quarta-feira, agosto 01, 2012
DUAS VISITAS AO FADO
domingo, novembro 27, 2011
O NOSSO LUXO
sábado, julho 10, 2010
FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 1

O que prende é essa viagem iniciática de Aldina Duarte por um palco, pelo mundo, em busca de novos e velhos sons. Ela caminha em direcção a cada luz, encontra a seu lado um novo companheiro de viagem, e parte decidida à descoberta. São momentos inesquecíveis, uns pelo ajuste, outros pela dissonância, é o fado português a cruzar-se com outras ambiências sonoras e a manter a sua autenticidade. Sobre este espectáculo a coreógrafa afirma: “Porque me interessam os desafios que me lançam à descoberta e abrem caminhos inesperados, o meu primeiro impulso foi o de me debruçar sobre uma proposta musical para este concerto. Foi assim que me surgiu a ideia de propor à Aldina Duarte um encontro do fado com instrumentos que lhe são estranhos.” A ideia é excelente, o resultado brilhante. Ao que não é estranho um desenho de luzes perturbante e sedutor, intimista e espectral, sombras e silhuetas, evocação de ruelas e de becos, de tabernas e de casas de fado que se imaginam sem nunca serem indiciadas.
Direcção e concepção musical de Olga Roriz; Intérpretes: Voz: Aldina Duarte; Músicos: Guitarra portuguesa: José Manuel Neto; Viola: Carlos Manuel Proença; Contrabaixo: Pedro Wallenstein; Piano: Manuel Paulo; Acordeão: João Lucas; Harmónica: Gonçalo Sousa; Percussão: Sebastian Scheriff; Harpa: Ana Isabel Dias; Consultoria musical Manuel Paulo; Espaço cénico: Pedro Santiago Cal; Desenho e operação de som: Francisco Leal; Desenho de luz Cristina Piedade; Duração: 1 hora; Classificação M/ 3; São Luiz, Teatro Municipal. Estreou a 9 de Julho, continua a 10, 16 e 17. A não perder.
quinta-feira, julho 09, 2009
FADO: CARMINHO
NO VAN GOGO

No Van Gogo, em Cascais, às quartas feiras, há fado. Esta quarta, a presença era a de Carminho, de quem tanto já lera, de quem já ouvira o recente CD, “Fado”. Não a tinha ainda visto “ao vivo” e o fado ao vivo é muito bonito, quando bem cantado. Fui ao Van Gogo, portanto, muito bem recebido pelo Miguel Capucho, que é a alma deste bar de há uns tempos a esta parte. Eu que não sou de bares, fiquei com vontade de regressar.
Mas falemos de Carminho. A voz é magnífica, de eleição, um pouco rouca, inconfundível, uma daquelas vozes que foram feitas para a dolência do fado, para a emoção do lamento da guitarra, para a alegria dorida da marcha do bairro popular, que outra forma de fado. Uma voz como raramente se descobre, numa jovem, de 24 anos. Com uma segurança de timbre notável, uma melodia de sílabas invulgar (pode descobrir-se um bom cantor pela forma como resolve a fraseologia do que canta, pelas pausas, pelo arrastar das sílabas, pelas forma como as ligas ou trunca).
Mas há mais. O fado bem cantado, canta-se com todo o corpo. Canta-se com a alma e com as vísceras, os músculos, os nervos. Olhos negros, cerrados, mãos crispadas, braços lançados como aves em arranque de voo, todo o corpo vibra com as palavras que se soltam da emoção. Aqui não há artifício, há sinceridade, entrega, espontaneidade, as palavras não se soltam somente da boca para o ouvinte, mas brotam do mais profundo, do mais íntimo de um corpo em entrega total.
Carminho, em 2009, é um cristal em estado puro. Felizes aqueles que a ouvem agora, que a vêem nesta altura da sua carreira. Mais tarde ou mais cedo, o cristal vai ser burilado, vai adquirir mais técnica, poderá melhorar o estilo, aprimorar o que há de pessoal na voz. Mas alguma que se irá perder, essa pureza quase inocente de quem se entrega toda ao seu fado, ao nosso fado. Foi um prazer enorme ver e ouvir Carminho. Mais uma carreira, uma vida a seguir com paixão.
Depois de Carminho ainda tivemos dois extras a registar: o próprio Miguel Capucho, e Cuca Roseta, que também não conhecia e que igualmente me impressionou muito. O fado em Portugal está bem e recomenda-se.
Nasci Carmo Rebelo de Andrade, em Lisboa, filha da fadista Teresa Siqueira e de Nuno Rebelo de Andrade (que não canta mas que diz ser fadista também quem ouve). E, apesar de ter ido viver para o Algarve, o fado esteve sempre comigo. Os meus pais organizavam tertúlias de fado e em casa ouvíamos discos de Lucília do Carmo, de Fernando Maurício, de Amália Rodrigues... De volta a Lisboa, estreei-me a cantar em público, aos doze anos, no Coliseu. A partir daí comecei a cantar regularmente na Taverna do Embuçado, em Alfama, onde tive grandes mestres: a minha mãe, claro, mas também Beatriz da Conceição - com quem aprendi imenso -, Fernanda Maria, Alcindo Carvalho, Paquito, Fontes Rocha, memórias vivas da verdadeira essência do fado. Sentada na mesa da Bia, ouvia com atenção as mil e uma histórias de noites e fadistas. Os tiques e graças, tudo o que tinham para me ensinar... Mas o melhor era quando a luz se apagava e lá iam eles, dar-me a mais verdadeira das lições. Tenho também uma admiração profunda por outras pessoas do fado como Maria Teresa de Noronha, Maria José da Guia, Carlos do Carmo, Fernando Farinha, Camané, entre outros.
Há três anos concluí o meu curso de Marketing e Publicidade, mas ainda durante a faculdade percebi que o meu futuro - porque também já era o meu presente - era cantar fado. Depois de uma viagem à volta do mundo que durou um ano e em que participei em acções humanitárias na Índia, Camboja, Peru e Timor, consegui olhar-me de fora para dentro e descobrir que a minha verdadeira vocação era mesmo o fado.Voltei a cantar na casa de fados, a Mesa de Frades, onde estou todas as segundas e quartas-feiras, cantei na Casa da Música, na Festa do Fado (ao lado da minha mãe e do meu irmão Francisco), no espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, na Expo de Saragoça e na recriação de «Amália à L'Olympia». Para trás, nesta minha história, ficou a participação, entre outros, no disco «Fado - Ontem, Hoje e Sempre», no filme «Fados», de Carlos Saura, e concertos na Argentina, Suiça e Malta. Recebi o Prémio «Revelação Feminina» da Fundação Amália Rodrigues.
O meu primeiro disco chama-se «Fado». Não podia, e digo-o com humildade, chamar-se outra coisa. Por respeito às minhas raízes, ao fado e a mim própria. E este disco sou eu. O meu passado (fados que sempre cantei), o meu presente (a evolução que o meu fado tem sofrido ao longo dos anos) e o meu futuro (em que irei, ainda mais, deixar-me guiar pela minha sensibilidade). Neste álbum tive a companhia de Diogo Clemente - produtor e violista deste disco, amigo e conselheiro que me acompanhou desde o início da escolha de reportório e até ao fim - e de alguns dos melhores músicos de fado: Ricardo Rocha, José Manuel Neto, Bernardo Couto e Ângelo Freire, todos na guitarra-portuguesa, e o viola-baixo Marino de Freitas, para além da participação especial do contrabaixista Carlos Barretto no tema «Espelho Quebrado». Sinto-me muito orgulhosa por existirem músicos como eles em Portugal e particularmente honrada por tê-los tido comigo.
Espero que gostem deste meu primeiro passo. / Carminho
CARMINHO NA CÂMARA DE JOÃO BOTELHO
domingo, agosto 03, 2008
MARIZA SEMPRE!

Agora que lançou "Terra", um cd excelente (mais um!), de que ainda não há no "You Tube" nem "Rosa Branca" nem "Se eu Mandasse nas Palavras" (nem nenhum dos outros temas admiráveis!), aqui recordo dois dos seus temas mais espantosos. Sem nenhuma razão especial: apenas porque gosto.
domingo, junho 29, 2008
TERTÚLIAS DO FADO E DA INQUIETAÇÃO
Numa sociedade cada vez menos solidária, egoísta, fechando-se cada um em si e em sua casas, sabe bem descobrir comunidades que procuram a comunicação pela comunicação, o diálogo, que falam e ouvem, que procuram a companhia e ainda se ofertam fados uns aos outros, depois do jantar, na medida das suas possibilidades, com vozes cristalinas ou roufenhas. Inscrevi-me como sócio. Lá estarei em próximas tertúlias, a ouvir "convidados especiais".
sexta-feira, junho 27, 2008
HOJE, JANTAR NA "TERTÚLIA DO FADO"
A presença aquii de Amália Rodrigues assinala um jantar, hoje, na "Tertúlia do Fado". Convidado, vamos falar do fado no cinema português, e em muito mais, claro. O jantar é, como sempre, na e-FIL, em Belém.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
MARIZA ABRE FAMAFEST
Moçambicana por nascimento, mas lisboeta da Mouraria desde os três anos, Mariza tem atravessado no sangue esse Portugal que foi fado em África e morna na capital do Império. Em 2001, ainda menina e moça, lança o álbum “Fado em mim” que vende até ser platina e atira com Mariza para o estrelato. Amo-a desde aí. Sim, porque nestas coisas ou se ama ou não se ama. Parte para o estrangeiro e soma sucesso sobre sucesso. Diz que o palco é a sua “sala de estar onde recebo os amigos” e eu sinto-me isso, um amigo, que, ao fim de cada concerto, corre para ela e a beija. Afinal acaba de nos dar momentos de felicidade e, não raro, as lágrimas correm-me, a mim, quando a ouço cantar. Quebeque, Nova Iorque, Hollywood, Londres, Paris, Frankfurt, Lisboa, Moscovo, Madrid, Barcelona, Los Angeles, Cairo, São Francisco, Chicago, as principais casas de espectáculo do mundo esgotam para a ouvir cantar. Uma nova Amália? Possivelmente, mas sobretudo uma nova grande cantora de fado, que consegue o que Amália sempre conseguiu: uma voz inigualável e uma personalidade impar. Ou seja, para se ser uma nova Amália, tem que se ser sobretudo diferente, não uma cópia, porque Amália nunca copiou ninguém. Mariza é também assim. Por ela passou todo o fado, mas ela só reteve o “seu” fado. “Melhor Artista Europeia na área de World Music”, pela BBC, diz que não escolheu o fado, que foi o fado que a escolheu. Não a conheço pessoalmente (mas quero conhecer, sim quero muito conhecer!), mas não fico indiferente aquela humildade que só os muito grandes conseguem ter, porque não precisam de se por em bicos de pés para sobressaírem. Eles já voam por cima dos demais, naturalmente. "O fado é um sentimento e não propriamente uma música". Em 2003, aparece o segundo álbum, “Fado Curvo”, mais prémios, por todo o lado. Os jornalistas estrangeiros residentes em Portugal reconhecem-lhe “a excelência na divulgação da cultura portuguesa, na sua manifestação mais característica: o fado” e consideram-na “Personalidade do Ano 2003”. Em 2004, edita o DVD que encerra o concerto realizado na Union Chapel, em Londres, e logo a seguir surge o novo álbum, “Transparente”. Agora um DVD, precioso, “Mariza, concerto em Lisboa”. Não percam. "quinta-feira, novembro 01, 2007
FADOS

Fado da dúvida (sem dúvida)
Se já não te lembras como foi
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.
Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.
Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como estás.
Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que não sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei.
(Texto de Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus, 2005)
sábado, outubro 20, 2007
CINE ECO 2007 DIA 22

Programação
SEGUNDA FEIRA,
10,00 - Bicho Preto Nasce Branco, de Ângelo Lima (Brasil) 14’
Pirinop, Meu Primeiro Contato, de Mari Correia, Karané Ikpeng (Brasil) 83’
Multiplicadores, de Renato Martins e Lula Carvalho (Brasil) 20’
Profetas da Chuva e da Esperança, de Márcia Paraíso (Brasil) 15’
Discretas Afinidades, de Ana Neves (Portugal) 20’
O Fogo Controlado, de Francisco Manso (Portugal) 52’
A Casa, de Paulo Cartaxana (Portugal) 51’
AUDITÓRIO 2
SALA DE HOMENAGENS
15,00 - Ciclo João Batista de Andrade:
WILSINHO GALILÉIA (1978) doc (proibido pelos militares em 1978)
GREVE! (1979) doc. de 35 minutos sobre a Greve dos Metalúrgicos que revelou Lula Prémio Especial do Júri, I Fest. Latino Americano de Havana, 1979)
CINE-TEATRO DE SEIA
10,00 - SÓ ANIMAÇÃO: DIA DE SURF (Surf's Up), de Ash Brannon e Chris Buck (EUA, 2007), com vozes de Jeff Bridges, Zooey Deschanel, etc. M/4 anos; 85 minutos;
15,00 – UM CLÁSSICO: PLAYTIME - VIDA MODERNA (Playtime), de Jacques Tati (França, Itália, 1967), com Jacques Tati, Barbara Dennek, etc. M/12 anos; 155 minutos;
18,00 - CINEMA PORTUGUÊS: BELLE TOUJOURS, de Manoel de Oliveira (França, Portugal, 2007), com Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque, etc. M/12 anos; 68 minutos;
21,30 - Cerimónia de abertura oficial do Cine’Eco. Estreia de obra de Jorge Pelicano; Fados em 24 imagens por segundos, com Cátia Garcia; Guitarra portuguesa: Samuel Cabral; Viola: Nel Garcia; Contrabaixo: João Penedo.
sábado, outubro 06, 2007
VAVA.DIANDO COM CARLOS DO CARMO
12 º J A N T A R DA TE R T Ú L I A
18.10’07: 20H
R E S T A U R A N T E - C A F É V Á V Á
CONVIDADO ESPECIAL:
CARLOS DO CARMO
Vamos falar de Fado e de “Fados”
DEPOIS DE RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO e ROGÉRIO SAMORA, CONTINUAM OS JANTARES-ENCONTROS NA MELHOR TRADIÇÃO DAS TERTÚLIAS O CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.
PRÓXIMOS CONVIDADOS
14 DE NOVEMBRO: CELINA PEREIRA (UMA VOZ DE CABO VERDE)
26 DE NOVEMBRO: OTELO SARAIVA DE CARVALHO
5 DE DEZEMBRO: RUY DE CARVALHO (a confirmar)
22 DE DEZEMBRO: JANTAR DE NATAL DO VAVA.DIANDO
TODOS ESTÃO CONVIDADOS MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA SIMBÓLICA QUANTIA: 12,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.
RECUPEREM O BOM GOSTO DE UM SABOROSO JANTAR E DE UMA RECONFORTANTE CONVERSA À RODA DA MESA.
[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]
Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO / [Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/ ] [ mail: laproducine@gmail.com ]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761)
sexta-feira, outubro 05, 2007
CINEMA: FADOS

Quando alguns se indispuseram com o facto de entidades portugueses (CML e ICAM, entre outros) poderem subsidiar este projecto de Carlos Saura, achei um disparate. Saura é um dos grandes cineastas europeus, um filme assinado por si terá sempre um bom mercado e falará de Portugal e da nossa cultura pelo mundo fora. Qualquer que fosse o resultado final do filme, acho que só seria proveitosa esta aproximação de Saura da nossa música, ele que já realizara dois filmes de que gosto bastante, um sobre Flamenco, outro sobre Tango. Para lá de uma espantosa “Carmen”. O Fado completaria a trilogia.
Estreado o filme, mantenho a opinião. Fizeram muito bem em apoiar a obra que já está a correr mundo.
Quanto ao filme, bem quanto ao filme, e tendo em conta a consideração que tenho por Saura, o melhor será começar a conter-me. Deverei então dizer que há inúmeros equívocos e que Saura raramente acerta. Devo colocar a abrir que adoro fado e que um dos sonhos da minha vida seria fazer um filme sobre o fado. Antes de ver os “Fados” de Saura pensei que essa hipótese me estava vedada para sempre, pois o cineasta espanhol iria assinar a obra definitiva. Infelizmente está muito longe disso.
Primeiro equívoco: mostrar que o fado nasceu de múltiplas influências e se projecta noutras tantas. A base de aposta é certa, o que Saura nos mostra não é. O filme perde coerência, funciona como programa de variedades de um TV de anos 60, com mais alguns apetrechos técnicos, e pouco mais.
Segundo equívoco: Saura diz, e tenta demonstrar, que o fado se dança. Engano, pelo menos não se dança da forma que ele o tenta mostrar. As sequências dançadas (e como são muitas, imensas!) são um verdadeiro desastre. Parece que estamos numa má revista do Parque Mayer (que teve dinheiro para contratar primeiras bailarinas de flamengo e outras!) e que resolveu ilustrar fados com danças, como tantas vezes fez. Ora a pinderiquice do Parque Mayer às vezes colava bem com o fado. A dança estilizada proposta por Saura nunca cola bem. Nunca cola sequer. Voltamos a relembrar péssimos programas de fados da RTP Memória, com a fadista ao centro e um grupo de ballet esvoaçando por perto.
Terceiro equívoco: Depois de ver esta obra fiquei com uma certeza, que já tinha, mas agora reforçada, pelo absurdo: o fado é para ser ver e ouvir. Quando Saura cola a câmara ao rosto de Argentina Santos, ou de Cuca Roseta, a emoção sobre e percebe-se o que será um filme sobre o fado. Quando coloca a fabulosa Lila Downs perdida no meio de um grupo de ballet que faz tudo para a encobrir, meu Deus!, que é aquilo? A espantosa Marisa é maltratada em dois fados (o realizador vai ao ponto de lhe atirar para cima uma grande angular!). Camané salva-se, colado a um espelho, Carlos do Carmo atravessa uma das melhores cenografias, para Catarina Moura inventam um fado da Severa possível, Caetano Veloso acho-o magnífico na sua interpretação de “Estranha Forma de Vida”, Chico Buarque (em diálogo com Carlos do Carmo, com imagem do 25 de Abril em fundo) é emocionante no fado tropical, e a encenação da casa de fados aponta outro caminho para um filme sobre o fado.
Quarto equívoco: um genérico indigente.
Quinto equívoco: um filme sobre o fado rodado em estúdio, em Madrid. Realizar “Goya” com paredes de tecido branco e sombras chinesas, tinha a sua lógica. O efeito não tem lógica nenhuma num filme sobre o fado.
Sexto equívoco: pedir a um excelente director de fotografia português, Eduardo Serra, para fotografar Lisboa, para depois projectar os planos seleccionados, em estúdio, por detrás dos fadistas e bailarinos, em ecrãs de transparência que anulam toda a qualidade das imagens.
Enfim: “Fados” anda por aí e parece que muita gente gosta. Eu não gostei nada, com a ressalva de uma ou outra cena, que prometia um outro filme. O fado continua a justificar que os cineastas se aproximem dele. Basta não se quererem por em bicos de pés, e deixar de fazer malabarismos estéticos. O fado possui a emoção suficiente para nos prender apenas por aquilo que se ouve e se vê. O que o fado requer é um cineasta que assuma a grandeza de quase se apagar: olhar e escutar e devolver o que viu e ouviu. Basta isso.
Juro: corri para o cinema cheio de esperança de ver uma obra-prima sobre o fado de que tanto gosto. A obra está lá, mas a prima espanhola adulterou-a toda.
quinta-feira, novembro 16, 2006
MÚSICA: FADO
MARIZA EM BELÉM,
Em Setembro deste ano, Mariza cantou para Lisboa, junto à Torre de Belém. Acompanhava-a a Sinfoneta de Lisboa. Andei dias e dias a dizer que não me podia esquecer. Acabei mesmo por esquecer. Mas surgiu agora o DVD (e também o CD) e tive, finalmente, oportunidade de ver e ouvir Mariza nessa noite mágica. Sou fanático de Mariza. Acho que depois de Amália, poucas terão ido tão longe, ou chegado tão perto da perfeição. Ela tem tudo para ser o que é: uma voz impar, uma elegância de pássaro em voo rasante, o porte franzino que enche o palco mal o pisa, a modernidade do estilo, mas o classicismo da expressão, o olhar doce e gaiato de quem sabe que o fado é “tudo isto”, amargo e triste, amores infelizes e angústias latentes, mas também muito daquilo, alegria de viver e de amar, o olhar sobre as cidades e as pessoas, o quinhão de simpatia humana que nos toca a todos, esse beijo, esse sorriso, essa pele, essa cor, essa sensualidade boa e quente. Mariza é um regalo de ouvir, e sabe bem ser português, quando se descobrem poemas de Fernando Pessoa, Zeca Afonso, David Mourão-Ferreira, Reynaldo Ferreira, O´Neil, Florbela, Amália, e tantos e tantos outros, acompanhados por inspiradas melodias, tocadas por virtuosos nacionais, cantados por intérpretes como Mariza. Que querem mais, portugueses ingratos, filhos de um tão pequeno País, que tais glórias viu nascer? Mariza é um dos nossos orgulhos nacionais (mas reparem em Lisboa, seus filhos da mãe da desgraça coitadinha e da maledicência mediocre, vejam tão só Amadeu de Sousa Cardoso, Graça Morais, Cesariny, Noronha da Costa em Exposição, só para falar em pintura!, e isto é pouco?, é pouco?). Ouvi-la é um prazer total. O DVD não está mal captado, a direcção é correcta, o som só teve uma falha, é Mariza em Belém para a eternidade. Ouvir e voltar a ouvir, ver e rever.
David Mourão-Ferreira/Pedro Rodrigues
Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia
E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi
Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver
Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia





