terça-feira, setembro 19, 2006

DESAFIO

O que é, e para que serve a blogosfera?

Para tudo. O lado “pirata” desta coisa maravilhosa, encanta-me. Ir ali ou acolá, ler livremente o que cada um escreve, colher dali uma foto, dacolá um desenho, um texto assinado ou anónimo, uma música (que ouço só, não sei colocar, nem sequer me interessa muito, se calhar!), tudo isso é fascinante. Oscilar entre George Steiner ou a pornografia (se me apetecer, e claro que às vezes apetece!), ser anjo ou demónio, consoante a colocação da lua, ler merdas inenarráveis de quem não sabe mais do que aquilo que oferece (mas às vezes com que ternura as leio, porque representam a essência de quem as escreve, suspeitando que aspira à arte, como qualquer outro, ou apenas confessando-se, porque abrir-se aos outros é imperioso) ou poemas sublimes, criticas de cinema profundas ou voos esvoaçantes de aprendizes que, todavia, já tocam o sol, descobrir anotações íntimas, despudoramente intimas, ou reflexões sem mácula, que comparamos com outras de sinal contrário, igualmente sem mácula, recolher links para discursos, pensamentos, fotos de sofás, o meu bebé, tudo isso e muito mais é algo de profundamente excitante para o espírito, para a curiosidade de quem gosta de “conhecer” pessoas, personagens, para quem gosta de receber do outro e oferecer do próprio. Julgo que cada um oferece de si o melhor, e tenta receber o melhor. O “melhor” todavia é muito subjectivo. Essa subjectividade é, todavia, o melhor que o melhor tem. Porque ao oferecer o que é único em si, oferece o que faz a diferença. Como já li em muitos locais, já tudo foi escrito, já tudo foi dito. O que não foi feito ainda é ser dito por mim, por ti, por ela. É na diferença das vozes que está a novidade. É ela que interessa. Porque todos somos diferentes. Irrepetíveis. Por isso os blogs são um campo inesgotável de encantamento. Sobretudo quando são sinceros, ou fingem tão sinceramente que são mais verdadeiros que os directos. Por isso certos blogs são de uma chateza absurda: porque não procuram o único, mas o abrangente. Dizer o que todos dizem, mostrar o que todos mostram (e querem ver), tender para o unânismo. Porque trocam a voz única pela lentilha do sucesso fácil. Depois há outra maleita grave na blogosfera, tal como em qualquer outro domínio da comunicação, no cinema, na poesia, na literatura. São os eróticos envergonhados, que ficam a meio caminho entre o que querem e a vergonha de o mostrarem. Prefiro “A Garganta Funda” a “Emmanuelle”, a verdade ao fingimento. Prefiro um blog abertamente pornográfico e ordinário, a um envergonhado que se fica pelas meias tintas “civilizadas”. São iguais no que procuram transmitir, apenas um é coerente consigo, o outro é coerente apenas com a inverdadade. Tudo isto se passa na blogosfera, e esta é fascinante e perturbadora por isso. Mas há aspectos profundamente deprimentes, onde a blogosfera condensa o que de pior há na humanidade (ou desumanidade) de cada um: na trica, na inveja, na maledicência torpe, na vilania escondida sob pseudónimo, na falta de respeito… Aqui como na vida lá de fora (alguns fazem essa ressalva, porque preferem o anonimato ao nome próprio) há fracos e fortes, almas frágeis e durões, tímidos e extrovertidos. Tal como lá fora as aves de rapina tendem a devorar, ou apenas destruir, os mais pequenos e menos adaptados. É o espectáculo degradante, que, aqui como ali, se vê. É o homem na sua pior fotografia. Como todos somos humanos, nada a fazer, a não ser conviver com o horror, mas ir tentando afastá-lo de nós o mais possível. E, se possível, reduzi-lo, mesmo que seja muito lentamente. E não se pode exterminá-lo? Julgo que não. Faz parte do humano. Mas pode-se lentamente ir controlando. A blogosfera seria, se bem aproveitada, um campo de resultados surpreendentes. Basta cada um comunicar ao seu melhor. Falar e ouvir. Escrever e ler. Com conhecidos e desconhecidos. Estarmos abertos ao diálogo, ao confronto, ao que há de diferente no outro. Aqui há palhaços? Claro que há, como em qualquer circo da vida: há os palhaços ricos, que julgam que não são e chamam palhaços aos outros, na sua soberba, há os palhaços pobres que fazem rir e enternecem. Há os saltimbancos de “strada”, na sua fragilidade, há os “clowns” do Barnum, muito estilizados, há palhaços para todos os gostos e feitios. Neste enorme circo (que banalidade!) todos somos, fomos ou viremos a ser algum dia palhaços. Palhaços de nós próprios, palhaços dos outros. Amáveis. Detestáveis. Prestáveis. Divertidos. Humanos, no espectáculo da sua humanidade.
Por que se escreve um blog? Há muitas, milhares de razões, mas todas vão radicar numa única: comunicar, oferecer-se aos outros. Oferecer o que se pensa, o que se sente, o que se ama, o que se detesta, o que se cria, oferecer ao olhar do outro o nosso olhar sobre o mundo. Por mim, faço-o com a humildade de quem sabe que não possui “a” verdade, apenas a “sua” sincera verdade. Mas faço-o com convicção e com frontalidade, a mesma com que sempre o fiz, chamando os bois pelos nomes. Só assim me interessa escrever, bem ou mal. Li por ai algures que escrever bem não chega. É verdade. Uma sinceridade mal escrita vale mais que uma canalhice muito bem encadernada. Mas há na blogosfera portuguesa muitos exemplos dessa harmonia exemplar entre o que se diz e o como se diz.
Sei que não é um tema simples, sequer daqueles que apetece tratar levianamente. Mas há por ai tantos desafios que lanço hoje aqui um aos meus leitores, que se quiserem, e puderem, podem transmitir a outros e alargar a onda. Escrevam sobre “O que é, e para que serve a blogosfera? O que pretendem quando escrevem um post no seu blog?” Façam-me chegar as vossas respostas, por link ou por texto. Vamos reflectir um pouco sobre o que é este espaço atravessado por letras e desejos, fotos e caprichos, músicas e confissões, medos e alegrias, amores e ódios, virgulas e pontos de interrogação, silêncios e dúvidas, certezas e vícios. O vício de escrever, o vício de te amar, a ti que nem conheço, o vício de te dar a mão, o vício de te desafiar. O vício de viver. O vício de contradizer jacques brel: o amor nunca morre. É por ele que temos de lutar. Só morre se o deixarmos morrer. Só morre se desistirmos. Só morre se ns entregarmos à destruição, quer ela venha do Ocidente ou do Oriente, do nosso coração ou do coração do outro.

1º TEXTO RECEBIDO

(Ana Melo, em "Inhospitus Mundu da Ana")

Sábado, Setembro 16, 2006

A teu pedido, meu amigo blogonáutico...
O que é para mim a blogosfera?Li algures que a blogosfera existe como excesso de egocentrismo pessoal, como necessidade de nos afirmarmos aos outros ininterruptamente mesmo que não o mereçamos. Li que um blog é um acto extremamente fútil do ser humano, um pecado de quem o cria, um erro de quem o lê. Li que a blogosfera deveria ser erradicada para não mais impregnar a humanidade com cenas quotidianas desinteressantes, com sentimentos pessoais que a ninguém interessam, com assuntos esquecidos, com temas nada relevantes. Gostaria de conhecer quem escreveu aquilo que li.Tenho três blogues.Um, em construção, será o reflexo da minha futura profissão. Nele escreverei tudo o que entendo ser pertinente na procura de lugares, de saberes e sabores, de paraísos, de mundos e submundos, de ambiente e tudo o que seja ligado ao Turismo. Serei egocêntrica por informar leitores...? Adiante.Linhas Trocadas reflete o meu eu. Sou eu em palavras. Essas descrevem o que me ia na alma no exacto momento em que escrevi. E relato o que me apetece sem esperar algo em troca. Ecrevo porque gosto de escrever. Escrevo porque encontrei ali o meu Diário, que não é diário. Escrevo pois tenho em mim uma enorme vontade de o fazer para libertar ideias, sentimentos, marcos da minha vida. Para mais tarde recordar, talvez. E se está aí alguém ou não, não me interessa. O que realmente me interessa é que quem me quiser ler o pode fazer livremente.E resta-me este blogue que lêem agora. Um blogue em vias de extinção temporária, reaberto a pedido de um amigo. Amigo este que conheço muito bem, embora saiba que ele não me conhece a mim, ou conhece. Outrora trouxe a este espaço assuntos que me deixaram boquiaberta ou que simplesmente me atrairam. Histórias dum país, duma nação, aquela notícia que li no jornal, histórias insólitas, etc. Irá estar congelado, até que me volte a apetecer escrever-lo de novo.Essa é a essência dos blogues: escrevemos o que queremos, porque queremos e quando queremos. Ponto final. É um espaço maravilhoso onde se reúnem milhares de pessoas todas diferentes e todas iguais. Qual hi5, qual fotolog! Aqui existem palavras, sons, imagens. Existe um contacto próximo ainda que distante. Existe compreensão e carinho, existem amizades, existe confiança. Porque eu só leio o que gosto e se não gosto do que leio retiro-me. Lamentavelmente existe quem não o faça mas esses têm mesmo que existir porque é assim toda e qualquer sociedade. Conforme-se quem quiser algum dia acabar com essa espécie má, inoportuna e intolerante. Já dizia a avó da minha trisavó, o que não tem remédio remediado está.Em jeito de conclusão quero fazer um agradecimento a todos os escritores que enchem os meus olhos de boas leituras e que, tal como eu, encontraram aqui um lugar seu, onde tudo é permitido, onde as palavras são rainhas e o pensamento rei.E não me estendo mais, porque o tempo é curto. posted by A.M. at
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2º TEXTO RECEBIDO

(Diogo Ribeiro, em "Despojos do Dia")

Sábado, Setembro 16, 2006

O que é, e para que serve a blogosfera?
Primeiro que tudo, é de salientar que o
Lauro António tem um blogue. Convém avisar e não esquecer. Já o visitara antes aquando da sua selecção do blogue da Encandescente como um dos blogues a visitar, e da sua recomendação a uma obra de George Steiner - "A ideia de Europa" - que me escapou pelos dedos hoje (mas amanhã é outro dia).
Segundo, o texto seguinte é uma resposta ao seu desafio feito a todos os bloguistas que por aí andam, a explicar por suas palavras "O que é, e para que serve a blogosfera? O que pretendem quando escrevem um post no seu blog".
Caro Lauro, esta é a minha opinião.
Poderei estar errado mas penso que tentar julgar o fenómeno da blogosfera é pernicioso se nos cingirmos à sua manifestação mais recente. O fenómeno em si tem vindo a crescer e não é tão novo quanto isso. Desde que a interner ganhou algum momentum que tem sido possível criar páginas web com o mesmo tipo de conteúdo. A grande revolução veio por meio da facilidade com que agora qualquer um pode gerar e mostrar conteúdo. Toda a novidade resulta de tratar o conteúdo como se de um diário se tratasse: temos o conteúdo, introduzimo-lo numa página e publicamos. Em alguns segundos os fragmentos da nossa vida já estão em aberto, expostos.
A razão pela qual a blogosfera em si é um fenómeno galvanizador de massas – além da já referida facilidade que tem sido gradualmente introduzida nas tecnologias disponíveis - tem mais que ver com o culto da celebridade e de a linha que divide o homem comum da celebridade em si ser cada vez mais reduzida, do que necessariamente com um desejo natural de expressão. É um triunfo da aspiração a ser algo sobre a intenção de realmente ser algo. Um culto de afirmação. A necessidade humana de adaptação, de ser, mais que um animal social, um animal com um posição hierárquica numa meritocracia – neste caso, virtual. O número crescente de tecnologias e de formas de comunicação está a permitir ao cidadão comum abstrair-se da sua vida, da sua rotina – a elevar-se acima dela. Antigamente as estrelas de cinema faziam-se com contractos multimilionários, grandes orçamentos, majestosos cenários, luzes, câmaras, acção. Hoje, qualquer pessoa com uma câmara de filmar e uma simples (e cada vez mais barata) ligação à internet pode ser vista e avaliada por milhões em segundos – via algo como o YouTube. O progresso, a velocidade da vida, a formatação de um modo de viver que cada vez mais disponibiliza fantasmas de sonhos a todos. A fama, como um qualquer produto que outrora só estava nas mãos de uma elite social, é agora instantâneo, facilitado como um produto de supermercado. A luta de classes é agora uma luta de massas, o proletariado já não oferece apenas força de trabalho mas entretenimento; já não recebe apenas salários mas também audiências, hits, visitantes por dia. A condição humana a um download de distância.
Na contemplação e reflexão da nossa natureza isto traduz-se num panóptico no qual não nos reduzimos a uma inspecção mas sim também a uma avaliação. Um asilo que filma um lunático mas que lhe disponibiliza a visualização de todos os outros que estão presos com ele. E na natureza humana, há algo que nos atraia mais do que nós próprios? Já Pierre Boaistuau o dizia nas suas Histoires Prodigieuses (1560), que não havia mais nada que despertasse tanto o espírito humano, nada que impressionasse os sentidos, ou que provocasse tanto terror e admiração simultaneamente do que os monstros, prodígios e abominações através das quais víamos os trabalhos da natureza invertidos, mutilados e truncados. E é isso que a blogosfera representa na sua essência, a atracção que temos pelo circo de nós próprios, por todo o acto circense que vai desde as atrocidades até às banalidades mais humanas. As anotações, as inseguranças, as intimidades, as dúvidas, os pequenos crimes, a pornografia, a reflexão, toda aquela subjectividade, tudo aquilo que somos exposto e dissecado por pessoas que bebem as nossas palavras, respiram as nossas imagens, vivem momentaneamente o que somos num fascínio voyeurista que se espalha a cada novo blogue na constelação da enorme blogosfera. Tudo o que somos, tudo o que podemos ser, livre, sem barreiras, à espera de ser dito por nós e encontrado pelos outros. O eu como livro de regras, religião, dicionário, pronto a ser desfolhado e adoptado.
Sem me incluír ou excluír directamente nesse tipo de fascínio, julgo estar a ser honesto quando digo que a minha própria relação com o acto de blogar será talvez um olhar sobre um diamante de possibilidades, cada face uma maneira, uma hipótese diferente de encarar a situação. Não admito a hipótese de um qualquer egotismo, pelo menos no sentido de um exagero de personalidade; nunca fui adepto de exagerar aquilo não vale a pena ser exagerado. É antes um fechar de portas ao ruído, à análise e a à luta exterior; é uma força da natureza e ao mesmo tempo é um filtro, uma censura; é fechar as portas da consciência mas deixar as janelas abertas para que circule o ar da expresão; é simplesmente não estar lá e no entanto ser visto por todos; é uma salvação. É uma certeza num presente que duvida de tudo, de si próprio, mas que deve continuar a vir de mim vir até mim, para me assgurar de quem sou e como sou. Cada blogue é um ponto de fuga de uma perspectiva de realidade que as redes de comunicação global nos apresentam, é o mundo ersatz onde o homem se consegue definir melhor: o homem, o redentor, o profeta de si próprio. Onde a isolação do escriba já não é um obstáculo nem considerado uma fuga da realidade mas sim um portal para todo o lado, para um outro aspecto da mesma realidade, a omnipresença de um qualquer deus desafiada por meros mortais.
O hábito de criar um jornal ou um registo não passa pela superficialidade da anotação do dia a dia. É uma viagem pela contradicção do meu próprio ser. Sim, há um dia a dia que surge na minha escrita mas não é necessariamente o dia a dia que vivo. Há registos confessionais sem serem verdadeiras confissões. É uma honestidade brutal que nunca chega a magoar a quem é dirigida. Ao escrever um post num blogue, ou a escrever um texto com a intenção de o publicar num blogue há um processo semelhante ao de uma abstração cubista, aplicada a mim mesmo – a quebra do eu, a análise do eu, e a reconstrução do eu. O resultado final é quase sempre um conjunto de interpretações diferentes do que sou originalmente, várias ideias divergentes que partem de um centro de verdade mas que não remetem o leitor directamente para lá. Não é o mesmo que uma escrita dadaísta ou futurista; é antes um exercício básico de interpretar a forma e recriá-la sem passar pela destruição da mesma. A vantagem deste processo é que permite a descoberta do íntimo e evitar um certo grau de corrupção na avaliação do próprio; penso que há maior discernimento quando nos analisamos sem influências, expectativas ou ideias feitas. Quer seja num poema ou num texto, tento sempre encarar um post como uma reflexão – semelhante a uma escrita automática – que me permite abrir as portas da barragem, de assumir todas as dicotomias do pensamento, do sentimento, da memória, e de navegar por elas até chegar aonde todas elas confluem.
A noção de que estou a fazer esta viagem e de que outros a podem acompanhar pode passar por um certo ideal romântico de fama, mas não tenho essa ambição. Entretenho a noção, mas não satisfaço a ambição. Gosto de escrever, como método de terapia, auto-análise, de fuga, de interpretação e entendimento de realidade. Se exponho o que escrevo não é por procurar aceitação mas por querer partilhar a viagem com outros. Não é uma busca pela fama – já queimei literalmente centenas de textos por não gostar deles, por achar que já não reflectiam a minha realidade. E nunca soube sequer aceitar elogios que professores me faziam em termos de escrita. A hipótese de publicação de trabalhos é algo surreal e que só me atrai porque, como o mais comum dos mortais, tenho contas a pagar. Não é uma qualquer ideia distorcida de que sou um génio – antes pelo contrário, em muitas coisas até me encaro como alguém medíocre que leu livros a mais e que agora tem que soltar todas as ideias que o assombram. O que me interessa é o mais puro e simples hedonismo que encontro na descoberta do ser e do sentir, e de afirmar sem pejo “isto é quem eu sou, isto é como eu sinto”. E espero conseguir continuar a fazê-lo. E que o blogue me ajude a fazer isso. Diogo Ribeiro at
19:48

3º TEXTO
(Matilda Penna - em "
nanbiquara" - Bahia - Brasil)

"O que é, e para que serve a blogosfera? O que pretendem quando escrevem um post no seu blog?"
Bom, a blogosfera é um universo feito de muitas galáxias, cheio de estrelas, de satélites, meteoros que desabam sobre nossos blogs, cometas que passam, enfim, é uma mostra da sociedade, do mundo, dos humanos, do nosso jeito de ser humano, diverso, multiplo, facetado, igualzinho mesmo.
E serve para as galáxias juntarem planetas, para as estrelas brilharem, para os satélites refletirem luares esplendorosos ou não, muitas vezes os céus estão cobertos de nuvens, serve para os meteoros fazerem estragos, rombos nas nossas superfícies, para os cometas deixarem rastros brilhantes, enfim, serve para os diversos tipos de desabafos que a humanidade comporta dentro dela, para cada ser humano, único e diverso nessas constelações se mostrar, expor suas idéias, criar seus tipos, deixar seus alter-egos em forma de letras ou fotos ou sons.
E quando escrevo meu blog não pretendo nada, que nem pretenciosa sou, ora, :).
Um blog ou o formato de um blog sempre foi algo que desejei que existisse, desde que aprendi a lidar com computadores, algo fácil e simples de por no ar e onde eu pudesse, virtualmente, continuar meus cadernos com capas de flores onde eu escrevia crônicas, pensamentos, versos, pedaços da minha alma que estavam piscando na hora que pegava o lápis e tinha o papel branco na frente. Quando o formato blog surgiu, pronto, transferi meus cadernos para a internet, desde 2000 que tenho blog, vários, com nomes diversos, porque, ou o site de hospedagem acabava ou eu mudava ou o computador quebrava, enfim, ao voltar voltava com novo nome, novas cores, mesmo jeito, crónicas, versos, pedaços de meus livros, coisas que minha alma estava engasgada no momento exato de postar, nunca fiz diários, meu blog não é diário, o que escrevo pode ser uma lembrança vinda da infãncia ou ser algo que acabou de acontecer ou que nunca aconteceu mas desperta minha inspiração, enfim, um blog para mim é o meu caderno com capa de flores, em versão moderna, onde ponho meus escritos, minhas crónicas, meus poemas e meus encarrilhados, do meu dia a dia efetivamente tem muito pouco. Se lêem e gostam, fico admirada, satisfeita, toda prosa mesmo, aliás, prosa é o que mais tem no meu blog, imagens pequenas e poucas, assim como você como cineasta é amante das imagens eu sou amante das letras, gosto de escrever e vou escrevendo e o formato blog propícia isso, maravilhosamente.
E é isso, mas não é isso só... Matilda Penna (
http://nanbiquara.blogspot.com/).

4º TEXTO

(Xilla, em "confidências")

Setembro 2006 {Desafio aceite}

Resolvi aceitar o desafio do Lauro Antonio aApresenta : "O que é, e para que serve a blogosfera?", por uma simples razão, desde que criei o meu primeiro blog (já lá vão uns aninhos) li inúmeros textos que tentaram definir "a blogosfera", até eu cai em tentação, há bem pouco tempo, mas nenhum conseguiu, a meu ver, dizer tudo e tão bem como o Lauro António no post de 16 de setembro de 2006. Desde já os meus parabéns.
A 18 de Abril de 2006 escrevi o seguinte post: "Sempre defendi que um blog é o que cada um quiser fazer dele, uns escrevem diariamente , outros nem por isso , uns usam-no para desabafar, outros para criticar, outros para nada e para tudo. Uns gostam de sentir que alguém os lê e têm caixa de comentários, outros estão-se literalmente nas tintas. Desde o início defendo que todos os blogs são válidos desde que preencham de alguma maneira o seu autor. Por esta razão nunca fiz nenhuma critica generalista ou concreta. Mas já há algum tempo que alguns blogs me fazem confusão porque a única coisa que os move são números, não se preocupam com conteúdos, mas com visitas e para o conseguirem usam de tudo numa tentativa desesperada de chegarem a Tops. É triste, mas é assim que vai a "blogosfera""
Passados 5 meses continuo a ter a mesma opinião, e cheguei a conclusão que desde o início que este problema existe, eu é que andava maravilhada (leia-se cega) e não dei conta :)
Hoje gasto um décimo do tempo que gastava nos meus blogs, sobraram 2 , o “confidências” que criei para partilhar com um grupo de amigos e o “diário de um logótipo”, uma espécie de diário de um trabalho que ficou de borla e que deu muita dor de cabeça, obstáculos na vida de uma designer gráfica. O saldo ainda continua positivo, ainda me da gozo criar o layout, escrever, postar os meus trabalhos e as minhas brincadeiras, mas já não me identifico minimamente com a chamada "blogosfera", cada vez mais parecida com o "mundo do
futebol" :) Confidencia de Xilla 4:31 AM

5º TEXTO

(Hugo Alves - "Amacord")

Hugo Alves disse...
Mas que belo desafio. Eis o adiantar de algumas ideias:

- estamos numa época em que a imprensa escrita está em crise e parece ter votado ao abandono certas áreas, designadamente o Jornalismo dito cultural. Alguma blogosfera acaba, pois, por tentar colmatar essa lacuna.

- esta é a época em que se publicam muitos livros ditos light, acabando por fechar a porta a muito potencial escritor de talento. Também há por aí blogs que mais não são do que o sítio onde cada um se pode, por assim dizer, auto-editar.

- e depois, claro, há os que se dedicam às suas paixões, os que mostram curiosidades, os que se dão, os que incentivam o diálogo.Talvez seja este o Admirável Mundo Novo da palavra e da imagem. Eu gosto. Muito. E, sinceramente, acho que tal como na literatura, não demorará muito a classificação de blogs: thrash, erudito, especialista...etc.O que importa é que, desde que fomente a discussão - mas com elevação!

- um blog será útil. Porque a troca de ideias é sempre o primeiro passo para tentar alcançar a Verdade. Mas isto digo eu, que sou um idealista por natureza.Abraço,
Domingo, Setembro 17, 2006 8:50:03 PM

6º TEXTO

(Teresa - sem blog)

Tereza said...

Caro Lauro,

Não tenho blog. Não sei se algum dia terei um. Contudo gosto de espreitá-los. Nunca foi tão fácil mergulhar no pensamento humano, seja lá o que for e o que pensa esse ser humano. E, particularmente, gosto deste universo que ora nomina-se "blogosfera":). É como um grande Big Brother virtual. É algo instigante, que atiça a nossa curiosidade. Isto, na verdade, também pode ser um grande confessionário virtual. E é uma delícia ler tantas confissões...Tornarmo-nos íntimos do pensamento de quem nunca vimos na vida. Porém não nos coloquemos de papel de padres austeros, juízes severos. É inútil e fora de hora. Temos mais é que aproveitar a abertura para tantos mundos, para tantas verdades ( e que bom que há tantos!). Que venham mais!!! Segunda-feira, Setembro 18, 2006 4:09:30 AM

7º TEXTO

(Tomás Vasques - "Hoje há Conquilhas")

Setembro 17, 2006

O que é, e para que serve a blogosfera?
Meu caro
Lauro António: respondendo ao seu desafio, de forma sintética, direi que a “blogosfera” é a mesa do café, o largo da aldeia, a sociedade recreativa, onde cada um bota opinião, diz bem, diz mal, despeja emoções, sentimentos, conhecimentos e sei lá quê mais: participa, comunica e convive. É, de um modo geral, a voz do povo (quase – é preciso ter computador) descalço que se pronuncia sem esperar por eleições. Caminha para a democracia participada a sério, sem aquelas encenações de Porto Alegre onde só participavam os militantes dos partidos políticos. É para ter em consideração e não se assustarem* com isso…
*(
Hoje a blogosfera é território exclusivo de adolescente (os “queridos diários” de antigamente), feirantes de vaidades, autores frustrados que só ali conseguem publicar-se, almas solitárias à procura de um qualquer eco, e também – certamente – de espíritos generosos que fazem doação militante das suas ideias).
posted by tomasvasques at
11:49:00 PM

8º TEXTO

(Sony Hari - "Gola Alta")

Check-up blogosférico

Um desafio é sempre um desafio, e este do Lauro António pareceu-me tentador. O que é, e para que serve a blogosfera?

A blogosfera é um espaço "camaleónico", veste-se e pinta-se de acordo com a necessidade, conveniência, objectivo, tara e mania de cada um. Os autores de blogs podem mudar de estilo, de rumo, de tom sem pedir autorização. Não precisam dela, é verdade, mas acho que a maioria se alinha pela estabilidade do registo, até por uma questão de coerência e também de fidelização de leitores (parece conversa de Bancos e operadoras de telemóveis).

Se pudéssemos observá-la do céu, a blogosfera seria uma imensa manta de retalhos, quadradinhos de posts, uma rede de layouts, para todos os gostos.

Apesar de nada vender, e nada comprar, a blogosfera é também um mercado de palavras, algumas soltas, muito soltas, quase sem parentesco, outras que se transformam em textos de qualidade razoável, às vezes boa, e muito raramente excelente. Os que acho muito bons (falo dos posts), sinto até alguma vergonha por poder lê-los e não pagar nada. É que às vezes compram-se jornais e revistas com tanta porcaria, e editam-se livros sobre coisas que não lembram ao diabo, e pagamos por eles!? Também há o outro extremo, aqueles blogs (e seus posts amestrados) que nem que me pagassem eu lá voltava, porque são um espaço de depressão, de angústia e de pobreza de espírito. Chego a sentir tonturas e falta de ar.

O meu blog serve, sobretudo, para poupar papel e caneta. Já tenho pouca paciência para escrevinhar em papéis, agendas e bloquinhos, e confesso também que a minha caligrafia se degrada a cada dia que passa (tenho pena!). E como cheguei à conclusão que o que escrevia podia interessar a uma ou duas pessoas, quem sabe meia dúzia, achei que não havia mal em abrir uma porta e colocar o reclamo luminoso.

Acredito que a blogosfera está aí para ficar e que tomará formas cada vez mais complexas e diversas (se ainda é possível mais diversidade). No dia em que o encanto se quebrar, sairei como entrei, faça chuva ou faça sol, num recolhimento silencioso, e levarei o rasto cor-de-rosa comigo.

Obrigada. Sony Hari

TEXTO 9
(china blue – "Sociedade Anónima”)

Com a devida vénia (espero que a autora, e cúmplices de blog, não se importem; se importarem digam, eu retiro), transcrevo de um blog, “Sociedade Anónima”, um texto que, embora só aborde uma parcela, mas muito grande da blogosfera, me parece particularmente interessante e se enquadrar muito bem neste “desafio”. O texto já tem uns dias, mas continua de uma enorme actualidade (e continuará). O blog é muito bom, bem escrito, divertido, irónico, incomodativo, irreverent e etc., e tem aquilo que já defendi por aí, sobretudo na polémica sobre “Angel-A”: mais vale assumir que andar sub-repticiamente a sugerido, com coragem para se chamar os bois pelos nomes. Bom bogs, que entra na lista dos blogs a aconselhar. Aliás não podia ser de outra maneira, quando alguém nele escreve: ”Eu tenho fantasias demais para ser uma dona de casa. Acredito que eu sou uma fantasia” Belissimo.

10.7.06
Blogues de engate no feminino

Bom, então para desviar um bocadinho do tema horny sex (ou nem por isso) e porque o prometido é devido, vamos a isto. O tema é delicado, afinal, vou falar das minhas irmãs de sangue, de mim própria. Este é, portanto, um post longo (fica feito o aviso), algures entre o levantamento demográfico e a auto-ajuda, no qual abundarão as analogias com a lei da selva, por motivos óbvios.
Assim (e ao contrário dos masculinos), nos blogues femininos impera a biodiversidade de estratégias, temperada por mais subtileza e uma maior determinação férrea, pelo que não é fácil reduzi-los a meia dúzia de estereótipos para efeitos de dramatização. É que, se os homens não têm vergonha em mostrar que andam à caça, já as mulheres fazem questão de assumir o papel de presas distraídas (e nunca de predadoras - que é o que, na verdade, são).
Em primeiro lugar, uma blogger disponível tem que mostrar que o está, porque a maior parte dos homens (solidários com a sua própria espécie) não estão por aí além interessados na invasão do território alheio. No entanto, também não convém aparentar demasiada inexperiência, que o tempo da desfloração de virgens já lá vai e hoje em dia ninguém está para ensinar nada a ninguém (nos tempos actuais não se perde tempo na cozinha: é enfiar refeições prontas no micro-ondas e comer). Ora, como se conjugam estas duas vertentes? Simples, escrevendo sobre uma relação mais ou menos acabada e que não tenha dado certo: à disponibilidade do presente junta-se a experiência amorosa do passado, ao mesmo tempo que se aproveita para alardear a sensibilidade estética e artística através de poemas, quadros, fotos e prosa poética, de preferência da própria lavra (nisto, fazem o mesmo que os gajos).
Como forma de acautelar a chegada da mensagem ao receptor, a blogger à procura tem o cuidado de fazer constar da sua lista de linques quase só blogues de homens, de preferência listados pelo nome verdadeiro dos seus autores. Pelo meio, põe uma ou outra gaja para disfarçar. É um facto comprovado: este tipo de mulher detesta todas as outras bloggers e mulheres em geral, olhando-as como fêmeas que lhe disputam os machos alfa; no entanto, e para não dar muita bandeira, escolhe sempre uma ou duas daquelas bloggers mais totós (as nerds que vivem para socializar através dos comentários, tadinhas), de quem se finge amiga e que acalenta em respostas, nos mails, etc. Numa vertente mais extrema, a blogger é machista e misógena: despreza as outras mulheres, achando-se a única digna representante da espécie e acredita que a raça masculina é a única por que vale a pena esforçar-se (problemas com a mãe e assim). Escusado será dizer que o arremesso público da sua disponibilidade aparente é independente da disponibilidade de facto: uma blogger pode andar à procura, e ser casada, namorada, amancebada, whatever (a solidão encontra sempre buracos por onde entrar e se instalar). O que interessa é dar a imagem de que não o é, para não espantar a freguesia.
De seguida, há que ter o cuidado de colocar no perfil uma foto verdadeira meio disfarçada no photoshop (se a gaja for efectivamente boa), onde realça um ombro, um olho, um joelho, ou então uma imagem de uma outra gaja boa (no caso de ela própria, blogger, ser um estafermo e ter consciência disso). Depois, é arranjar um nome evocativo de heroína trágico-boazona com laivos de sedução místico-erótica, assim tipo lady godiva, mata-hari ou china blue, e não indicar o autor das fotos com partes do corpo eventualmente a descoberto, deixando no ar a dúvida se aquela maminha que se antevê será, ou não, da que se assina lady godiva, ou se aquele cavalo branco da foto do post de sábado, foi, ou não, efectivamente montado por ela em pêlo.
É claro que uma blogger destas, por mais desesperada que esteja, não pode entrar a matar, pois sabe que espanta mesmo a homenzarrada mais afoita, pelo que, nos primeiros tempos de blogue, convém mostrar-se self-centered q.b. no seu desgosto amoroso (imaginário ou não). Há que cuidar de não cair na lamechiche excessiva e de não abusar das reticências (o que é quase impossível: o mulherio adora as possibilidades em aberto que advêm de umas boas reticências). Se opta por seduzir pela vertente estritamente intelectual em vez da romântico-lamechas e resolve ter opinião, não pode ser demasiado assertiva, pois tal também espanta os homens que, fascinados embora com as suas eventuais inteligência, argúcia e capacidade argumentativa, fogem a sete pés com medo do confronto: nenhum gajo gosta de uma blogger de calças. Eles até acham graça à converseta do morra o macho pim! (atrai-os a perspectiva de domarem a fera e de lhe dobrarem os ossos), mas convém não exagerar.
Uma coisa que estas bloggers têm especialmente em atenção é o fazerem coincidir a música, em especial a letra, com os seus estados de espírito, pois é assim que enviam mensagens subliminares aos potenciais pretendentes. Tipo, e hoje rola aqui no gira-discos do engate, you had a bad day, de james blunt, porque também eu, coitadinha de mim, tive um dia para esquecer, merda, ai a minha vida iadaiada, não me queres vir consolar. Também gostam de mostrar que são um bocadinho malucas, pá! e que até dizem algumas asneiras quando é preciso, especialmente quando estão chateadas, vão no trânsito, apanham bebedeiras, gritam com as empregadas nas lojas ou desafiam o patrão que lhes olha para o rabo ou para as mamas (sempre fantásticos). Para contrabalançar, volta não volta deixam cair informações soltas sobre teses de mestrado ou cursos de especialização extraordinariamente difíceis por acabar, para que se perceba que, apesar de estarem sozinhas e serem boas como o milho, não são estúpidas.
Um outro aspecto engraçado: como todos os homens são tendencialmente voyeurs (os bloggers, então, nem se fala - se não, não seriam bloggers mas outra coisa qualquer), a blogger vai deixando cair poemas ou opiniões que demonstram inequivocamente a sua forte e encantadora personalidade, bem como bocadinhos da sua intimidade. Como quem não quer a coisa, lá vem a copa de soutien que usa, quanto mede, a cor dos olhos, do cabelo, o peso (pesam sempre menos de cinquenta e cinco quilos e a maioria tem olhos verdes, o que é extraordinário, pois ficamos com a sensação de que a blogoesfera é uma afiliada da Central Models), a curva do pescoço, a frescura do ombrinho... É claro que algumas, mais desesperadas, perdem completamente a noção do decoro e acabam a elogiar-se desmedidamente nas suas características físicas e intelectuais, como se fossem espelhos mágicos de si mesmas, o que se torna patético - mas com as malucas super-hiper-extra não vou perder, nem o meu, nem o vosso tempo. Adiante.
Também costumam dar a entender que até sabem cozinhar (embora odeiem o corropio doméstico, brrrr!, pois são muito independentes), mas sempre na onda da nouvelle cuisine, onde usam ingredientes difíceis tipo cardamomo, acelgas e gengibre (são poucas as que assumem que não sabem estrelar a porcaria de um ovo ou, então, que admitem que o que gostam mesmo é de se alambazarem com um cozido à portuguesa cozinhado por elas... o que seria manifestamente grosseiro). Por princípio, têm gatos (mais raramente, cães) aos quais devotam enorme carinho, como se dissessem a quem as lê, vêem?, em vez do félix podias ser tu, aqui enroscado no meu colo e eu a coçar-te as virilhas, pois tenho muito amor para dar, não sei se já percebeste.
Depois, os métodos de aproximação. As mais espertas elogiam sem parcimónia, pois sabem como os homens se pelam por amostras de admiração vindas do sexo fraco, como se vendem por uma fracção da admiração feminina: quanto mais bajulação, melhor. Um breve comentário a mostrar como perceberam o sentido do post do gajo (apesar de este parecer ter sido escrito em sânscrito) e o dito fica logo de anteninhas levantadas. Segue o link, dá com a imagem de um mamilo alçado e com um desabafo de amor em três linhas (os posts têm de ser curtos, se não o gajo maça-se e baza), um comentário por troca e trucas! , está estabelecida a comunicação. Elas também gostam de usar um outro método mais subtil, que é o de se fingirem de lorpas quanto a templates, códigos html e quejandos: opáaa!, apaguei o blogue sem querer, buáaaa, alguém me ajuda? Alguém me põe uma musiquinha que eu não sei como?, e por aí fora. Na verdade, existe sempre maneira de despertarmos o cavaleiro andante que existe em cada blogger-gajo, designadamente fazendo-nos de tontinhas que precisam de ser salvas das garras da ignorância informática. Nunca falha.
Entabulada a conversa vem a parte das fotografias via mail, olha lá como é que sou, e aqui elas tendem a aldrabar e a enviar fotos de quando eram muito mais novas, mais magras e relativamente mais favorecidas pela mãe-natureza (fotos com, digamos, para aí uns dez ou vinte anos de atraso). Algumas chegam ao cúmulo de enviar fotos de fim de curso (quiçá por ter sido essa uma das poucas alturas em que alguém se terá dado ao trabalho de as fixar com alguma atenção, nem que fosse apenas o fotógrafo de serviço: estamos a falar de muita tesão mas também de muita solidão, é preciso não esquecer).
É claro que, a seguir, se vêem metidas num pau de sete varas e prolongam a relação virtual até ao limite do impossível, ou seja, até o gajo se fartar de apalpar o ar e se babar para o ecrã e partir para outra. Ficam a arder, claro está, mas no fundo já estão habituadas: a vida destas mulheres que remexem nos fundos virtuais da blogoesfera a ver se encontram algo que lhes sirva é, fundamentalmente, cerzida a suspiros em frente a um ecrã, seja de PC seja de televisão. Aliás, o ponto universal de partida para se ter um blogue, seja ou não de engate, é sempre o mesmo: darmos vazão a uma espécie de loucura contida e arremetermos contra a solidão que nos infecta, mesmo que vivamos rodeados de pessoas e tenhamos que nos fazer ouvir aos gritos.
E sabem que mais? Eu até acho muito bem que através dos blogues e dos expedientes que atrás referi (e de muitos outros), homens e mulheres, e homens e homens, e mulheres e mulheres, se engatem, se apaixonem, se desenganem, se comam, se adorem, se embirrem, se detestem, se precisem, se dispensem... whatever, e driblem assim as suas intrínsecas solidões. O que me irrita um tinnytinnylittlebit é andar tudo a fingir que não se está cá para isso. Olecas. posted by china blue at 6:09 PM
para ver os comentários a este texto, ir a :
http://soc-anonima.blogspot.com/2006/07/blogues-de-engate-no-feminino-bom-ent.html

Infelizmente não descobri nenhum texto sobre blogs de engate no masculino. Será por serem tão infelizes quase todos?


TEATRO EM LISBOA

" PEDRAS NOS BOLSOS"
no Mundial
de Marie Jones
(boa versão portuguesa
de Marta Mendonça)
encenação de Almeno Gonçalves
com Alexandre Ferreira
e Heitor Lourenço.
Inteligente, divertido,
muito cinematográfico,
bem representado.
Voltarei ao local deste crime,
para desenvolver o comentário.

TEATRO EM LISBOA

"OS ENCANTOS DE MEDEIA"
TEATRO NACIONAL D.MARIA II
Com espectáculos a este ritmo,
não dou vazão,
em tempo útil .
Belíssimo este "Os Encantos de Medeia",
em marionetas,
abrindo um ciclo dedicado
a António José da Silva (O Judeu).
Não percam.
Eu voltarei a este post,
para o completar.
Entretanto fica o aviso!"


PRÉMIO FNAC
NOVO TALENTO FOTOGRAFIA
Quinta feira, 21 de Setembro de 2006
Forum Fnac Chiado
19 horas

Entrega dos prémios a

Nelson d'Aires

Ivo Dias de Sousa e João Paulo Aça

Teresa Sá

(parabéns Teresa, lá estarei,

não me esqueço que estou ligado

ao teu primeiro prémio.

Nada como boas apostas!)

TEATRO EM LISBOA



“THE PILLOW MAN” – O HOMEM ALMOFADA


“The Pillow Man”, de Martin McDonagh, é uma peça de teatro particularmente interessante nos temas que aborda, mas também muito inquietante na sua formulação. De todas as formas é um magnífico espectáculo de teatro, com uma forte e austera encenação de Tiago Guedes (mais conhecido como realizador de televisão e cinema: a ele se deve, por exemplo, a co-autoria de “Coisa Ruim”) e uma interpretação de uma qualidade média acima do normal em palcos portugueses, assinada por Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, João Pedro Vaz, e Marco D’Almeida.
Deduz-se do desenrolar da peça que nos encontramos num país europeu, debaixo de uma ditadura. Numa delegação da polícia, um escritor de histórias infantis, é interrogado. Ele escrevera algumas histórias para crianças bem perversas e outras de um sadismo inequívoco. Agora os agentes da autoridade confrontam-no com a semelhança das suas histórias e três mortes de crianças ocorridas recentemente. O interrogatório é violento, toda a peça é de um a tensão dramática quase insustentável. As histórias de Katurian, o escritor, vão sendo lidas, as versões dos crimes vão-se descobrindo, e uma das mais emblemáticas é mesmo a historio do “Homem Almofada” que convida as crianças a suicidarem-se, para assim não passarem por vidas de sofrimento que se avizinham. O homem almofada acabará por actuar no próprio irmão do escritor, que sofre de um atraso mental, se encontra fechado em casa, excepto dos dias em que resolve tornar reais as ficções de Katurian.
A construção dramática é simultaneamente simples e complexa, com vários registos de narrativas interligados, mas a encenação de Tiago Guedes torna-a clara sem a banalizar, muito pelo contrário. A direcção de actores é, também ela, muito boa, com destaque para os dois protagonistas.
O inquietante nesta história são as conclusões que a peça pode levar o espectador a retirar. Legitimamente. Que os Estados totalitários, servidos por polícias fortes, até têm razão de existir, tais as taras dos cidadãos que povoam as cidades e cometem crimes horrendos; que a arte deve ser regulada, seguida (censurada?) pois a perversidade de alguns criadores, pode levar cidadãos pouco preparados a re-inventar na realidade essas perversidades lidas, ouvidas, vistas.
Uma peça que justificaria um amplo debate, tanto mais que vai ficar seguramente como um dos grandes espectáculos encenados em 2006 nos palcos portugueses.
A nova direcção do Maria Matos (Diogo Infante, e quem o escolheu) está de parabéns pela forma como deu a volta a uma sala que se tornou excelente, agora com magnificas condições e uma boa programação.

Martin McDonagh é irlandês e escreveu antes de “The Pillow Man”, “The Cripple of Innishman”, “The Beauty Queen of Leenane”, “A Skull in Connemara”, “The Lieutenant of Inishmore” e “The Lonesome West”, afirmando-se como um dos grades dramaturgos actuais de língua inglesa, com uma propensão muito forte para temas violentos e humor negro.

“The Pillowman” estreou a 7 de Setembro no Teatro Municipal Maria Matos e estará em cena até 15 de Outubro, no horário de 4ª a sábado às 21h30, domingos às 17h00.
Encenação e tradução: Tiago Guedes; Interpretação: Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, João Pedro Vaz, e Marco D’Almeida; Cenário e animação: Jerónimo Rocha, Joana Faria, Nico Guedes; Figurinos: Carolina Espírito Santo; Música original: Hugo Leitão; Desenho de luz: José Álvaro Correia; Produção Teatro Maria Matos 2006; duração do espectáculo. 120 min; classificação M/16 anos.

Outras encenações de The Pillow Man (inglesas e americanas)

segunda-feira, setembro 18, 2006

CINEMA - A CASA FANTASMA

“A CASA FANTASMA”

D.J., Chowder e Jenny (nas vozes de Mitchel Musso, Sam Lerner e Spencer Locke), adolescentes, habitando num daqueles tão característicos bairros suburbanos norte-americanos, descobrem que a casa fronteiriça à da família de D.J. está assombrada. Para lá de ter um proprietário de meter medo a qualquer incauto, sempre que lhe pisam a relva do jardim, estranhos acontecimentos sucedem, demonstrando que a casa parece estar viva e engolir o que lhe passa ao redor. A polícia não acredita na versão dos jovens, e dado que assim é são eles próprios que resolvem investigar o mistério. No dia em que o sinistro Nebbercracker tem (ou julgam eles e julgamos nós que tem) um fulminante ataque de coração, os jovens invadem a casa e vão descobrir quais os segredos que ela encerra. Do piorio esta visita à casa fantasma, que até faz arrepiar os cabelos aos adultos, quanto mais às crédulas criancinhas. É mesmo um susto dos antigos, com portas a ranger, precipícios, terrores vários, ameaças múltiplas.
São Steven Spielberg e Robert Zemeckis, como produtores executivos, que dão a cara por esta nova produção da “Dreamworks”, que tem realização de Gil Kenan, um filme de animação tridimensional, técnica que já estivera na base de “Polar Express”, em 2004. Deve dizer-se que a qualidade técnica, sobretudo na animação das personagens humanas, é muito melhor, o que importa referir numa obra onde estas são essenciais. O filme repousa sobretudo em figuras humanas, três jovens, muito bem caracterizados psicologicamente (e fisicamente!), um velho rezingão, e alguns secundários, como os agentes de polícia ou os familiares adultos dos adolescentes. Não esquecendo obviamente o lado espectacular do terror, que advém da terrifica humanização da casa. Ao falar em humanização da casa há que referir que por detrás dela está a voz, mas também os gestos de Kathleen Turner, e não esquecer que quem procede de igual modo quanto a Nebbercracker é Steve Buscemi. O que ajuda a esta bela festa do fantástico para jovens apreciadores (será que não haverá, porém, alguns que se deixam intimidar em demasia pelos efeitos especiais? Eis uma dúvida a manter.


A CASA FANTASMA (Monster House). de Gil Kenan (EUA, 2006), com as vozes de Mitchel Musso, Sam Lerner, Spencer Locke, Maggie Gyllenhaal, Kevin James, etc. 91 min; M/ 6 anos.

CINEMA: Let's look at the Trailer

“DOUTOR ESTRANHO AMOR”
(Ou como aprendi a amar o preservativo e deixei de me preocupar)
Recebi de uma “velha” amiga (“velha” é como quem diz, já a conheço há alguns anos, era ela menina e moça), a Leonor Areal, um email que rezava assim:

“Doutor Estranho Amor”
(Ou como aprendi a amar o preservativo e deixei de me preocupar)
Um filme de Leonor Areal
Exibição em 21 de Setembro
às 15h30 no cinema Quarteto
Integrado no Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa
E explicava-se o que era o filme: “Este documentário mostra uma Brigada de estudantes de medicina que faz prevenção da SIDA numa escola. Ao longo de 10 semanas, acompanhamos os seus insucessos e conquistas junto de uma turma de adolescentes problemáticos. Um filme que nos coloca inúmeras questões sobre como falar de sexualidade, centrando o seu olhar no confronto de valores dos intervenientes e nos laços entre eles criados, ao longo desta experiência de mudar comportamentos e consciências.”
Mais informações em:
http://videamus.planetaclix.pt/doutor_estranho_amor.htm

Ora bem, não vi o filme em questão, mas conhecendo alguns trabalhos da Leonor, mau não é certamente. Valerá seguramente a deslocação. Mas o título, a glosar Kubrick, é perverso: “Doutor Estranho Amor” (ou como aprendi a amar o preservativo e deixei de me preocupar). Deixei de me preocupar com o acto, com o parceiro? Por essa de “amar o preservativo”, alguém se deixa encantar? O "outro" amava a “bomba atómica”, era irónico, e muito. Este se é irónico, não funciona. Se é sério, meu Deus, onde nos levam as novas tecnologias, a amar o preservativo! É a isto que se chama “tomar a parte pelo todo”. Se alguém vir passar um garboso militar e disser: “Que bem que lhe fica a farda”, ou “que bonito que vai com aquela farda”, enfim, não é o ideal, mas cai bem. Agora se o virem passar e disserem: “Que bela farda!”, acho que o militar se sente diminuído. Daí a um grave problema psicológico, vai um instantinho. Mas pode ser muito mais grave: um par de namorado no momento de intenso clímax, ela olhar para ele, e segreda-lhe: “Amo o preservativo”. Não poderá ser causa de disfunção e impotência instantânea?
Leonor não leve a mal a brincadeira, e espero que a apresentação seja um "sussexo". "Seguro". Se puder lá estarei. Não sei se num blog ficará bem, mas “Muita merda!”

domingo, setembro 17, 2006

TELEVISÃO

“OF BEAUTY AND CONSOLATION”

Durante algumas semanas a SIC, por volta das três da manhã, em lugar do “Jornal Rural”, apresentou um programa de entrevistas que tinha como título genérico “of Beauty and Consolation” (“Van De Schoonheid en de Troost”, no original, “Da Beleza e da Consolação”, na tradução portuguesa). Por acaso vi um ou dois episódios porque alguém amigo me telefonava na altura a dizer “Vai começar agora!” ou “Apanhei o programa a meio!”
Nos jornais, às vezes lia-se:

03:00 - SIC Apresenta: Beauty & Consolation
Elucidativo.
Acontece que era um programa brilhante, onde a inteligência e a crítica, a observação social e a teorização sobre a arte, a sociedade, a religião, a filosofia atingiam níveis raramente alcançados, com uma simplicidade de linguagem e uma ausência de pedagogia barata que cintilava. Foi uma série de vinte e seis longas conversas com vinte e seis relevantes personalidades do mundo da arte, da ciência, da música, do canto, da literatura, da filosofia. Quem realizava o programa era um holandês, Wim Kayzer. Esta série foi estreada na VPRO, um canal holandês, a 2 de Janeiro prolongando-se até 1 de Julho de 2000.
Participam na série (por ordem alfabética): Karel Appel, pintor, Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro, Catherine Bott, soprano, John Coetzee, escritor, Richard Dufallo, maestro, Freeman Dyson, cientista, Rudi Fuchs, director de museu, Jane Goodall, escritor, Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo, Germaine Greer, escritora, György Konrád, escritor, Rutger Kopland, poeta e psiquiatra, Leon Lederman, cientista, Elizabeth Loftus, psicóloga, Gary Lynch, psicólogo e químico, Yehudi Menuhin, violinista e maestro, Martha Nussbaum, filósofa, Richard Rorty, filósofo, Simon Schama, historiador, Roger Scruton, filósofo, Wole Soyinka, escritor, George Steiner, escritor e filósofo, Tatjana Tolstaja, escritor, Dubravka Ugresić, escritor, Steven Weinberg, cientista e Edward Witten, cientista e matemático. O último programa reunia os 26 em debate animado e muito polémico sobre o tema central. O encontro deu-se a 9 de Julho de 2000, no Stedelijk Museum, em Amesterdão. Era domingo.
Perdi quase todos os programas e tenho pena. Como eu algumas dezenas, ou centenas, de portugueses, gostariam de ter acesso a esta série. Se possível traduzidas em português, mas nunca em VHS, e em holandês, única versão até hoje acessível ao público internacional. Pode ver AQUI como conseguir essa colecção.

Mas há um site holandês, onde é possível ter acesso a uma curiosa documentação áudio e vídeo em inglês. Veja AQUI.
Não haverá uma editora de DVDs interessada em lanças no mercado nacional tal colecção? Há apoios comunitários para a edição, e há muitos portugueses interessandos. Que tal um esforço nesse sentido? Costa do Castelo? Prisvídeo? Lusomundo? LNK? Atalanta? Castello Lopes?

sexta-feira, setembro 15, 2006

CINEMA: Diário de um Novo Mundo

“DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO”

“Diário de Um Novo Mundo”, de Paulo Nascimento, uma co-produção luso-brasileira, é um filme de uma confrangedora mediocridade, partindo de um romance de Luiz António de Assis Brasil, com argumento escrito por Pedro Zimmermann, que aborda as divisões da América entre portugueses e espanhóis, durante a época colonial (segunda metade do século XVIII), as emigrações de açorianos para o Brasil, a vida na colónia portuguesa, os amores e as traições, e etc.
Um quadro do Brasil colonial, dir-se-ia a pretensão. Mas é tudo tão pouco claro no filme. Que sirva ao menos para recordar um pouco de história: Na segunda metade do sec. XVIII, a colonização portuguesa procurou alargar e proteger o território do sul do Brasil (terras que hoje são do Uruguai, da Argentina e do sul do Brasil), disputado disputadas pelos espanhóis. Foi um tempo de guerra e violência, de ambição e de descoberta de “novos mundos”. Para garantir um reforço da posição portuguesa foram enviadas tropas, mas também colonos, sobretudo açorianos. Em 1748, o rei Dom João V promulga legislação de apoio à emigração. Muitos colonos açorianos lançam-se à aventura com rumo ao Rio Grande do Sul e à ilha de Santa Catarina. Com a promessa da coroa portuguesa de que daria terra e condições muito especiais às famílias que aceitassem ir povoar as terras brasileiras, muita gente partiu. Muitos não chegaram ao seu destino. Muitos, mais valeria que não o tivessem feito. Outros houve que marcaram com o seu sangue (e o alheio) esse pedaço de terra que ainda hoje mantém características muito especificas.
O filme começa em 1752, quando uma caravela portuguesa chega ao Brasil, transportando emigrantes açorianos. Durante viagem muitos morreram, havendo mesmo assim alguns sobreviventes que aportam à ilha de Santa Catarina, entre os quais o médico Gaspar de Fróes (Edson Celulari), que mantém um diário contando toda a perigosa viagem. E alguns aspectos da subsequente estadia em terras de Vera Cruz, misturados com uma tórrida história de amor, o adultério de uma mulher casada, Dona Maria (Daniela Escobar) casada com um tenente português, de nome Covas (Rogério Samora), que se entrega, e deliberadamente seduz, o já citado Gaspar de Fróes, que convalescia de um desgosto, a morte da mulher, quando esta tinha apenas 23 anos. Isto está tudo um pouco confuso, não está? Pois, é para conseguir captar o tom do filme, que tem uma narrativa sem pés nem cabeça, uma realização de bradar aos céus, uma fotografia baça e desfocada (seria da projecção?), uma interpretação tremendamente medíocre, mesmo quando os actores já deram provas anteriormente (salvam-se os portugueses!, eureka!), uma reconstituição “histórica” falsa como Judas (não é falsa por estar errada, é falsa de não ser vivida, de parecer tudo uma loja de antiguidades, dos actores não terem o mínimo de naturalidade, de se vestirem como manequins, de usarem adereços só para “mostrarem” a época, de nada ser como é, mas como deve ser para a fotografia).
Uma co-produção luso-brasileira, onde não vejo qual tenha sido a utilidade deste empate de capital nacional. O resultado é zero, muito embora o filme tenha ganho dois prémios no festival do Gramado. Como é possível? Gramado aqui vem de gramar?

"Diário de Um Novo Mundo", de Paulo Nascimento (Brasil, Portugal, 2005), com Edson Celulari, Daniela Escobar, Rogério Samora, Jean Pierre Noher, José Vitor Castiel, Gonzalo Durán, Marcos Paulo, José Eduardo, Felipe Kannenberg, Ney Matogrosso, etc. 94 minutos; M/ 12 anos;

UM FILME EM DEBATE

"Angel-A"
De repente, "Angel-A", de Luc Besson, apareceu em grande nos blogs portugueses. Alguns textos:
No "Divas e Contrabaixos", surge um bom texto de Maria do Rosário Fardilha. Não vi ainda o filme, não acredito que tenha o mesmo entusiasmo (Luc Besson não é realizador da minha especial preferência, faz sempre o filme que outros já fizeram, mas a um nível abaixo, o que é sempre frustrante. Este "cheira-me" que é Wim Wenders, sem o golpe de asa). Acontece que o texto da "Diva" é bom, inteligente, bem escrito. Vale a pena espreitar.
No "Ante e Post", um blog colectivo muito desequilibrado (*) (tem vindo a piorar, o Verão foi nefasto!), onde o mau gosto e o oportunismo mais rafeiro se cruzam com bons textos, inteligentes e coisas divertidas, uma referência da Lilly Rose merece igualmente reflexão. Esta Lilly Rose (que, há dias, assinara um belo texto neste blog, sobre "ser portuguesa", e que tem novo blog seu, "Antes que me Deite II", para deleite dos muitos fãs da sua sensualidade forte, onde dá livre curso às suas fantasias com alguma subtileza e uma evidente envolvência) não fala tanto do filme mas da procura de "anjos franceses". que a sobressaltam, quero quer.
Este texto, intimista, "inspirou-me" um comentáro que aqui transcrevo:

"Não será retirar-te valor, nem ao teu belo post, mas já agora aproveito para referir um texto, num outro blog, sobre este filme, que me parece interessante: http://www.divasecontrabaixos.blogspot.com/ Vale a pena ler. Eu não sou um apaixonado por Luc Besson, um francês muito americanizado, muito comercialão, mas com talento. O teu texto é bonito, e espero que encontres o teu "anjo francês", se ainda o não encontraste. E tens razão: há muitos falsos anjos só com pele deles, mas alma de puta. Já é muito mais dificil encontrar putas com almas de anjo, mas não se deve perder a esperança. E não acredito que apareçam só em França. Nem em Berlim. Mas tu lá sabes onde os procuras. Os anjos não se procuram, porém. Encontram-se. E quando assim acontece, guardam-se num cantinho que muitos (deveriam ser todos) temos no coração. Um cantinho quente e confortável, onde o anjo se aconchega e se sente bem. Mas não é preciso só encontrar anjos. É preciso estar "disponível" para os receber no seu coração. Ou seja: "ser" anjo para "ver" os anjos. Só os anjos descobrem os seus semelhantes. Por isso tanto gente os procura e os não descobre. Talvez porque não está preparada, não tem o cantinho no coração aberto a essa descoberta, não tem os olhos abertos para o mistério que é ser-se anjo. E há tantas formas de se ser anjo e tanta maneira de os ver. Beijos, de anjo para anjo.:) Quem dera!
Colocado por: Lauro António setembro 15, 2006 01:33 AM
POST_POST
(*) Por lapso, tinha saído "desiquilibrado". Normalmente escrevo estes posts em directo, no local da postagem, por vezes altas horas da noite, e é vulgar surgirem lapsos. De resto, não sou perfeito, nem anjo, nem nunca me arvorei em tal. E sempre dei erros de ortografia (o que deixava muito triste a minha querida avó Júlia, professora). Mas como houve uma alma caridosa que salientou o facto, apressei-me a rectificá-lo para não difundir, entre outros, "erros meus, má forrtuna." (ver comentários rápidos). Acontece que sei aceitar falhas próprias, o que pelos vistos não acontece com os satisfeitinhos consigo próprios, que não toleram críticas, que se sentem felizes com o que fazem, que se divertem muito com o disparate inconsequente, que julgam os outros por si próprios (orgulho-me muito se tiver 10 leitores, não me orgulharia nada de ter 3.000 se os tivesse, vendendo a alma ao demónio, para me manter no território dos anjos e dos demónios - por isso não ando a postar opiniões noutros blogs para ser visitado, prática de bajulice sistemática em certos dominios da blogosfera). E é verdade: a minha mãe nunca me previniu contra bloguistas. Não precisou. Sei prevenir-me por mim próprio.
Para terminar com esta polémica que nunca deveria ter sido, que nunca desejei: referi que o citado blog era muito desiquilibrado (emendei depois para desequilibrado). Se calhar, tenho de emendar algo mais: é mesmo muito equilibrado: merecem-se todos uns aos outros. Será? A verdade é que alguns que eu considerava em bom plano só me dão desilusões. Outros, mantêm-se ao nível habitual. O que é triste, o que me levou ao comentário inicial, é que globalmente este blog nao é escrito por inconsientes incultos. Não conheço pessoalmente os seus membros, mas tudo o que escrevem denota um nível cultural acima da média. Infelizmente, por vezes desbaratam esse capital, num puro "divertimento", no mínimo muito discutível, que deixa bastante a desejar. Como só mandam beijinhos e felicitações uns aos outros, haver uma voz de fora a chamar a atenção para este desperdício de talento, podia ser um alerta bem vindo. Afinal em certos campos da blogosfera seduz-se para se ser seduzido, em circuito fechado (fechado ou aberto, isso é outra questão, e deve haver para todos os gostos!). É o "toma lá beijinhos e dá cá beijinhos", "que bem que escreves!", "que lindo post!", tudo em superlativo. Em hipocrisia (depois criticam-se pelas costas e devoram-se em invejas - ando cá há três meses, mas já deu para perceber). Há quem queira uma blogosfera portuguesa assim. Assim seja. Amem.
Por mim, o caso está encerrado. Há mais anjos no céu. Alguns devem ser verdadeiros.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O LADRÃO DE IMAGENS Uma Thurman

UMA THURMAN

Continuam os roubos: agora,
de um blog que tem belissimas imagens
e muito bom gosto a escolhê-las: "E Deus criou a Mulher"

quarta-feira, setembro 13, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (27)


"O LEÃO DA ESTRELA"

Durante alguns anos mantive no jornal "A Bola", uma página de cinema a que dei o título "O Leão das Estrelas" (uma rincadeira com o nome do filme de Arthur Duarte, mesclando-o com as estrelas que a crítica costuma atribuir aos filmes). Hoje, chamo a atenção, sobretudo dos sportinguistas que me lêem, para um blog de um sportinguista chamado "O Leão da Estrela" e que, dentro dos blogs de adeptos, com o fanatismo sadio inerente a estas coisas, sem as quais nada disto tem graça, se me afigura um blog obviamente apaixonado, muito bem informado sobre o futebol sportinguista, bem documentado, e sem a grosseria e a malidicência baixa de tantos e tantos adeptos de todos os clubes do mundo. Ora se o fanatismo (sadio) tem de existir, é bom que ele coexista com civilidade e cumplicidade. Sem adversários não haverá competição, sem competição não haverá gozo, nem paixão, nem fanatismo (sadio). Sem adversários eu não roeria as unhas sempre que o SCP joga. Os adversários são essenciais e devem-se respeitar. Podemos dar e receber alfinetadas, o que é sádio e pode ser um exercício de inteligência, de humor, de sensibilidade, de observação. Mas nunca ofender ou vilipendiar de forma primária e estúpida. (Eu sei que é dificil contermo-nos se formos, por exemplo, do Beira Mar e apanharmos pela frente com uma arbitragem como aquela do jogo em Leiria!). Mas não estamos na Idade da Pedra. (Nós não, mas alguns árbitros e muitos dirigentes, sim). "O Leão da Estrela" parece um bom exemplo desse tipo de trabalho devotamente apaixonado, mas equilibrado, correcto, inteligente. Um blog jovem (com apenas dois meses), mas com muito trabalho já feito, e uma excelente fonte de informação e de "linkagem" (jornais, blogs, sites, instituições, foruns, etc.).
Aqui fica um exemplo de um bom texto, aparecido logo a seguir ao término do jogo Sporting-Inter, que o autor teve a amabilidade de vir colocar como comentário ao meu Viva o SCP!.



SCP, 1 - INTER DE MILÃO, 0 Leõezinhos à solta
Confesso que não estava à espera de uma vitória sobre o poderoso Inter de Milão. Por várias razões. O Sporting é uma equipa jovem e sem grande experiência internacional ao mais alto nível e apresentava-se desfalcado de jogadores nucleares na zona central do campo. A repetição do 0-0 do jogo da pré-temporada já seria, por isso, "um bom resultado". Mas os 90 minutos de um jogo intenso e disputado a grande ritmo revelaram um Sporting quase perfeito, a jogar um futebol total, atacando e defendendo em bloco, um Sporting combativo, competitivo e harmonioso, capaz de justificar a vitória por 1-0, conquistada através de um golo estupendo de Marco Caneira. A partir de hoje, há leõezinhos à solta na Europa do futebol. A partir de hoje, os holofotes do futebol internacional voltam-se para Lisboa e Alcochete. Importa não perder o pé e continuar a trabalhar com afinco e humildade. Importa interpretar correctamente o discurso sereno e realista do treinador Paulo Bento, interiorizando as ideias centrais. Afinal, o Sporting tem seis pontos da Superliga e três pontos na Liga dos Campeões, mas ainda não ganhou nada. Um discurso talvez pouco adequado a uma noite de glória como esta, tal a valia e o poder do adversário italiano que hoje caiu em Alvalade. Mas um discurso cem por cento certo para que a equipa leonina continue com os pés assentes no chão, semeando qualidade e profissionalismo por essa Europa fora e demonstrando que o futebol português que acontece dentro das quatro linhas não tem nada a ver com quem o dirige e o regula fora delas.
Quarta-feira, Setembro 13, 2006 12:50:22 AM

terça-feira, setembro 12, 2006

SCP

VIVA O
Agora só falta
as outras equipas portuguesas
(de algumas cidades importantes,
como Lisboa, Porto,
Braga, Setubal ou
da região da Madeira)
seguirem a lição do mestre
e ganharem as suas partidas
a partir de amanhã.
Não custa muito:
é só preciso talento.
(juro que vou torcer por todas!)

LIVROS

“A IDEIA DE EUROPA”

Pode falar-se de uma "ideia de Europa"? Que significa a identidade europeia frente à América e à progressiva globalização? Que pode definir uma ideia de Europa? George Steiner interroga-se num brilhante e curto ensaio a que deu o título de “A Ideia de Europa”, e que parte de uma conferência que proferiu no “Nexus Institut” de Amesterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004. Há cinco itns para Steiner que podem ajudar a formar uma ideia de Europa. Todos eles de cariz cultural e humanista:
A reunião, a tertúlia nos cafés, a homenagem nas avenidas, ruas e praças a grandes nomes da arte, da ciência e do pensamento europeus, a relação do homem com a paisagem, a humanização da geografia, "a 'ideia de Europa' como um 'conto de duas cidades, " entre Atenas e Jerusalém”, “muito frequentemente, o humanismo europeu, de Erasmo a Hegel, procura diversas formas de compromisso entre ideais áticos e hebraicos” , e ainda um quinto elemento: a "consciência escatológica" - o "pânico do ano mil" -, que, no entender de Steiner, é exclusiva do modo de ser europeu, "como se a Europa (..) tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História".
O ensaio começa mesmo por uma evocação portuguesa: "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'Ideia de Europa'". "Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino".
Com prefácio de Durão Barroso na edição portuguesa (em Espanha o livro foi prefaciado por Mário Vargas Llosa), "a Europa tem na liberdade e na diferença a condição e garantia da sua diversidade".
Leia-se um excerto para se ter a consciência de que a inteligência é realmente um dom:

A Europa Ocidental e a Rússia Ocidental tornaram-se casas de morte, cenários de uma bestia­lidade sem precedentes, seja ela a de Auschwitz ou a do Gulag. Mais recentemente, o genocídio e a tortura regressaram aos Balcãs. À luz - dever-se-ia dizer “às trevas”? - destes factos, torna-se quase uma obriga­ção moral acreditar no termo da ideia europeia e das suas habitações. Com que direito deveríamos sobrevi­ver à nossa própria desumanidade suicida?
Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo esta­distas, cientistas, artistas e escritores do passado — em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas de poetas; a nossa descen­dência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele fa­moso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a subs­tância da Europa mesmo nas suas horas mais lumi­nosas.
E a seguir?”
.
“Há duas vozes que nos podem ajudar a encontrar o caminho.
Em Munique, no Inverno desesperado de 1918--1919, Max Weber proferiu uma palestra sobre o conhecimento e a ciência (Wissenschaft) enquanto vocação. Embora não completamente registada, a sua comunicação depressa se tornou um clássico. A Euro­pa jazia em ruínas. A sua civilização, a sua eminência intelectual, da qual o ensino secundário alemão tinha constituído garantia emblemática, revelara-se impo­tente face à demência política. Como se podia restau­rar o prestígio, a integridade da vocação do erudito, pensador e mestre? Profeticamente, Weber previu a americanização, a redução à burocracia gestora da vida do espírito na Europa. Como podia o ensino ser unido novamente à investigação científico-erudita, ao intelecto especulativo de primeira ordem? A rubrica abjecta da «correcção política» ainda não fora en­gendrada. Mas Weber viu e declarou o essencial: «A democracia deve ser praticada onde é apropriado. A formação científica, contudo, [...] implica a existên­cia de um certo tipo de aristocracia intelectual.» Antes de Benda, Weber estabeleceu o ideal austero de uma verdadeira intelectualidade: «A quem faltar a capaci­dade de colocar antolhos a si mesmo [...] e de se con­vencer de que o destino da sua alma depende da correcção ou não da sua interpretação de determi­nada passagem de um manuscrito, será sempre um estranho à ciência e ao estudo.» Os insensíveis àquilo que Platão designava como «mania», à possessão do seu ser pela demanda de verdades tantas vezes ardua­mente abstractas, não utilitárias, devem ir para outro sítio. Os cientistas, os eruditos e os artistas estão, nas palavras de Weber, comprometidos com um ideal sacrificial, antigo como os pré-socráticos e caracterís­tico do génio da Europa.”

LIVROS

“AS VELAS ARDEM
ATÉ AO FIM”

Já tinha aqui referido o húngaro Sándor Márai, quando dele li “A Herança de Eszter”. Nessa altura apareceu um comentário de “Silêncio” que dizia assim: “É, sem dúvida, um bom livro, mas, na minha opinião, não atinge a força e a profundidade de "As Velas Ardem até ao Fim". Este sim um livro excepcional.” Li, dei a ler, é realmente a descoberta de um grande escritor. Este romance, que fala do re-encontro de dois velhos militares que têm algo a contar um ao outro, toca de forma muito secreta em temas como a amizade, o amor, a homossexualidade, a traição, o re-encontro, a velhice, e tantos mais, é realmente uma obra-prima do romance moderno. Vale a pena ler. Ficam aqui dois excertos de uma narrativa matizada e subtil, onde nada transcende o murmúrio, mas marca definitivamente uma leitura.

“- É que estou a contar isto com bastantes pormenores - diz como quem se justifica. - Mas não pode ser de outra maneira: só através dos pormenores podemos perceber o essencial, aprendi assim nos livros e na vida. É preciso conhecer todos os detalhes, porque nunca sabemos qual deles é importante, quando pode uma palavra iluminar um facto. Deve-se manter a ordem em tudo. Mas agora já não tenho muito para contar. Tu tinhas fugido, a Krisztina saiu, foi para casa na caleça. E eu, o que posso fazer nesse momento e nos próximos tempos?... Olho para o quarto, o lugar de onde a Krisztina acabou de sair. Sei que na entrada, atrás da porta, está a tua ordenança, numa postura hirta. Chamo-o pelo seu nome, ele entra e faz continência. “Às suas ordens!” - diz. “Quando é que saiu o senhor capitão?...” “No comboio rápido da madrugada.” Esse comboio vai para a capital. “Levou muita bagagem consigo?...” “Não, apenas umas roupas civis.” “Deixou alguma ordem ou mensa­gem?...” “Sim. Há que fazer a liquidação da casa. E vender a mobília. O senhor advogado trata disso. Eu vou regressar ao regimento” - diz. Só diz isso. Olhamo-nos. E então acontece algo que é difícil de esque­cer: a ordenança - um rapaz de vinte anos, de origem camponesa, lembras-te certamente do seu rosto bondoso, inteligente e humano - aban­dona a posição de sentido hirto, deixa de me olhar nos olhos, como impõe o regulamento, e já não é o soldado que está em frente do seu superior, mas um homem que sabe alguma coisa diante de um outro homem de quem tem pena. Há no seu olhar algo de humano, de com­passivo, que me empalidece, mas que logo depois me deixa completa­mente corado... Neste ponto - pela primeira e última vez na história acontece que eu também perco a cabeça. Aproximo-me dele, agarro-lhe no dólman à altura do peito e com um movimento brusco, quase o levanto do chão. Estamos tão próximos que os nossos hálitos se con­fundem. Olhamo-nos profundamente nos olhos, o olhar do moço reflecte horror e ainda continua com aquela compaixão. Sabes que, nessa altura, não era aconselhável a ninguém cruzar-se com os meus punhos; partia tudo em que não tocava com cuidado. Como também sei isso, sinto que ambos estamos em perigo, eu e o moço. Por isso o solto, quase o deixo cair no chão, como um soldadinho de chumbo; as botas fazem um baque no soalho, ele põe-se outra vez em posição de sentido, como num desfile militar. Tiro um lenço do bolso para secar a testa. Basta uma pergunta e esse rapaz responderá. A pergunta é a seguinte: “A senhora que acabou de sair, tinha vindo cá outras vezes?...” Se ele não me responde, mato-o. Talvez o matasse também, mesmo que me respondesse, e talvez não só a ele... em momentos assim, não há amizade. E, ao mesmo tempo, sei que é escusado per­guntar. Sei que a Krisztina tinha vindo cá antes; não só uma vez, mas muitas vezes.
Recosta-se na poltrona e, com um movimento lento, deixa repou­sar as mãos nos braços da cadeira.
- Agora já não faz sentido perguntar nada - diz.- Aquilo que falta saber, um estranho não o pode revelar. É preciso saber porque é que aconteceu tudo aquilo. E onde está o limite entre seres humanos? O limite da traição? Era preciso saber isso. E ainda, que culpa tenho eu em tudo isto...
Di-lo em voz baixa, num tom interrogativo e desorientado. Nota-se na entoação que é a primeira vez que pronuncia em voz alta essa pergunta que vive latente na sua alma há quarenta e um anos, e para a qual ainda não encontrou a resposta.”

LIVROS

“A SOMBRA DO VENTO”

Acabei de ler “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón. Belíssimo romance que mescla um pouco de tudo, do mistério ao melodrama, do picaresco tão retintamente espanhol ao actual romance-investigação que vai de Umberto Eco a Dan Brown, nas devidas proporções, já se vê. História de um pai, viúvo e livreiro, que leva um filho, adolescente, a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos, numa Barcelona nocturna de pós guerra civil. O miúdo escolhe um livro para salvar, tal como em Ray Bradbury. O livro é “A Sombra do Vento”, de um tal Julián Carax. Quem foi o autor, qual o significado do livro, que leva uma misteriosa personagem de rosto transfigurado a andar pelo mundo a comprar e queimar todas as obras desse autor, que aconteceu a várias figuras que se cruzaram com o escritor, onde está, estará vivo ou morto, que tem a ver com a Guerra de Espanha…. Estas e dezenas de outras intrigantes questões vão-se multiplicando ao longo da obra. Entramos na narrativa e lentamente vamo-nos sentindo presos naquela teia algo mórbida, mas mágica também, que Carlos Ruiz Zafón vai lançando subtilmente e nos obriga a galopar nas suas páginas, por vezes com descrições fabulosas:

“Ergui a vista e sustentei-lhe o olhar. Não soube responder. Bea baixou os olhos e afastou-se até ao extremo da galeria. Uma porta conduzia à balaustrada de mármore aberta ao pátio interior da casa. Observei a sua silhueta fundir-se na chuva. Fui atrás dela e detive-a, arrebatando-lhe o envelope das mãos. A chuva fustigava-lhe o rosto, varrendo as lágrimas e a raiva. Conduzi-a de novo ao interior do casarão e arrastei-a até à calidez da fogueira. Ela evitava o meu olhar. Peguei no envelope e entreguei-o às chamas. Contemplámos a carta a quebrar-se entre as brasas e as páginas a evaporarem-se em volutas de fu­mo azul, uma a uma. Bea ajoelhou-se ao pé de mim, com lágrimas nos olhos. Abracei-a e senti o seu hálito na garganta.
— Não me deixes cair, Daniel — murmurou.
O homem mais sábio que alguma vez conheci, Fermín Romero de Torres, tinha-me explicado numa ocasião que não existia na vida experiência comparável como a da primeira vez que se despe uma mulher. Sábio como era, não me tinha mentido, mas tão-pouco me contara toda a verdade. Nada me tinha dito daquele estranho tremelique das mãos que convertia cada botão, cada fecho-éclair, em tarefa de titãs. Nada me tinha dito daquele feitiço de pele páli­da e trémula, daquele primeiro roçagar de lábios nem daquela miragem que parecia arder em cada poro da pele. Nada me contara de tudo aquilo porque sabia que o milagre só sucedia uma vez e que, ao suceder, falava uma língua de segredos que, mal se desvendavam, fugiam para sempre. Mil vezes quis recupe­rar aquela primeira tarde no casarão da Avenida del Tibidabo com Bea em que o rumor da chuva arrebatou o mundo. Mil vezes quis regressar e perder-me numa recordação da qual apenas consigo recuperar uma imagem roubada ao calor das chamas. Bea, nua e reluzente de chuva, deitada junto ao fogo, aber­ta num olhar que me perseguiu desde então. Inclinei-me sobre ela e percorri a pele do seu ventre com a ponta dos dedos. Bea deixou descair as pálpebras, os olhos, e sorriu-me, segura e forte.
- Faz-me o que quiseres - sussurrou.
Tinha dezassete anos e a vida nos lábios.”

(…)
“Um minuto antes do desenlace, o Julián levantou-se e afastou-se ao abrigo das sombras. Durante meses vimo-nos sempre assim, às escuras, em cinemas e vielas à meia-noite. O Julián encontrava-me sempre. Eu sentia a sua presença silenciosa sem o ver, sempre vigilante. Às vezes mencionava-te e, ao ouvi-lo fa­lar de ti, parecia-me detectar na sua voz uma estranha ternura que o confun­dia e que havia muitos anos julgava perdida nele. Soube que tinha regressado ao casarão dos Aldaya e que agora vivia lá, a meio caminho entre espectro e mendigo, percorrendo a ruína da sua vida e velando os restos da Penélope e do filho de ambos. Aquele era o único sítio no mundo que ainda sentia seu. Há piores prisões que as palavras.
Eu ia lá uma vez por mês, para me certificar de que ele estava bem, ou simplesmente vivo. Saltava a sebe meio derrubada da parte de trás, invisível da rua. Às vezes encontrava-o ali, outras vezes Julián tinha desaparecido. Deixava-lhe comida, dinheiro, livros... Esperava-o durante horas, até ao anoitecer. Em certas ocasiões atrevia-me a explorar o casarão. Foi assim que averiguei que ele tinha quebrado as lápides da cripta e extraído os sarcófagos. Já não jul­gava que o Julián estivesse louco, nem via monstruosidade naquela profanação, mas tão-só uma trágica coerência. Nas vezes que o encontrava lá falávamos du­rante horas, sentados ao pé do fogo. O Julián confessou-me que tinha tentado voltar a escrever, mas que não era capaz. Lembrava-se vagamente dos seus livros como se os tivesse lido, como se fossem obra de outra pessoa. As cicatrizes da sua tentativa estavam à vista. Descobri que o Julián confiava ao fogo páginas que escrevera febrilmente durante o tempo em que não nos tínhamos visto. Uma vez, aproveitando a sua ausência, recuperei um molho de folhas de entre as cinzas. Falava de ti. O Julián tinha-me dito certa vez que um relato era uma carta que o autor escreve a si próprio para contar coisas a si mesmo que de ou­tro modo não poderia averiguar. Havia tempo que o Julián perguntava a si mesmo se tinha perdido a razão. Saberá o louco que está louco? Ou os loucos são os outros, que se empenham em convencê-lo da sua insanidade para sal­vaguardarem a sua existência de quimeras? O Julián observava-te, via-te cres­cer e perguntava a si mesmo quem eras. Perguntava a si mesmo se porventura a tua presença não seria senão um milagre, um perdão que tinha de conquis­tar ensinando-te a não cometeres os seus próprios erros. Em mais de uma oca­sião interroguei-me sobre se o Julián não teria acabado por se convencer de que tu, naquela lógica tortuosa do seu universo, te tinhas transformado no fi­lho que ele perdera, numa nova página em branco para voltar a começar aque­la história que não podia inventar, mas que não podia recordar.”
Um belo romance que mais cedo ou mais tarde estará por ai em filme. Esperemos que não o estraguem.

segunda-feira, setembro 11, 2006

O LADRÃO DE IMAGENS

"A ARQUITECTURA NA CIDADE"


No blog "Complexidade e Contradição", a foto de Vincent Laforet, "Dois homens fazem manutenção à antena do Empire State Building". É também a minha recordação do 11 de Setembro: o futuro. Mas nesse blog cruzam-se agora comentários muito interessantes sobre arquitectura. Que aconselho vivamente. João Pereira Coutinho, o delirante João César das Neves, o próprio lourenço falam sobre aquitectura. A arquitecura moderna e os seus pioneirismos vistos "como pecados capitais de um grande mal orquestrado pelos «autoritários» arquitectos." Fala-se de Le Corbusier. Eu acrescentaria Brasilia, onde me deparei com esse dilema de forma mais visivel, a genialidade do projecto e um certo "mal estar" dos seus habitantes. Muito haverá a acrescentar, mas como diz lourenço: "Muito mais haveria para discutir, mas acontece que vou almoçar."

domingo, setembro 10, 2006

TEATRO EM LISBOA

“TRÊS NUM BALOIÇO”

“Três Num Baloiço”, do dramaturgo italiano Luigi Lunari, foi inicialmente levada à cena no Recreios da Amadora, em Julho deste ano, regressando agora no palco do Teatro Taborda. Foi a companhia “O Teatro dos Aloés” que optou por este texto de uma autor não muito conhecido em Portugal, mas de algum prestígio na Europa.
“O Teatro dos Aloés” reúne um conjunto de profissionais que partilharam uma série de projectos e experiências em comum. Muitos deles sobraram da Companhia da Malaposta, onde intervieram num importante grupo de realizações. São membros desta associação os actores e encenadores Elsa Valentim, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Alberto, Mário Jacques, Rui Mendes, Rui Rebelo, Sofia de Portugal, Teresa Gonçalves e Victor Santos. A direcção do grupo pertence neste momento a José Peixoto, Jorge Silva e Elsa Valentim.
É o grupo quem anuncia as razões para a sua formação e para a escolha do nome da companhia:

“Em 1996 trabalhámos um magnifico texto de um autor sul-africano, Athol Fugard, que nos falava da amizade, da confiança nos outros, da resistência na luta em defesa de ideais, da beleza da poesia e da arte que fazem dos homens seres superiores e felizes, da força das ideias, da crença no progresso da humanidade e da tranquila sabedoria que é acreditar nesses objectivos.
Fazer teatro para nós significa contribuir para um esclarecido exercício da cidadania, a elevação moral e espiritual e o desenvolvimento cultural das populações para que trabalhamos.
Não temos a arrogância de propor soluções ou orientações. Não pensamos ser essa a função do teatro, nem ser no teatro que os problemas individuais ou sociais se resolvem.
Pensamos apenas ser o teatro um lugar indicado para a reflexão colectiva, o lugar onde é possível aos actores oferecer a sua própria reflexão a um grupo de pessoas interessadas e representativas do todo social.
Pensamos o teatro como o lugar próprio para levantar questões e partilhar problemas, partindo do princípio que os actores são pessoas iguais a tantas outras e portanto as suas inquietações devem ser idênticas.
Não temos dúvidas também que o facto de gente viva representar diante de gente viva, expressando-se com os mesmos meios que são os de toda a gente, podendo a sala e a cena trocar de funções a qualquer momento, dá ao teatro o privilégio da comunicabilidade e da identificação.
O teatro é um fenómeno de cultura.
Por isso aliamos à nossa experiência a herança do passado que nos estruturou o pensamento, nos permitiu a reflexão sobre o que hoje nos determina e é especificamente nosso, na organização do social, dos comportamentos privados e na perspectivação do futuro.
O teatro é uma arte do colectivo.
Para nós é clara a importância da prática teatral na estruturação da personalidade, na aprendizagem da vivência em colectivo e no exercício da democracia. Por isso, temos organizado cursos de Iniciação à Prática do Actor ou Cursos Complementares sobre autores, conforme o grau de relacionamento dos candidatos com o teatro.
Sabemos também que quem alguma vez teve acesso à prática teatral pode não se transformar num praticante profissional ou amador, mas certamente se transforma num espectador avisado.
Este relacionamento com o público leva-nos à organização de sessões de animação (conferências, debates, exibição de filmes ou vídeos, exposições sobre autores e teatros). Estas acções permitem que o público se sinta parte integrante de um projecto que é feito para ele, pensando nele e nas suas necessidades intelectuais e artísticas. Atentos às inquietações e vivências dos jovens, “O Teatro dos Aloés” cria uma unidade dinamizadora para este escalão etário. Complementamos a nossa acção com leituras encenadas e recitais de poesia porque sentimos que temos o dever de contribuir para a divulgação da língua portuguesa. "
“O Teatro dos Aloés” apresentou até à data os seguintes espectáculos, que dão bem a imagem das ambições e intenções do grupo: “A Vida Tem Destas Coisas” (2001), de Mário de Carvalho; “O Fantástico Francis Hardy, Curandeiro” (2002), de Brian Friel; “Amor, Verdade e Mentira”, de Marivaux (2002); “Ensaio2 (2002), de José Peixoto; “Sexta-Feira, Dia da Libertação” (2003), de Hugo Claus; “Stabat Mater Furiosa” (2003), de Jean-Pierre Siméon; “São Nicolau” (2003) de Conor McPherson; “A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade” (2004), de Tankred Dorst; “A Dança da Morte” (2005), de August Strindberg; “Os Malefícios do Tabaco” (2005), de de Anton Tcheckov; Os Guardas do Museu de Bagdad (2005), de José Peixoto; “Em Busca dos Lusíadas” (2005), a partir de Luís de Camões e “À Procura de Júlio César” (2006), de Carlos J. Pessoa.

“Três Num Baloiço” é uma peça bastante bem escrita e estruturada, baseada numa boa ideia inicial: três homens reúnem-se por acaso numa sala de uma casa num dia em que soa o recolher obrigatório para um exercício de segurança civil. Um industrial (Mário Jacques), um capitão do exército (Carlos Queiroz) e um professor universitário e escritor (Jorge Silva) entram por portas diferentes, em momentos diversos de uma mesma tarde, com objectivos distintos: um vem passar uma tarde de amor clandestino, numa pensão, outro vem a um escritório de advogados, outro dispõe-se a rever provas de um próximo livro de sua autoria numa editora. Todos têm passados diferenciados, mas o destino parece uni-los. Que sala é aquela, onde se chega, mas donde não se sai? Que tempo é este parado e suspenso? Que vale o ajuste de contas com o passado que cada um vai lentamente estabelecendo consigo próprio e com os outros? Será a morte quem os conduz?
Em tom de comédia, que apesar do absurdo da situação, e do simbolismo da mesma, nunca deixa de ser inteligente e inquietante, “Três Num Baloiço” revela-nos um autor que tem sobre a vida um olhar crítico contundente, mas compreensivo. Cada uma das personagens faz o seu acto de contrição, sobretudo depois do aparecimento da mulher da limpeza (Elsa Valentim), que personifica o proletariado com futuro, perante extractos sociais na agonia, mas há uma evidente ternura a envolver cada figura. É óbvio que esta é uma obra que releva das influências do marxismo, mas de um marxismo actualizado, moderno, pós-queda do Muro de Berlim. Com um humor que, à medida que a peça vai progredindo, se vai acentuando.
A peça de Luigi Lunari, apresentada com tradução de Paulo Eduardo de Carvalho, numa encenação escorreita e fluente de José Peixoto, com cenografia e figurinos de Ana Paula Rocha, música de Luís Cília e produção de Gija Peixoto, conta com a interpretação bem saboreada e divertida de Mário Jacques, Carlos Queiroz, Elsa Valentim e Jorge Silva. É sempre bom, numa comédia, sentir-se o próprio prazer dos actores no palco. Aqui ele é evidente, muito embora o calor apertasse na noite em que por lá passámos. Mas, antes ou depois, sempre se pode descer as escadas e abancar no Café Taborda (que funciona também como restaurante), com o velho casario de Lisboa aos pés, uma iluminação discreta e uma aragem boa a entrar pelas janelas. Pena o jantar não estar à altura da vista panorâmica. Mas para tomar um café ou uma outra bebida, não há muito melhor nesta Lisboa pitoresca.

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (26)

“PONTO DE SATURAÇÃO”

Os versos
“Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que a tua pele ser pele da minha pele.”
de David Mourão Ferreira,
colocados no blog de “maldito cinema”,
tiveram um comentário,
assinado por “inominável”, que dizia:
“fui... EU! eu pele tua na minha pele despida... “.
Às 2:33 PM, de um dia.

Quem era esta “inominável” que presumi mulher?
Ela se definia: “Quem sou eu: a que se esconde, que se mostra, voyorista da vida, exibicionista diante do mundo, travesti de emoções... puta e santa... Inominável, porque o nome que nos dão não é nosso.”
Tinha interesses: “poesia, cinema, pessoas, paixões, enduvidamentos.”
Tinha músicas favoritas: “I will survive Karma Killer Ne me quitte pas Non Je Ne Regrette Rien Mon mec à moi Vitoriosa Teresinha Metamorfose ambulante Olhos de farol”, tinha livros favoritos: “Origens Les croisades vues par les arabes Um certo olhar Pensar Aparição Cem anos de Solidão Amor em tempo de cólera Ensaio sobre a Cegueira El llano en llamas”, tinha um blog “ponto.de.saturação……”. (quantidade máxima de vapor de água que o ar pode conter, a uma determinada temperatura).
Professora de física e química? Química já provocara. Vamos atrás desta “Inominável.” Que escreve poesia e prepara tese. "Humanistas", portanto, apsar do Gedeão? Vive entre Aveiro e Berlim? É melhor ler. Descobrir a solidão, a amargura, a ironia, a austeridade, a ternura, a violência que se descobrem por detrás das palavras. A blogosfera tem destas coisas. Não vou deixar de visitar o blog da inominável, que, todavia, (nao) tem rosto (aqui, por solicitação expressa).

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (25)

"MALDITO CINEMA"


malditocinema” (que tem o derradeiro olhar de Kubrick como padrinho) descobri-o através da “Gola Alta” e fui atrás dele, guiado pelo cinema, maldito cinema. Descobri que a autora, mulher de 33 anos, de signo peixes e de ano do zodíaco, Ox, definia assim o que escrevia: “Eu achava-me esquisita até ver um retrato cinzento e um beijo rasgado na boca transparente.” Como primeiro post a ler, um retrato de David Mourão Ferreira, um dos meus poetas do amor (e da vida) preferido, assinado por Mário Cabrita Gil, e dois versos de um poema. Sublimes, como sempre em David. Escutem:



Sexta-feira, Junho 16, 2006
a celebração
David Mourão-Ferreira (1927-1996)
Fotografia Mário Cabrita Gil

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que a tua pele ser pele da minha pele.
posted by maldito cinema at 2:03 PM

E continuei lendo, curtos comentários

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
Escrevo-te agora porque sei que o fiz nos anos da espera, no tempo do silêncio. Escrevo-te agora porque sei que te digo o lugar onde estou. Escrevo-te agora porque se não for noutra vida, que seja nesta.
posted by maldito cinema at 11:28 AM


Terça-feira, Fevereiro 14, 2006
... e o que digo está tão longe
como o mar está do céu...
posted by maldito cinema at 1:49 AM

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Deixei-me ir numa subtileza de imagem, sabendo que o intocável é sempre o mais puro. Em Brokeback Moutain, o amor se diz por entre os silêncios. Dois homens que se amam de dor e a memória que ultrapassa a rigidez.
Até ao final do filme, esperei por um lugar comum, um sítio fácil, mas nunca me deixou agarrar a um fio de quotidiano. Esperei e até ao fim e apenas as águas do rio me diziam que a minha vida também se esgota. E por fim, caí do céu. E lembrei o amor.
Em tons de agonia.
posted by maldito cinema at 3:35 AM

Tudo muito discreto, secreto, límpido, raro. Raro como os raros post deste blog a merecer continuação. Não sei quem és, e não posso dizer que não me interessa, mas continua a escrever. Gosto de te ler, “maldito cinema”.

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (24):

"GOLA ALTA"
e
"FÀBRICA LUMIÈRE"

“Sony Hari” é o nome “artístico” de uma mulher de 32 anos, de signo astrológico Libra, do ano do Zodíaco, Ox, que se encontra a viver em Lisboa, mas se afirma minhota (de Viana do Castelo? Que bela cidade! Que saudades dos tempos que lá passei!) e que tem dois Blogs: um, chamado “Gola Alta” (“a “Gola Alta” está sempre ali, pronta para nos salvar de um "chupão" constrangedor, de um frio cortante, das rugas que a idade não perdoa. viva a gola alta, excepto no verão...”) e de um colectivo, “ Fábrica Lumière”, cuja equipa comporta vários membros, alem da Bota Alta, a saber “Roxanne”, “AS”, “Lolita”, “O Asdrúbal”, “Mário”, “Amélie” e “maldito cinema”.
O “Gola Alta”, que se apresenta sob o disfarce de Greta Garbo - Mata Hari (veja-se imagem em anexo, um dia hei-de escrever sobre esta “actriz que me marcou”), conta-me, não "no seu coração", o que lamento, mas entre “os seus prazeres” e eu, agradecido, não pude deixar de a fazer figurar entre os meus, sem favor. Gosta de cinema, de música de que também gosto, gosta de Viana do Castelo, de Lisboa e do Alentejo, gosta de casinos e de “tentar a sorte”, gosta do Cristiano Ronaldo (mas não pelas mesmas razões que eu gosto), gosta de Florença, gosta de Sherlock Holmes (para o ano, no Famafest, Famalicão, Março de 2007, haverá uma homenagem a Conna Doyle no cinema, com uma impressiona nte exibição de obras suas adaptadas ao cinema - inscreva-se já!).
O último post de “Gola Alta” é dedicado ao amor:

Setembro 10, 2006
Pura ficção

Sinto que tenho por ti um amor cerebral. Sinto que pensei em quase tudo antes de chegar a esse amor. Sinto que esse amor não tem cosmética, nem acessórios. É assim um amor de cara lavada, sem sinais de pompa ou circunstância. Mas é poderoso o seu efeito, porque é um amor que se aceita facilmente, que sabe estar em toda a parte. E que não se fique a pensar que é um amor matemático, porque não é disso que se trata. É antes um amor emancipado, conhecedor das suas potencialidades e compatível com outros amores. E é também um amor que se pode guardar uma vida inteira, sem precisar dele a toda a hora. Fica por ali, simplesmente, esperando que mais um ciclo se complete.

Mas Gola Alta também gosta de fotografar, em perspectiva. Aproveito para lhe roubar umas imagens:

Florença (foto de Sony Hari)

Viana do Castelo, vista de Santa Luzia (foto Sony Hari)

Rua de Estremoz (foto de Sony Hari)
"FÁBRICA LUMIÈRE"

Já a "Fábrica Lumière" tem uma definição bem bonita: "Este blog nasceu num café-bar chamado "Vertigo", em Lisboa. Pensámos logo que esse nome era um sinal... Só podia. Adoramos "fazer filmes", essa é que é a verdade! Mas inspiramo-nos sempre nos originais. Se a amizade morresse, sobraria inevitavelmente a paixão pela sétima arte que nos une." Cinema e amizade, eis uma bonita ligação.
Em Maio, a Sony Hari escreveu no "Fábrica Lumiére":
Maio 23, 2006
World Trade Center
Há minutos atrás, a SIC Notícias, ou talvez tenha sido o AXN, fazia referência ao Festival de Cannes a respeito do novo filme de Oliver Stone: World Trade Center.Oliver Stone é um daqueles realizadores que conservo em local fresco e protegido da luz, para que não perca as suas propriedades. Não é um realizador que recorde a toda a hora, porque a toda a hora prefiro recordar os filmes de amor, os filmes para gargalhar, os filmes das coisas simples. Os filmes de Oliver Stone são incómodos e perturbadores. Não serão todos, certamente, mas o número é razoável para estudo. Platoon é o exemplo perfeito. Um filme de efeito prolongado, talvez até que o seu efeito não se acabe nunca. É um daqueles filmes que não se fica pelo estremecer da pele, por um leve arrepiar dos pêlos. O efeito quer-se pesado, cortante. Também me passaram pelos olhos o Nascido a 4 de Julho (1989), JFK (1991), Assassinos Natos (1994). Agora é a vez de World Trade Center (em pós-produção). Parece que, quem viu os 20 minutos exibidos no Festival de Cannes, saiu da sala bem impressionado. Está provado que o cinema também já cedeu às vontades do tempo, que se quer rápido, cada vez mais rápido. Agora já não se esperam décadas para reviver em filme as guerras que a História vai carregando. O 11 de Setembro não chegou, nem por um minuto, a sentir o cheiro do esquecimento. Por mais alguns anos, a sua presença estará fresca na memória de muita gente e Oliver Stone garante, desde já, o seu reforço.No dia 11 de setembro de 2001, coincidência ou não, viajei de avião até ao Porto, a trabalho. Quando regressei a Lisboa tudo já tinha acontecido. Nas poucas horas em que me isolei da rádio e da televisão, um pedaço do Mundo foi profundamente abalado e, nesse dia, aquele pedaço do Mundo parecia a totalidade do Mundo. E eu só tinha ido ao Porto.
posted by Sony Hari
Um testemunho pessoal, a carecer possivlmente de revisão de português, mas onde se descobrem uma sensibilidade e um amor a preservar. O que é sempre o mais importante. Boa sorte para a Sony (Garbo) Hari e companheiros de aventura cinéfila.

sábado, setembro 09, 2006

UM BLOG (POR DIA) PARA VISITAR (23):

"Complexidade e Contradição"

No "Complexidade e Contradição", blog assinado por Lourenço (sem mais), aparece uma simpática referência, que agradeço. Reza assim:
Sexta-feira, Setembro 8

Let's
Há que não deixar passar em claro que o Lauro António tem um
blogue.
lourenço@
10:36

Mas, mais abaixo, neste blog sereno, discreto, de bom gosto e bom senso, ainda que de critica afiada, podia ver-se uma imagem magnifica de um trabalho de Siza Vieira ("Siza, opus n", lhe chama Lourenço), referente a um Pavilhão em Anyang, Coreia do Sul, realizado com a colaboração de Carlos Castanheira e Jun Sung Kim. Não resisti, e como quem rouba uma, rouba 100, aqui a retirei, com a vénia devida, para o meu blog. Um edificio como poucos. Quem me dera algo assim, com esta tranquilidade de horizontes. Para im, um dos mais beos trabalhos de Siza Vieira.

Um pouco mais abaixo ainda, um bom texto que dá o tom do blog e das preocupações do seu autor:

Sexta-feira, Setembro 1
Tabelas

Vital Moreira deixou uma questão interessante: comparar os salários mínimos e médios nos países da UE, para ver se também nessa comparação estamos na cauda da europa. A coisa interessou-me, e dei uma volta por aí. Encontrei esta tabela (Table 3) que faz precisamente essa comparação (deixa alguns estados de fora, incluindo o nosso). Por outro lado, neste relatório da Embaixada Americana aparece referido um valor do salário médio em Portugal, citando a CGTP como fonte. O salário médio ronda os 682€, segundo os comparsas da central sindical. Ou seja, podemos dizer que o salário mínimo em Portugal (374,40€) representa 54,8% do salário médio nacional. Voltemos à tabela inicial. Procuremos, então, algum país com uma percentagem superior a esta. Rapidamente se percebe que estamos à procura do inexistente. A tabela é limitada no seu alcance, pois deixa de fora os países sem salário mínimo (Austria, Alemanha, Itália, e os super-nórdicos todos), mas o facto de entre os páises que foram submetidos a esta análise nenhum apresentar uma relação entre salário mínimo e salário médio tão alta como Portugal, indica que o nosso salário mínimo é alto, e pode ser um factor de desiquilíbrio no mercado de trabalho. Ou significa que o salário médio é baixo. Ou seja, parece que «há um forte argumento para o crescimento do salário mínimo nacional» abaixo «da subida dos salários em geral». Mas eu não percebo nada de economia.
lourenço@
17:42

O LADRÃO DE IMAGENS Pierre Bonnard

PIERRE BONNARD
Na minha viagem de "salteador de imagens", passei pelo blog da minha amiga Rosário e roubei esta, de uma série de textos que ela anda a escrever e documentar iconográficamente, tendo por base uma leitura apaixonada de "O Mar", de John Banville (de que retenho um excerto). Uma bela, e generosa, imagem de um fabuloso quadro de Bonnard (para adormecer mais reconfortado).

Pierre Bonnard
Nu de cócoras no banho, 1940
# posted by MRF : 02:15

"Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard avistou uma rapariga a descer de um eléctrico de Paris e, atraído pela sua beleza frágil e pálida, seguiu-a até ao local onde ela trabalhava, uma agência de pompes funèbres, onde passava os dias a coser pérolas em coroas mortuárias. Foi assim que, desde o início, a morte entrelaçou a sua fita negra na vida de ambos. Ele não tardou a conhecê-la - suponho que que essas coisas eram feitas com naturalidade e um certo aprumo na Belle Époque - e pouco tempo depois ela abandonou o emprego e tudo o resto na sua vida e foi viver com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny e que tinha dezasseis anos. Na realidade, embora só o viesse a descobrir volvidos mais de trinta anos, quando decidiu finalmente casar com ela, o seu verdadeiro nome era Maria Boursin e, quando se conheceram, não tinha dezasseis anos, mas, como Bonnard, vinte e poucos. Permaneceram juntos atravessando várias vicissitudes, cada vez mais frequentes, até à morte dela cerca de cinquenta anos depois. (...) Era reservada, ciumenta, ferozmente possessiva, sofria de um complexo de perseguição, e era uma hipocondríaca ferrenha e obstinada."
Transcrição: in Banville, Jonh, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, p 97

O LADRÃO DE IMAGENS Eider Astrain

EIDER ASTRAIN

Não resisti e roubei esta mulher do blog do meu amigo Tomás Vasques. Um óleo admirável de vigor e delicadeza. Uma boa imagem para reter antes de adormecer.

Setembro 9, 2006
(
Eider Astrain, Cansancio, Óleo y carboncillo sobre lienzo)
posted by tomasvasques at
12:41:00 AM

Quando me preparava para encerrar as operações, vou até ao site de Eider Astrain e descobri que tinha uma série dedicada ao Cine. Com excelentes recriações sobre posters de filmes míticos da história do cinema. Não resisti à "Gilda" (nunca resisti, aliás, á Gilda):

E assim iniciei uma nova secção no blog: "O Ladrão de Imagens"