quarta-feira, novembro 08, 2006

CINEMA: Bastidores da Rádio


“A PRAIRIE HOME COMPANION
– BASTIDORES DA RÁDIO”

Não se deixe iludir pela ficção: “A Prairie Home Companion”, o título original deste filme de Robert Altman, é mesmo o nome de um dos mais antigos programas de rádio dos EUA. (uma criação de Garrison Keillor, que data de 1974, e que já cumpriu mais de 32 anos no ar, em transmissão, directa e com público, do Fitzgerald Theater, em St. Paul, no Minnesotta), e igualmente um dos mais escutados semanalmente, com audiências que rondam os 4 milhões de ouvintes. O filme que Robert Altman dirigiu parte de um argumento do próprio Garrison Keillor, que construiu uma ficção “dentro” da própria realidade que é o seu programa.
No filme, e só no filme, o programa de rádio está a dar as últimas, esta sessão a que assistimos será a derradeira, o teatro (que homenageia F. Scott Fitzgerald, filho da terra) vai ser demolido e transformado num parque de estacionamento. Empresários isentos de nostalgia compraram a estação de rádio e preferem arrasá-lo e terraplanar o terreno para fins mais rentáveis.
O filme assemelha-se a um limbo, terra de ninguém, entre o que foi e o que deixa de ser, entre o que está e o que vai desaparecer, entre a vida e a morte, com anjo que recolhe as almas e tudo. Robert Altman já ultrapassou os oitenta anos, está doente, os produtores temiam que não conseguisse acabar o filme e tinham mesmo de prevenção Paul Thomas Anderson para o substituir na realização, numa eventualidade (percebe-se qual ou quais poderiam ser).Mas o anjo não esvoaçou por ali de gabardina branca. Esvoaçou por sobre todo o filme que fala de perca, de morte, de desaparecimento, mas que o faz com uma galhardia e uma tranquilidade que desarmam. Tranquilidade e serenidade de vivos que vêem a morte aproximar-se (a morte dos seus sonhos, a morte de uma certa ideia da rádio e dos teatros, a morte dos amigos, a sua própria morte) e não desarmam. Aguentam firmes, até ao final. Com uma esperança e um sorriso nos lábios. Ou em cuecas, á espera de uma última lição de amor.

Altman é, há muito tempo, um dos meus cineastas de estimação. Há alguns anos atrás, 1975 ou 1976, quando a crítica cinematográfica tinha peso neste país, e o que escrevíamos podia fazer ou desfazer a carreira de um filme, estreou-se no Berna um filme fabuloso, “Nashville”. Passou uma semana rápida, nem tempo teve para a crítica fazer efeito. Convenci então a directora do Nimas, a repô-lo nessa sala, aproveitando-se de uma critica muito apaixonada que então escrevi, e o filme transformou-se num dos sucessos do ano. Altman bem o mereceu, e “Nashville”, sobre a canção “country”, era uma obra-prima que definia um estilo e um autor de génio.
“A Prairie Home Companion – Bastidores da Rádio” é mais uma daquelas obras construídas em puzzle, que só o talento de cineastas inspirados consegue tornar possíveis. Entre o palco e os bastidores do Fitzgerald Theater evoluem várias personagens que se despedem de um espectáculo a que se entregaram de corpo e alma. Desde o apresentador que recita anúncios, promove os cantores, canta ele próprio, conta anedotas e improvisa nos tempos mortos, até os cantores que em girândola passam pelo palco do teatro (e pelo microfone da estação) para deixaram as suas canções emocionadas e sentimentais, destinadas “a toda a família”, passando por técnicos que asseguram o bom funcionamento da engrenagem, e pelos músicos da orquestra que acompanham ao vivo as actuações e encadeiam as melodias, são dezenas de figuras amáveis e destruídas, que todavia não dão parte de fraco e cada uma delas procura retirar da vida, mesmo nos seus últimos instantes, o que ela tem para dar de melhor. Apenas uma jovem foge à regra, escreve desencantados poemas de elogio do suicídio, e acabará uma tecnocrata com jeito para o negócio, administrando os capitais da mãe, que, no entanto, os prefere gastar num autocarro para prolongar a vida desta família de músicos em tournée.

Mas há um pouco de tudo que acaba nesta galeria de tipos inesquecíveis: duas cantoras que restam de um grupo de quatro que se foi desfazendo, e cantam baladas à mãe morta que gostava de as ouvir, dois cowboys que cantam para as pradarias, e se despedem do público com uma canção brejeira, um velho cantor que, acabada a actuação, morre no camarim, de cuecas, esperando a visita da amante que distribui sandes pela companhia, e sonha com os seus braços e abraços (e mesmo algo mais). Há ainda um detective particular, que não consegue já outro lugar senão o de segurança estiloso neste teatro, um homem que fareja o perigo, e o deixa passear sob a aparência de um anjo branco, pelos bastidores do programa. Há ainda um representando da empresa que vem assistir ao final da representação, no interior de um envidraçado camarote, onde estranha a presença de um busto de alguém que não lhe diz nada, mas é apenas o rosto de F. Scott Fitzgerald. Há ainda contra-regras e anotadoras, uma cantora negra que anuncia as delícias do chocolate, e há sobretudo, duas realidades incontornáveis: a mestria de Robert Altman a dirigir a câmara, que passeia com uma dignidade, elegância e leveza sem par, e a direcção de actores, absolutamente geniais. Meryl Streep, sublime em tudo o que faz, no que diz, nos gestos, nos olhares, Garrison Keillor, uma descoberta surpreendente, a conduzir o programa, recriando a sua própria personagem real, Lily Tomlin, magnifica nos duetos com a irmã, Woody Harrelson e John C. Reilly, uma dupla de cantores-cowboys inesquecíveis, Virginia Madsen, na “Dangerous Woman”, que se passeia pelo filme e leva consigo os que estão na altura certa para partir (o notável L.Q. Jones, na composição de Chuck Akers) ou os que “o merecem” (“Axeman”, criado a rigor por um comedido e circunspecto Tommy Lee Jones). Falta referir o detective “Guy Noir”, que Kevin Kline compõe de forma primorosa, com alguns tiques saborosos, que lhe emprestam uma graça muito especial.

Um elenco verdadeiramente admirável, uma direcção que se assemelha ao rolar do mecanismo de um relógio perfeito, silencioso e preciso. A câmara movimenta-se como um pássaro em noite tépida, desliza, aponta, perscuta, detém-se e avança. É um bailado que se estabelece entre o palco e os bastidores da vida que aqui se assemelha a um programa de rádio condenado à morte. Todos nós estamos condenados, desde o nascimento. Mas o que o velho Altman nos diz é que enquanto por cá andarmos, o façamos com a maior das alegrias, aproveitando bem o dia que passa. Pondo de lado os poemas suicidas, e ajustando conta com os que só pensam no negócio. Afinal, neste filme a morte está sempre presente, sob a forma de uma loura vamp vestida de branca, ou sob muitos outros disfarces, mas, se é inexorável, nunca é “o fim do mundo”. O mundo continua a girar, e atrás de programas de rádio, programas de rádio virão. Mesmo em tournée. Não nos levemos muito a sério, porque a vida continua.

“A Prairie Home Companion – Bastidores da Rádio”, de Robert Altman (EUA, 2006), com Meryl Streep, Garrison Keillor, Lily Tomlin, Woody Harrelson, John C. Reilly, Virginia Madsen Tommy Lee Jones, Kevin Kline, etc. 105 minutos. M/ 12 anos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

PARA SEMPRE

VERGÍLIO FERREIRA
(1916-1996)


Foi em Seia que conheci Vergilio Ferreira, durante a rodagem de "Cântico Final", de Manuel Guimarães.

Foi em Seia que preparei "Prefácio a Vergilio Ferreira", "Vergilio Ferreira numa "Manhã Submersa" e "Manhã Submersa".
Foi em Seia que estive instalado, na estalagem da cidade, com a equipa de filmagens, durante e rodagem de "Manhã Submersa".
Foi em Seia que iniciei, há doze anos, um festival de cinema e ambiente, o "Cine Eco".
Foi em Seia, no I Cine Eco, em 1995, que fiz a primeira homenagem a Vergilio Ferreira, num ciclo cinematográfico a que dei o título "Vergilio Ferreira, a Serra e o Cinema" (que está na origem de um livro, hoje completamente esgotado).
É de Seia que parto todos os anos, durante a época do Festival, numa fuga às sessões de cinema, para visitar Melo, terra natal de Vergilio Ferreira, e Linhares da Beira, terra onde filmei grande parte de "Manhã Submersa".
De Seia parto, todos os anos, depois de 1996, rumo a Melo e Linhares, com a saudade nos olhos, junto de amigos que amo e com quem quero compartilhar o silêncio da perca e a alegria da criação. Com a Serra por testemunha, por ali morro um pouco, por ali renasço a cada ano.
Este ano, mais uma vez assim foi. Faz 90 anos que Vergilio Ferreira nasceu, faz 10 anos que faleceu. No cemitério local, a lápide cinzenta, recorda o nome do escritor, virado à Serra que o viu nasceu e o recolheu depois da morte. Na aldeia, com placa a sublinhar o facto, lá está a casa onde nasceu e onde filmei a mãe do escritor caminhando para a câmara, ao longo de um corredor fantasmático, num dos planos mais bonitos do "meu" cinema. ("Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre").
Ali está. Para Sempre. Um escritor para a Eternidade.

A casa onde nasceu.

A campa, a assinatura para a eternidade.

virado à serra, onde nasceu, onde se recolheu.

PS. Queria tanto mostrar-te Linhares, visitar contigo os lugares mágicos, onde com dor e alegria se cria. Não deu. Mas mandaste-me uma página da "Manhã Submersa", na letra inconfundível de Vergilio Ferreira. Momentos de criação que se misturam com outros, de destruição. Olha a escrita, minúscula, atormentada, as palavras, a rasura, a obstinação, a procura, o escreve e rescreve, a dureza aqui, a leveza além, a tortura de criar.

domingo, novembro 05, 2006

(QUASE) SMS

(QUASE) SMS SEM DESTINO

1.

Sento-me nos penhascos frente ao mar e espero que ela apareça. Na ilha, passeiam fantasmas do passado. Falo-lhe, mas ela não ouve. Por amor podemo-nos anular para estar ao lado de quem se ama? Passar para o outro lado? Seguir os fantasmas, “a mulher com o lenço colorido atado á cabeça”? Eis “A Invenção de Morel”, de Adolfo Bioy Casares. Um belíssimo livro fantástico. Sabes? Acaba de sair “Diário da Guerra aos Porcos”, do mesmo, na “Cavalo de Ferro” (editora). Já tenho, vou ler.


2.

Ouvi um tema, gostei muito, encomendei via Amazon e chegaram os dois CDs: “Musica Nuda”, 1 e 2, de Petra Magoni e Ferruccio Spinetti, voz e contrabaixo. Ouço, enquanto escrevo. É boa companhia. “Non Andare Via”. Uma recuperação de grandes temas, numa interpretação totalmente nova. Dois instrumentos apenas: uma voz magnifica, um contrabaixo em sincronia ou em dissonia. O que se pode fazer a duas vozes: tudo, até em confronto.


3.

A Márcia Guerra trouxe do Brasil, “Meus Momentos”, de Simone. Oferta carinhosa. “Jura Secreta”, “Maria, Maria”, “Voltando”, “Começaria Tudo Outra Vez”. Gosto de Simone, gosto de música brasileira. Ajuda a matar saudades dos “fins de tarde em Tapoã”. Tapoã pode ser todo o Brasil, ou “onde um homem quiser”.


4.

Recomeçou a sair, com o “Público”, a colecção “Os Poemas da Minha Vida”. Primeiro volume da nova série, dedicado a Eunice Muñoz, a “Diva”. Uma das mulheres da minha vida. A fechar a selecção, um belíssimo poema de amor, da autoria de António Barahona, dedicado à “Diva”:

NO ANIVERSÁRIO DA DIVA
Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas

Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:

somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida


5.

Entre 10 e 25 de Novembro, no São Luiz, “Conversas de Camarim”, um espectáculo de Simone de Oliveira e Vítor de Sousa. Ao Piano, Nuno Feist. No vídeo, Frederico Corado. Muita merda para todos, e um beijo ao Fred.


6.

A partir de 14 de Novembro, na Livraria Barata, em Lisboa (Av. de Roma), todas as terças, às 19 horas, “Fins de tarde com cinema”. De início, para suavizar os dia que antecedem o Natal, “Fred Astaire/Ginger Rodgers”, 7 filmes, 7 viagens sobre as nuvens. Dia 14 faço a apresentação do ciclo, que conta com a colaboração da Costa do Castelo.


CINEMA - Uma Familia ...


UMA FAMILIA À BEIRA
DE UM ATAQUE DE NERVOS


“Little Miss Sunshine”, dirigida pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris (casados entre si e especialistas em videoclips e publicidade), com argumento de Michael Arndt, é uma excelente comédia sobre o actual estado do “american way of life.” Dizem as boas, ou más-línguas, que o argumentista se lembrou de escrever este guião quando ouviu o Governador da Califórnia, o actor Arnold Schwarzenegger, declarar: “Se há algo que eu desprezo são os perdedores.” Resolveu, portanto, fazer uma obra onde se colocam em confronto “vencedores” e “vencidos” da vida, numa América governada por George Bush (aparece na televisão, mas esta é de imediato desligada com evidente mal estar, por quem o está a – não – querer ouvir) num estilo de comédia “com moralidade agregada”, muito ao jeito de Frank Capra e outros que tais. Mestres na arte de fazerem pensar com uma boa gargalhada ou um sorriso inteligente.
Tudo se passa no interior de uma família, os Hoover, que aqui simbolizam uma certa ideia da América. Richard Hoover (Greg Kinnear), dá conferencias, ou acções de formação, ou aulas, sobre “como ser um vencedor” e tenta mesmo vender, como “best seller” (ou não fosse ele próprio um “vencedor”), o segredo do sucesso no volume “Nine Steps to Success,” que, todavia, se revela um fracasso total e arruína a família, logo no dia em que viajam de Albuquerque, New Mexico, onde habitam, para a Califórnia, onde irá decorrer o concurso “Little Miss Sunshine”. O falhanço do livro cria fricção com a mulher, Sheryl Hoover (Toni Collette), uma hiper agitada dona de casa que chega a falar em divórcio, e tudo tenta controlar. Ela tem mesmo muito que fazer, desde ir recolher ao hospital o irmão, Frank (Steve Carell), que acaba de sobreviver a uma tentativa de suicídio, o filho Dwayne (Paul Dano), que quer ser aviador e se recusa a falar, impondo-se um voto de silêncio inspirado em Nietzsche, e que jura durar até tirar o brevete, e ainda Olive Hoover (Abigail Breslin), uma miudinha de seis anos, filha do casal, de olhar vivo e pergunta acelerada, que vive agitada os dias que antecedem a sua participação no concurso já aludido. Falta ainda falar do avô Edwin Hoover (Alan Arkin), velho resmungão, obcecado por sexo e revistas porno, “bem porcas”, que se droga com heroína e morre de overdose pelo caminho.
Esta família assume assim diversas características da sociedade norte americana actual, povoada por fantasmas que vão desde o mito do vencedor, que “quer ser um vencedor”, que julga ter a receita, mas que falha rotundamente, ao auto marginalizado, que deliberadamente deixa de ter voz, à mulher, hiper eficiente, ao professor universitário homossexual que tem um “affair” com um aluno, e desiste de viver quando se descobre duplamente atraiçoado, pelo jovem que escolhe outro professor para viajar, e por esse mesmo colega de profissão que é considerado “o maior especialista em Proust da América” (quando Frank se considera a si mesmo “o primeiro especialista em Proust” dos EUA). Também a jovem Olive quer ser vencedora do Concurso, sobretudo para que o pai goste dela (se perder, ele não a considera mais). Num país de “vencedores”, que não aceitam a derrota, nem sequer serem segundos, esta família de derrotados da vida atravessa as estradas da América para ofertar uma filha no altar da mais completa mediocridade: um concurso de beleza para menininhas de seis / sete anos que se saracoteiam, dançam e cantam como pequenas Barbies travestidas de “lolitas” de encomenda, caracterizadas a preceito para o acto de sedução pública em cima de um palco.
“Road Movie”, um sub-género tão particular dos americanos quando querem falar do País, “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” desenvolve-se ao longo de uma atribulada viagem, durante a qual a própria carrinha vai perdendo o controlo de si próprio, só arranca de empurrão e não tem travões, obrigando os passageiros a saltar para o seu interior em andamento. Viagem que irá terminar frente a um hotel da Califórnia onde decorre o inusitado concurso dos pequenos “monstros” que querem ser Miss Little Sunshine.” È durante este espectáculo de menoridade mental que a família se assume como uma célula articulada, e afinal unida, impondo as suas regras perante a hipocrisia reinante e fazendo-se ouvir a uma só voz. O que oferece ao filme uma aragem de confiança no futuro, muito embora o horizonte se encontre perturbadoramente negro. Mas afinal pode haver autênticos “vencedores”, quando se recusa “ser um vencedor”. Uma verdade difícil de engolir na América de George Bush, mas uma verdade a ganhar adeptos de dia para dia: veja-se o sucesso do filme no interior da própria América do Norte (e em todo o mundo). Tendo custado apenas 8 milhões de dólares, já fez mais de 40 milhões de dólares de receita, nos EUA desde o seu lançamento no Sundance Festival, onde foi premiado. Justificamente.
Uma das grandes comédias deste ano, e um excelente candidato a vários Oscars: desde o argumento ao conjunto das interpretações, todas elas admiráveis na forma como criam personagens algo excêntricos, sem caírem na caricatura fácil.
UMA FAMILIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Little Miss Sunshine), de Jonathan Dayton, Valerie Faris (EUA, 2006); com Abigail Breslin, Greg Kinnear, Paul Dano, Alan Arkin, Toni Collette,

CINE ECO 2006: Curiosidades videográficas

CERIMÓNIA DE
ABERTURA DO CINEECO:
Como tenho alguma dificuldade
em colocar os videos directamente,
o amigo Luis Silva, do "Oceano de Palavras",
que gravou os vídeos em questão,
para a Serra da Estrela TV (Seia),
endereçou-me estes links.
São duas curiosiodades videograficas
que aqui ficam registadas.
1. Lili Caneças no Festival, aqui:
2. Cerimónia de abertura,
com temas cantados por Wanda Stuart:

sábado, novembro 04, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 5

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
6.
Obras da Lusofonia
(Brasil)


Do Brasil, outro forte contingente de obras chegou a Seia, durante o Cine Eco 2006. Forte contingente em número, não particularmente excitante em qualidade. Muitas das obras possuíam inegáveis qualidades e interesse, mas a quase todas faltou o golpe de asa para se elevarem da mediania. Recuperemos de memória alguns traços mais salientes:

“Kiarasã Yõ Sâti, O Amendoim da Cutia”, de Komoi Panará e Paturi Panará, uma produção de “Vídeo nas Aldeias”, retrata, de dentro, numa visão dos próprios autóctones, o quotidiano da aldeia Panará na colheita do amendoim, apresentado por um jovem professor, uma mulher “pajé” e o chefe da aldeia. É uma curiosa aproximação etnográfica e antropológica que merece inteiramente um olhar atento.
“O Pontal do Paranapanema”, de Francisco Guariba, opta por contar a história de uma região onde os conflitos pela terra duram há mais de um século. Através de depoimentos, traça um panorama sócio–ambiental do processo de ocupação da região e dos seus problemas actuais.
“O Profeta das Águas”, de Leopoldo Nunes, viaja até Rubinéia, São Paulo, barranca do Rio de Janeiro, onde vive Aparecido Galdino, o “Profeta das Águas”. Durante a década de 1970 ele passou por intensos episódios: foi preso e torturado pela ditadura militar e cumpriu pena num manicómio judiciário. Para além de abençoar e curar o povo das doenças, ele defendia os trabalhadores rurais contra a desapropriação das suas terras pela inundação da hidroeléctrica da Ilha Solteira… Uma interessante aproximação que mistura crendices populares, resistência à ditadura e luta pela terra, num Brasil rural.

“Avá – Canoeiro, A Teia do Povo Invisível”, de Mara Lúcia Alencastro Veiga, mais uma vez na senda da etnografia e antropologia, tenta recuperar a história de um povo, Avá – Canoeiro, nação indígena que, por volta de 1760, contava com três mil nativos, ocupando um vasto território no Centro Oeste do Brasil, e que a colonização portuguesa e a posterior ocupação da área por fazendas de gado e lavoura provocou um verdadeiro massacre nesta nação guerreira, hoje praticamente extinta.
“Quando a Ecologia Chegou”, de Pedro Novaes, aborda a relação entre as áreas protegidas e as comunidades locais no Brasil, discutindo os impactos da criação de duas destas áreas sobre os modos de vida de populações nativas e caminhos para a construção de alianças entre estas comunidades e a conservação da natureza. Pedro Novaes, filho de Washington Novaes, prossegue as preocupações familiares, com um filme inteligente e interventivo, mas com um estilo onde se sente demasiado a montagem, numa manipulação de imagens que ofusca a clareza da exposição.

“Muitchareia, um Passeio pelo São Francisco”, de Uliana Duarte, procura estabelecer um recorte poético da relação do homem da região com o rio São Francisco, que viaja de Pirapora, Minas Gerais, até Petrolina, Pernambuco. O filme contém depoimentos de pessoas que se encontram envolvidas de diferentes formas com o meio-ambiente, desde Cícero, um piloto reformado dos antigos barcos a vapor, até ao bispo D. Luís Flávio Cappio, que levou a cabo uma greve de fome que encerrou o procedimento de transposição do rio.
“SOS Amazónia”, de Pedro Saldanha Werneck, focaliza a atenção na maior floresta tropical do planeta que corre sérios riscos. Actividades ilegais, como as queimadas e os derrubes de árvores, representam perigos para toda a Humanidade. Tudo o que se descobre leva a compreender por que é que a situação se agravou tanto. O filme grita por socorro pela Amazónia Brasileira.

“Brasil” e “É da Raiz”, ambos de Ângelo Lima, são dois curtos documentários, o primeiro, concebido como homenagem ao monumento erigido para o Movimento às Nações Indígenas, criado pelo artista Siron Franco, e que foi selvaticamente destruído, o segundo, passado num bar, por entre doses de bebidas alcoólicas, que se afirmam milagrosas. Misturando-se tudo, chega-se a uma cura mais rápido. É na raiz que está a solução dos problemas do povo brasileiro, afirma o realizador, com alguma ironia.
No desenho animado, “Bartó”, de Luís Botosso e Thiago Veiga, é uma curta que aborda a acção nociva do homem sobre a natureza, de forma leve e animada para atingir um público infantil, o mesmo se podendo dizer de “Peixe Frito”, de Ricardo George de Podestá, outra animação, durante a qual um avô ensina o seu neto a pescar e a partir daí, peixes, gaivotas e anzóis misturam-se numa verídica história de pescador.
Terminado o festival, o balanço não pode ser mais positivo. Muitas obras interessantes, oito dias de intenso trabalho sobre o material audiovisual projectado, um animado convívio entre senenses e visitantes, um toque de magia a envolver pessoas e paisagens. Nem a chuva quebrou o encanto destes dias que poderiam ter sido de paradisíaco desfrute, se… Há sempre um se…, mas o festival nada sofreu com ses… pessoais e intransmissíveis.

Homenagem a Fernando Catarino, Presidente do Júri (Foto MRF)

Um dos membros do Júri Internacional acaba de enviar um mail do Brasil, com doces palavras de saudade, que dizem bem do que foram os dias deste festival: “Meus queridos amigos, Cheguei cheia de saudades dos tempos oníricos passados em Seia. Como disse o Alain Marie, todo festival tem alguma magia, mas em nenhum, ela flui dos próprios organizadores. Agradeço de coração os dias do trabalho que tanto me fascina: ver e discutir filmes, dias também de festas (a do Frederico foi sublime), de humor, e principalmente de tanta troca afectiva, consolidando amizades tão fraternas. Foi maravilhoso participar sem a responsabilidade de presidir o júri encabeçado pela inteligência privilegiada do professor Catarino e desfrutar ainda do humor da Paula Guedes, da acuidade da Rosa, da sabedoria do Panayotis, da seriedade do Artur, da doçura elegante da Violetinha e das presenças originais da Márcia e Lili Caneças. (…) Lisa França.

Por outro lado, o Júri da Juventude, portou-se à altura. Leia-se o que se escreve no blog “Play That Movie Againt”: “Cine'Eco [recordar]” porque o Cine'Eco não é apenas ver filmes... ...mas uma experiência bem mais completa.
Obrigada a todos pela semana memorável!” Este post teve comentários de outros espectadores atentos de Cine Eco, que aqui reproduzo: “Excelente blog a descobrir por todos os cinéfilos. Em Seia, foi uma experiência de vida, onde as personalidades e as idades não contam, virando-se para um objectivo comum: tornar cada vez mais unido o que o homem tem de melhor, a sua disponibilidade para sentir o próximo. E é assim que descobrimos os amigos. Um beijo e abraço a todos! Germano”
“Rui disse... Reforço a frase do Germano “Excelente blog a descobrir por todos os cinéfilos.” Foi uma agradável surpresa ler as reviews efectuadas sobre alguns dos filmes a concurso, uma escrita fluente e acutilante sobre as questões neles retratadas. Vou seguir atentamente os futuros post´s. Lembra-te que Seia tem sempre lugar para os seus amigos! Ficamos pois a aguardar uma futura visita. Bjs
“Parabéns pelo teu blog. Confirmo o que já pensava. Que tens um enorme talento ligado à 7.ª Arte. Espero que a tua aventura pelo mundo do cinema nunca termine que é para eu me continuar a deliciar com as tuas análises e opiniões. Ao mundo mágico do cinema que a Cine Eco nos proporcionou junta-se a amizade que cada um de nós partilhou. Porque este filme nunca terá um fim.... um grande beijo e abraço a todos. Miguel Jerónimo”
Mas nesse mesmo blog, Helena escreveu: “Cine'Eco [palavras, visionamentos e prémios] de regresso...

O Cine Eco – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente decorre há 12 anos na cidade de Seia, em plena Serra da Estrela.
Articulada num manto verde, esta Seia outonal não poderia ser palco mais acertado para a realização de um festival ambiental. Ali está-se, de facto, em comunhão com a natureza, numa conjugação acolhedora de calma natural e cultura interveniente. Pela minha experiência devo afirmar que se aprende mais numa semana intensiva de Cine Eco que provavelmente em meses de televisão e cinema comercial. A temática ambiental engloba obras muito diversas, nomeadamente várias de cariz mais antropológico e que me captaram o interesse de forma particular. Das aves da Islândia a cheias na Ásia do Sudeste, dos pastores da Serra da Estrela aos tigres da fronteira sino-russa, de diversas comunidades de índios brasileiros à resistência tuareg no Mali, a abrangência geográfica e temática do festival era vasta e riquíssima. Foram exibidos alguns filmes muito bons, muitas obras competentes e umas poucas que geraram reacções mais extremadas. Alguns visionamentos foram dificultados pela inexistência de legendas, outros estimularam a aptidão linguística dos espectadores pela legendagem em idiomas que não o português. Com uma especial incidência para produções brasileiras e portuguesas, foram também mostrados filmes de países de todos os continentes, da Itália à Nova Zelândia, da Dinamarca ao Japão. Muitos deles foram exibidos em público pela primeira vez. Os filmes em competição (não tive oportunidade de ir a nenhuma sessão paralela), estimularam o acordar de uma consciência ecológica e social, alargando horizontes e desfazendo alguns preconceitos. A recepção este ano do Prémio Nacional do Ambiente parece mostrar que o Cine Eco é reconhecido na sua importância única no quadro dos festivais portugueses mas há ainda algum caminho a percorrer para garantir uma maior divulgação e uma cobertura mais atenta pelos media. O ambiente de convívio animado, troca de ideias e hospitalidade notável tornaram a estadia em Seia e a participação no festival como jurada da juventude uma experiência que recordarei como das mais enriquecedoras da minha vida enquanto amante de cinema e enquanto pessoa.”
Também no blog “Divas e Contrabaixos” se podem ler alguns comentários a filmes seleccionados pelo Cine Eco 2006. Outra curiosidade a referir.
No Blog “Oceano das Palavras”, de Luís Silva, de Seia, depois de referencia a alguns filmes e premiados, regista: “Esta edição do CINEECO teve mais de 100 filmes de vários países a concurso, destacando-se a participação do Brasil, o país estrangeiro que mais filmes apresentou. Na cerimónia de atribuição de prémios, sábado à noite no auditório da Casa Municipal da Cultura de Seia, o presidente da Câmara de Seia, Eduardo Brito, anunciou que a autarquia deverá duplicar em 2007 o orçamento do festival, que este ano foi de 50 mil euros. Eduardo Brito disse que o CINECO traduz uma aposta da Câmara de Seia na educação ambiental e no desenvolvimento cultural do concelho.”
Mas o blog não resiste a comentar o que chama de “efeito Lili Caneças”, e explica: “Lili Caneças é mesmo um fenómeno.” A seguir vem a confirmação: “O vídeo que aqui tenho sobre a Lili na cerimónia de abertura do CineEco, em apenas poucos dias já foi visto por cerca de 100 ip´s diferentes, assim como, já circulam cópias do mesmo em outras páginas de gente anónima e não só. A própria Lili no seu hi5 já o colocou. Além disto o vídeo já teve um "louvor" do YOUTUBE, por, em tão curto espaço de tempo, já ter sido visto muitas vezes. É este o efeito Lili Caneças que já está a dar resultados. As próprias fotografias que tirei e não editei aqui vão começar a aparecer nas revistas cor-de-rosa.”

Wanda Stuart no memorável concerto inaugural (foto MRF)

No citado blog, há dois vídeos a reter da cerimónia de abertura do Cine Eco 2006: um meu com a Lili Caneças (o que já provocou a tal curiosidade massiça) e um outro da brilhante actuação de Wanda Stuart no espectáculo da noite do dia 21 de Novembro). A não perder.
(Bem gostava de ter esses dois vídeos no meu blog, mas nao sei como importá-los. Alguém me ajuda? Socorro!)

sexta-feira, novembro 03, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 4

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
5.
Obras da Lusofonia
(Portugal)

De Portugal e do Brasil viram-se muitos títulos, mas não se viu uma “obra” daquelas que não vamos esquecer mais, nem das que faz a diferença. Ao contrário do “resto do mundo”, na Lusófonia primou a mediania, com um ou outro rasgo, e alguns percalços que só se compreendem terem sido seleccionados, porque muitas vezes é só nos festivais que se podem mostrar estas obras.

Comecemos por Portugal, onde a produção vista não primou pela originalidade, nem pelo arrojo, temático ou formal. “Águas Agitadas”, de Bernardo Ferrão, é uma boa reportagem sobre um casal de ambientalistas holandeses que estuda o comportamento dos cetáceos dos Açores. Trabalho nada pacífico, olhado com desconfiança, acusado pelas empresas de turismo de ser “whale watching” ilegal. O conflito já extravasou das acusações no papel, para as agressões no mar alto.

“Da Pele à Pedra”, de Pedro Sena Nunes, parte de um trabalho multidisciplinar levado a cabo na Lavaria das Minas da Panasqueira, abandonadas há 15 anos, e recorda a actividades dos mineiros, com a da população ainda residente, numa aldeia quase deserta. Enquanto se desce no escuro, a 450 metros de profundidade, para conhecer o trabalho e a vida dos mineiros, ouvem-se histórias e dança-se numa performance que vai “Da Pele à Pedra”. Interessante, rodado com sensibilidade e calor humano, mas o facto de ser uma (quase) reportagem sobre um espectáculo anteriormente concebido para uma outra linguagem retira-lhe alguma força. Pedro Sena Nunes e Ana Rita Barata sabem, porém, o que fazem e sabe bem ver o filme.

“Doutor Estranho Amor (ou como aprendi a amar o preservativo)”, de Leonor Areal, criou-me grandes expectativas. Talvez por isso me tenha desiludido. Rodado num estilo de “cinema verdade” com uma reduzida interferência ao nível da montagem, e estendendo algumas cenas por um tempo demasiado longo, este documentário mostra a actividade de uma brigada de estudantes de medicina que faz prevenção da SIDA numa escola (a Secundária Frei Gonçalo de Azevedo (Tires, Cascais). Durante dez semanas, acompanhamos os seus insucessos e as ilusórias conquistas junto de uma turma de adolescentes problemáticos. A imagem final que se colhe é que a situação do sistema educativo em Portugal é catastrófica, os alunos não sabem, nem querem saber, os professores andam à deriva, estas acções cheias de boa vontade e inexperiência acabam por resultar numa frustração completa, que uma ou outra reacção mais emotiva (o aluno que encosta a cabeça no ombro da animadora) não fazem esconder. A proposta oficial, apresentada no início do filme, num curioso e formal cocktail, nada tem a ver com os resultados. Se a “acção de prevenção” e os “teatrinhos” me parecem desastrosos, o filme mostra a discreta presença de Leonor Areal na direcção, sublinhando a sua intuição e a generosidade do olhar. Mas, em termos reais, já fez muito melhor.
“O Fole, um Objecto do Quotidiano Rural”, de Carlos Eduardo Viana, é uma produção “Ao Norte – Associação de Produção e Animação Audiovisual” que se limita a acompanhar, com algum cuidado, todo o processo de fabrico de um fole, um saco de pele de cabra que servia para o transporte de cereais. Hoje quase desconhecido, foi peça do quotidiano rural de São Lourenço da Montaria. O filme é um documento interessante, de valor certo de um ponto de vista etnográfico.

“Quatro Elementos água . terra . ar . fogo”, de Janek Pfeifer e Joaquim Pavão, já visto em Avança, é um exercício de estilo, caligráfico e algo frio, que, partindo de imagens dos quatros elementos, as reduz a silhuetas animadas, através de processos computorizados, que dançam ao sabor de uma inspirada partitura musical com a assinatura de Joaquim Pavão. A música é muito boa, as imagens e o trabalho exercido sobre elas não me fascinam, mas devo confessar que, para mim, um rosto filmado com amor, em grande plano, vale todos os artifícios electrónicos. Defeito meu ou feitio, é assim. De todas as formas jugo que tanto Janek Pfeifer (berlinense) como Joaquim Pavão merecem inteiramente novas oportunidades. O facto do filme ter sido exibido, e a abrir a competição em Seia, comprova-o.
“Reserva Natural do Estuário do Sado”, de João P. Fernandes, João Dias, Nelson Silva, alunos do Curso de Tecnologia Educativa 2005/2006 da LECN, FCTUN., filma a Reserva Natural do Estuário do Sado, que encontra “cheia de encantos”, na diversidade de habitats e na riqueza de vida que alberga. Um trabalho de alunos que justifica incentivo.

“Rua 15 – S.João”, de António Barreira Saraiva, uma produção da Proformar – Escola Secundária do Monte da Caparica, anda no mesmo registo, ao acompanhar os preparativos da Rua 15, a rua mais antiga da Costa de Caparica, para a grande festa anual do S.João. Há intencionalidade em muitas imagens, há uma aproximação emocionada dos rostos populares, mas depois há também uma montagem desastrosa, prolongando sem qualquer interesse certo planos, repisando outros. Cortado para metade do seu tempo original, ganharia muito. “Life Is Change” (Vida é Mudança), de Eduardo Morais de Sousa, filma a natureza com alguma acuidade, mostrando que tudo muda na vida, a natureza muda, e de mudança em mudança, de transformação em transformação, a vida prolonga-se, os ciclos restabelecem-se.

“The Barefoot Runner”, de Filipe Y, é uma animação simples, mas que denota potencialidades, uma longa viagem pela vida na Natureza e pela natureza da Vida, e “Garbage” (Lixo), de Mário Carvalho Gajo, igualmente uma animação, estra volumétrica, parte de um enorme monte de lixo, onde cai um objecto sobre um boneco metálico fazendo com que este ganhe vida. Tentando desprender-se dos materiais que estavam sobre ele, repara que uma televisão ameaça cair e esmagá-lo. Assustado, tenta levantar-se e fugir... Mas…
Mário Carvalho Gajo é portuense (1978), Tem uma licenciatura em Artes – Plásticas pela Escola Superior Artística do Porto (ESAP). “Lixo” é o seu primeiro filme, e de ambos os animadores se esperam confirmações. As expectativas cá cantam.

Finalmente, “Ainda Há Pastores?”, de Jorge Pelicano, Prémio da Lusofonia, e certamente o filme português mais interessante visto em Seia.
Jorge Pelicano nasceu em 1977, na Figueira da Foz. É licenciado em Comunicação e Relações Públicas e, actualmente, frequenta o 2º ano de Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, para lá de ser repórter de imagem, freelancer, para a SIC televisão, desde 2001. “Ainda há Pastores” é o seu primeiro filme documentário. Não se trata aqui de uma esperança, mas de uma certeza, mais ainda: uma revelação. O filme é delicado na composição, sumptuoso de imagem, magnificamente enquadrado, bem iluminado, Jorge Pelicano tem tudo para vir a ser um dos grandes documentaristas portugueses. “Ainda Há Pastores?” voa até ao alto da Serra da Estrela, passa por Casais de Folgosinho, onde não há luz eléctrica, não corre água canalizada, não há estradas e perde-se no silêncio de um vale entre as montanhas da Serra da Estrela. Outrora, um autêntico santuário de pastores, agora quase desaparecidos. Os velhos morrem, os novos fogem da dura sina de ser pastor, com 365 dias de trabalho por ano, sem folgas ou férias. Quase ninguém fica. Apenas resta Hermínio, 28 anos, o pastor mais novo, que aguenta as jornadas com a música brejeira do Quim Barreiros sempre debaixo do braço e uma sexualidade desenfreada, que os telemóveis vão pagar. O futuro dos Hermínios da Serra da Estrela não deixa de ser inquietante. Até quando haverá pastores?. Será que ainda faz sentido ser-se pastor assim? O filme termina com uma visita a um museu e percebe-se a mensagem: daqui a nada, pastores destes só no museu. Num museu de imagens, como este que Jorge Pelicano filma, com grande sensibilidade, mas com duas pequenas falhas quanto a mim. A saber: explora demasiado o lado “louco” de Hermínio. Sem nunca cair no oportunismo da exploração do “fenómeno de feira”, poderia ter sido mais comedido. Segundo: julgo de todo em todo desapropriados o texto e a locução, demasiados eloquentes e “poéticos”. Um texto simples, dito com singeleza e genuína simpatia era o que as imagens mereciam.
(continua com obras lusofonas - Brasil)

quinta-feira, novembro 02, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 3

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
4.
Obras a Concurso
Outras não Premiadas

"O Cerco"

Muitos outros filmes merecem ainda referência: de Espanha, “O Cerco” (El Cerco), de Nacho Martn e Ricardo Iscar (2005), foca a pesca do atum, essa “almadraba atuneira” de que já nos falara (e muito bem), em Portugal, António Campos. Regressa o ritual sangrento, todos os verões. Milhares de atuns migram em grupos para o Mediterrâneo, em direcção ao estreito de Gibraltar. Nesta tradição centenária, barcos de pesca espanhóis esperam a chegada do peixe neste apertado estreito, armados com uma verdadeira parede de redes, para bloquear o seu caminho. É a violência do circo romano. “La Almadraba” é o nome original do ritual mouro, durante o qual facas e arpões são também utilizados.
“Cidade Adormecida” (Ciudad Dormida), de Henrique Rodriguez, é outra abordagem espanhola: num quarto citadino, novo, limpo, mas vazio, os mecanismos parecem funcionar sozinhos e a ausência da vida humana torna-se perturbadora.

"De Puna a Manu, Memória Inca"

“De Puna a Manu, Memória Inca”, de Alfonso Martinez, (Espanha, Peru, 2005), ainda em língua espanhola, mas agora estamos nos picos de Challamba, na montanha de Paucartambo, no Peru. É a Puna. Gente muito especial habita estas terras altas. Os descendentes directos dos incas são os únicos capazes de transmitir para a posteridade o que significa hoje pertencer a uma comunidade que controlou outrora um vasto império. De Puna a Manu, estão compreendidas diferentes áreas de vida e a diversidade biológica e cultural que abrange são reconhecidas mundialmente. As pessoas que permanecem nestes lugares, onde o dia a dia é árduo, não mostram qualquer intenção de imigrar, antes defendem e mantêm os seus hábitos, a sua cultura e as suas famílias.
De França, vimos “O Herdeiros do Guaraná (Les Heritiers du Guarana), de Rémi Denecheau (França, Brasil, 2005), documentando a organização dos Satéré-Mawé e de outros povos da floresta brasileira, para conservar a cultura tradicional do guaraná e toda a cultura, língua e autonomia desses povos, ameaçados pela grande indústria que quer aumentar a produtividade. A todo o custo.

"Teshumara, As Guitarras da Revolta Tuareg"

“Teshumara, As Guitarras da Revolta Tuareg” (Teshumara, Les Guitarrres de la Rébellion Touareg), de Jérémie Reichenbach (France, 2005), viaja até África, observando o aparecimento de uma música muito própria. A ruína económica da companhia tradicional que se seguiu aos sucessivos conflitos, a opressão exercida pelos modelos militares, o exílio, a resistência armada, todas estas mudanças profundas da companhia Tuareg deram origem ao nascimento de um novo movimento cultural, o Teshumara, especialmente representado na música do grupo Tinariwen. Também de França, “Os Tomates Enfurecidos” (Les Tomates Voient Rouge), de Andréa Bergala (França, 2006). Os tomates são o fruto mais popular do mundo. Há milhares de variedades. No entanto, apenas cinco delas são largamente consumidas. Seguindo as redes de comercialização legais ou ilegais, “Os Tomates Enfurecidos” reflecte a estabilização dos gostos e a sua repercussão económica, nestes tempos de globalização da indústria alimentar.

"Terra em Movimento"

“Terra em Movimento” (Terre in Moto), de Michele Citoni, Ângela Landini e Ettore Sinlschlchi (Itália, 2006) recorda outro terramoto, este em Irpinia (ao Sul de Itália). 25 anos depois, os voluntários que ajudaram a população regressam. A terra está muito bonita, mas o acontecimento e as suas consequências deixaram marcas e mudaram profundamente a comunidade.
“Os Caranguejos de Cape May” (Les Limules de Cape May), de Annie Tellier, é um tributo ao ecossistema e à vida selvagem de Cape May (Baia de Delaware), considerado um dos melhores locais para se observar pássaros na América do Norte.
“Conduzido pelo Vento” (Gedreven door Wind), de Janna Dekker (Holanda, 2005) é um retrato em jeito de homenagem a um dos últimos resistentes que acompanharam a vida diária de um velho moinho de vento, numa Holanda de luz de fim de tarde. Com a chegada dos modernos moinhos eólicos, os antigos passam a relíquias e os seus guardiães do vento desaparecem numa aragem.
Janna Dekker, realizadora, é também artista plástica e isso aflora na forma como filma a paisagem. Um belo filme.
Durante o período de pesquisa para um filme sobre os efeitos da mudança do clima ao nível global, a equipa de “Represas de Areia no Kitui” (Kitui Sand Dams), de Eva Zwart e Hans van Westerlaak (Holanda, 2006), contactou com a “Sahelian Solutions Foundations Kenya (SASOL) que desenvolve represas da areia em pequena escala nos rios no Kitui (um distrito do Quénia), no leste do Nairobi. Kitui é um dos distritos menos desenvolvidos do Quénia. A sua população tem que enfrentar secas e a escassez de alimento todos os anos. A SASOL visa ajudar os fazendeiros a minimizar os efeitos das secas. O objectivo é resolver os problemas relacionados com a água e com a agricultura, o principal sector económico no Kenya. A filosofia da SASOL é trabalhar com as comunidades locais e usar o seu conhecimento para a inovação e o desenvolvimento. O projecto da represa da areia no distrito de Kitui mostra que, com a participação forte da comunidade, a adaptação à mudança do clima pode ser bem sucedida. O filme testemunha.
“Gharat”, de Pankas Rishi Kumar (Índia, 2005) é um filme sobre o desenvolvimento sustentável descentralizado. O filme problematiza as questões de maior gravidade que assolam os Himalaias de Garwhal, com a proximidade da construção de grandes barragens como o Tehri Hydro Project.
“Nakkala”, de Peter Ramseier (Suíça, 2005) - Uma aldeia na vasta tundra finlandesa, tornou-se na segunda casa de Hans Ulrich Schwaar, oriundo da região “Emmental” da Suíça. Vive lá com o seu amigo e anfitrião, Lisakki-Matias Syväjärvi. O ritmo da natureza determina a vida do dia-a-dia. Peter Ramseier capturou esta vida e a amizade entre dois homens de diferentes culturas.

"Ovas de Ouro"

“Ovas de Ouro” (Ovas de Oro), de Manuel González Llanos e Anahí Sucarrat Johnsen (Chile, 2005) denuncia o comportamento do império industrial da pesca do salmão que manobra nas costas do Chile. De forma aberta, esta obra tenta informar sobre as consequências que sofrem dia a dia os operários, os pescadores artesanais, as comunidades lituânas, a cultura das vilas e o meio ambiente devido ao desejo de se tornarem o primeiro produtor mundial de salmão.
”Eco Dharma” (Eco Dharma), de Malgorzata Skiba (India, 2005), conta a história de dedicação e sacrifício da comunidade de Bishnoi, a mais antiga que se dedica a práticas ambientalistas na Índia, para quem a preservação da vida animal e da floresta é uma religião. Os Bishnois vivem no Grande Deserto Índio de Rajasthan. As suas aldeias-oásis são fáceis de distinguir porque se encontram cheias de árvores e vida animal. A comunidade é conhecida por sacrificar os próprios bens e sua vida à sua defesa. A fé Bishnoi é construída sobre o ecossistema do deserto, proclamado por um visionário hindu, Guru Jambeshwarji, em 1542 a C, que usava uma poderosa religião para ajudar as massas a viverem uma vida social saudável e amiga do ambiente.
“Nandini”, de Helle Ryslinge (Dinamarca, 2006) oscila entre o realismo e o humor, ao apresentar o quotidiano das vacas na Índia. O que faz uma vaca da cidade na Índia durante todo o dia? Onde vai? Que relação existe entre a religião na Índia e as vacas? “Nandine” dá as respostas a estas e muitas outras perguntas.

(continua com obras lusofonas)

CINE ECO 2006: Balanço crítico 2

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente

3.
Obras a Concurso
As Premiadas

Foram muitas as obras premiadas durante o Cine Eco 2006, dando razão aos que acham que esta foi a mais competitiva edição de sempre. Muitas e muito boas obras. É verdade. Já referi algumas de que muito gostei e que, por uma razão ou por outra, nem sequer entraram na lista das premiadas. Vou falar agora de outros títulos, de que também muito gosto, mas estes sim, figuram no cardápio final das honrarias. Mas antes uma ressalva: vou deixar para outra nota tudo o que diga respeito a lusofonia. Agora fico-me somente pelos títulos em língua estrangeira, tipo Melhores Filmes em Língua não Portuguesa.
"O Ataque do Tigre" - Grande Prémio

“O Ataque do Tigre” (Conflit Tiger), de Sasha Snow (Inglaterra, Rússia, 2005), é um documentário de reconstituição, estilo “docdrama”. Passa-se nas florestas da Rússia de Leste, e conta-nos um caso verídico: um caçador de tigres, inexperiente e insensato, provoca uma série de ataques de tigres que atingem as pessoas do vilarejo próximo. As autoridades locais convocam os serviços de Yuri Trush, um especialista na perseguição e abate de tigres que perderam o medo ao homem. “Conflict Tiger” estabelece-se assim como um documentário de suspense, assistindo-se a uma perseguição que envolve homem e fera, em que, a determinada altura, não se sabe quem é o perseguidor e quem o perseguido. O filme aborda um tema importante, a conflituosidade que o homem estabelece com a natureza, muitas vezes em função da pobreza que o atira para práticas aparentemente fáceis de ganhar dinheiro, mas que, mais tarde, se mostram delapidadoras do património e geradoras de violência. Neste sentido, esta perseguição pode funcionar quase como metáfora de um tempo onde a harmonia do homem com o seu habitat natural se quebrou e cria fricções graves.
Sasha Snow foi fotógrafo de arquitectura antes de surgir como montador na BBC, em 1991. Em 1997 ganha o BAFTA/Post Office Scholarship para Melhor Filme de Estudante, com “Peace Under A Power Station”, enquanto estuda realização documental na The National Film & Television School. Em 2002 diploma-se com o seu primeiro filme rodado na Rússia, “A St. Petersburg Symphony”. Seguem-se ‘Arctic Crime & Punishment’ e ‘Conflict Tiger’.
"Feridas Atómicas" - Grande Prémio Juventude

“Feridas Atómicas”(Atomic Wounds), de Marc Petitjean (França, 2005), retoma uma preocupação que ressurgiu no horizonte da Humanidade: a ameaça atómica. Recuando até Hiroshima e Nagasaki, o filme recorda a tragédia de 6 de Agosto de 1945, com testemunhos de sobreviventes que evocam o dia em que a bomba atómica em segundos aniquilava duas cidades e milhares de pessoas, deixando outros milhares a morrer lentamente, contaminadas pelas radiações. Com a Coreia do Norte e o Irão de um lado, os EUA do outro, a ameaça é mais forte do que nunca. Mas o filme vai mais longe através da palavra do Dr. Hida, uma das últimas testemunhas adultas do lançamento da bomba atómica em Hiroshima, que defende a teoria de que as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram usadas como testes. O próprio médico foi exposto às radiações e tratou os feridos nas horas que se seguiram à explosão. Hoje continua a cuidar dos cerca de 250.000 sobreviventes da bomba. Recorrendo a raras gravações de arquivo, o filme descreve os trabalhos do laboratório montado pelos cientistas americanos em 1946, no local dos bombardeamentos, para observar e interrogar os sobreviventes, mas com ordens para não os tratarem nem fornecer aos médicos japoneses os resultados dos testes. No mínimo polémico e inquietante.
"Ouro Branco" - O Prémio “Educação Ambiental”

“Ouro Branco – O Verdadeiro Preço do Algodão” (White Gold – The True Cost of Cotton), de Sam Cole (Inglaterra, 2005), é uma curta-metragem de 7 minutos, de uma eficácia notável. O que custa o algodão que vestimos? Viaja-se até ao Uzbequistão, o segundo maior exportador de algodão do mundo, onde um regime político altamente repressivo não permite outras alternativas do que lançar mão do vídeo doméstico para documentar fases da produção do “algodão de ouro”. Os militantes de EJF obtêm provas da exploração do trabalho infantil, da exploração rural e da destruição ambiental generalizada.
“Atingido” - Prémio "Polis"

Da Alemanha, “Atingido!” (Shoot Back!), de Michael Trabitzsch e Katharina Kiecol (2005/2006) afirma-se como uma versão africana (e reduzida) de “Eight Mile”. Trata-se essencialmente um documentário sobre pessoas reais: quatro adolescentes aprendem como usar uma câmara digital numa das piores zonas africanas. Como um diário, eles começam a documentar-se a si mesmos e às suas vidas, entre a esperança e o inferno, com a música da revolta por pano de fundo. Michael Trabitzsch, entre 1987 e 1991, foi assistente de direcção e produção de Harun Farocki. Desde 1992 é director de produção da “Prounen Film”, em Berlim. Do seu curriculum fazem parte trabalhos como “Allende”; “The Marble Road” ou “A Quiet Rebel. The Sculptor Wieland Forter”.

"H20 (Água à Venda)" - prémio Júri da Jjuventude

Outro filme alemão é “H2O (Água à Venda)” (Wasser unterm Hammer ou H2O Up For Sale), de Leslie Franke e Hermann Lorenz (2005) que mostra, numa perspectiva de recentes experiências inglesas, como a privatização da água, esse “ouro azul”, ocorre em diferentes cidades alemãs. As consequências são semelhantes um pouco por toda a parte: milhares de empregos foram “exterminados”, os custos foram reduzidos, registou-se um aumento do desperdício, a qualidade da água piorou, os preços aumentaram exponencialmente. O lucro é o “deus” na indústria da água. Mas a resistência está a surgir.

“Uma Alquimia em Verde”, Prémio “Vida Natural"

Da Nova Zelândia, “Uma Alquimia em Verde” (An Alchemy in Green), de Dave Dawson (2005), enquadra-se no cenário actual da luta contra o aquecimento global e do número cada vez mais elevado de espécies em extinção. “Alquimia em Verde” lança um olhar retrospectivo para a instalação do ser humano na Nova Zelândia e a subsequente destruição das gigantescas florestas tropicais, enquanto conta a história de Barry Brickell, um artista cerâmico, construtor de caminhos de ferro e defensor da natureza. Ele fala do seu projecto visionário para recriar a primitiva floresta Kauri, que um dia cobriu a Península de Coromandel. Depois de diversos anos, durante a década de 90, de colaboração na realização de documentários, em França e Alemanha, e mais tarde como freelancer como operação de câmara e fotógrafo de arte natural, na Nova Zelândia, Dave Dawson estreia-se na realização com este filme, onde fica reflectida a sua preocupação com as questões relacionados com a natureza e aproveitamento paisagístico, com uma especial atenção na saúde ambiental do Planeta. Um belo trabalho, tanto de um ponto de vista ambiental, como cinematográfico.

Prémio “Antropologia Ambiental” - “O Cavalo Operário”

“O Cavalo Operário” (Le Cheval Ouvrier), de Alain Marie (França, 2006), é um belíssimo olhar sobre o trabalho escravo dos cavalos, em pleno coração da bacia mineira. Um velho criador de cavalos de carga transmite-nos a sua paixão pelos “Traits du Nord” numa perfeita harmonia com o universo. Paralelamente um velho mineiro de origem polaca, que é hoje guia no complexo mineiro de Wallers-Arenberg, mostra-se um investigador apaixonado pela vida dos cavalos nas minas. O encontro dos dois universos permite-nos partir à descoberta dos últimos vestígios do trabalho dos cavalos em terra, sob a terra e… no mar. O cavalo é um objecto estético invulgar e Alain Marie retira deles uma presença deslumbrante, num filme nostálgico e de uma perturbante delicadeza.
Prémio “Camacho Costa” - “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”

De Itália: “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais" (Giovanni e Il Mito Impossibilie delle Arti Visive), de Ruggero Di Maggio (1976), retoma um tema muito curioso, a arquitectura ao serviço do homem ou ao serviço da estética? Sicília, 1968. Uma pequena cidade chamada Gibellina é destruída por um terrível terramoto. Nada fica de pé. É tomada a decisão de reconstruir completamente a cidade, a 18 quilómetros para Este das ruínas. Os melhores arquitectos e artistas italianos são chamados para criar uma Gibelina, nova e futurista. Giovanni, de 70 anos, mudou-se da velha cidade para a nova, mas as suas palavras revelam um mundo de dúvidas. Pertinentes ou não? Irónicas, seguramente.

"Filhos da Montanha de Prata" - Prémio Júri Juventude

“Filhos da Montanha de Prata” (Hijos de la Montanã), de Juan S. Betancor (Espanha, 2005), aponta para uma realidade que remonta a 1545, quando os conquistadores espanhóis descobriram prata pura numa montanha na região Inca de Kollasuyo, hoje o Planalto da Bolívia. Deram-lhe o nome de Cerro Rico (a Montanha Rica) e à poderosa e próspera cidade que cresceu na sua base, Potosí. Cedo criaram a maior indústria mineira do seu tempo, sustentada por um miraculoso sistema de força mineira, “La Mita”. Religião e exploração.
“Os Refugiados do Planeta Azul” (Les Réfugiés de la Planète Bleue), de Jean-Philippe Duval e Héléne Choquette (França e Canada, 2006) – Sabia que há refugiados do ambiente? Este belíssimo e perturbador filme revela-nos um agricultor canadiano, um pescador das Maldivas e um “peasant” brasileiro: todos eles vivem em pólos opostos, sob uma enorme variedade de condições sócio-económicas. Eles são, todavia, vítimas de uma mesma tragédia. Encontram-se entre os 25 milhões de pessoas que por questões ambientais são forçados a deslocar-se… Inquietante.

“Terras a Separam-se: Uma Saga Islandesa” (Parting Lands), de Zoltan Torok (Hungria, Suécia, 2005) leva-nos até à Islândia, o único país que faz parte quer da Europa, quer da América do Norte. Nascida da fenda que separa os dois continentes nas profundidades do Oceano Atlântico, lenta mas irreversivelmente, a Islândia separa-se inexorávelmente em duas. Este filme mostra a vida natural, única e só muito raramente filmada, desta ilha e a sua interacção com as mais rudes forças da natureza.
“Melhor Animação” - “49"

Vários filmes de animação passaram em Seia. O melhor veio do Japão, “49”, de Ichiro Iwano (2006) sobre um homem que trabalha numa base de mísseis. Hoje o seu filho faz anos. Mas assim que se preparava para sair do trabalho, o telefone tocou. Com essa voz vinda do longe, surge uma ordem para disparar um míssil. Que fazer? Boa animação, adensando o dramatismo do nuclear.
(continua com outras obras não premiadas, e não lusofonas)