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quarta-feira, agosto 01, 2012

DUAS VISITAS AO FADO


 O MUSEU DO FADO
O Museu do Fado existe. É um edifício não muito grande, mas muito bem tratado pela sua sábia directora, Sara Pereira, que tornou realidade um sonho, a acompanhar a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade. Encontra-se no Largo do Chafariz de Dentro, nº1, em Lisboa, numa zona castiça e fadista. Em frente ao Museu existe o largo do citado chafariz donde partem ruelas estreitas encastradas por casas de fado mais ou menos conhecidas.
Mas o Museu do Fado tem muito para contar, muito para se ver e ouvir, muito para recordar e aprender. “O Fado é um poema que se ouve e se vê”, lê-se lá pelas paredes da casa. É isso que se deve fazer, vendo o que dele se disse, desde a Ramalhal figura até quem considera o “fado a canção dos vencidos”, para se chegar ao fado actual, a romper pelas costura de talentos diversificados, para já não falar dos eternos, de Amália a Marceneiro, de Carlos do Carmo a Mariza.
Instrumentos, autores, músicos, fadistas, é toda uma galeria que vem do povo e sobe à aristocracia, e volta a subir ao povo, e estende-se à burguesia, e ultrapassa barreiras e fronteiras e se assume como a canção de um povo, partindo de uma cidade banhada pelo Tejo, que aqui lançou o seu canto de sereias e de marinheiros do destino. Há fados para todos os gostos e gostos para todos os fados. Sobre a sua origem pouco se sabe, ou se preferirem muito se conjectura, mas a verdade é que existe, está ali bem presente e é um prazer percorrer o curto labirinto deste estado de espírito tão português.
 O FADO NO CINEMA
Entretanto, surgiu há pouco uma Exposição Temporária, no Pátio da Galé, Terreiro do Paço, com entrada pela rua do Arsenal, aberta todos os dias, até 26 de Agosto de 2012, entre as 10h e as 19h, dedicada a “O Fado no Cinema”, uma produção conjunta do Museu do Fado e da Cinemateca Portuguesa.
Não será a exposição exaustiva que um dia será possível ver, mas é um bom início de caminhada, com um espaço bem ordenado onde se reúnem cartazes, programas, fotos, excertos de filmes, rostos de actores e fadistas, alguns dos fados mais conhecidos, e um longo excerto de um documentário, “Fado” de Aurélio Vasques e Sofia Portugal, uma co-produção do Museu do Fado com a Zulfilmes, que reúne testemunhos falados sobre o fado, na voz de alguns dos seus protagonistas, como Carlos do Carmo, Mariza, Camané, Beatriz da Conceição, Carminho, José Manuel Neto, Joel Pina, José Pracana, Rui Vieira Nery ou Maria do Rosário Pedreira.
Vale a pena não perder. É uma boa visita nestes dias mais ou menos soalheiros de verão. 

domingo, novembro 27, 2011

O NOSSO LUXO



PATRIMÓNIO IMATERIAL 
DA HUMANIDADE

O Fado é, a partir de hoje, por decreto régio da UNESCO, “Património Imaterial da Humanidade”. Na verdade, há muito que o era. Desde os tempos em que Amália o levou pelo mundo fora a galvanizar plateias de todas as línguas e credos.
Mas ainda bem que uma instância superior o declara. Para nós, portugueses, muitas vezes só o que vem de fora é que é bom. Para muitos, o fado é agora uma canção importante, “reconhecida” lá fora. Para mim, é-o desde criança, e sempre fui avesso a ver colar ao fado a chancela de “fascista”, de choradinho, de canção de putas ou de marialvas, de aristocratas decadentes, ou do que quer que seja. O fado, como qualquer forma de expressão artística, pode ser “aproveitado” por todos, mas não deixa de ser o que é, e pode ser tudo. Agora é “Património Imaterial da Humanidade”.
Dá que pensar.
Num país onde tudo o que cheira a arte e cultura é visto pelos poderes constituídos (infelizmente por quase todos) como algo de menor, algo de acessório, o que se corta primeiro quando há a cortar nalguma coisa, não deixa de ser sintomático que seja precisamente aí que somos grandes.
Em economia e finanças, somos “lixo”, em cultura somos “Património da Humanidade”, somos Nobel, somos tudo o mais. Até na arte do pontapé na bola, temos o melhor treinador do mundo e os melhores jogadores do mundo. Somos um pequeno país de poucos habitantes que desafia os colossos em todos os campos do saber e da sensibilidade. Temos os maiores entre os maiores desde Camões. Mas somos tratados nesse campo, cá dentro, como “lixo”, quando “lixo” são realmente aqueles que não nos sabem governar, nem politica, nem economicamente. “Lixo” não são aqueles que pagam impostos, trabalham, dão o melhor de si pelo país; “lixo” não são os que cantam, pintam, escrevem, compõem, filmam, encenam, interpretam, erguem monumentos, dançam, por vezes com a bola nos pés… Não, esses não são “lixo”.
Nestes campos, o mundo olha-nos com respeito e admiração e muitas vezes dizem que somos tão bons como os melhores.
Mas nestas áreas há sempre uns sabichões da política e da gestão, uns banqueiros e uns economistas que estão sempre a desacreditar o nosso talento, a chamar calaceiros e subsídio- dependentes, a insultar e amesquinhar quem oferece o suor e o sangue do seu talento.
Afinal são esses bem engravatados “senhores”, quase todos, com raras excepções, o “lixo” que nos afunda. Não os artistas. Esses são os que nos salvam da agonia provocada pela corrupção e a ganância. Quem traz dividendos ao país é a inteligência dos cientistas e a sensibilidade dos artistas. É nesses que devemos apostar.
Não é ai que está o lixo. Ai está o luxo. O nosso luxo.

PS. A atribuição da patente “Património Imaterial da Humanidade” acarreta direitos e deveres. Tudo bem. Esperemos, porém, que a ASAE da UNESCO não invente regras para domesticar o fado, não permitindo, por exemplo, que este seja cantado em tabernas com vinho tinto e chouriço que não tenha o controle de qualidade da EU. Ou que as cantadeiras tenham o registo criminal limpo a as licenças em dia.

sábado, julho 10, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 1

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ALDINA DUARTE POR OLGA RORIZ
Surpreendente espectáculo este que reúne Aldina Duarte e Olga Roriz, em “Aldina Duarte por Olga Roriz”. De Aldina Duarte devo dizer que há anos que gosto da voz e da emoção, e dessa forma peculiar e pessoal de cantar o fado. É uma das vozes novas do fado em Portugal que me seduz.
Um concerto de Aldina Duarte em pleno Festival de Teatro de Almada, por que não?
Mas a encenação de Olga Roriz transforma por completo os dados da questão. “Aldina Duarte por Olga Roriz” não é um concerto de Aldina Duarte, o que já de si seria de não perder, mas um espectáculo de fado, encenado de forma magnífica com uma sensibilidade e apuro de tom notáveis. Olga Roriz acerta em cheio na sua proposta. Um palco quase vazio, uma estrutura metálica ao fundo e dos lados, por onde podem correr cortinas castanhas, ao fundo meia dúzia de sofás para os músicos esperarem quando não estão em função, meia dúzia de cadeiras dispersas pelo palco, com focos de luz preparados para se iluminarem quando for o caso disso, e depois é a coreógrafa que funciona, encadeando movimentos e sons, voz e luz. Um piano inicia a caminhada. São doze fados, alguns mais tradicionais, onde se encontram a voz de Aldina Duarte e a viola e a guitarra, mas outras vezes a voz da fadista confronta-se com outros sons, pouco habituais ou completamente inesperados para um fado, como a harmónica, a concertina, a harpa, o piano ou a percussão.
O que prende é essa viagem iniciática de Aldina Duarte por um palco, pelo mundo, em busca de novos e velhos sons. Ela caminha em direcção a cada luz, encontra a seu lado um novo companheiro de viagem, e parte decidida à descoberta. São momentos inesquecíveis, uns pelo ajuste, outros pela dissonância, é o fado português a cruzar-se com outras ambiências sonoras e a manter a sua autenticidade. Sobre este espectáculo a coreógrafa afirma: “Porque me interessam os desafios que me lançam à descoberta e abrem caminhos inesperados, o meu primeiro impulso foi o de me debruçar sobre uma proposta musical para este concerto. Foi assim que me surgiu a ideia de propor à Aldina Duarte um encontro do fado com instrumentos que lhe são estranhos.” A ideia é excelente, o resultado brilhante. Ao que não é estranho um desenho de luzes perturbante e sedutor, intimista e espectral, sombras e silhuetas, evocação de ruelas e de becos, de tabernas e de casas de fado que se imaginam sem nunca serem indiciadas.
“Aldina Duarte por Olga Roriz”
Direcção e concepção musical de Olga Roriz; Intérpretes: Voz: Aldina Duarte; Músicos: Guitarra portuguesa: José Manuel Neto; Viola: Carlos Manuel Proença; Contrabaixo: Pedro Wallenstein; Piano: Manuel Paulo; Acordeão: João Lucas; Harmónica: Gonçalo Sousa; Percussão: Sebastian Scheriff; Harpa: Ana Isabel Dias; Consultoria musical Manuel Paulo; Espaço cénico: Pedro Santiago Cal; Desenho e operação de som: Francisco Leal; Desenho de luz Cristina Piedade; Duração: 1 hora; Classificação M/ 3; São Luiz, Teatro Municipal. Estreou a 9 de Julho, continua a 10, 16 e 17. A não perder.

quinta-feira, julho 09, 2009

FADO: CARMINHO

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CARMINHO
NO VAN GOGO


No Van Gogo, em Cascais, às quartas feiras, há fado. Esta quarta, a presença era a de Carminho, de quem tanto já lera, de quem já ouvira o recente CD, “Fado”. Não a tinha ainda visto “ao vivo” e o fado ao vivo é muito bonito, quando bem cantado. Fui ao Van Gogo, portanto, muito bem recebido pelo Miguel Capucho, que é a alma deste bar de há uns tempos a esta parte. Eu que não sou de bares, fiquei com vontade de regressar.
Mas falemos de Carminho. A voz é magnífica, de eleição, um pouco rouca, inconfundível, uma daquelas vozes que foram feitas para a dolência do fado, para a emoção do lamento da guitarra, para a alegria dorida da marcha do bairro popular, que outra forma de fado. Uma voz como raramente se descobre, numa jovem, de 24 anos. Com uma segurança de timbre notável, uma melodia de sílabas invulgar (pode descobrir-se um bom cantor pela forma como resolve a fraseologia do que canta, pelas pausas, pelo arrastar das sílabas, pelas forma como as ligas ou trunca).
Mas há mais. O fado bem cantado, canta-se com todo o corpo. Canta-se com a alma e com as vísceras, os músculos, os nervos. Olhos negros, cerrados, mãos crispadas, braços lançados como aves em arranque de voo, todo o corpo vibra com as palavras que se soltam da emoção. Aqui não há artifício, há sinceridade, entrega, espontaneidade, as palavras não se soltam somente da boca para o ouvinte, mas brotam do mais profundo, do mais íntimo de um corpo em entrega total.
Carminho, em 2009, é um cristal em estado puro. Felizes aqueles que a ouvem agora, que a vêem nesta altura da sua carreira. Mais tarde ou mais cedo, o cristal vai ser burilado, vai adquirir mais técnica, poderá melhorar o estilo, aprimorar o que há de pessoal na voz. Mas alguma que se irá perder, essa pureza quase inocente de quem se entrega toda ao seu fado, ao nosso fado. Foi um prazer enorme ver e ouvir Carminho. Mais uma carreira, uma vida a seguir com paixão.
Depois de Carminho ainda tivemos dois extras a registar: o próprio Miguel Capucho, e Cuca Roseta, que também não conhecia e que igualmente me impressionou muito. O fado em Portugal está bem e recomenda-se.

CARMINHO POR ELA PRÓPRIA
Chamo-me Carminho, tenho 24 anos, sou fadista e edito agora o meu primeiro álbum. Alguns de vós conhecem-me, já me ouviram cantar ou já ouviram falar de mim. Outros não fazem a mais pequena ideia de quem eu sou. Mas é para todos que eu conto aqui a minha pequena história.
Nasci Carmo Rebelo de Andrade, em Lisboa, filha da fadista Teresa Siqueira e de Nuno Rebelo de Andrade (que não canta mas que diz ser fadista também quem ouve). E, apesar de ter ido viver para o Algarve, o fado esteve sempre comigo. Os meus pais organizavam tertúlias de fado e em casa ouvíamos discos de Lucília do Carmo, de Fernando Maurício, de Amália Rodrigues... De volta a Lisboa, estreei-me a cantar em público, aos doze anos, no Coliseu. A partir daí comecei a cantar regularmente na Taverna do Embuçado, em Alfama, onde tive grandes mestres: a minha mãe, claro, mas também Beatriz da Conceição - com quem aprendi imenso -, Fernanda Maria, Alcindo Carvalho, Paquito, Fontes Rocha, memórias vivas da verdadeira essência do fado. Sentada na mesa da Bia, ouvia com atenção as mil e uma histórias de noites e fadistas. Os tiques e graças, tudo o que tinham para me ensinar... Mas o melhor era quando a luz se apagava e lá iam eles, dar-me a mais verdadeira das lições. Tenho também uma admiração profunda por outras pessoas do fado como Maria Teresa de Noronha, Maria José da Guia, Carlos do Carmo, Fernando Farinha, Camané, entre outros.
Há três anos concluí o meu curso de Marketing e Publicidade, mas ainda durante a faculdade percebi que o meu futuro - porque também já era o meu presente - era cantar fado. Depois de uma viagem à volta do mundo que durou um ano e em que participei em acções humanitárias na Índia, Camboja, Peru e Timor, consegui olhar-me de fora para dentro e descobrir que a minha verdadeira vocação era mesmo o fado.Voltei a cantar na casa de fados, a Mesa de Frades, onde estou todas as segundas e quartas-feiras, cantei na Casa da Música, na Festa do Fado (ao lado da minha mãe e do meu irmão Francisco), no espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo, na Expo de Saragoça e na recriação de «Amália à L'Olympia». Para trás, nesta minha história, ficou a participação, entre outros, no disco «Fado - Ontem, Hoje e Sempre», no filme «Fados», de Carlos Saura, e concertos na Argentina, Suiça e Malta. Recebi o Prémio «Revelação Feminina» da Fundação Amália Rodrigues.

Durante muitos anos, houve muita gente que me considerou a «grande esperança» do fado. A todos eles - e aos outros que sempre tiveram boas palavras para mim - agradeço-lhes do fundo do coração. Mas também tenho a dizer-lhes que esse carimbo, ia chamar-lhe esse fardo, caiu sobre os meus ombros como uma responsabilidade enorme. E, também por isso, só agora gravei o meu primeiro álbum. Até aqui, ainda não me tinha sentido capaz de vir a poder defender um disco inteiro, um pouco à semelhança de um bom trabalho de faculdade mas que depois tem que ser apresentado oralmente: a teoria pode estar perfeita mas se não estamos seguros da matéria, não a podemos defender.
O meu primeiro disco chama-se «Fado». Não podia, e digo-o com humildade, chamar-se outra coisa. Por respeito às minhas raízes, ao fado e a mim própria. E este disco sou eu. O meu passado (fados que sempre cantei), o meu presente (a evolução que o meu fado tem sofrido ao longo dos anos) e o meu futuro (em que irei, ainda mais, deixar-me guiar pela minha sensibilidade). Neste álbum tive a companhia de Diogo Clemente - produtor e violista deste disco, amigo e conselheiro que me acompanhou desde o início da escolha de reportório e até ao fim - e de alguns dos melhores músicos de fado: Ricardo Rocha, José Manuel Neto, Bernardo Couto e Ângelo Freire, todos na guitarra-portuguesa, e o viola-baixo Marino de Freitas, para além da participação especial do contrabaixista Carlos Barretto no tema «Espelho Quebrado». Sinto-me muito orgulhosa por existirem músicos como eles em Portugal e particularmente honrada por tê-los tido comigo.
Espero que gostem deste meu primeiro passo. / Carminho

CARMINHO NA CÂMARA DE JOÃO BOTELHO

João Botelho realizou cinco vídeo clips para Carminho. São momentos inspirados de um realizador apaixonado pelo fado e que o sente de forma muito particular na voz de Carminho. Aqui ficam como homenagem a ambos, à fadista, ao realizador. Com um abraço de amizade para ambos.

domingo, agosto 03, 2008

MARIZA SEMPRE!


MARIZA,"OH GENTE DA MINHA TERRA"!

Agora que lançou "Terra", um cd excelente (mais um!), de que ainda não há no "You Tube" nem "Rosa Branca" nem "Se eu Mandasse nas Palavras" (nem nenhum dos outros temas admiráveis!), aqui recordo dois dos seus temas mais espantosos. Sem nenhuma razão especial: apenas porque gosto.






domingo, junho 29, 2008

TERTÚLIAS DO FADO E DA INQUIETAÇÃO



Ontem, dia 27 de Junho, aconteceu mais um jantar da associação “Tertúlia do Fado e da Inquietação.” Reúnem-se no Centro de Congressos, ali para os lados de Belém, são jantares que oscilam entre os 70 e os 100 convivas, a intenção é confraternizar, ouvir e cantar uns fados, e convidar para cada repasto (cerca de 4 ou 5 por ano) alguém que fale da sua relação com o fado e o mais que adiante acontecer. Ontem o “convidado especial” fui eu, apresentado pela Mary com entusiasmo de amiga. Lá confessei a minha paixão pelo fado que vem desde os tempos de menino (os meus pais eram apreciadores, ouvia-se muito na telefonia, depois em discos de 78 rotações), citei Amália e Hermínia, falei do fado no cinema português e fui obsequiado, no final, com dois fados da minha predilecção cantados por uma médica de bela voz e emotiva postura, Anabela Paixão, que, se não fosse o facto de ser uma ilustre e indispensável pediatra, eu diria que tinha errado a profissão. Depois cantaram-se fados de Coimbra, nas vozes de Pedro Ramalho, Fernando Coelho Rosa, Manuel Relvas, acompanhados à viola e à guitarra por João Gomes e Alexandre Bateiras, e mais uma vez percebi como é bonito ver despretensiosos amadores exercerem uma arte que amam, e exercitarem-na pelo simples prazer de cantar. É o gosto da fama, segredam alguns. Nada disso. Claro que há o prazer de se fazerem ouvir, mas aqueles não precisam de fama para nada, são médicos, engenheiros, bancários, gestores, delegados de propagando médica, e muito mais, têm ou tiveram carreiras que os satisfizeram e encontram-se para cantar pelo prazer de cantar. Outros espontâneos apareceram antes do caldo verde da uma da manhã.
Numa sociedade cada vez menos solidária, egoísta, fechando-se cada um em si e em sua casas, sabe bem descobrir comunidades que procuram a comunicação pela comunicação, o diálogo, que falam e ouvem, que procuram a companhia e ainda se ofertam fados uns aos outros, depois do jantar, na medida das suas possibilidades, com vozes cristalinas ou roufenhas. Inscrevi-me como sócio. Lá estarei em próximas tertúlias, a ouvir "convidados especiais".

sexta-feira, junho 27, 2008

HOJE, JANTAR NA "TERTÚLIA DO FADO"



A presença aquii de Amália Rodrigues assinala um jantar, hoje, na "Tertúlia do Fado". Convidado, vamos falar do fado no cinema português, e em muito mais, claro. O jantar é, como sempre, na e-FIL, em Belém.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

MARIZA ABRE FAMAFEST

MARISA ABRE "FAMAFEST"
A 8 DE MARÇO DE 2008
EM VILA NOVA DE FAMALICÃO

Começa a 8 de Março (e prolonga-se até 16 de Março), o X Famafest, Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Vila Nova de Famalicão (Cinema e Literatura). Na noite de abertura, a voz mais desejada: Marisa. Não percam.

Não se trata de paixão de hoje. Há dois anos escrevi:
"(...) Sou fanático de Mariza. Acho que depois de Amália, poucas terão ido tão longe, ou chegado tão perto da perfeição. Ela tem tudo para ser o que é: uma voz impar, uma elegância de pássaro em voo rasante, o porte franzino que enche o palco mal o pisa, a modernidade do estilo, mais o classicismo da expressão, o olhar doce e gaiato de quem sabe que o fado é “tudo isto”, amargo e triste, amores infelizes e angústias latentes, mas também muito daquilo, alegria de viver e de amar, o olhar sobre as cidades e as pessoas, o quinhão de simpatia humana que nos toca a todos, esse beijo, esse sorriso, essa pele, essa cor, essa sensualidade boa e quente.
Mariza é um regalo de ouvir, e sabe bem ser português, quando se descobrem poemas de Fernando Pessoa, Zeca Afonso, David Mourão-Ferreira, Reynaldo Ferreira, O´Neil, Florbela, Amália, e tantos e tantos outros, acompanhados por inspiradas melodias, tocadas por virtuosos nacionais, cantados por intérpretes como Mariza. Que querem mais, portugueses ingratos, filhos de um tão pequeno País, que tais glórias viu nascer? Mariza é um dos nossos orgulhos nacionais (mas reparem em Lisboa, seus filhos da mãe da desgraça coitadinha e da maledicência mediocre, vejam tão só Amadeu de Sousa Cardoso, Graça Morais, Cesariny, Noronha da Costa em Exposição, só para falar em pintura!, e isto é pouco?, é pouco?). Ouvi-la é um prazer total. O DVD não está mal captado, a direcção é correcta, o som só teve uma falha, é Mariza em Belém para a eternidade. Ouvir e voltar a ouvir, ver e rever.

Moçambicana por nascimento, mas lisboeta da Mouraria desde os três anos, Mariza tem atravessado no sangue esse Portugal que foi fado em África e morna na capital do Império. Em 2001, ainda menina e moça, lança o álbum “Fado em mim” que vende até ser platina e atira com Mariza para o estrelato. Amo-a desde aí. Sim, porque nestas coisas ou se ama ou não se ama. Parte para o estrangeiro e soma sucesso sobre sucesso. Diz que o palco é a sua “sala de estar onde recebo os amigos” e eu sinto-me isso, um amigo, que, ao fim de cada concerto, corre para ela e a beija. Afinal acaba de nos dar momentos de felicidade e, não raro, as lágrimas correm-me, a mim, quando a ouço cantar. Quebeque, Nova Iorque, Hollywood, Londres, Paris, Frankfurt, Lisboa, Moscovo, Madrid, Barcelona, Los Angeles, Cairo, São Francisco, Chicago, as principais casas de espectáculo do mundo esgotam para a ouvir cantar. Uma nova Amália? Possivelmente, mas sobretudo uma nova grande cantora de fado, que consegue o que Amália sempre conseguiu: uma voz inigualável e uma personalidade impar. Ou seja, para se ser uma nova Amália, tem que se ser sobretudo diferente, não uma cópia, porque Amália nunca copiou ninguém. Mariza é também assim. Por ela passou todo o fado, mas ela só reteve o “seu” fado. “Melhor Artista Europeia na área de World Music”, pela BBC, diz que não escolheu o fado, que foi o fado que a escolheu. Não a conheço pessoalmente (mas quero conhecer, sim quero muito conhecer!), mas não fico indiferente aquela humildade que só os muito grandes conseguem ter, porque não precisam de se por em bicos de pés para sobressaírem. Eles já voam por cima dos demais, naturalmente. "O fado é um sentimento e não propriamente uma música". Em 2003, aparece o segundo álbum, “Fado Curvo”, mais prémios, por todo o lado. Os jornalistas estrangeiros residentes em Portugal reconhecem-lhe “a excelência na divulgação da cultura portuguesa, na sua manifestação mais característica: o fado” e consideram-na “Personalidade do Ano 2003”. Em 2004, edita o DVD que encerra o concerto realizado na Union Chapel, em Londres, e logo a seguir surge o novo álbum, “Transparente”. Agora um DVD, precioso, “Mariza, concerto em Lisboa”. Não percam. "

quinta-feira, novembro 01, 2007

FADOS


Hoje, como faço várias vezes, passei pelo blogue de "A Senhora Socrates", "uma classicista convertida a outros saberes que está a aprender a amar...", e que é uma boa companhia, pela sensibilidade, inteligência e cultura, e vi que ela tinha roubado a uma amiga, Marta, a letra de um fado. Ora, como gosto de fado, e gostei deste Fado, e como "Ladrão que rouba a ladrão...", aqui fica, em dia feriado.

Fado da dúvida (sem dúvida)

Se já não te lembras como foi
Se já esqueceste o meu amor,
O amor que dei e que tirei,
Não queria lamentar depois.

Mas uma coisa é certa, eu sei.
Não tive nunca amor maior.
E ainda vivo o que te dei,
Ainda sei quanto te amei,
Ainda desejo o teu amor.

Não tenho esperança de te ver,
Não sei amor onde andarás.
Pergunto a todo o que te vê
E nunca sei como estás.

Agora diz-me o que farei
Com a lembrança deste amor.
Diz-me tu, que não sei,
Se voltarei ou não para ti,
Se ainda quero o que sonhei.

(Texto de Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus, 2005)
Imagem: "Amália, a "Severa"

sábado, outubro 20, 2007

CINE ECO 2007 DIA 22


CINE ECO 2007
Programação

SEGUNDA FEIRA,

22 DE OUTUBRO DE 2007

AUDITÓRIO 1

DO CENTRO DE INTERPRETAÇÃO

DA SERRA DA ESTRELA

10,00 - Bicho Preto Nasce Branco, de Ângelo Lima (Brasil) 14’
Pirinop, Meu Primeiro Contato, de Mari Correia, Karané Ikpeng (Brasil) 83’

15,00 - Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes (Brasil) 15’
Multiplicadores, de Renato Martins e Lula Carvalho (Brasil) 20’
Profetas da Chuva e da Esperança, de Márcia Paraíso (Brasil) 15’
Discretas Afinidades, de Ana Neves (Portugal) 20’
O Fogo Controlado, de Francisco Manso (Portugal) 52’
A Casa, de Paulo Cartaxana (Portugal) 51’

AUDITÓRIO 2

DO CENTRO DE INTERPRETAÇÃO

DA SERRA DA ESTRELA
SALA DE HOMENAGENS


15,00 - Ciclo João Batista de Andrade:
WILSINHO GALILÉIA (1978) doc (proibido pelos militares em 1978)
GREVE! (1979) doc. de 35 minutos sobre a Greve dos Metalúrgicos que revelou Lula Prémio Especial do Júri, I Fest. Latino Americano de Havana, 1979)

18,00 - Homenagem a Ingmar Bergman: SÉTIMO SELO 96’

22,00 - Homenagem a Michelangelo Antónioni: BLOW UP

CINE-TEATRO DE SEIA

SECÇÕES PARALELAS

10,00 - SÓ ANIMAÇÃO: DIA DE SURF (Surf's Up), de Ash Brannon e Chris Buck (EUA, 2007), com vozes de Jeff Bridges, Zooey Deschanel, etc. M/4 anos; 85 minutos;
15,00 – UM CLÁSSICO: PLAYTIME - VIDA MODERNA (Playtime), de Jacques Tati (França, Itália, 1967), com Jacques Tati, Barbara Dennek, etc. M/12 anos; 155 minutos;
18,00 - CINEMA PORTUGUÊS: BELLE TOUJOURS, de Manoel de Oliveira (França, Portugal, 2007), com Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque, etc. M/12 anos; 68 minutos;
21,30 - Cerimónia de abertura oficial do Cine’Eco. Estreia de obra de Jorge Pelicano; Fados em 24 imagens por segundos, com Cátia Garcia; Guitarra portuguesa: Samuel Cabral; Viola: Nel Garcia; Contrabaixo: João Penedo.

sábado, outubro 06, 2007

VAVA.DIANDO COM CARLOS DO CARMO

VÁ.VÁ.DIANDO
12 º J A N T A R DA TE R T Ú L I A


18.10’07: 20H
R E S T A U R A N T E - C A F É V Á V Á
CONVIDADO ESPECIAL:
CARLOS DO CARMO
Vamos falar de Fado e de “Fados”

DEPOIS DE RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO e ROGÉRIO SAMORA, CONTINUAM OS JANTARES-ENCONTROS NA MELHOR TRADIÇÃO DAS TERTÚLIAS O CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

PRÓXIMOS CONVIDADOS
14 DE NOVEMBRO: CELINA PEREIRA (UMA VOZ DE CABO VERDE)
26 DE NOVEMBRO: OTELO SARAIVA DE CARVALHO
5 DE DEZEMBRO: RUY DE CARVALHO (a confirmar)
22 DE DEZEMBRO: JANTAR DE NATAL DO VAVA.DIANDO

TODOS ESTÃO CONVIDADOS MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA SIMBÓLICA QUANTIA: 12,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

RECUPEREM O BOM GOSTO DE UM SABOROSO JANTAR E DE UMA RECONFORTANTE CONVERSA À RODA DA MESA.
[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]

Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO / [Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/ ] [ mail: laproducine@gmail.com ]

RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761)

sexta-feira, outubro 05, 2007

CINEMA: FADOS


Acabei de ver “Fado”, de Carlos Saura.
Quando alguns se indispuseram com o facto de entidades portugueses (CML e ICAM, entre outros) poderem subsidiar este projecto de Carlos Saura, achei um disparate. Saura é um dos grandes cineastas europeus, um filme assinado por si terá sempre um bom mercado e falará de Portugal e da nossa cultura pelo mundo fora. Qualquer que fosse o resultado final do filme, acho que só seria proveitosa esta aproximação de Saura da nossa música, ele que já realizara dois filmes de que gosto bastante, um sobre Flamenco, outro sobre Tango. Para lá de uma espantosa “Carmen”. O Fado completaria a trilogia.
Estreado o filme, mantenho a opinião. Fizeram muito bem em apoiar a obra que já está a correr mundo.
Quanto ao filme, bem quanto ao filme, e tendo em conta a consideração que tenho por Saura, o melhor será começar a conter-me. Deverei então dizer que há inúmeros equívocos e que Saura raramente acerta. Devo colocar a abrir que adoro fado e que um dos sonhos da minha vida seria fazer um filme sobre o fado. Antes de ver os “Fados” de Saura pensei que essa hipótese me estava vedada para sempre, pois o cineasta espanhol iria assinar a obra definitiva. Infelizmente está muito longe disso.
Primeiro equívoco: mostrar que o fado nasceu de múltiplas influências e se projecta noutras tantas. A base de aposta é certa, o que Saura nos mostra não é. O filme perde coerência, funciona como programa de variedades de um TV de anos 60, com mais alguns apetrechos técnicos, e pouco mais.
Segundo equívoco: Saura diz, e tenta demonstrar, que o fado se dança. Engano, pelo menos não se dança da forma que ele o tenta mostrar. As sequências dançadas (e como são muitas, imensas!) são um verdadeiro desastre. Parece que estamos numa má revista do Parque Mayer (que teve dinheiro para contratar primeiras bailarinas de flamengo e outras!) e que resolveu ilustrar fados com danças, como tantas vezes fez. Ora a pinderiquice do Parque Mayer às vezes colava bem com o fado. A dança estilizada proposta por Saura nunca cola bem. Nunca cola sequer. Voltamos a relembrar péssimos programas de fados da RTP Memória, com a fadista ao centro e um grupo de ballet esvoaçando por perto.
Terceiro equívoco: Depois de ver esta obra fiquei com uma certeza, que já tinha, mas agora reforçada, pelo absurdo: o fado é para ser ver e ouvir. Quando Saura cola a câmara ao rosto de Argentina Santos, ou de Cuca Roseta, a emoção sobre e percebe-se o que será um filme sobre o fado. Quando coloca a fabulosa Lila Downs perdida no meio de um grupo de ballet que faz tudo para a encobrir, meu Deus!, que é aquilo? A espantosa Marisa é maltratada em dois fados (o realizador vai ao ponto de lhe atirar para cima uma grande angular!). Camané salva-se, colado a um espelho, Carlos do Carmo atravessa uma das melhores cenografias, para Catarina Moura inventam um fado da Severa possível, Caetano Veloso acho-o magnífico na sua interpretação de “Estranha Forma de Vida”, Chico Buarque (em diálogo com Carlos do Carmo, com imagem do 25 de Abril em fundo) é emocionante no fado tropical, e a encenação da casa de fados aponta outro caminho para um filme sobre o fado.
Quarto equívoco: um genérico indigente.
Quinto equívoco: um filme sobre o fado rodado em estúdio, em Madrid. Realizar “Goya” com paredes de tecido branco e sombras chinesas, tinha a sua lógica. O efeito não tem lógica nenhuma num filme sobre o fado.
Sexto equívoco: pedir a um excelente director de fotografia português, Eduardo Serra, para fotografar Lisboa, para depois projectar os planos seleccionados, em estúdio, por detrás dos fadistas e bailarinos, em ecrãs de transparência que anulam toda a qualidade das imagens.
Enfim: “Fados” anda por aí e parece que muita gente gosta. Eu não gostei nada, com a ressalva de uma ou outra cena, que prometia um outro filme. O fado continua a justificar que os cineastas se aproximem dele. Basta não se quererem por em bicos de pés, e deixar de fazer malabarismos estéticos. O fado possui a emoção suficiente para nos prender apenas por aquilo que se ouve e se vê. O que o fado requer é um cineasta que assuma a grandeza de quase se apagar: olhar e escutar e devolver o que viu e ouviu. Basta isso.
Juro: corri para o cinema cheio de esperança de ver uma obra-prima sobre o fado de que tanto gosto. A obra está lá, mas a prima espanhola adulterou-a toda.

quinta-feira, novembro 16, 2006

MÚSICA: FADO



MARIZA EM BELÉM,
PARA SEMPRE

Em Setembro deste ano, Mariza cantou para Lisboa, junto à Torre de Belém. Acompanhava-a a Sinfoneta de Lisboa. Andei dias e dias a dizer que não me podia esquecer. Acabei mesmo por esquecer. Mas surgiu agora o DVD (e também o CD) e tive, finalmente, oportunidade de ver e ouvir Mariza nessa noite mágica. Sou fanático de Mariza. Acho que depois de Amália, poucas terão ido tão longe, ou chegado tão perto da perfeição. Ela tem tudo para ser o que é: uma voz impar, uma elegância de pássaro em voo rasante, o porte franzino que enche o palco mal o pisa, a modernidade do estilo, mas o classicismo da expressão, o olhar doce e gaiato de quem sabe que o fado é “tudo isto”, amargo e triste, amores infelizes e angústias latentes, mas também muito daquilo, alegria de viver e de amar, o olhar sobre as cidades e as pessoas, o quinhão de simpatia humana que nos toca a todos, esse beijo, esse sorriso, essa pele, essa cor, essa sensualidade boa e quente. Mariza é um regalo de ouvir, e sabe bem ser português, quando se descobrem poemas de Fernando Pessoa, Zeca Afonso, David Mourão-Ferreira, Reynaldo Ferreira, O´Neil, Florbela, Amália, e tantos e tantos outros, acompanhados por inspiradas melodias, tocadas por virtuosos nacionais, cantados por intérpretes como Mariza. Que querem mais, portugueses ingratos, filhos de um tão pequeno País, que tais glórias viu nascer? Mariza é um dos nossos orgulhos nacionais (mas reparem em Lisboa, seus filhos da mãe da desgraça coitadinha e da maledicência mediocre, vejam tão só Amadeu de Sousa Cardoso, Graça Morais, Cesariny, Noronha da Costa em Exposição, só para falar em pintura!, e isto é pouco?, é pouco?). Ouvi-la é um prazer total. O DVD não está mal captado, a direcção é correcta, o som só teve uma falha, é Mariza em Belém para a eternidade. Ouvir e voltar a ouvir, ver e rever.

Moçambicana por nascimento, mas lisboeta da Mouraria desde os três anos, Mariza tem atravessado no sangue esse Portugal que foi fado em África e morna na capital do Império. Em 2001, ainda menina e moça, lança o álbum “Fado em mim” que vende até ser platina e atira com Mariza para o estrelato. Amo-a desde aí. Sim, porque nestas coisas ou se ama ou não se ama. Parte para o estrangeiro e soma sucesso sobre sucesso. Diz que o palco é a sua “sala de estar onde recebo os amigos” e eu sinto-me isso, um amigo, que, ao fim de cada concerto, corre para ela e a beija. Afinal acaba de nos dar momentos de felicidade e, não raro, as lágrimas correm-me, a mim, quando a ouço cantar. Quebeque, Nova Iorque, Hollywood, Londres, Paris, Frankfurt, Lisboa, Moscovo, Madrid, Barcelona, Los Angeles, Cairo, São Francisco, Chicago, as principais casas de espectáculo do mundo esgotam para a ouvir cantar. Uma nova Amália? Possivelmente, mas sobretudo uma nova grande cantora de fado, que consegue o que Amália sempre conseguiu: uma voz inigualável e uma personalidade impar. Ou seja, para se ser uma nova Amália, tem que se ser sobretudo diferente, não uma cópia, porque Amália nunca copiou ninguém. Mariza é também assim. Por ela passou todo o fado, mas ela só reteve o “seu” fado. “Melhor Artista Europeia na área de World Music”, pela BBC, diz que não escolheu o fado, que foi o fado que a escolheu. Não a conheço pessoalmente (mas quero conhecer, sim quero muito conhecer!), mas não fico indiferente aquela humildade que só os muito grandes conseguem ter, porque não precisam de se por em bicos de pés para sobressaírem. Eles já voam por cima dos demais, naturalmente. "O fado é um sentimento e não propriamente uma música". Em 2003, aparece o segundo álbum, “Fado Curvo”, mais prémios, por todo o lado. Os jornalistas estrangeiros residentes em Portugal reconhecem-lhe “a excelência na divulgação da cultura portuguesa, na sua manifestação mais característica: o fado” e consideram-na “Personalidade do Ano 2003”. Em 2004, edita o DVD que encerra o concerto realizado na Union Chapel, em Londres, e logo a seguir surge o novo álbum, “Transparente”. Agora este DVD, precioso, “Mariza, concerto em Lisboa”. Não percam.

Nele se pode ouvir o seu fado preferido, como ela própria o confessa. Poema de David Mourão-Ferreira, pois claro!, um dos maiores poetas portugueses do amor. Aqui fica:
Primavera
David Mourão-Ferreira/Pedro Rodrigues

Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

para saber mais sobre Mariza aqui.