A decorrer, entre 5 e 8 de Novembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, a 4.ª Mostra de Cinema Brasileiro, organizada pela Fundação Luso-Brasileira, apresenta 12 filmes contemporâneos, não exibidos no circuito comercial: Entre eles, dois dias dedicados a homenagens, uma ao realizador Domingos de Oliveira, outra ao actor Matheus Nachtergaele.
Hoje, 6 de Novembro, foram projectados três filmes, enquadrados na Cinematografia Brasileira Contemporânea: “Romance”, “Santiago” e “Chega de Saudade”. À última da hora, não foi exibido “Meu Nome não é Johnny”. Uma falha que só foi anunciada às 23, 30, quando a sessão devia ter começado às 23, com uma lotação esgotada à espera no hall e que foi devolvida à rua, porque a cópia não terá sido revista a tempo de se ter remediado a falha. Enfim, alguma falta de profissionalismo, numa iniciativa que até agora mostrou muito bons filmes, e que atraiu muito público nas suas sessões da noite.
RomanceRealização: Guel Arraes (Brasil, 2008), com Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Marco Nanini, Vladimir Brichta, José Wilker, Bruno Garcia, Edmilson Barros, Tonico Pereira, etc. (105 min)
“Romance”, baseado no “Romance de Tristão e Isolda”, é uma complexa história de amor que reflecte igualmente sobre a paixão e a criação artística, neste caso o teatro e a televisão. Um encenador e actor de teatro, Pedro (Wagner Moura) apaixona-se por Ana (Letícia Sabatella), actriz com quem contracena na peça “Tristão e Isolda”. Enquanto no palco os assaltam dilemas da história que deu origem à ideia do amor romântico, nos bastidores, o casal esbarra nos obstáculos do amor actual, muito mais condimentado com paixão, ciúme, rotina, trabalho, arte e indústria... É possível um amor feliz? Do teatro e de um falhanço sobre o seu próprio amor, passa-se para a televisão e uma segunda oportunidade: Ana propõe a Pedro que a dirija num especial de fim de ano para a TV. A história escolhida é precisamente “Tristão e Isolda”, agora adaptada ao Nordeste brasileiro.Filme inteligente e delicado, por vezes aqui e ali um pouquinho artificial na sua construção demasiado intelectual, sobretudo ao discutir o amor “no interior do amor” e as relações entre a arte e o comércio, tem todavia óptimos actores, e acompanha-se com agrado na sua construção e na ironia com que aborda o mundo da televisão, carregado de compromissos (é conveniente saber-se que Guel Arraes é um apreciado autor de mini-séries de tv, como “O Auto da Compadecida”, que passa igualmente nesta mostra).
SantiagoRealização: João Moreira Salles (Brasil, 2007)
Documentário (80 min)
“Santiago” é um documentário sobre um filme inacabado. Santiago, uma personagem inesquecível, um homem de vasta cultura e memória prodigiosa, era mordomo em casa de um diplomata, pai do realizador João Moreira Salles que ali viveu a meninice, e cujas recordações o levaram, há uns anos atrás, a tentar dirigir um filme que não conseguiu terminar na altura. Anos depois, retoma o filme em busca das razões que o fizeram falhar. “Santiago” é um filme sobre memória, identidade e a própria natureza do documentário. Uma jóia cinematográfica, arrisco-me a considerá-lo uma obra-prima que não desmerece a cada nova visão e leitura (sobre o mesmo já escrevi aqui , quando o descobri no Brasil, em 2008).
Chega de SaudadeRealização: Laís Bodanzky (Brasil, 2008), com Leonardo Villar, Tônia Carrero, Cássia Kiss, Betty Faria, Stepan Nercessian, Maria Flor, Paulo Vilhena, Elza Soares, Marku Ribas, Conceição Senna, Marcos Cesana, Clarisse Abujamra, Luiz Serra, Miriam Mehler, Marly Marley, etc. (92 min)
“Chega de Saudade” é nome de clube de dança, na noite de São Paulo. Nessa sala de baile, frequentada predominantemente pela terceira idade, acompanhamos amor e ciúmes, dramas e alegrias, aventuras e desventuras de cinco núcleos de personagens que frequentam habitualmente aquela sala. Tudo começa quando a sala abre, pelas cinco da tarde, o pano corre quando a sala fecha por volta da meia-noite. Tudo se passa em meia dúzia de horas, crescendo a intensidade dramática (e erótica) à medida que as horas decorrem, os chopes e o whisky desaparecem, e os olhares se vão cruzando com um furioso desejo que mistura impotência e impetuosidade incontida. E repetidas frustrações. E alegrias breves, “uma hora de cama vale bem uma vida sem nada”. A condição humana concentrada num laboratório de análise, prefigurado numa sala de baile, como já o havia feito Ettore Scola, em “O Baile”, mas com outras intenções, ou Sydney Pollack, em “Os Cavalos Também se Abatem”, mas num outro contexto, ou “O Baile dos Bombeiros”, de Milos Forman, mas por detrás da “cortina”.Esta é a segunda longa-metragem de Laís Bodanzky (que, em 2000, dirigira “Bicho de Sete Cabeças”), e trata-se de um verdadeiro sucesso, com um naipe de actores a roçar o genial (Leonardo Villar, intimista, Tônia Carrero, sublime, Cássia Kiss, magistral, Betty Faria, tocante, Clarice Abujamra, fulgurante, Stepan Nercessian, sem mácula, Maria Flor, de uma candura a rondar a perversidade, entre outros).
Laís Bodanzky cria uma envolvência emocional notável, com planos de conjunto e outros, aproximados, cerrados sobre rostos ou pormenores, com movimentos de câmara insidiosos e reveladores, com olhares trocados e pensamentos expressos pelo rosto ou o gesto. Emocionante e belo. Com um daqueles “puzzles” admiráveis de Robert Altman, mas com o sabor da música brasileira a envolver o pacote. Elza Soares e Marku Ribas são os cantores de serviço, de uma banda sonora para não esquecer. Notável a fotografia de mestre Walter Carvalho.
Sobre a terceira idade, o desespero e a recusa de ser “enterrado à espera da morte”, só vindo do Brasil nos poderia chegar um filme tão cheio de optimismo, no meio da solidão e da decrepitude. Mas com um calor humano que ultrapassa qualquer barreira de angústia existencial.





“Tropa de Elite” situa-se no ano de 1997, algum tempo antes da anunciada visita do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro. Sempre que alguma personalidade importante visita a cidade, a segurança é duplicada. Com o Papa, foi um pouco diferente. Nenhum político quer ser acusado de ver o Sumo Pontífice alvejado no seu país. Logo, a segurança é triplicada. Com meses de antecedência preparam-se os “festejos.” Prendem-se os “suspeitos do costume”, invadem-se os morros e vasculham-se as favelas, intimida-se meio mundo, tortura-se, mata-se ou deixa-se ali à mão de semear os denunciantes que pactuaram, para o gang do lado se encarregar deles. Agora mesmo, nesses dias ainda de início de Junho de 2008, uns militares em acção numa favela do Rio entregaram, como vingança, três rapazolas “dealers” a um grupo rival de traficantes que os torturou durante horas, cortou pernas e braços, e depois despejou nos caixotes do lixo. Percebe-se, pois, de que tipo são as relações entre os fora da lei e os agentes da autoridade.
Que nos diz a obra? Que os traficantes matam e morrem, que os policias morrem e matam, que ambos negoceiam entre si, que os poderes sabem e pactuam, que a corrupção passa do mais alto nível ao mais baixo, que quem não pactua no morro ou no quartel é linchado, o agente da autoridade é enviado ao morro pelos superiores hierárquicos para ser abatido, o puto delator é libertado para ser abatido, o polícia que passa na hora errada é abatido, neste universo de uma brutalidade asfixiante não há quase rapazes bons. Quase, porque fica o exemplo de Neto e Matias, de Nascimento e de alguns mais que, apesar de não figurarem entre os protagonistas, o filme deixa a esperança de, quiçá, existirem. Há quem acuse a obra de criar heróis, falsos heróis, porque ainda há polícias honestos. Querem então proclamar que “todos os agentes de segurança”, todos os “representantes do Poder instituído” são bandidos corruptos? Se for esse o vosso desejo, o melhor é desistir já. Mas há mais acusações. Que os processos de mafiosos das favelas e policiais de giro são idênticos. Todos torturam e matam. Pois, essa é uma das acusações do filme, parece-me, com uma ressalva. “Tropa de Elite” não é ingénua ao ponto de propor a história do pobrezinho desgraçadinho desde criança, e do polícia mauzinho desde o banco da escola, e do burguesinho de esquerda, intelectual consumidor de haxixe, que é a voz da consciência desta maldita sociedade destruída pelo dinheiro. Em “Tropa de Elite” há maus para todos os gostos. Nada é límpido e o “homem novo” está muito longe de existir. Há uns puros que se vão adaptando à realidade, como é o caso de Matias. Aliás, nesse aspecto, “Tropa de Elite” é mesmo o trajecto de uma iniciação, de uma aprendizagem, com aulas teóricas e práticas a toda a hora que, no quartel e cá fora, na vida quotidiana, em lugar de encaminharem para a honra e a dignidade, se encarregam de deformar o que de melhor existe dentro do homem. Essa viagem que acompanha o rosto de Matias, desde a sua promissora e entusiástica entrada no “corpo” da polícia até ao entrosamento final na “filosofia” do mesmo, é um dos elementos brilhantes desta obra. O plano final de “Tropa de Elite” é elucidativo desse percurso. É esclarecedor da forma como se destroem homens, como se fabricam “matadores”, como se limpa da face da terra a ternura, o amor, a bondade. Padilha oferece o retrato do polícia, e do seu ponto de vista (por exemplo, um deles pergunta: “Acha que vou subir o morro e arriscar minha vida por 500 reais - cerca de 200 euros - por mês?”). Não me parece justo que sejam só os marginais a serem “compreendidos”. “Compreender” os polícias, mesmo quando eles também se assemelham a marginais, é um bom ponto de partida para se tentar alterar, um pouco que seja, este estado de coisas, que é um “estado de sítio”, sem grandes esperanças de se ver modificado.


