinematográficas que até hoje tinha visto descrevendo a odisseia da Família Von Trapp.

A história é, sem tirar nem por, a já conhecida, não adianta recontá-la. Mas La Féria teve o condão de tornar mais densas as situações, de criar uma atmosfera pesada e prenunciadora de tempestade, logo desde início da peça. Todas as cenas que se passam no convento, por exemplo, não são meras convenções pitorescas, mas momentos carregados de um clima forte, sustentados em cantos graves, entrecortados por irónicas referências. O drama que se vai apoderando da família Trapp é também ele bem desenvolvido, até culminar na fuga de Áustria, perante a ameaça nazi. Há sequências de uma imaginação de encenação notável, o piquenique na montanha com as notas de música a serem ensinadas por Maria, a representação das “marionetas” durante uma festa em casa dos Von Trapp, a apresentação da família de cantores, durante o festival de Salszburgo, a fuga final…

La Féria terá construído o seu melhor espectáculo até à data, e o triunfo apoteótico que marcou o final da representação, na noite do dia 5, foi apenas merecido. Quando digo melhor espectáculo, creio saber do que falo, eu que tenho acompanhado toda a sua carreira. Se “Amália” era um triunfo, mas tinha uma encenação ligeira e vivia muito da própria Amália, da sua mítica “presença” e da empatia do público para com a Diva, o fado e a “canção nacional”, se “My Fair Lady” era uma excelente encenação (mas algo próxima de outras vistas em palcos ingleses e americanos), esta encenação de “Música no Coração” pouco deve a versões anteriores. È nitidamente uma re-invenção local, obra de um inspirado encenador, em momento de acerto global, criando uma (quase) obra perfeita, tecnicamente irrepreensível, esteticamente de um bom gosto inatacável, humanamente de uma contextura indesmentível.
Depois La Féria não se poupou a nada para nos dar o grande espectáculo idealizado. Não se nota falta de orçamento, os valores de produção surgem a cada novo quadro, mas existe sempre o bom senso de não explorar o investimento, de não atirar à cara dos espectadores o capital empatado. Sentem-se os euros que a encenação custou, mas nunca levamos com eles pela cara dentro.

Há dias, quando, no jornal “Público”, perguntavam a La Féria o que sentia quando o comparavam a Andrew Lloyd Webber, respondia este com graça que um andava de helicóptero particular, entre Londres e Nova Iorque, e ele de táxi entre Santos e o Politeama. Depois desta encenação, e sem que nenhum tenha para dar ao outro lições, a diferença é mesmo essa. Ver “Música no Coração” em Lisboa, nesta encenação de La Féria, com a equipa que reuniu, não fica nada atrás de uma qualquer encenação na Broadway ou no West End. Muitos londrinos e nova-iorquinos apreciadores de musicais poderiam, e deveriam, vir a Lisboa ver esta versão de “Sound of Music” para assistirem a um óptimo espectáculo, um dos melhores espectáculos de teatro (não falo só de musicais!) que tive o prazer de ver em palcos portugueses. La Féria está de parabéns, ele e toda a sua equipa, dos cenários ao guarda roupa, das maquinarias do sobe e desce até às luzes, da orquestra aos cantores, aos actores, aos grupos de crianças que se revezam nos diferentes espectáculos. Na noite da primeira ante-estreia vi Lúcia Moniz em grande, inundando o palco com a voz, a alegria e a simpatia (hei-de voltar para ver Anabela, que manterá o espectáculo ao mesmo nível, estou certo disso), vi Carlos Quintas impor-se no difícil Von Trapp, vi Joel Branco, Vera Mónica, Helena Rocha, Helena Vieira, Helena Afonso, Lia Altavila em excelente forma, vi um conjunto de coadjuvantes bem integrados, vi um elenco quase sem mácula. Vi um grande espectáculo. Fiquei feliz por ser português. Na Rua das Portas de Santo Antão. No dia 5 de Outubro.
(Nota pessoal: também fiquei feliz por ver o Frederico como assistente de encenação e autor de tudo quanto sai em vídeo sobre o espectáculo. Parabéns também para ele. No meio disto tudo, és um gajo com sorte, mas merece-la! Um beijo do pai babado).

Andrew Lloyd Webber anuncia o mesmo espectáculo
para Londres, em Novembro:

segunda-feira, outubro 02, 2006

JEAN-CLAUDE CARRIÈRE:


TECNOLOGIA VS CRIATIVIDADE

A Lisa França , sempre atenta, enviou-me um recorte da “Folha de São Paulo”. Entrevista de Jean-Claude Carrière, um dos mais brilhantes escritores e argumentistas franceses (trabalhou com Buñuel e Peter Brooks), sobre vários temas. Resposta essencial para mim, que sempre defendi isto, “que técnico não pode ser robot”, “que tecnologia por si só não inventa, não cria”. Donde a importância de educar para a arte, para o cinema, sensibilizar, dar noções de história do cinema, de estética, de ética. Leia-se:

FOLHA - A tecnologia digital não facilitou a produção de filmes?
CARRIÈRE - É exactamente o contrário. Quanto mais a técnica é fácil, mais a ideia é difícil. Nunca foi tão difícil fazer uma imagem inesquecível como a da lâmina em "Um Cão Andaluz" [1928, de Luis Buñuel], uma das imagens fortes do século 20. É muito difícil fazer apenas uma com essa qualidade. A aparente facilidade técnica é uma mentira, um erro. A técnica sempre teve a pretensão de poder dispensar a ideia, o pensamento. E o resultado lamentável são esses filmes feitos em vídeo, com câmaras no ombro, digitais, sem nenhuma atenção dispensada ao roteiro e à direcção propriamente dita. Isso mostra como é perigoso acharmos que os aparelhos farão filmes nos substituindo. Dirigi uma escola de cinema por dez anos [a FEMIS, Escola Nacional Superior de Ofícios da Imagem e do Som] e sei do que estou falando.

Está dito.
Sobre o autor descobri (e gostei, logo partilho):
JEAN-CLAUDE CARRIÈRE A DIT...
[20 CITATIONS TROUVÉES ]


Dire qu'un paradoxe contient toujours une vérité
n'est même plus un paradoxe.
[Jean-Claude Carrière] Extrait de Détails de ce monde.

Pour certains, la culture est une boucle d'oreille.
Pour d'autres, c'est une oreille.
[Jean-Claude Carrière] Extrait de Détails de ce monde

Un enfant disait, pour parler du temps d'avant sa naissance:
"Quand j'étais encore mort."
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

L'auteur est condamné au succès ou à un deuxième métier.
[Jean-Claude Carrière]

Le recit est un chemin qu'il faut suivre pour se perdre.
[Jean-Claude Carrière]

L'autarcie culturelle et raciale est une marche à la mort.
Elle est tout aussi irréalisable que son contraire,
une culture mondiale uniforme.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait d’ Entretiens sur la fin des temps

Le temps, c'est un peu comme le vent.
Le vent, on ne le voit pas:
on voit les branches qu'il remue,
la poussière qu'il soulève.
Mais le vent lui-même, personne ne l'a vu.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait d’ Entretiens sur la fin des temps

Le rêve est la vraie victoire sur le temps.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait d’ Entretiens sur la fin des temps

Une société sans pensée utopique est inconcevable.
Utopie au sens de désir d'un mieux.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait d’ Entretiens sur la fin des temps

Nous n'avons en aucune manière le monopole de la pensée.
Il existe, un peu partout en Occident,
un racisme de l'intellect dont nous devons nous méfier.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait d’ Entretiens sur la fin des temps.

On a connu des hommes qui ont fait de hautes études,
qui ont eu de très belles situations,
qui ont gagné beaucoup d'argent
et qui ont tout de même réussi leur vie.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

L'avenir est une tradition. Combien de temps se maintiendra-t-elle ?
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

Il faut savoir joindre l'agréable à l'agréable et se contenter de beaucoup.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

Un foetus est le scénario d'un homme.
Qui en est le metteur en scène ?
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

Un humaniste, c'est quelqu'un qui n'aime pas vraiment les animaux.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

La terreur est humaine.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

Les grands esprits se rencontrent, mais les petits aussi.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

Le hasard fait bien les choses. Quand il les fait.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

C'est une entreprise bien difficile que de faire rire les honnêtes gens.
Et les autres donc !
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

On peut commencer n'importe où, même par le commencement.
[Jean-Claude Carrière]
Extrait de Détails de ce monde

CINEMA - Voltar



"VOLVER"


Tenho que confessar que sou um "almodovista" convicto. Fartam-se alguns de comentar que o cineasta se esgotou, se auto plagia, faz o mesmo filme, não tem ideias, etc, e tal o costume. Pedro Almodôvar para mim é indiscutivelmente um dos grandes, dos maiores cineastas europeus contemporâneos, um daqueles raros que se entrarmos numa sala de projecção com um filme a correr, e sem saber ao que vamos, acabamos logo por saber que vamos por Almodôvar, tão forte é a sua imagem, a sua voz, as suas obsessões, o seu universo, a sua estética.

“Volver” é voltar a Almodôvar, o de início de carreira ("Que Fiz Eu Para Merecer Isto?"), o de meio de carreira (“Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”), o da carreira mais recente (“Tudo sobre a Minha Mãe”). Voltar simplesmente a Almodôvar. Não o das obras-primas (“Volver” anda longe de ser uma obra-prima, anuncia-se mais como um exercício de estilo, um intervalo de entretenimento brilhante, mas não mais o que isso). Mas quem anda só à procura de obras-primas? Acontece que irmãs, tias, mães, conhecidas e outras tias também são gente, e Almodôvar prova-o bem nesta comédia melodramática e kitsch como só ele seria capaz de dirigir de forma a tornar plausível todo aquele universo de um neo-realismo pós-moderno, garrido e estridente, repenicado de beijos, beijinhos e beijões, com mulheres que já ultrapassaram o ataque de nervos e vão à vida, como heroínas de um dia a dia que Almodôvar sabe pintar como poucos.

À saída dizia eu: “A Penélope Cruz está magnifica!”, e respondiam-me “E a Cármen Maura, extraordinária, dezassete anos depois!”, “E a miúda (Yohana Cobo),, que trabalho fabuloso!”, “é verdade, mas que dizer daquela actriz careca, a…” “A vizinha da aldeia?, a Agustina? É a Blanca Portillo. Soberba.” “Sim, mas não podemos esquecer Sole, a irmã, Lola Dueñas, nem a velhota, a tia que morre, espantosa a Chus Lampreave.” Assim é. Neste universo de mulheres, onde quase não há homens, e os que há e são hetero e gostam de mulheres, ou são pedófilos, ou passam a entregar as chaves do restaurante e vão embora, neste universo de mulheres, dizia, Pedro Almodôvar sente-se à vontade, passeia-se com uma curiosidade apaixonada, aproxima-se de mansinho, e dá-nos retratos admiráveis de mulheres de sete ofícios que têm de se desengomar sozinhas, que vão à luta, que ultrapassam mesmo as regras mais elementares de conduta civilizada (há assassinatos para todos os gostos, e sobretudo crimes perfeitos, perpetrados na mais completa ingenuidade), mas que Almodôvar desculpabiliza (de certa forma atirando todo o mal do mundo para cima dos homens “machistas” que não controlam o desejo quando vêem uma fêmea). Mas que importância tem isso? Os “autores” (e Almodôvar é um verdadeiro “autor” em toda a acepção da palavra!) têm destas coisas, dizem-se e redizem-se, fazem sempre o mesmo filme, andam pelos mesmo cenários, com as mesmas personagens, pensam da mesma maneira, olham e filmam com o mesmo olhar, e é isso mesmo que procuramos, esse universo único, impossível de copiar a não ser pelo próprio.
Aqui há uma mulher casada, Raimunda (Penélope Cruz) que tem em casa um marido operário, acabado de ser despedido, que olha com apetite para as pernas da suposta filha adolescente (Yohana Cobo), enquanto emborca cerveja e vê jogos de futebol na televisão. Há a irmã de Raimunda, Sole (Lola Dueñas), cabeleireira em casa, depois do marido a ter deixado. Raimunda, Sole, e Paula viajam e passam por casa da tia (Chus Lampreave) que vive na aldeia distante de Madrid. A tia habita uma casa enorme, onde está aparentemente só, mas não, a seu lado está o “fantasma” da irmã (Carmen Maura), mãe de Raimunda e Sole, e que aparentemente terá morrido num incêndio, juntamente com o marido. Agarrada a esse marido que era tudo quanto ela mais amava. Morreu feliz, suspira Raimunda. Terá sido assim? A verdade é que o pai de Raimunda e Sole era um mulherengo, e andava enrolado com a mãe de Agustina (Blanca Portillo), que desapareceu desde o dia do incêndio que vitimou o infeliz casal. Pois… “fantasmas” e “fantasmas de fantasmas” que a memória engana enviando para um terreno desconhecido, à beira de um rio, onde se gosta de passar o tempo e fazer um piquenique.
Detestando a televisão (que desanca de filme para filme com uma acutilância critica notável), Almodôvar cita Visconti e “Belíssima” (com a belíssima Anna Magnani, que nesse filme “vende” a filha ao cinema, pelo preço da “glória de um dia de fama”, tal como hoje se faz na televisão). Oscilando entre o subúrbio de Madrid e o mundo rural, com os majestosos moinhos de vento a pautar as viagens entre a cidade e as serras, equilibrando-se entre o pender fantasmagórico das crendices rurais e o realismo da cidade, onde o aparecimento de equipas de filmagem também cria os seus “milagres”, “Volver” é um filme magnifico, brilhante, contagiante. Um daqueles filmes que não sei, nem me importa saber, se é obra-prima ou não. Sai-se do cinema com vontade de voltar a entrar. Melodrama sem lágrimas (nos espectadores, no filme são um riacho), comédia sem gargalhadas, “Volver” nada tem de fácil. É uma lição magistral de cinema e de representação. Que dizer de Penélope Cruz? Meu Deus, onde chegaste pela mão de Almodôvar! Também aqui o cineasta se mostra um dos mais seguros e comovedores directores de actrizes. Saídos há poucas horas da sala de cinema, que saudades já daquelas personagens!



VOLTAR (Volver), de Pedro Almodôvar (Espanha, 2006); com Penélope Cruz (Raimunda), Carmen Maura (avó Irene), Lola Dueñas (Sole), Blanca Portillo (Agustina), Yohana Cobo (Paula), Chus Lampreave (Tía Paula), etc. 121 min; M/ 12 anos.

domingo, outubro 01, 2006

CINEMA: World Trade Center


WORLD TRADE CENTER
“World Trade Center”, de Oliver Stone, o que é? Um homenagem aos desaparecidos do 11 de Setembro de 2001, mas sobretudo aos “aparecidos”, aqueles que, depois de terem sido dados como “desaparecidos”, renasceram das cinzas e regressaram à vida. Foram vinte segundo diz-nos o filme, num universo de quase 3.000 mortos. O filme foca sobretudo os casos dos 18º e 19º que voltaram de sob os escombros, dois polícias de Nova Iorque que pertenciam a um dos grupos que primeiro entraram nas torres gémeas, depois destas terem sido atingidas, mas antes de terem derrocado. John McLoughlin (Nicolas Cage)e Will Jimeno (Michael Pena), do Departamento da Polícia Portuária, que estão vivos e contaram ao cineasta a sua história verídica: como acordaram com a cidade (belíssimas sequências do alvorecer de NY), como se dirigiram à esquadra a que pertenciam, como foram colocados na rua em serviço de rotina, como ouviram à distância algo de muito estranho, como voltaram a ser chamados à esquadra e enviados para as torres gémeas, onde dois aviões comerciais acabavam de embater, como procuraram ajudar as pessoas a sair do edifício, como notaram que algo de mais grave ainda se iria passar, como correram para o fosso dos elevadores, onde se refugiaram da hecatombe que lhes caiu do céu. Como de um momento para o outro, de um grupo de resgate sobreviviam apenas três, logo depois dois, entaipados por montanhas de pedras, chamuscados por ventos de fogo que atravessavam o ar, com o peito e as pernas desfeitos por blocos de cimentos, e como não deviam adormecer, estar acordados, sobreviver, sobreviver, sobreviver sempre, até que o milagre acontecesse. Aconteceu. Foram descobertos e retirados com vida. Este o relato da coragem de dois homens, de um grupo de pessoas, de uma cidade, de um país, da Humanidade: acreditar sempre que, mesmo nos piores momentos, não devemos desistir, não nos devemos entregar, não podemos adormecer.
OK. Isto é uma das metáforas do filme. A outra: cá fora, em casa, na rua, nos hospitais, nas esquadras de polícia, familiares e amigos torcem bravamente, tragicamente, dolorosamente pela sorte dos que morriam e desapareciam naquele trágico dia, naquele trágico local. É uma América solidária, sem olhar a cores ou credos que se abraça, se une, se ajusta para formar uma barreira contra a desgraça. Há um momento brilhante numa sala de espera de um hospital, quando uma branca e uma negra trocam confidências sobre marido e filho. E se abraçam, e choram, e naquele momento não se compreende o que é isso de racismo, de divisões sociais, de diferenças. É a humanidade que se abraça, a branca e a negra, as lágrimas que se fundem, eu, tu, elas, eles. Segunda metáfora do filme.
Ok. Mas será este o filme desapaixonado politicamente que muitos apregoam? Não há filmes apolíticos. Nada é apolítico. Tudo é político: um filme, um texto, uma posição assumida, um olhar, um gesto. Um travelling em cinema, como já dizia Godard. Uma questão de moral, logo uma questão também estética, política. Tudo tem a ver com tudo. Logo após os atentados de 11.9.2001, Oliver Stone parece ter afirmado “que os Estados Unidos estavam a pagar pela arrogância com que tratavam o resto do mundo”. Toda a gente pensava agora num filme que fosse uma crítica contundente à administração de George W. Bush. Oliver Stone ignorou a questão. Em lugar de um filme para dividir os americanos, tentou realizar um filme para unir os americanos. Acontece que não ignorou George W. Bush e colocou-o, numa emissão de televisão, a proferir um discurso “anódino”. E não se esqueceu de citar também o fuzileiro Dave Karnes (Michael Shannon, branco quando o verdadeiro Karne é negro), figura central no salvamento dos dois polícias, mas que tem um discurso (discreto, é certo), de vingança que parece ratificar toda a política subsequente da Administração Bush. Às vezes, ao se querer ser muito imparcial, cai-se no extremo oposto. “World Trade Center”, de Oliver Stone, que os falcões americanos apreciaram, com alguma surpresa, deixa-nos a nós também de alguma forma surpresos. Julgo que “United 93” cumpre muito melhor as suas funções. Além de que “World Trade Center” não nos parece ser também cinematograficamente uma obra brilhante, apenas um eficaz trabalho na linha do “filme catástrofe”, ajudado por bons actores (além dos já citados, refira-se ainda a excelência dos desempenhos de Maria Bello e Maggie Gyllenhaal), onde o talento evidente de Oliver Stone vem ao de cima aqui e ali. Mas esta tendência para ser, ao menos uma vez na vida, um “bom americano”, acho que o tramou. Bom americano sempre foi quando foi irreverente e cáustico. Não quando se curva à maioria (a 50% dos americanos, diga-se que há uns anos já) em nome de uma unanimidade que não existe.
WORLD TRADE CENTER (World Trade Center), de Oliver Stone (EUA, 2006), com Nicolas Cage, Michael Pena, Maria Bello, Stephen Dorff, Jay Hernandez, Maggie Gyllenhaal, etc. 129 min; M/12 anos.

CINE ECO 2006

CINE ECO 2006

INFORMAÇÕES DE ÚLTIMA HORA

Obras a Concurso

Secções Paralelas

Wanda Stuart abre Festival

cantando temas de musicais

Aos bloguistas amigos

se acharem que se justifica,

façam uma chamada de atenção

nos vossos blogs para esta iniciativa

Basta um link para

http://cineeco-seia.blogspot.com/

a gerência agradece.

(e quando for caso disso, retribui)

quarta-feira, setembro 27, 2006

EDUCAÇÂO

Pode ser que haja interessados num assunto tão na berra:
I FORUM EDUCAÇÃO

Promoção: Junta de Freguesia de Rio de Mouro
Organização: O Alquimista
Local: Centro Paroquial de Rio de Mouro

Programa
Dia 29 de Setembro/2006

Manhã
O9h50 – Sessão de Abertura
10h30 - PAINEL - Artes na Educação
Cinema na Educação – Dr. Lauro António
Teatro na Educação – Dr. Duarte Ivo Cruz
As Artes Performativas na Educação – Dr. João Soeiro Carvalho
Música na Educação – Dra. Ana Raquel de Sá Coelho
Moderador – Dr. Paulo Morais
Pausa para Almoço – 13h00
Tarde
14h30 – Sessão de Poesia:
Dr. Jorge Trigo, Dr. Luciano Reis e Dr. Paulo Anes
14h45 - PAINEL - Religião e Sexualidade
A Educação Sexual nas Escolas – Dra. Cristina Branco e Dr. Herlander Cordeiro
Antropologia e Sociologia da Religião – Dr. Moisés Espírito Santo
O Ensino da Religião Católica – Padre - João Eleutério
O Ensino da Religião Evangélica – Pastor - Sérgio Rui Felizardo Gomes
Moderador – Dr. Jorge Mato

17h30 – Lançamento do livro “Primeiro Sexo”,
da autoria de Cristina Branco e Herlander
Cordeiro, editado pela Editora SeteCaminhos.

Dia 30 de Setembro/2007
Manhã
09h30 – Grupo de Teatro de Massamá
09h45 - PAINEL - Educação Multicultural
Desporto Escolar – Dr. Fernando Correia
Educar para o Futuro – Dr. José Manuel Canavarro
Inovar a Educação – Dra. Elisa Paolinetti
Educação e Multiculturalidade em Agostinho da Silva – Dr. Jorge de Matos
Moderador – Dr. Fernando Seara

Pausa para Almoço – 13h00
Tarde
14h30 – Escola de Musica Leal da Câmara
14h45 - PAINEL - Educação Multicultural
Educação no Concelho de Sintra – Dr. Frederico Eça
Formação de Professores – Prof. João Dias da Silva
Alargamento dos Horários Escolares – Dr. Fernando Gomes (Confap –
Confederação Nacional das Associações de Pais)
Política Educacional do Ministério – Ministra Maria de Lurdes Rodrigues
Sintra multicultural ou em diálogo de culturas?
Na escola, com a escola e pela escola um desafio (também) às famílias! –
Paulo Correia (Federação das Associações de Pais)
Moderador – Dr. Filipe Santos
17h15 – Animação à Leitura – Arq. José Fanha
17h30 – Sessão de Encerramento
contactos tel./fax. 21 426 35 51,
e-mail marcia_alquimista@yahoo.com

terça-feira, setembro 26, 2006

CINEMA - O Paraíso, Agora

“O PARAÍSO, AGORA”


“Já foste ao Cinema”, pergunta ela. “Já, uma vez: incendiámo-lo.”, diz ele.

O que leva um homem de vinte e tal, trinta e poucos anos a enrolar à volta da barriga uma carga de explosivos e a fazer-se explodir num mercado, num autocarro, numa estação de metro, matando dezenas ou centenas de pessoas, a maior parte das quais inocentes, sem terem nada a ver com a causa que esse suicida poderá defender, ao assim se imolar?
Será fanatismo político e religioso? Será uma tal indiferença à vida que nada o leva a querer manter-se por cá? Será um tal ódio ao resto da humanidade que a todos pretende assassinar? Será uma mente totalmente desequilibrada? Será que uma pessoa igual a nós, a mim ou a si, seria capaz de um tal acto, se as circunstâncias fossem as mesmas?
Estas as interrogações a que de certa forma responde um dos filmes sensação desta temporada: “Paradise, Now”, assim no título inglês, porque não sabemos escrevê-lo em árabe.
Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman) são dois amigos que se conhecem desde miúdos e trabalham juntos numa oficina de mecânica de automóveis. Um dia, um deles é despedido e o outro reencontra uma antiga amiga, Suha (Azabal), que estivera fora durante largo tempo e por quem sente uma forte atracção. Retribuída, diga-se de passagem, apesar da diferença social que existe entre ambos. Said é pobre, Suha vive nos bairros mais elegantes da cidade, uma pequena cidade palestiniana, que faz fronteira com Telavive. Onde explodem bombas, e ninguém quase dá por isso, de tão frequente se tornou a violência.
Este o início de “Paradise Now”, uma obra de Hany Abu-Assad (escrita por este, de colaboração com Bero Beyer e Pierre Hodgson), que conseguiu provocar a admiração de meio mundo, ganhar o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, ganhar, no Festival de Berlim, o Prémio do Público, o Prémio de Melhor Filme Europeu e o Prémio Amnistia Internacional, para lá de ter sido o primeiro filme palestiniano a ser nomeado para Melhor Filme Estrangeiro na cerimónia dos Óscares 2006.
Said e Khaled quando se sentam num velho banco de automóvel a olhar a cidade, enquanto fumam narguilé, bebem café e conversam sobre a vida, são dois gajos parecidíssimos com outros das zonas suburbanas de Lisboa, Paris ou Nova Iorque. A cidade (Nablus) que se estende a seus pés e que não tem nada a ver com as outras atrás mencionadas. A miséria, a incultura, a crendice, a falta de horizontes são algumas das razões que levam estes homens a entregarem-se a actos de desespero como os atrás referidos. Aliás, o filme de Hany Abu-Assad não é de todo ingénuo: há uma altura em que o “comissário político” palestiniano explica a alguém que lhe pergunta se ainda anda pelas escolas, que as continua a acompanhar, porque é muito importante saber o que se ensina aos alunos. A “lavagem ao cérebro” é indispensável para eles continuarem a acreditar no que lhes dizem durante o resto da vida e, quando os mandam envolverem-se em plástico e explodirem, o fazerem pensando que vão ser heróis cheios de honrarias na Terra (os cartazes com os seus nomes na praça central) e no Paraíso, onde os espera o seu Deus, rodeado de virgens.
Assim acontece com Said e Khaled que são chamados por elementos da resistência palestiniana para cumprirem uma “tarefa”, isto é, perpetrarem um atentado suicida na capital israelita. Said e Khaled não pestanejam e aprestam-se a cumprir o que foi deliberado. Vestem-se como se fossem para um casamento, mas por baixo dos fatinhos pretos esconde-se a morte, um hábil dispositivo de explosivos que basta puxar um cordelinho para fazer ir pelos ares algumas dezenas de pessoas. Há então alguma lógica neste mecanismo mental que leva homens a passarem por bombas? Óbvio que há. "Paradise Now", ao procurar humanizar essas personagens que diariamente surgem nos nossos telejornais já quase apenas como números, eles e as suas vítimas, reflecte obviamente sobre o conflito do Médio Oriente que dramaticamente se estende por mais de meio século. Sem solução aparente à vista e despoletando à sua volta muitos outros conflitos a este indissociavelmente ligados. O que se joga neste filme são críticas em diversas direcções, o que torna o filme complexo e de maneira nenhuma maniqueísta. Hany Abu-Assad torna seu porta-voz a jovem Suha, que “sabe” que este conflito se pode resolver sem o sistemático recurso à violência de um lado e outro. Mas o realizador, um árabe israelita nascido em Nazaré, que roda com capitais alemães, franceses, holandeses e israelitas (que mistura!), apresenta também a versão mais radical. É um dos jovens que explica que do. Vestem-se como se fossem para um casamento, mas por baixo dos fainho”se aceitarmos que os mais fortes devorem os mais fracos, então não seremos melhores do que os animais”. Mais, um deles teve no pai um colaboracionista que foi morto pelos resistentes. Ele sabe que o pai era um “homem bom”, mas sabe também que as traições se pagam. Sabe muito pouco mais. Sabe apenas aquilo que diariamente lhe inocularam no cérebro: “que Alá é grande e Maomé o seu profeta.”
"Paradise Now!" sobressai pelo humor com que consegue distanciar esta história de horror que a televisão banaliza diariamente. As despedidas dos heróicos suicidas são registadas em vídeo, mas nem tudo corre bem: à pose digna da primeira “take” que a câmara não grava, sucedem-se outras muito menos heróicas, incluindo o registo de recados para familiares. Quando atravessam a fronteira para atingirem Telavive, perdem-se um do outro e vários episódios caricatos se sucedem. Regressam à base e voltam a partir, mas as dúvidas assaltam um e outro. Ao contrário do que seria de supor, é o que tem mais razões para desistir que vai até ao fim.
Seguramente que este é um filme visto com desconfiança pelos “falcões” de Israel e da Palestina. Para uns torna simpáticos e “humanos”, iguais a qualquer um de nós, os “homens-bombas”. Para outros, o simples esboço das dúvidas dos protagonistas converte em perigosa esta obra. Se Israel nunca é bem vista e no final o passeio por Televive torna insuportável a comparação com a vida em Nablus, não é menos evidente que os “controleiros” não são totalmente simpáticos (o diálogo entre um deles e os futuros “heróis” é significativo da hipocrisia reinante: “E o que acontece depois?”; “Dois anjos virão buscá-los”; “Tem certeza?”; “Absoluta”.) e o negócio dos vídeos é um “achado” do mais acabado humor negro: um negociante de vídeos explica que os registos que se vendem melhor são os dos fuzilamentos dos “colaboracionistas”, muito melhor que os das despedidas dos “ heróis mártires”. Enfim, nem aqui o comércio da morte deixa de progredir.
Há uma cena de alguma simbologia que não aparece por acaso: quando se preparam para conduzir os dois “executantes” ao outro lado da fronteira, todos os elementos do grupo resistente se sentam para uma lauta refeição, que para dois será “uma última ceia”. As semelhanças são muitas com a representação tradicional do “Ceia de Cristo”. Esta aproximação iconoclasta tem apenas uma ideia: sublinhar o sacrifício em nome de uma ideia, de uma causa. Também a cena final, elidindo o atentado, antevisto apenas pelos olhos daquele que se vai imolar, é um bom fecho para um filme que apela ao diálogo mas sempre vai explicando por que algumas coisas acontecem: “Prefiro ter o Paraíso na cabeça do que o inferno nesta vida.”

O PARAÍSO, AGORA (Paradise Now), de Hany Abu-Assad (França, Alemanha, Holanda, Israel, 2005), com Kais Nashef, Ali Suliman, Lubna Azabal, Amer Hlehel, etc. 90 min; M/ 12 anos.

segunda-feira, setembro 25, 2006

CONVITE

LANÇAMENTO DE LIVRO
A Editora Sete Caminhos
tem o prazer de convidar V.Exa.
para a apresentação do livro
"Maria Dulce, a verdade a que tem direito",
de Luciano Reis.
A sessão terá lugar no dia 25 de Setembro de 2006,
no Restaurante “O Manel” no Parque Mayer,
pelas 18h30, em Lisboa.
A apresentação do livro ficará a cargo
do cineasta Lauro António.
Contamos com a a sua presença.

sábado, setembro 23, 2006

RUY BELO

«Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me.
Suicido-me nas palavras.»
NA MORTE DE MARILYN

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quern a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse a governanta não me acorde amanha
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou

Ruy Belo, in “Nau de Corvos”,
“Tranporte do Tempo”, Lisboa, 1973

Nomeei-te no meio dos meus sonhos

chamei por ti na minha solidão

troquei o céu azul pelos teus olhos

e o meu sólido chão pelo teu amor
poemas de Ruy Belo; foto de Teresa Belo

FESTIVAL DE SÃO PAULO

A amiga Lisa França mandou notícia de São Paulo. Não só mata saudades (tantas, querida!, como é bom ter amigas como você!), como dá informe interesante. Manoel de Oliveira presente com o seu último filme, assina cartaz do certame. O Manoel é o maior, sem dúvida.
30ª Mostra de Cinema
São Paulo vai destacar
filmes políticos



texto de BRUNO YUTAKA SAITO
da "Folha de S.Paulo"
Na edição em que completa 30 anos, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo aguça seu olhar político (em ano eleitoral). Ainda sem a programação inteira definida, a mostra começa no dia 20 de outubro e vai até 2 de novembro. Seguindo o perfil mais histórico de anos anteriores, esta edição terá uma retrospectiva de 15 filmes com o cinema político italiano dos anos 60 e 70. São produções dos principais cineastas do período, como Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio e Ettore Scola, entre outros. Entre os convidados já confirmados, está a atriz brasileira radicada na Itália Florinda Bolkan, de "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita" (1970, de Elio Petri), e o isralense Amos Gitaï, que deve ministrar workshop e vem com seu "News from Home/ News from House". Entre raridades restauradas, estão "Cabiria" (1914), de Giovanni Pastrone, e curtas mudos baseados na obra de Shakespeare produzidos entre 1899 e 1991 nos EUA, Itália e Inglaterra --os filmes terão acompanhamento musical ao vivo. Na mostra competitiva, entram vencedores dos principais festivais estrangeiros, como "Hamaca Paraguaya", da paraguaia Paz Encina, prêmio da crítica em Cannes, "Babel", do mexicano Alejandro González Iñárritu (melhor diretor), e "The Wind that Shakes the Barley", de Ken Loach (Palma de Ouro). Entre outros destaques, estão o mexicano "El Violin", de Francisco Vargas Quevedo, e o novo de Karim Aïnouz, "O Céu de Suely". Além de cineastas consagrados, como Robert Altman ("A Última Noite"), Martin Scorsese ("Os Infiltrados") e Manoel de Oliveira --autor do cartaz da mostra, que relê "A Bela da Tarde" em "Belle Toujours", estão nomes mais pop, como Richard Linklater ("A Scanner Darkly") e John Cameron Mitchell ("Shortbus"). Junto com a mostra, serão lançados os livros "Cinema sem Fim", histórico dos 30 anos, e "O Cinema Político Italiano - Anos 60 e 70", que reúne série de entrevistas. Mais detalhes estarão no site www.mostra.org, que deve entrar no ar em 10 de outubro. Como nos outros anos, o quiosque da mostra será montado no Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073), que abre para informações em 9/10; os ingressos (ainda sem preços definidos) começam a ser vendidos em 14/10.

CINEMA: Uma Verdade Inconveniente


“UMA VERDADE INCONVENIENTE”

Não sei se se poderá dizer que “An Inconvenient Truth” seja um documentário ambientalista. Acho que o mais correcto será dizer que se trata de um documentário sobre a actividade de Al Gore como ambientalista. O “ex-futuro presidente dos EUA”, como ele próprio se apresenta, e gosta de sublinhar que o faz sem ironia, possivelmente com pesar por ter de enfrentar, e aceitar, as consequências de uma eleição fraudulenta, tem passado os último anos da sua carreira como divulgador da causa ambientalista um pouco por todo o mundo. Quando o filme é rodado (estreou-se já em 2006), Al Gore diz que já deu mais de 1000 palestras, na América e por todo o planeta, a falar do aquecimento global e das suas trágicas consequências que muitos não querem enfrentam nem combater, nomeadamente os EUA, que nem sequer aderiram aos acordos de Quioto (os EUA e a Austrália foram os dois únicos países a rejeitarem associar-se ao esforço de contenção industrial na poluição atmosférica).
O filme, que conta com realização de um experimentado Davis Guggenheim, com carreira firmada sobretudo em séries de televisão ("Wanted", “Numbers”, “E.R.”, “Deadwood”, “The Shield”, "Alias", "24" ou “The First Year”, para só citar algumas) parte de um pressuposto central: acompanhar algumas intervenções de Al Gore em sessões de esclarecimento que são filmadas em várias cidades, da América à China. Enquanto Al Gore discursa, com um à vontade e um conhecimento da matéria invulgares, atrás de si vai passando uma apresentação em “power point” sobre as questões do aquecimento global, profusamente alicerçada em estatísticas e demais elementos cientificamente provados que não permitem deixar dúvidas no espectador. Estamos perante um caso gravíssimo, uma aterradora caminhada para o abismo, que só idiotas e espíritos deformados pelo lucro fácil não vêem, ou não querem ver (no filme há alguns exemplos gritantes de ambos os casos, com especial incidência nalgumas personalidades que até conseguiram ser Chefes de Estado. Percebem certamente a quem me refiro.)
A “verdade inconveniente” começa a ser exposta logo desde o início, quando se colocam, uma a seguir à outra, duas fotografias da Terra, colhidas uma pelo Apollo 8, em 1969, outra muito mais recente, tirada pelo Apollo 17. A Terra está diferente, e não se pode dizer que esteja melhor. Al Gore explica que o aquecimento global, provocado pela poluição em grande escalada, está a criar uma camada de protecção da nossa atmosfera cada vez mais espessa, o que impede que os raios solares que a penetram dela saiam depois, criando assim um efeito de estufa que tem consequências tremendas a vários níveis. Neste aspecto o filme é absolutamente deslumbrante de clareza e simplicidade, mostrando como esse aquecimento global pode provocar chuvas torrenciais aqui, aumentar a potência de tornados e furacões ali, desertificar acolá, descongelar a Antárctica, secar mares e lagos, provocar degelos.
Dizem muitos, e às vezes com boas intenções, que essas variações não são dramáticas, acontecem ciclicamente ao longo da História. Verdade que assim foi, é e será, mas convém acrescentar que, de há uns tempos a esta parte, as variações são excessivas. Al Gore demonstra-o com quadros que recolhem cifras cientificamente trabalhadas. Se se mantiver o ritmo, dentro de 50 anos não se pode viver na Terra. Que me importa, pensam alguns, que julgam que já cá não estão. Pois, mas estão os filhos, os netos, desses e de outros que nos devem merecer a melhor atenção. Quando se põe o ouro e o planeta Terra em dois pratos de uma balança, deve pensar-se que o ouro de nada vale, se não existir o planeta. Mesmo na mais estrita perspectiva capitalista e lucrativa, tudo terminará se não houver a quem vender, nem o que vender.
Sobre a tese dos ciclos, Al Gore oferece estatísticas curiosas. Procurou uma amostragem de artigos científicos sobre a matéria, e encontrou “zero” especialistas que aceitassem o aquecimento global como uma questão equívoca e empolada. Ao fazer a mesma amostragem em artigos de imprensa generalista, muito mais dependente do poder económico e politico, mais de 50 % abordam o tema como algo desajustado da realidade e reflectindo apenas orientações ideológicas e políticas. Significativo.
São vários os problemas abordados ao longo destas conversas, e um deles, um dos mais gritantes da actualidade, é a cada vez mais frequente carência da água, um bem de primeira necessidade. Uns querem privatizá-la, outros não a tratam como deviam, aqueloutros esbanjam-na sem consciência. Al Gore alerta para o perigo.

Mas, se tudo isto está no documentário, há muito mais que também lá está e é conveniente não esquecer. Al Gore afirma a certo passo, que “a questão não é política mas moral”. Mas não podemos esquecer que este é um filme “político”, e “político” a vários níveis. Político porque todas estas questões são políticas, reflectem ideologias e consciências diferentes (Al Gore é politicamente diferente de Bush!), mas ainda político porque o filme se mostra um objecto de propaganda política de Al Gore, que se serve da causa ambientalista para assim intervir no combate político norte-americano e mundial. Nada que me repugne. Posso mesmo dizer “Viva Al Gore!”, e vou mais longe: esta obra reflecte o melhor que os EUA têm, aquela zona de dignidade e combate pela justiça, a igualdade e a liberdade que me fazem gostar deste País para lá de tanta coisa e tanta gente que me desgosta. Mas é conveniente “ver” o filme tal como ele é. Até porque me parece mais importante assim: como manifesto político ambientalista. Mesmo a “humanização” de Al Gore, a sua infância, a vida na quinta onde se cultivava tabaco (cultivo que o pai abandonou, por uma questão ética), a morte da irmã, fumadora, com cancro do pulmão, a sua vida como senador, habitando um quarto de hotel em Washington, a doença do filho e o mês passado no hospital, as suas viagens de carro e de avião, o candidato batoteiramente vencido arrastando sozinho a sua mala pelos aeroportos do mundo (e como é simbólica aquela mala!), tudo isso são aspectos que não chocam se percebermos que existem, estão lá, emocionam-nos, manipulam-nos, fazem-nos agradar do homem que luta por uma causa. Ora tudo isso funciona a favor da causa, por isso, sem o esquecermos, alinhamos no percurso.
No genérico final, entrecortadas com as apresentações dos nomes dos responsáveis pelo filme, são-nos sugeridas diversas formas de contribuir pessoalmente para a causa. É imperioso reduzir drasticamente as emissões de dióxido de carbono, e isso consegue-se consumindo menos electricidade, gastando menos gasolina, poupando na água, plantando árvores…
“Neves do Kilimanjaro”, sabe o que são? Leu o livro, viu o filme? Se não se empenhar em reduzir a camada de protecção da atmosfera, não mais haverá neve em Kilimanjaro. Nem, pouco depois, vida na Terra.
Finalmente uma nota ao lado da causa ambientalista, ainda que defender o bom cinema também seja causa ambientalista: mais um documentário entra (e bem, com público) no circuito comercial internacional. Algo está a mudar. O que não pode deixar de nos regozijar: alguns dos melhores filmes de sempre são documentários, uma das artes mais nobres da imagem.
Segundo ponto: é muito saudável, na América de Bush, ver uma produtora, a Participant Productions, produzir obras como “Murderball” (2005), “Good Night, and Good Luck” (2005), “Syriana” (2005), “North Country” (2005), Fast Food Nation (2006) ou “An Inconvenient Truth” (2006). Numa América dividida ao meio, segundo as últimas eleições, é bom saber que a confiança não morreu. Alias, como afirmou o próprio Al Gore, se todos quisermos, conseguimos. O buraco de ozono já está a regredir. Agora há que combater o dióxido de carbono.

UMA VERDADE INCONVENIENTE (An Inconvenient Truth), de Davis Guggenheim
(EUA, 2006), com Al Gore. 100 min; M/ 6 anos.

Saiba mais em:
www.climatecrisis.net

sexta-feira, setembro 22, 2006

DO EDITOR:

MUDANÇA DE RUMO

Não foi por acaso que entrei no mundo dos blogs. Dir-se-ia que fui atraído pelo silvo da serpente. Fui acompanhado nos meus primeiros dias. Gostei de andar por aqui a voar de blog em blog, espreitando reacções, descobrindo personalidades, fantasmas, fantasias. “Conheci” pessoas muito curiosas. (atenção: conhecer, não conheci ninguém: intui conhecer). Gosto de escrever para os outros lerem. Gosto de escrever e ver publicado. Rapidamente. Ser eu a paginar. É bom. Não ter censores, nem editores. Escrever uma linha ou dez páginas.
Em 3 meses de existência deste blog consegui, sem fazer nada para isso deliberadamente, fazê-lo oscilar agora entre as 100 e as 200 visitas diárias. Acho que não é mau. Mas não me preocupo com isso. Se tiver uma visita, é bom, desde que o que escrevo a possa ajudar de alguma forma. A ela e a mim. Mas há quem me leia.
Sem ter conhecido ninguém fisicamente, “conheci” muitos pessoas que me enterneceram, me apaixonaram, me “inventaram” uma blogosfera que se calhar não existe. Os primeiros dias pareciam a descida ao paraíso. Que harmonia! Mas lentamente me apercebi que por detrás da harmonia havia a bajulice, a troca de beijinhos interesseiros, e depois a hipocrisia, as mensagens traiçoeiras a dizerem por trás o que se desdizia pela frente. Aqui também se acoberta muita mediocridade que não teria outro poiso, muita má formação a armar aos cucos, muita canalhice encapotada, muita mentira, muito “engate” que quer passar por não o ser (bela denúncia da china blue, que aqui reproduzi, e que parece encaixar que nem uma luva em certos casos visíveis e risíveis).
Em razão de algum desencanto, não vou parar de escrever. Mas vou acabar toda a referência a outros blogs, a não ser num contexto de troca de impressões. Dou por terminada a secção “um blog (por dia)” e vou reduzir ao estritamente necessário a referência a blogs amigos ou inimigos. Afinal o que me interessa é dar opiniões, escrever sobre o que gosto. Era bom poder-se gostar de pessoas e do que fazem e dizê-lo. Mas não tenho pachorra para hipócritas e convencidos, mal criados e outros que tais. Aqueles/as a que quero bem e me querem bem, ou apenas aqueles/as para que escrevo e me lêem, esses/as por cá continuarão. Esta vida não é para ingénuos. Às vezes gosto de acreditar que é para esses, que são puros. É verdade que os há, e muitos. Mas também existem os “outros”, e que são muitos também.
A partir de hoje, livros, filmes, teatro, politica, música, coisas e loisas, mas fico-me por ai. Cada blog no seu galho, e muitas felicidades para os muito bons que por aí há.
ADENDA
(do dia seguinte):

Alguns comentários e emails merecem uma justificação. Antes de mais, confirmei que há muitos e bons amigos por aqui. A maioria só os conheço ou de nome, ou de nick. Mas sinto-lhes a amizade. Sente-se mesmo. Como se sente o silêncio de outros. Que estão por aqui.
Mas necessito de uma explicação. Não aconteceu nada de grave comigo. Ninguém sequer me ofendeu, ou coisa parecida. Pessoalmente, a minha única desavença foi com uma senhora que tinha uma foto sua publicada no seu blog, e que não gostou que eu a tivesse transcrito para o meu blog. Não foi branda nos protestos, nem eu na resposta, mas retirei a foto (que era pública). Mesmo assim acho que fiquei amigo da amiga da senhora.
Depois tive uma polemicazinha com o Ante_Post. Coisa saudável. São quase todos do Benfica, mas falámos civilizadamente, com ardor, mas sem ofensas. Esse tipo de querelas, não as vou perder, sempre que surgir a oportunidade. Fazem bem à vida. Não há nada pior que um mundo de aparente harmonia, mas de real hipocrisia. A desordem estimula.
O que lamento então?
Alguns factos que realmente me chocaram. Mas que se referem a "outros", apesar de terem "passado" por mim:
- Ter comentado um blog e aparecer um email (anónimo: não se consegue responder, deve ter sido criado e desactivado) a adjectivar de uma forma extremamente grosseira esse blog por mim citado. Vinganças de querelas antigas? Ciumeiras por falar daquele e não doutros? Lamento muito.
- Terem aparecido vários emails, escritos de forma civilizada, é certo, mas a lamentarem-se: que eu falo deste, não falo daquele… "O meu também merecia." Alguns blogs eu nem os conhecia, outros não me apetecia falar deles. Não queria, não gostava, estou no meu direito. Era o que faltava! O que acontece na arbitragem também se propaga para aqui. Acontece que só nomeio os árbitros que acho que o merecem. Não aceito cunhas.
- Finalmente intrigalhadas por detrás do pano. Detesto. Virem-me falar mal deste ou daquela, assinando ou não, mas por email, às escondidas, não faz o meu género. A blogosfera fomenta o anonimato, a cobardia, a hipocrisia. Lamento. Sou mais varina da Ribeira: o que se tem que dizer, diz-se na cara, abertamente. Quem gostar assim, virá por bem. Quem não gostar, abstenha-se. Ganhamos todos.
De resto, claro que vou continuar a falar de blogs. Mas deixa de haver a secção. Desisto das transcrições, para dar o tom do blog. Vou cingir-me a curtas referências, citações, linkagens. Por exemplo: já conhecem o “wasted blues”? Imperdível, de bom gosto, de delicadeza, de cinefília. Adoro a fotografia que identifica o blog. Uma mulher de costas, olhando a paisagem. A preto e branco. Não sei quem o escreve. Mas é de visita obrigatória.

quinta-feira, setembro 21, 2006

CASINO DE LISBOA Auditório dos Oceanos


"SOWETO GOSPEL CHOIR"


Excelente espectáculo. Memorável. Para quem gosta do Gospel e dos “Cantos do Mundo”, este coro que se encontra no Casino de Lisboa, no belo Auditório dos Oceanos, é do melhor que passou por palcos portugueses, neste domínio musical. Não são só as vozes, o ritmo, a música, mas também os bailados, a encenação, a cor do guarda-roupa (que não estiliza, que guarda a humildade dos ofícios donde parte), a vertigem do sons, dos gestos, da alegria que a cada canção explode no palco.
Originário da África do Sul, o “Soweto Gospel Choir” reúne 26 elementos sob a direcção do maestro David Mulovhedzi, reproduzindo elementos culturais, étnicos, musicais, linguísticos de diversas tribos do Sul de África. Ouve-se o cantar em zulu, sotho, xhosa e também em inglês. Assiste-se a um verdadeiro turbilhão em movimento acelerado, um tufão sul-africano que passa pelo palco em hora e meia de um cortejo de preces intercaladas de dor e alegria. Digo-lhe que vale mesmo a pena, e só vai estar até dia 24 de Setembro. Apresse-se. Siga o meu conselho que não se arrependerá.

quarta-feira, setembro 20, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (28)

"SOCIEDADE ANÓNIMA"

"Sociedade Anónima" é chamada "a irmandade dos anéis (uma data de criaturas mais preocupadas com o auto bronzedor e com os saldos de sapatos que com o blog)". Tem como contributos 100 nada, Rita, cecília r., Alice Isabel R., a louca da casa, Ana, Teresa M., Krassimira, china blue, Vera M., Santinha da Casa, Fox Trotter, Arlinda B.
Todas as que li escrevem bem, têm muita graça e dizem como:
"Oh, deixem-me ser gorda, ser gorda largamenteDebicar aqui, provar além...um folhado de salsicha, uma sandes diferenteComer, oh, sim, comer, e não chatear ninguém!"
ou sobre os touros de morte e a liturgia do sangue:
"Nem imaginas o que me divirto a mudar o penso higiénico. É um espectáculo. Se quiseres, combinamos e tu vens cá assistir."
ou ainda:
”Eu tenho fantasias demais para ser uma dona de casa. Acredito que eu sou uma fantasia” Belissimo.
Pode ver ainda no "Desafio" que está abaixo, um texto (o 9) magnífico sobre "Blogues de engate no feminino", escrito por china blue. Uma delicia.
Um blog a não perder, mas atenção: "para maiores de 18 anos, com sólida formação moral"