sexta-feira, novembro 17, 2006

BLOGUES DE CINEMA

1º ENCONTRO NACIONAL

DE BLOGUES DE CINEMA

Durante o recente Cine Eco, que terminou no fim de Outubro, na cidade de Seia, lancei a ideia de um Encontro Nacional de Blogues de Cinema (e mais genericamente de Cultura, que tenham uma forte componente Cinematográfica). Estavam presentes vários autores de blogues, e a iniciativa pareceu despertar muito interessante, tendo em conta vários aspectos:
- A crescente importância dos blogues na comunicação social contemporânea;
- A decisiva influência que os blogues podem ter na criação de uma verdadeira cultura cinematográfica – os blogues são locais privilegiados de criação crítica, de debate de ideias, com a característica de o serem de forma imediata e sem qualquer tipo de "edição" prévia a cargo de outrém, de censura, de manipulação;
- Os blogues podem, e devem, ter uma função informativa e divulgadora, com uma capacidade de interferência no real absolutamente única – uma notícia pode atingir milhares de leitores em minutos;

Posto isto, e tudo o mais que se poderá debater num Encontro Nacional, aberto a todos quantos queiram aparecer, começámos a idealizar um tempo e um espaço, e tudo se conjuga para que o I Encontro Nacional de Blogues de Cinema tenha lugar em Famalicão, durante o próximo "Famafest" (Cinema e Literatura), entre 9 e 17 de Março (o Encontro ocupará sexta, sábado e domingo, 9, 10 e 11). Os participantes terão direito a um livre transito para todo o festival, se assim pretenderem, e a organização do festival vai providenciar, junto de hotéis, residenciais e restaurantes para obter “preços módicos” para os inscritos. Para lá das sessões de trabalho e debate, o festival vai organizar sessões especiais com obras particulalmente dedicadas ao evento.

A reunião terá apenas um propósito: debater ideias e criar condições de uma maior eficácia de comunicação. Não será aceite qualquer tipo de condicionante, quer tenha a ver com sexo, idade, raça, credo político, religioso, estético, cinematográfico. Não será tolerada qualquer tipo de tentativa de manipulação dirigista. Uma voz, um blogue, uma possibilidade de expor as suas ideias. Não será tolerada qualquer tentativa de coarctar a liberdade individual, a não ser aquela que reponha a liberdade dos restantes, se ela estiver ameaçada. Nesta perspectiva, poderá sair deste primeiro encontro uma Associação Portuguesa de Blogues de Cinema (e afins), cuja regra número um terá de ser o escrupuloso respeito pela liberdade de pensar e de se expressar de cada associado.

Caros amigos, bloguistas de cinema (e afins): comecem a pensar na ideia e dar sugestões.
Por exemplo: sugestões de temas a debater nos quatro painéis que se anunciam.

Bloguistas de cinema: divulguem esta iniciativa entre amigos e outros bloguistas. Passem palavra e link este post para possível correspondência.

A trabalho que Março já está ali, ao dobrar da esquina.

O LADRÃO DE IMAGENS (E DE POESIAS)

Em meados de Outubro, roubei esta imagem de um quadro (conhecido). Arquivei-a com um "sem legenda" que agora me deixa completamente em branco. Nem sei donde roubei, nem o nome do que roubei. Se alguém souber que me diga, colocarei aqui "A Origem do Mundo", de Gustave Courbet (informação de MRF, e de LA!), com agradecimentos.

De resto, é um belissimo quadro, que fala mais do amor e da vida que tudo o que se pudesse colocar em legenda.



Para acoplar a esta imagem, apeteceu-me recordar um poema de Nuno Júdice:

"Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor."

Nuno Júdice

Anexo (22.11.2006)

Tania Ostojic

Depois de ter colocado esta imagem, e este texto, no meu blog, a Leonor Areal, que me ajudou a identificar o autor do quadro, voltou a enviar-me "material suplementar". Uma obra de Tanja Ostojic que, partindo do quadro de Gustav Coubert, o re-inventa numa perspectiva diferente, vanguardista. Aqui fica a reprodução. Eu, pessoalmente, não gosto, e nem a ironia da bandeira me cativa. Uma "adaptação" que fica muito áquem do original, e nada lhe acrescenta de originalmente significativo. De um quadro que transmite algumas das mais sublimes emoções, passa-se para uma imagem que tem algo de pornográfica, apesar de mais "tapada". Questão de olhares de quem cria e de quem vê (que também cria).

O LADRÃO DE IMAGENS: Hopper 2

Hopper
Uma imagem roubada daqui. Um belíssimo blog.

quinta-feira, novembro 16, 2006

MÚSICA: FADO



MARIZA EM BELÉM,
PARA SEMPRE

Em Setembro deste ano, Mariza cantou para Lisboa, junto à Torre de Belém. Acompanhava-a a Sinfoneta de Lisboa. Andei dias e dias a dizer que não me podia esquecer. Acabei mesmo por esquecer. Mas surgiu agora o DVD (e também o CD) e tive, finalmente, oportunidade de ver e ouvir Mariza nessa noite mágica. Sou fanático de Mariza. Acho que depois de Amália, poucas terão ido tão longe, ou chegado tão perto da perfeição. Ela tem tudo para ser o que é: uma voz impar, uma elegância de pássaro em voo rasante, o porte franzino que enche o palco mal o pisa, a modernidade do estilo, mas o classicismo da expressão, o olhar doce e gaiato de quem sabe que o fado é “tudo isto”, amargo e triste, amores infelizes e angústias latentes, mas também muito daquilo, alegria de viver e de amar, o olhar sobre as cidades e as pessoas, o quinhão de simpatia humana que nos toca a todos, esse beijo, esse sorriso, essa pele, essa cor, essa sensualidade boa e quente. Mariza é um regalo de ouvir, e sabe bem ser português, quando se descobrem poemas de Fernando Pessoa, Zeca Afonso, David Mourão-Ferreira, Reynaldo Ferreira, O´Neil, Florbela, Amália, e tantos e tantos outros, acompanhados por inspiradas melodias, tocadas por virtuosos nacionais, cantados por intérpretes como Mariza. Que querem mais, portugueses ingratos, filhos de um tão pequeno País, que tais glórias viu nascer? Mariza é um dos nossos orgulhos nacionais (mas reparem em Lisboa, seus filhos da mãe da desgraça coitadinha e da maledicência mediocre, vejam tão só Amadeu de Sousa Cardoso, Graça Morais, Cesariny, Noronha da Costa em Exposição, só para falar em pintura!, e isto é pouco?, é pouco?). Ouvi-la é um prazer total. O DVD não está mal captado, a direcção é correcta, o som só teve uma falha, é Mariza em Belém para a eternidade. Ouvir e voltar a ouvir, ver e rever.

Moçambicana por nascimento, mas lisboeta da Mouraria desde os três anos, Mariza tem atravessado no sangue esse Portugal que foi fado em África e morna na capital do Império. Em 2001, ainda menina e moça, lança o álbum “Fado em mim” que vende até ser platina e atira com Mariza para o estrelato. Amo-a desde aí. Sim, porque nestas coisas ou se ama ou não se ama. Parte para o estrangeiro e soma sucesso sobre sucesso. Diz que o palco é a sua “sala de estar onde recebo os amigos” e eu sinto-me isso, um amigo, que, ao fim de cada concerto, corre para ela e a beija. Afinal acaba de nos dar momentos de felicidade e, não raro, as lágrimas correm-me, a mim, quando a ouço cantar. Quebeque, Nova Iorque, Hollywood, Londres, Paris, Frankfurt, Lisboa, Moscovo, Madrid, Barcelona, Los Angeles, Cairo, São Francisco, Chicago, as principais casas de espectáculo do mundo esgotam para a ouvir cantar. Uma nova Amália? Possivelmente, mas sobretudo uma nova grande cantora de fado, que consegue o que Amália sempre conseguiu: uma voz inigualável e uma personalidade impar. Ou seja, para se ser uma nova Amália, tem que se ser sobretudo diferente, não uma cópia, porque Amália nunca copiou ninguém. Mariza é também assim. Por ela passou todo o fado, mas ela só reteve o “seu” fado. “Melhor Artista Europeia na área de World Music”, pela BBC, diz que não escolheu o fado, que foi o fado que a escolheu. Não a conheço pessoalmente (mas quero conhecer, sim quero muito conhecer!), mas não fico indiferente aquela humildade que só os muito grandes conseguem ter, porque não precisam de se por em bicos de pés para sobressaírem. Eles já voam por cima dos demais, naturalmente. "O fado é um sentimento e não propriamente uma música". Em 2003, aparece o segundo álbum, “Fado Curvo”, mais prémios, por todo o lado. Os jornalistas estrangeiros residentes em Portugal reconhecem-lhe “a excelência na divulgação da cultura portuguesa, na sua manifestação mais característica: o fado” e consideram-na “Personalidade do Ano 2003”. Em 2004, edita o DVD que encerra o concerto realizado na Union Chapel, em Londres, e logo a seguir surge o novo álbum, “Transparente”. Agora este DVD, precioso, “Mariza, concerto em Lisboa”. Não percam.

Nele se pode ouvir o seu fado preferido, como ela própria o confessa. Poema de David Mourão-Ferreira, pois claro!, um dos maiores poetas portugueses do amor. Aqui fica:
Primavera
David Mourão-Ferreira/Pedro Rodrigues

Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

para saber mais sobre Mariza aqui.

quarta-feira, novembro 15, 2006

TERESA SÁ NA FNAC CASCAIS

Não me custa nada dizer que ela já é um dos maiores fotógrafos portugueses contemporâneos.
Se não, vejam seis exemplos. Magníficos.













Muitos outros exemplos estão expostos na Galeria da Fnac do Cascais Shoping.
Vão ver e depois digam.

ANTÓNIO GEDEÃO: OBRA COMPLETA


Há dias ouvi o Victor de Sousa recitar António Gedeão, e lembrei-me do professor Rómulo do Carvalho, que nós víamos passar pelos corredores do Liceu Pedro Nunes, por vezes vestido de bata branca, mas que nos inspirava uma admiração indescritível: “Lá vai o António Gedeão!, ” dizíamos entre dentes, como quem aponta o poeta e descobre o enigma. Todos gostavam do Rómulo de Carvalho, mas eu, que nunca o tive por professor, pois andava em “Letras”, gostava mesmo era do poeta António Gedeão.
Saiu agora, na "Relógio de Água", uma cuidada “Obra Completa” de António Gedeão. Comprei-a e vim pela Av. de Roma a folhear o calhamaço. Por sorte, abriu-o logo no poema que Victor de Sousa recitara na véspera e que me ficara no ouvido. Continuamos a falar de amor:

AMOR SEM TRÉGUAS

É necessário amar,
qualquer coisa, ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
nem importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma cosa qualquer,
seja lá o que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até á morte,
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.

Vou continuar com António Gedeão
(entre outras coisas)

FADOS NO SAMOUCO

Malhoa, "O Fado"

Gosto de fado. Gosto de fado em casas populares, e tascas, em restaurantes de província. Fado cantado por populares, “espontâneos”. Ontem fui aos fados, ao Samouco, que fica do outro lado do Rio, entre Alcochete e Montijo, por aí (não fui eu que conduzi!). Iam cantar dois jovens da ”baby generation” do fado, a Cátia Garcia e o David Ventura. Conheço ambos de espectáculos vários do La Féria, conheço melhor a loirinha, que apresentou ontem o meu filho Frederico à dona do restaurante “Cinco e ½” com um expressivo, “Este é Frederico, o meu namorado!” Percebem, portanto, porque fui aos fados? No Samouco. Não, foi mesmo porque quis. Gosto de fado, gosto da voz destes dois jovens, gosto da Cátia, gostei de ouvir três espontâneos, daqueles que aparecem nos intervalos das actuações dos “fadistas convidados”, um dr. João que cantou magnificamente fado de Coimbra, uma Maria do Carmo bem castiça e a Dina, dona do restaurante, que já trazia consigo um miudinha de três ou quatro anos, sua filha, que, se não canta ainda o fado, já cruza o xaile a preceito.
O fado está entranhado na alma portuguesa. É nestes pequenos restaurantes, espalhados por aqui e por ali, e nas tascas, que se percebe que o fado não morre. Pelas mesas, e no minúsculo palco, havia gente de todas as gerações, até um velho construtor de guitarras, perdido lá ao longe, num recanto solitário. Ouviu-se coisas novas e a Samaritana, o Zé Cacilheiro ou recordou-se Amália. O fado não morre. Faz parte desta gente que, de pescadores a doutores, não perde o tom, não esquece a toada nostálgica, “porque tudo isto existe, tudo isto é fado.” “… e deu-me esta voz a mim,” cantou a Cátia. E não está mal, não senhor!

domingo, novembro 12, 2006

O AMOR

O amor, sabem o que é?
Pode fotografar-se?
Está tudo aqui, basta ir ao post do dia 16.10.06.
Ou aqui, no post do dia 18.10.06.
Um abraço, Walter e Teresa.
E Nelson (a testemunha).
(apetecia-me roubar para aqui as fotos,
mas vão lá,
vejam na intimidade)

sábado, novembro 11, 2006

LAURO CORADO, meu pai

Coisas da Blogosfera


Há dias recebi um inesperado mail. Respondi, e voltaram a responder. A felicidade às vezes faz-se de tão pouco. Transcrevo a correspondência, como a autorização de ambas as partes, e antes de a transferir para o blog de meu pai.

November 07, 2006 11:48 PM

Olá!
Não sei como descobri o seu blog mas talvez porque eu escreva o meu blog mas, de facto, não faço ideia como vim aqui parar. Ao que interessa: nesta deriva que a internet e os blogs nos proporcionam descobri o seu nome, claro, e o do seu pai de quem fui aluna na António Arroio. Sem querer roubar-lhe muito tempo vou direita à memória prazenteira que tenho do meu professor Lauro Corado que um dia me disse tranquilamente: o teu trabalho é muito bom, o teu mau feitio também. Na altura fiquei furiosa, não percebi nada e saí porta fora deixando saco e tudo no meu lugar. A meio do caminho, corredor fora, dei-me conta do meu disparate e do elogio que, burra e cega e surda, não tinha compreendido. Voltei atrás e entrei tal como tinha saído: orgulhosa, teimosa e apressada. Junto à janela estava o seu pai que me olhou e sorriu: «Então?» E eu, malcriadona e parva resolvi responder: «Então o quê? Eu vim só para pegar nas minhas desculpas e...» Lapso freudiano! O seu pai já não sorria mas ria e eu humilhada em causa própria não tive outro remédio senão pedir desculpa e rir de mim. Uma boa lição de Lauro Corado que, obviamente, nunca lhe agradeci. Sei que chego tarde mas peça lá desculpa ao seu pai da parte desta aluna arrependida pelo eterno mau génio que alguém me deu.
Obrigada.
Fátima Rolo Duarte

November 08, 2006 12:19 AM

Fátima,
Foi um prazer ler estas palavras. Só por elas já valeu a pena ter um blog e ter sido "descoberto".
Sabe? Estou a construir um blog sobre o meu pai. Teria muito prazer em lá colocar esta sua missiva. Com a sua autorização.
Não precisarei de levar a mensagem ao meu pai. Ele "sabia" o que você valia. Às vezes o mau feitio é bom conselheiro.
Obrigado.
Lauro António

November 08, 2006 9:44 AM

Olá de novo!
Claro que sim. Claro que pode publicar o meu testemunho. Eu adorava o seu pai e como eu todos os alunos dele. Penso que havia uma espécie de concordância geral. A «malta» gostava das aulas do Corado pela qualidade humana dele. A paciência e a atenção, o tom informal. A obra gráfica do seu pai tem pontos altos notáveis.
Creio que o que ele sabia sobre o meu mau feitio era o que ele sabia sobre as pessoas, os alunos. Tinha, de facto, uma relação de professor, sem dúvida, mas sem ansiedade ou medo. Ao contrário da maioria dos professores, o seu pai não tinha medo dos alunos adolescentes, tantas vezes inconvenientes e chatos como compete a um genuíno adolescente, não é?
Quem agradece sou mesmo eu.
Fátima
Obrigado, Fátima Rolo Duarte. Eu também gostava muito do seu pai.

UM QUADRO, UMA JANELA...

Com base neste quadro de meu pai, Lauro Corado, o meu filho, Frederico Corado, fez várias variações, para incluir algumas delas, como uma espécie de leit motiv, no espectáculo "Conversa de Camarim" (ver post abaixo).
Boa ideia e boa homenagem ao avô. Aqui ficam as experiência que julgo muito curiosas, e que dinamizam bem o epectáculo.
O quadro

Janela 1
Janela 2
Janela 3
Janela 4
Janela 5
Janela 6
Janela 7
Janela 8
Janela 9
Janela 10

DIÁRIO DE UM DIA BEM PASSADO

15,00 – 20,00
MARIA SOBRAL MENDONÇA

Pintora.

Almoço na rua de São Mamede, amena conversa, seguido de viagem por duas galerias da Zona do Chiado, para ver quadros seus. Já os conhecia de catálogos, de vídeos (um de Edgar Pêra), mas olhando a contextura da tinta é outra coisa. Gosto da pintura e gosto da mulher. Prepara nova exposição sobre a “Libertação do Pecado”, segundo a religião judaica. "Tikurt". Faz pesquisas, inicia os trabalhos, vi um quadro desta nova fase. Já havia falado dela, acerca de um blog belíssimo “LAPIS EXILIS”, onde os seus trabalhos convivem com textos escritos por ela, trechos musicais, colagens. Conheci-a agora pessoalmente. Uma mulher encantadora, uma boa pintora que me apetecia filmar no acto de criar. Finalmente, numa esplanada sobre Lisboa e o Tejo, um fim de tarde bem passado. Outros amigos se reuniram. A Eduarda chegou também para irmos ao São Luiz.

21 H:
“O ASSOBIO DA COBRA”
SÃO LUIZ

Diz a promoção do espectáculo:
“O Assobio da Cobra” parte do disco “O Assobio da Cobra”, um bom disco, diga-se, feito de canções de Manuel Paulo que permitem as mais diversas interpretações e narrativas. Optou-se por uma. E por um espaço: um bar. O tempo da acção, esse, é o tempo de uma noite. Uma noite que termina. E que recomeça. Para simplificar, é, pois, a história de uma noite num bar. Com as suas personagens residentes e com as outras. Com a sua atmosfera própria e o perfume trazido por quem chega de fora. Se fosse literatura seria mais um conto do que um romance. Um conto feito de micro-contos – que deixa muitas pontas soltas, de forma a poder desafiar o espectador. E que se constrói algures entre o lirismo das canções, o “realismo sujo” dos diálogos, os humores das coreografias e as pausas na acção. O Assobio da Cobra não quer inventar mundos. É uma história sobre aquilo de que todos somos feitos: cobardia, coragem, medo, esperança, feridas, máscaras. Porque, tal como os gatos, à noite todos os homens são pardos. Baços. Cinzentos. Complexos. Exactamente como de dia.
O que acontece na realidade: 20 actores a tropeçarem no palco em busca de personagens, que não existem, e de um autor, que não se vê. Num bar, o completo naufrágio (em água tépida) de uma equipa onde há talento e um elenco onde há gente muito capaz.
Responsáveis: Texto: Nuno Costa Santos; Encenação: Adriano Luz; Direcção Musical: Manuel Paulo; Cenografia e Figurinos: Nuno Carinhas e Ana Vaz; Coreografia: Marta Lapa; Interpretação: Adriana Queiroz, Ana João Silva, António Durães, Carla de Sá, Diogo Infante, Félix Lozano, Isabel Abreu, Isabel Ribas, João Cabral, João Reis, Lia Gama, Luís Amarelo, Meredith Kitchen, Patrícia Vasconcelos, Pedro Laginha, e Vítor Barbosa; Músicos: Manuel Paulo (Piano), Massimo Cavalli (Contrabaixo), Rui Alves (Percussão), Ruben Santos (Trombone).

22, 40:
SÃO LUIZ CAFÉ

Magnífico bife. .

23,30:
"CONVERSAS DE CAMARIM"

SÃO LUIZ – JARDIM DE INVERNO

Entre 10 e 25 de Novembro, às Sextas e Sábados.
Uma viagem através do livro de Varela Silva “Camarim com Janela para a Rua”. Um palco, duas cadeira, um piano, três personagens, hora e meia de espectáculo que vale a pena. Nenhuma pretensão, uma conversa solta, ilustrada com canções e poemas, histórias divertidas e recordações amargas. Tudo isto com muito talento à mistura e uma mulher de génio, de raça, de bravura. Um Vítor de Sousa em boa forma. O trabalho do Frederico cumpre muito bem o que lhe pediram. Uma boa ideia que irei repegar noutro post.
Interpretação: Simone de Oliveira e Vítor de Sousa; Piano: Nuno Feist; Projecção em Vídeo: Frederico Corado; Produção: Fátima Bernardo, Casa das Artes, Lda

sexta-feira, novembro 10, 2006

A Blog (como agora se diz, diz ela):



Não esqueçam de ler este texto. Muito bom.

quarta-feira, novembro 08, 2006

CINEMA: Bastidores da Rádio


“A PRAIRIE HOME COMPANION
– BASTIDORES DA RÁDIO”

Não se deixe iludir pela ficção: “A Prairie Home Companion”, o título original deste filme de Robert Altman, é mesmo o nome de um dos mais antigos programas de rádio dos EUA. (uma criação de Garrison Keillor, que data de 1974, e que já cumpriu mais de 32 anos no ar, em transmissão, directa e com público, do Fitzgerald Theater, em St. Paul, no Minnesotta), e igualmente um dos mais escutados semanalmente, com audiências que rondam os 4 milhões de ouvintes. O filme que Robert Altman dirigiu parte de um argumento do próprio Garrison Keillor, que construiu uma ficção “dentro” da própria realidade que é o seu programa.
No filme, e só no filme, o programa de rádio está a dar as últimas, esta sessão a que assistimos será a derradeira, o teatro (que homenageia F. Scott Fitzgerald, filho da terra) vai ser demolido e transformado num parque de estacionamento. Empresários isentos de nostalgia compraram a estação de rádio e preferem arrasá-lo e terraplanar o terreno para fins mais rentáveis.
O filme assemelha-se a um limbo, terra de ninguém, entre o que foi e o que deixa de ser, entre o que está e o que vai desaparecer, entre a vida e a morte, com anjo que recolhe as almas e tudo. Robert Altman já ultrapassou os oitenta anos, está doente, os produtores temiam que não conseguisse acabar o filme e tinham mesmo de prevenção Paul Thomas Anderson para o substituir na realização, numa eventualidade (percebe-se qual ou quais poderiam ser).Mas o anjo não esvoaçou por ali de gabardina branca. Esvoaçou por sobre todo o filme que fala de perca, de morte, de desaparecimento, mas que o faz com uma galhardia e uma tranquilidade que desarmam. Tranquilidade e serenidade de vivos que vêem a morte aproximar-se (a morte dos seus sonhos, a morte de uma certa ideia da rádio e dos teatros, a morte dos amigos, a sua própria morte) e não desarmam. Aguentam firmes, até ao final. Com uma esperança e um sorriso nos lábios. Ou em cuecas, á espera de uma última lição de amor.

Altman é, há muito tempo, um dos meus cineastas de estimação. Há alguns anos atrás, 1975 ou 1976, quando a crítica cinematográfica tinha peso neste país, e o que escrevíamos podia fazer ou desfazer a carreira de um filme, estreou-se no Berna um filme fabuloso, “Nashville”. Passou uma semana rápida, nem tempo teve para a crítica fazer efeito. Convenci então a directora do Nimas, a repô-lo nessa sala, aproveitando-se de uma critica muito apaixonada que então escrevi, e o filme transformou-se num dos sucessos do ano. Altman bem o mereceu, e “Nashville”, sobre a canção “country”, era uma obra-prima que definia um estilo e um autor de génio.
“A Prairie Home Companion – Bastidores da Rádio” é mais uma daquelas obras construídas em puzzle, que só o talento de cineastas inspirados consegue tornar possíveis. Entre o palco e os bastidores do Fitzgerald Theater evoluem várias personagens que se despedem de um espectáculo a que se entregaram de corpo e alma. Desde o apresentador que recita anúncios, promove os cantores, canta ele próprio, conta anedotas e improvisa nos tempos mortos, até os cantores que em girândola passam pelo palco do teatro (e pelo microfone da estação) para deixaram as suas canções emocionadas e sentimentais, destinadas “a toda a família”, passando por técnicos que asseguram o bom funcionamento da engrenagem, e pelos músicos da orquestra que acompanham ao vivo as actuações e encadeiam as melodias, são dezenas de figuras amáveis e destruídas, que todavia não dão parte de fraco e cada uma delas procura retirar da vida, mesmo nos seus últimos instantes, o que ela tem para dar de melhor. Apenas uma jovem foge à regra, escreve desencantados poemas de elogio do suicídio, e acabará uma tecnocrata com jeito para o negócio, administrando os capitais da mãe, que, no entanto, os prefere gastar num autocarro para prolongar a vida desta família de músicos em tournée.

Mas há um pouco de tudo que acaba nesta galeria de tipos inesquecíveis: duas cantoras que restam de um grupo de quatro que se foi desfazendo, e cantam baladas à mãe morta que gostava de as ouvir, dois cowboys que cantam para as pradarias, e se despedem do público com uma canção brejeira, um velho cantor que, acabada a actuação, morre no camarim, de cuecas, esperando a visita da amante que distribui sandes pela companhia, e sonha com os seus braços e abraços (e mesmo algo mais). Há ainda um detective particular, que não consegue já outro lugar senão o de segurança estiloso neste teatro, um homem que fareja o perigo, e o deixa passear sob a aparência de um anjo branco, pelos bastidores do programa. Há ainda um representando da empresa que vem assistir ao final da representação, no interior de um envidraçado camarote, onde estranha a presença de um busto de alguém que não lhe diz nada, mas é apenas o rosto de F. Scott Fitzgerald. Há ainda contra-regras e anotadoras, uma cantora negra que anuncia as delícias do chocolate, e há sobretudo, duas realidades incontornáveis: a mestria de Robert Altman a dirigir a câmara, que passeia com uma dignidade, elegância e leveza sem par, e a direcção de actores, absolutamente geniais. Meryl Streep, sublime em tudo o que faz, no que diz, nos gestos, nos olhares, Garrison Keillor, uma descoberta surpreendente, a conduzir o programa, recriando a sua própria personagem real, Lily Tomlin, magnifica nos duetos com a irmã, Woody Harrelson e John C. Reilly, uma dupla de cantores-cowboys inesquecíveis, Virginia Madsen, na “Dangerous Woman”, que se passeia pelo filme e leva consigo os que estão na altura certa para partir (o notável L.Q. Jones, na composição de Chuck Akers) ou os que “o merecem” (“Axeman”, criado a rigor por um comedido e circunspecto Tommy Lee Jones). Falta referir o detective “Guy Noir”, que Kevin Kline compõe de forma primorosa, com alguns tiques saborosos, que lhe emprestam uma graça muito especial.

Um elenco verdadeiramente admirável, uma direcção que se assemelha ao rolar do mecanismo de um relógio perfeito, silencioso e preciso. A câmara movimenta-se como um pássaro em noite tépida, desliza, aponta, perscuta, detém-se e avança. É um bailado que se estabelece entre o palco e os bastidores da vida que aqui se assemelha a um programa de rádio condenado à morte. Todos nós estamos condenados, desde o nascimento. Mas o que o velho Altman nos diz é que enquanto por cá andarmos, o façamos com a maior das alegrias, aproveitando bem o dia que passa. Pondo de lado os poemas suicidas, e ajustando conta com os que só pensam no negócio. Afinal, neste filme a morte está sempre presente, sob a forma de uma loura vamp vestida de branca, ou sob muitos outros disfarces, mas, se é inexorável, nunca é “o fim do mundo”. O mundo continua a girar, e atrás de programas de rádio, programas de rádio virão. Mesmo em tournée. Não nos levemos muito a sério, porque a vida continua.

“A Prairie Home Companion – Bastidores da Rádio”, de Robert Altman (EUA, 2006), com Meryl Streep, Garrison Keillor, Lily Tomlin, Woody Harrelson, John C. Reilly, Virginia Madsen Tommy Lee Jones, Kevin Kline, etc. 105 minutos. M/ 12 anos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

PARA SEMPRE

VERGÍLIO FERREIRA
(1916-1996)


Foi em Seia que conheci Vergilio Ferreira, durante a rodagem de "Cântico Final", de Manuel Guimarães.

Foi em Seia que preparei "Prefácio a Vergilio Ferreira", "Vergilio Ferreira numa "Manhã Submersa" e "Manhã Submersa".
Foi em Seia que estive instalado, na estalagem da cidade, com a equipa de filmagens, durante e rodagem de "Manhã Submersa".
Foi em Seia que iniciei, há doze anos, um festival de cinema e ambiente, o "Cine Eco".
Foi em Seia, no I Cine Eco, em 1995, que fiz a primeira homenagem a Vergilio Ferreira, num ciclo cinematográfico a que dei o título "Vergilio Ferreira, a Serra e o Cinema" (que está na origem de um livro, hoje completamente esgotado).
É de Seia que parto todos os anos, durante a época do Festival, numa fuga às sessões de cinema, para visitar Melo, terra natal de Vergilio Ferreira, e Linhares da Beira, terra onde filmei grande parte de "Manhã Submersa".
De Seia parto, todos os anos, depois de 1996, rumo a Melo e Linhares, com a saudade nos olhos, junto de amigos que amo e com quem quero compartilhar o silêncio da perca e a alegria da criação. Com a Serra por testemunha, por ali morro um pouco, por ali renasço a cada ano.
Este ano, mais uma vez assim foi. Faz 90 anos que Vergilio Ferreira nasceu, faz 10 anos que faleceu. No cemitério local, a lápide cinzenta, recorda o nome do escritor, virado à Serra que o viu nasceu e o recolheu depois da morte. Na aldeia, com placa a sublinhar o facto, lá está a casa onde nasceu e onde filmei a mãe do escritor caminhando para a câmara, ao longo de um corredor fantasmático, num dos planos mais bonitos do "meu" cinema. ("Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre").
Ali está. Para Sempre. Um escritor para a Eternidade.

A casa onde nasceu.

A campa, a assinatura para a eternidade.

virado à serra, onde nasceu, onde se recolheu.

PS. Queria tanto mostrar-te Linhares, visitar contigo os lugares mágicos, onde com dor e alegria se cria. Não deu. Mas mandaste-me uma página da "Manhã Submersa", na letra inconfundível de Vergilio Ferreira. Momentos de criação que se misturam com outros, de destruição. Olha a escrita, minúscula, atormentada, as palavras, a rasura, a obstinação, a procura, o escreve e rescreve, a dureza aqui, a leveza além, a tortura de criar.

domingo, novembro 05, 2006

(QUASE) SMS

(QUASE) SMS SEM DESTINO

1.

Sento-me nos penhascos frente ao mar e espero que ela apareça. Na ilha, passeiam fantasmas do passado. Falo-lhe, mas ela não ouve. Por amor podemo-nos anular para estar ao lado de quem se ama? Passar para o outro lado? Seguir os fantasmas, “a mulher com o lenço colorido atado á cabeça”? Eis “A Invenção de Morel”, de Adolfo Bioy Casares. Um belíssimo livro fantástico. Sabes? Acaba de sair “Diário da Guerra aos Porcos”, do mesmo, na “Cavalo de Ferro” (editora). Já tenho, vou ler.


2.

Ouvi um tema, gostei muito, encomendei via Amazon e chegaram os dois CDs: “Musica Nuda”, 1 e 2, de Petra Magoni e Ferruccio Spinetti, voz e contrabaixo. Ouço, enquanto escrevo. É boa companhia. “Non Andare Via”. Uma recuperação de grandes temas, numa interpretação totalmente nova. Dois instrumentos apenas: uma voz magnifica, um contrabaixo em sincronia ou em dissonia. O que se pode fazer a duas vozes: tudo, até em confronto.


3.

A Márcia Guerra trouxe do Brasil, “Meus Momentos”, de Simone. Oferta carinhosa. “Jura Secreta”, “Maria, Maria”, “Voltando”, “Começaria Tudo Outra Vez”. Gosto de Simone, gosto de música brasileira. Ajuda a matar saudades dos “fins de tarde em Tapoã”. Tapoã pode ser todo o Brasil, ou “onde um homem quiser”.


4.

Recomeçou a sair, com o “Público”, a colecção “Os Poemas da Minha Vida”. Primeiro volume da nova série, dedicado a Eunice Muñoz, a “Diva”. Uma das mulheres da minha vida. A fechar a selecção, um belíssimo poema de amor, da autoria de António Barahona, dedicado à “Diva”:

NO ANIVERSÁRIO DA DIVA
Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas

Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:

somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida


5.

Entre 10 e 25 de Novembro, no São Luiz, “Conversas de Camarim”, um espectáculo de Simone de Oliveira e Vítor de Sousa. Ao Piano, Nuno Feist. No vídeo, Frederico Corado. Muita merda para todos, e um beijo ao Fred.


6.

A partir de 14 de Novembro, na Livraria Barata, em Lisboa (Av. de Roma), todas as terças, às 19 horas, “Fins de tarde com cinema”. De início, para suavizar os dia que antecedem o Natal, “Fred Astaire/Ginger Rodgers”, 7 filmes, 7 viagens sobre as nuvens. Dia 14 faço a apresentação do ciclo, que conta com a colaboração da Costa do Castelo.