domingo, novembro 05, 2006

CINEMA - Uma Familia ...


UMA FAMILIA À BEIRA
DE UM ATAQUE DE NERVOS


“Little Miss Sunshine”, dirigida pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris (casados entre si e especialistas em videoclips e publicidade), com argumento de Michael Arndt, é uma excelente comédia sobre o actual estado do “american way of life.” Dizem as boas, ou más-línguas, que o argumentista se lembrou de escrever este guião quando ouviu o Governador da Califórnia, o actor Arnold Schwarzenegger, declarar: “Se há algo que eu desprezo são os perdedores.” Resolveu, portanto, fazer uma obra onde se colocam em confronto “vencedores” e “vencidos” da vida, numa América governada por George Bush (aparece na televisão, mas esta é de imediato desligada com evidente mal estar, por quem o está a – não – querer ouvir) num estilo de comédia “com moralidade agregada”, muito ao jeito de Frank Capra e outros que tais. Mestres na arte de fazerem pensar com uma boa gargalhada ou um sorriso inteligente.
Tudo se passa no interior de uma família, os Hoover, que aqui simbolizam uma certa ideia da América. Richard Hoover (Greg Kinnear), dá conferencias, ou acções de formação, ou aulas, sobre “como ser um vencedor” e tenta mesmo vender, como “best seller” (ou não fosse ele próprio um “vencedor”), o segredo do sucesso no volume “Nine Steps to Success,” que, todavia, se revela um fracasso total e arruína a família, logo no dia em que viajam de Albuquerque, New Mexico, onde habitam, para a Califórnia, onde irá decorrer o concurso “Little Miss Sunshine”. O falhanço do livro cria fricção com a mulher, Sheryl Hoover (Toni Collette), uma hiper agitada dona de casa que chega a falar em divórcio, e tudo tenta controlar. Ela tem mesmo muito que fazer, desde ir recolher ao hospital o irmão, Frank (Steve Carell), que acaba de sobreviver a uma tentativa de suicídio, o filho Dwayne (Paul Dano), que quer ser aviador e se recusa a falar, impondo-se um voto de silêncio inspirado em Nietzsche, e que jura durar até tirar o brevete, e ainda Olive Hoover (Abigail Breslin), uma miudinha de seis anos, filha do casal, de olhar vivo e pergunta acelerada, que vive agitada os dias que antecedem a sua participação no concurso já aludido. Falta ainda falar do avô Edwin Hoover (Alan Arkin), velho resmungão, obcecado por sexo e revistas porno, “bem porcas”, que se droga com heroína e morre de overdose pelo caminho.
Esta família assume assim diversas características da sociedade norte americana actual, povoada por fantasmas que vão desde o mito do vencedor, que “quer ser um vencedor”, que julga ter a receita, mas que falha rotundamente, ao auto marginalizado, que deliberadamente deixa de ter voz, à mulher, hiper eficiente, ao professor universitário homossexual que tem um “affair” com um aluno, e desiste de viver quando se descobre duplamente atraiçoado, pelo jovem que escolhe outro professor para viajar, e por esse mesmo colega de profissão que é considerado “o maior especialista em Proust da América” (quando Frank se considera a si mesmo “o primeiro especialista em Proust” dos EUA). Também a jovem Olive quer ser vencedora do Concurso, sobretudo para que o pai goste dela (se perder, ele não a considera mais). Num país de “vencedores”, que não aceitam a derrota, nem sequer serem segundos, esta família de derrotados da vida atravessa as estradas da América para ofertar uma filha no altar da mais completa mediocridade: um concurso de beleza para menininhas de seis / sete anos que se saracoteiam, dançam e cantam como pequenas Barbies travestidas de “lolitas” de encomenda, caracterizadas a preceito para o acto de sedução pública em cima de um palco.
“Road Movie”, um sub-género tão particular dos americanos quando querem falar do País, “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” desenvolve-se ao longo de uma atribulada viagem, durante a qual a própria carrinha vai perdendo o controlo de si próprio, só arranca de empurrão e não tem travões, obrigando os passageiros a saltar para o seu interior em andamento. Viagem que irá terminar frente a um hotel da Califórnia onde decorre o inusitado concurso dos pequenos “monstros” que querem ser Miss Little Sunshine.” È durante este espectáculo de menoridade mental que a família se assume como uma célula articulada, e afinal unida, impondo as suas regras perante a hipocrisia reinante e fazendo-se ouvir a uma só voz. O que oferece ao filme uma aragem de confiança no futuro, muito embora o horizonte se encontre perturbadoramente negro. Mas afinal pode haver autênticos “vencedores”, quando se recusa “ser um vencedor”. Uma verdade difícil de engolir na América de George Bush, mas uma verdade a ganhar adeptos de dia para dia: veja-se o sucesso do filme no interior da própria América do Norte (e em todo o mundo). Tendo custado apenas 8 milhões de dólares, já fez mais de 40 milhões de dólares de receita, nos EUA desde o seu lançamento no Sundance Festival, onde foi premiado. Justificamente.
Uma das grandes comédias deste ano, e um excelente candidato a vários Oscars: desde o argumento ao conjunto das interpretações, todas elas admiráveis na forma como criam personagens algo excêntricos, sem caírem na caricatura fácil.
UMA FAMILIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Little Miss Sunshine), de Jonathan Dayton, Valerie Faris (EUA, 2006); com Abigail Breslin, Greg Kinnear, Paul Dano, Alan Arkin, Toni Collette,

CINE ECO 2006: Curiosidades videográficas

CERIMÓNIA DE
ABERTURA DO CINEECO:
Como tenho alguma dificuldade
em colocar os videos directamente,
o amigo Luis Silva, do "Oceano de Palavras",
que gravou os vídeos em questão,
para a Serra da Estrela TV (Seia),
endereçou-me estes links.
São duas curiosiodades videograficas
que aqui ficam registadas.
1. Lili Caneças no Festival, aqui:
2. Cerimónia de abertura,
com temas cantados por Wanda Stuart:

sábado, novembro 04, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 5

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
6.
Obras da Lusofonia
(Brasil)


Do Brasil, outro forte contingente de obras chegou a Seia, durante o Cine Eco 2006. Forte contingente em número, não particularmente excitante em qualidade. Muitas das obras possuíam inegáveis qualidades e interesse, mas a quase todas faltou o golpe de asa para se elevarem da mediania. Recuperemos de memória alguns traços mais salientes:

“Kiarasã Yõ Sâti, O Amendoim da Cutia”, de Komoi Panará e Paturi Panará, uma produção de “Vídeo nas Aldeias”, retrata, de dentro, numa visão dos próprios autóctones, o quotidiano da aldeia Panará na colheita do amendoim, apresentado por um jovem professor, uma mulher “pajé” e o chefe da aldeia. É uma curiosa aproximação etnográfica e antropológica que merece inteiramente um olhar atento.
“O Pontal do Paranapanema”, de Francisco Guariba, opta por contar a história de uma região onde os conflitos pela terra duram há mais de um século. Através de depoimentos, traça um panorama sócio–ambiental do processo de ocupação da região e dos seus problemas actuais.
“O Profeta das Águas”, de Leopoldo Nunes, viaja até Rubinéia, São Paulo, barranca do Rio de Janeiro, onde vive Aparecido Galdino, o “Profeta das Águas”. Durante a década de 1970 ele passou por intensos episódios: foi preso e torturado pela ditadura militar e cumpriu pena num manicómio judiciário. Para além de abençoar e curar o povo das doenças, ele defendia os trabalhadores rurais contra a desapropriação das suas terras pela inundação da hidroeléctrica da Ilha Solteira… Uma interessante aproximação que mistura crendices populares, resistência à ditadura e luta pela terra, num Brasil rural.

“Avá – Canoeiro, A Teia do Povo Invisível”, de Mara Lúcia Alencastro Veiga, mais uma vez na senda da etnografia e antropologia, tenta recuperar a história de um povo, Avá – Canoeiro, nação indígena que, por volta de 1760, contava com três mil nativos, ocupando um vasto território no Centro Oeste do Brasil, e que a colonização portuguesa e a posterior ocupação da área por fazendas de gado e lavoura provocou um verdadeiro massacre nesta nação guerreira, hoje praticamente extinta.
“Quando a Ecologia Chegou”, de Pedro Novaes, aborda a relação entre as áreas protegidas e as comunidades locais no Brasil, discutindo os impactos da criação de duas destas áreas sobre os modos de vida de populações nativas e caminhos para a construção de alianças entre estas comunidades e a conservação da natureza. Pedro Novaes, filho de Washington Novaes, prossegue as preocupações familiares, com um filme inteligente e interventivo, mas com um estilo onde se sente demasiado a montagem, numa manipulação de imagens que ofusca a clareza da exposição.

“Muitchareia, um Passeio pelo São Francisco”, de Uliana Duarte, procura estabelecer um recorte poético da relação do homem da região com o rio São Francisco, que viaja de Pirapora, Minas Gerais, até Petrolina, Pernambuco. O filme contém depoimentos de pessoas que se encontram envolvidas de diferentes formas com o meio-ambiente, desde Cícero, um piloto reformado dos antigos barcos a vapor, até ao bispo D. Luís Flávio Cappio, que levou a cabo uma greve de fome que encerrou o procedimento de transposição do rio.
“SOS Amazónia”, de Pedro Saldanha Werneck, focaliza a atenção na maior floresta tropical do planeta que corre sérios riscos. Actividades ilegais, como as queimadas e os derrubes de árvores, representam perigos para toda a Humanidade. Tudo o que se descobre leva a compreender por que é que a situação se agravou tanto. O filme grita por socorro pela Amazónia Brasileira.

“Brasil” e “É da Raiz”, ambos de Ângelo Lima, são dois curtos documentários, o primeiro, concebido como homenagem ao monumento erigido para o Movimento às Nações Indígenas, criado pelo artista Siron Franco, e que foi selvaticamente destruído, o segundo, passado num bar, por entre doses de bebidas alcoólicas, que se afirmam milagrosas. Misturando-se tudo, chega-se a uma cura mais rápido. É na raiz que está a solução dos problemas do povo brasileiro, afirma o realizador, com alguma ironia.
No desenho animado, “Bartó”, de Luís Botosso e Thiago Veiga, é uma curta que aborda a acção nociva do homem sobre a natureza, de forma leve e animada para atingir um público infantil, o mesmo se podendo dizer de “Peixe Frito”, de Ricardo George de Podestá, outra animação, durante a qual um avô ensina o seu neto a pescar e a partir daí, peixes, gaivotas e anzóis misturam-se numa verídica história de pescador.
Terminado o festival, o balanço não pode ser mais positivo. Muitas obras interessantes, oito dias de intenso trabalho sobre o material audiovisual projectado, um animado convívio entre senenses e visitantes, um toque de magia a envolver pessoas e paisagens. Nem a chuva quebrou o encanto destes dias que poderiam ter sido de paradisíaco desfrute, se… Há sempre um se…, mas o festival nada sofreu com ses… pessoais e intransmissíveis.

Homenagem a Fernando Catarino, Presidente do Júri (Foto MRF)

Um dos membros do Júri Internacional acaba de enviar um mail do Brasil, com doces palavras de saudade, que dizem bem do que foram os dias deste festival: “Meus queridos amigos, Cheguei cheia de saudades dos tempos oníricos passados em Seia. Como disse o Alain Marie, todo festival tem alguma magia, mas em nenhum, ela flui dos próprios organizadores. Agradeço de coração os dias do trabalho que tanto me fascina: ver e discutir filmes, dias também de festas (a do Frederico foi sublime), de humor, e principalmente de tanta troca afectiva, consolidando amizades tão fraternas. Foi maravilhoso participar sem a responsabilidade de presidir o júri encabeçado pela inteligência privilegiada do professor Catarino e desfrutar ainda do humor da Paula Guedes, da acuidade da Rosa, da sabedoria do Panayotis, da seriedade do Artur, da doçura elegante da Violetinha e das presenças originais da Márcia e Lili Caneças. (…) Lisa França.

Por outro lado, o Júri da Juventude, portou-se à altura. Leia-se o que se escreve no blog “Play That Movie Againt”: “Cine'Eco [recordar]” porque o Cine'Eco não é apenas ver filmes... ...mas uma experiência bem mais completa.
Obrigada a todos pela semana memorável!” Este post teve comentários de outros espectadores atentos de Cine Eco, que aqui reproduzo: “Excelente blog a descobrir por todos os cinéfilos. Em Seia, foi uma experiência de vida, onde as personalidades e as idades não contam, virando-se para um objectivo comum: tornar cada vez mais unido o que o homem tem de melhor, a sua disponibilidade para sentir o próximo. E é assim que descobrimos os amigos. Um beijo e abraço a todos! Germano”
“Rui disse... Reforço a frase do Germano “Excelente blog a descobrir por todos os cinéfilos.” Foi uma agradável surpresa ler as reviews efectuadas sobre alguns dos filmes a concurso, uma escrita fluente e acutilante sobre as questões neles retratadas. Vou seguir atentamente os futuros post´s. Lembra-te que Seia tem sempre lugar para os seus amigos! Ficamos pois a aguardar uma futura visita. Bjs
“Parabéns pelo teu blog. Confirmo o que já pensava. Que tens um enorme talento ligado à 7.ª Arte. Espero que a tua aventura pelo mundo do cinema nunca termine que é para eu me continuar a deliciar com as tuas análises e opiniões. Ao mundo mágico do cinema que a Cine Eco nos proporcionou junta-se a amizade que cada um de nós partilhou. Porque este filme nunca terá um fim.... um grande beijo e abraço a todos. Miguel Jerónimo”
Mas nesse mesmo blog, Helena escreveu: “Cine'Eco [palavras, visionamentos e prémios] de regresso...

O Cine Eco – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente decorre há 12 anos na cidade de Seia, em plena Serra da Estrela.
Articulada num manto verde, esta Seia outonal não poderia ser palco mais acertado para a realização de um festival ambiental. Ali está-se, de facto, em comunhão com a natureza, numa conjugação acolhedora de calma natural e cultura interveniente. Pela minha experiência devo afirmar que se aprende mais numa semana intensiva de Cine Eco que provavelmente em meses de televisão e cinema comercial. A temática ambiental engloba obras muito diversas, nomeadamente várias de cariz mais antropológico e que me captaram o interesse de forma particular. Das aves da Islândia a cheias na Ásia do Sudeste, dos pastores da Serra da Estrela aos tigres da fronteira sino-russa, de diversas comunidades de índios brasileiros à resistência tuareg no Mali, a abrangência geográfica e temática do festival era vasta e riquíssima. Foram exibidos alguns filmes muito bons, muitas obras competentes e umas poucas que geraram reacções mais extremadas. Alguns visionamentos foram dificultados pela inexistência de legendas, outros estimularam a aptidão linguística dos espectadores pela legendagem em idiomas que não o português. Com uma especial incidência para produções brasileiras e portuguesas, foram também mostrados filmes de países de todos os continentes, da Itália à Nova Zelândia, da Dinamarca ao Japão. Muitos deles foram exibidos em público pela primeira vez. Os filmes em competição (não tive oportunidade de ir a nenhuma sessão paralela), estimularam o acordar de uma consciência ecológica e social, alargando horizontes e desfazendo alguns preconceitos. A recepção este ano do Prémio Nacional do Ambiente parece mostrar que o Cine Eco é reconhecido na sua importância única no quadro dos festivais portugueses mas há ainda algum caminho a percorrer para garantir uma maior divulgação e uma cobertura mais atenta pelos media. O ambiente de convívio animado, troca de ideias e hospitalidade notável tornaram a estadia em Seia e a participação no festival como jurada da juventude uma experiência que recordarei como das mais enriquecedoras da minha vida enquanto amante de cinema e enquanto pessoa.”
Também no blog “Divas e Contrabaixos” se podem ler alguns comentários a filmes seleccionados pelo Cine Eco 2006. Outra curiosidade a referir.
No Blog “Oceano das Palavras”, de Luís Silva, de Seia, depois de referencia a alguns filmes e premiados, regista: “Esta edição do CINEECO teve mais de 100 filmes de vários países a concurso, destacando-se a participação do Brasil, o país estrangeiro que mais filmes apresentou. Na cerimónia de atribuição de prémios, sábado à noite no auditório da Casa Municipal da Cultura de Seia, o presidente da Câmara de Seia, Eduardo Brito, anunciou que a autarquia deverá duplicar em 2007 o orçamento do festival, que este ano foi de 50 mil euros. Eduardo Brito disse que o CINECO traduz uma aposta da Câmara de Seia na educação ambiental e no desenvolvimento cultural do concelho.”
Mas o blog não resiste a comentar o que chama de “efeito Lili Caneças”, e explica: “Lili Caneças é mesmo um fenómeno.” A seguir vem a confirmação: “O vídeo que aqui tenho sobre a Lili na cerimónia de abertura do CineEco, em apenas poucos dias já foi visto por cerca de 100 ip´s diferentes, assim como, já circulam cópias do mesmo em outras páginas de gente anónima e não só. A própria Lili no seu hi5 já o colocou. Além disto o vídeo já teve um "louvor" do YOUTUBE, por, em tão curto espaço de tempo, já ter sido visto muitas vezes. É este o efeito Lili Caneças que já está a dar resultados. As próprias fotografias que tirei e não editei aqui vão começar a aparecer nas revistas cor-de-rosa.”

Wanda Stuart no memorável concerto inaugural (foto MRF)

No citado blog, há dois vídeos a reter da cerimónia de abertura do Cine Eco 2006: um meu com a Lili Caneças (o que já provocou a tal curiosidade massiça) e um outro da brilhante actuação de Wanda Stuart no espectáculo da noite do dia 21 de Novembro). A não perder.
(Bem gostava de ter esses dois vídeos no meu blog, mas nao sei como importá-los. Alguém me ajuda? Socorro!)

sexta-feira, novembro 03, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 4

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
5.
Obras da Lusofonia
(Portugal)

De Portugal e do Brasil viram-se muitos títulos, mas não se viu uma “obra” daquelas que não vamos esquecer mais, nem das que faz a diferença. Ao contrário do “resto do mundo”, na Lusófonia primou a mediania, com um ou outro rasgo, e alguns percalços que só se compreendem terem sido seleccionados, porque muitas vezes é só nos festivais que se podem mostrar estas obras.

Comecemos por Portugal, onde a produção vista não primou pela originalidade, nem pelo arrojo, temático ou formal. “Águas Agitadas”, de Bernardo Ferrão, é uma boa reportagem sobre um casal de ambientalistas holandeses que estuda o comportamento dos cetáceos dos Açores. Trabalho nada pacífico, olhado com desconfiança, acusado pelas empresas de turismo de ser “whale watching” ilegal. O conflito já extravasou das acusações no papel, para as agressões no mar alto.

“Da Pele à Pedra”, de Pedro Sena Nunes, parte de um trabalho multidisciplinar levado a cabo na Lavaria das Minas da Panasqueira, abandonadas há 15 anos, e recorda a actividades dos mineiros, com a da população ainda residente, numa aldeia quase deserta. Enquanto se desce no escuro, a 450 metros de profundidade, para conhecer o trabalho e a vida dos mineiros, ouvem-se histórias e dança-se numa performance que vai “Da Pele à Pedra”. Interessante, rodado com sensibilidade e calor humano, mas o facto de ser uma (quase) reportagem sobre um espectáculo anteriormente concebido para uma outra linguagem retira-lhe alguma força. Pedro Sena Nunes e Ana Rita Barata sabem, porém, o que fazem e sabe bem ver o filme.

“Doutor Estranho Amor (ou como aprendi a amar o preservativo)”, de Leonor Areal, criou-me grandes expectativas. Talvez por isso me tenha desiludido. Rodado num estilo de “cinema verdade” com uma reduzida interferência ao nível da montagem, e estendendo algumas cenas por um tempo demasiado longo, este documentário mostra a actividade de uma brigada de estudantes de medicina que faz prevenção da SIDA numa escola (a Secundária Frei Gonçalo de Azevedo (Tires, Cascais). Durante dez semanas, acompanhamos os seus insucessos e as ilusórias conquistas junto de uma turma de adolescentes problemáticos. A imagem final que se colhe é que a situação do sistema educativo em Portugal é catastrófica, os alunos não sabem, nem querem saber, os professores andam à deriva, estas acções cheias de boa vontade e inexperiência acabam por resultar numa frustração completa, que uma ou outra reacção mais emotiva (o aluno que encosta a cabeça no ombro da animadora) não fazem esconder. A proposta oficial, apresentada no início do filme, num curioso e formal cocktail, nada tem a ver com os resultados. Se a “acção de prevenção” e os “teatrinhos” me parecem desastrosos, o filme mostra a discreta presença de Leonor Areal na direcção, sublinhando a sua intuição e a generosidade do olhar. Mas, em termos reais, já fez muito melhor.
“O Fole, um Objecto do Quotidiano Rural”, de Carlos Eduardo Viana, é uma produção “Ao Norte – Associação de Produção e Animação Audiovisual” que se limita a acompanhar, com algum cuidado, todo o processo de fabrico de um fole, um saco de pele de cabra que servia para o transporte de cereais. Hoje quase desconhecido, foi peça do quotidiano rural de São Lourenço da Montaria. O filme é um documento interessante, de valor certo de um ponto de vista etnográfico.

“Quatro Elementos água . terra . ar . fogo”, de Janek Pfeifer e Joaquim Pavão, já visto em Avança, é um exercício de estilo, caligráfico e algo frio, que, partindo de imagens dos quatros elementos, as reduz a silhuetas animadas, através de processos computorizados, que dançam ao sabor de uma inspirada partitura musical com a assinatura de Joaquim Pavão. A música é muito boa, as imagens e o trabalho exercido sobre elas não me fascinam, mas devo confessar que, para mim, um rosto filmado com amor, em grande plano, vale todos os artifícios electrónicos. Defeito meu ou feitio, é assim. De todas as formas jugo que tanto Janek Pfeifer (berlinense) como Joaquim Pavão merecem inteiramente novas oportunidades. O facto do filme ter sido exibido, e a abrir a competição em Seia, comprova-o.
“Reserva Natural do Estuário do Sado”, de João P. Fernandes, João Dias, Nelson Silva, alunos do Curso de Tecnologia Educativa 2005/2006 da LECN, FCTUN., filma a Reserva Natural do Estuário do Sado, que encontra “cheia de encantos”, na diversidade de habitats e na riqueza de vida que alberga. Um trabalho de alunos que justifica incentivo.

“Rua 15 – S.João”, de António Barreira Saraiva, uma produção da Proformar – Escola Secundária do Monte da Caparica, anda no mesmo registo, ao acompanhar os preparativos da Rua 15, a rua mais antiga da Costa de Caparica, para a grande festa anual do S.João. Há intencionalidade em muitas imagens, há uma aproximação emocionada dos rostos populares, mas depois há também uma montagem desastrosa, prolongando sem qualquer interesse certo planos, repisando outros. Cortado para metade do seu tempo original, ganharia muito. “Life Is Change” (Vida é Mudança), de Eduardo Morais de Sousa, filma a natureza com alguma acuidade, mostrando que tudo muda na vida, a natureza muda, e de mudança em mudança, de transformação em transformação, a vida prolonga-se, os ciclos restabelecem-se.

“The Barefoot Runner”, de Filipe Y, é uma animação simples, mas que denota potencialidades, uma longa viagem pela vida na Natureza e pela natureza da Vida, e “Garbage” (Lixo), de Mário Carvalho Gajo, igualmente uma animação, estra volumétrica, parte de um enorme monte de lixo, onde cai um objecto sobre um boneco metálico fazendo com que este ganhe vida. Tentando desprender-se dos materiais que estavam sobre ele, repara que uma televisão ameaça cair e esmagá-lo. Assustado, tenta levantar-se e fugir... Mas…
Mário Carvalho Gajo é portuense (1978), Tem uma licenciatura em Artes – Plásticas pela Escola Superior Artística do Porto (ESAP). “Lixo” é o seu primeiro filme, e de ambos os animadores se esperam confirmações. As expectativas cá cantam.

Finalmente, “Ainda Há Pastores?”, de Jorge Pelicano, Prémio da Lusofonia, e certamente o filme português mais interessante visto em Seia.
Jorge Pelicano nasceu em 1977, na Figueira da Foz. É licenciado em Comunicação e Relações Públicas e, actualmente, frequenta o 2º ano de Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, para lá de ser repórter de imagem, freelancer, para a SIC televisão, desde 2001. “Ainda há Pastores” é o seu primeiro filme documentário. Não se trata aqui de uma esperança, mas de uma certeza, mais ainda: uma revelação. O filme é delicado na composição, sumptuoso de imagem, magnificamente enquadrado, bem iluminado, Jorge Pelicano tem tudo para vir a ser um dos grandes documentaristas portugueses. “Ainda Há Pastores?” voa até ao alto da Serra da Estrela, passa por Casais de Folgosinho, onde não há luz eléctrica, não corre água canalizada, não há estradas e perde-se no silêncio de um vale entre as montanhas da Serra da Estrela. Outrora, um autêntico santuário de pastores, agora quase desaparecidos. Os velhos morrem, os novos fogem da dura sina de ser pastor, com 365 dias de trabalho por ano, sem folgas ou férias. Quase ninguém fica. Apenas resta Hermínio, 28 anos, o pastor mais novo, que aguenta as jornadas com a música brejeira do Quim Barreiros sempre debaixo do braço e uma sexualidade desenfreada, que os telemóveis vão pagar. O futuro dos Hermínios da Serra da Estrela não deixa de ser inquietante. Até quando haverá pastores?. Será que ainda faz sentido ser-se pastor assim? O filme termina com uma visita a um museu e percebe-se a mensagem: daqui a nada, pastores destes só no museu. Num museu de imagens, como este que Jorge Pelicano filma, com grande sensibilidade, mas com duas pequenas falhas quanto a mim. A saber: explora demasiado o lado “louco” de Hermínio. Sem nunca cair no oportunismo da exploração do “fenómeno de feira”, poderia ter sido mais comedido. Segundo: julgo de todo em todo desapropriados o texto e a locução, demasiados eloquentes e “poéticos”. Um texto simples, dito com singeleza e genuína simpatia era o que as imagens mereciam.
(continua com obras lusofonas - Brasil)

quinta-feira, novembro 02, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 3

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente
4.
Obras a Concurso
Outras não Premiadas

"O Cerco"

Muitos outros filmes merecem ainda referência: de Espanha, “O Cerco” (El Cerco), de Nacho Martn e Ricardo Iscar (2005), foca a pesca do atum, essa “almadraba atuneira” de que já nos falara (e muito bem), em Portugal, António Campos. Regressa o ritual sangrento, todos os verões. Milhares de atuns migram em grupos para o Mediterrâneo, em direcção ao estreito de Gibraltar. Nesta tradição centenária, barcos de pesca espanhóis esperam a chegada do peixe neste apertado estreito, armados com uma verdadeira parede de redes, para bloquear o seu caminho. É a violência do circo romano. “La Almadraba” é o nome original do ritual mouro, durante o qual facas e arpões são também utilizados.
“Cidade Adormecida” (Ciudad Dormida), de Henrique Rodriguez, é outra abordagem espanhola: num quarto citadino, novo, limpo, mas vazio, os mecanismos parecem funcionar sozinhos e a ausência da vida humana torna-se perturbadora.

"De Puna a Manu, Memória Inca"

“De Puna a Manu, Memória Inca”, de Alfonso Martinez, (Espanha, Peru, 2005), ainda em língua espanhola, mas agora estamos nos picos de Challamba, na montanha de Paucartambo, no Peru. É a Puna. Gente muito especial habita estas terras altas. Os descendentes directos dos incas são os únicos capazes de transmitir para a posteridade o que significa hoje pertencer a uma comunidade que controlou outrora um vasto império. De Puna a Manu, estão compreendidas diferentes áreas de vida e a diversidade biológica e cultural que abrange são reconhecidas mundialmente. As pessoas que permanecem nestes lugares, onde o dia a dia é árduo, não mostram qualquer intenção de imigrar, antes defendem e mantêm os seus hábitos, a sua cultura e as suas famílias.
De França, vimos “O Herdeiros do Guaraná (Les Heritiers du Guarana), de Rémi Denecheau (França, Brasil, 2005), documentando a organização dos Satéré-Mawé e de outros povos da floresta brasileira, para conservar a cultura tradicional do guaraná e toda a cultura, língua e autonomia desses povos, ameaçados pela grande indústria que quer aumentar a produtividade. A todo o custo.

"Teshumara, As Guitarras da Revolta Tuareg"

“Teshumara, As Guitarras da Revolta Tuareg” (Teshumara, Les Guitarrres de la Rébellion Touareg), de Jérémie Reichenbach (France, 2005), viaja até África, observando o aparecimento de uma música muito própria. A ruína económica da companhia tradicional que se seguiu aos sucessivos conflitos, a opressão exercida pelos modelos militares, o exílio, a resistência armada, todas estas mudanças profundas da companhia Tuareg deram origem ao nascimento de um novo movimento cultural, o Teshumara, especialmente representado na música do grupo Tinariwen. Também de França, “Os Tomates Enfurecidos” (Les Tomates Voient Rouge), de Andréa Bergala (França, 2006). Os tomates são o fruto mais popular do mundo. Há milhares de variedades. No entanto, apenas cinco delas são largamente consumidas. Seguindo as redes de comercialização legais ou ilegais, “Os Tomates Enfurecidos” reflecte a estabilização dos gostos e a sua repercussão económica, nestes tempos de globalização da indústria alimentar.

"Terra em Movimento"

“Terra em Movimento” (Terre in Moto), de Michele Citoni, Ângela Landini e Ettore Sinlschlchi (Itália, 2006) recorda outro terramoto, este em Irpinia (ao Sul de Itália). 25 anos depois, os voluntários que ajudaram a população regressam. A terra está muito bonita, mas o acontecimento e as suas consequências deixaram marcas e mudaram profundamente a comunidade.
“Os Caranguejos de Cape May” (Les Limules de Cape May), de Annie Tellier, é um tributo ao ecossistema e à vida selvagem de Cape May (Baia de Delaware), considerado um dos melhores locais para se observar pássaros na América do Norte.
“Conduzido pelo Vento” (Gedreven door Wind), de Janna Dekker (Holanda, 2005) é um retrato em jeito de homenagem a um dos últimos resistentes que acompanharam a vida diária de um velho moinho de vento, numa Holanda de luz de fim de tarde. Com a chegada dos modernos moinhos eólicos, os antigos passam a relíquias e os seus guardiães do vento desaparecem numa aragem.
Janna Dekker, realizadora, é também artista plástica e isso aflora na forma como filma a paisagem. Um belo filme.
Durante o período de pesquisa para um filme sobre os efeitos da mudança do clima ao nível global, a equipa de “Represas de Areia no Kitui” (Kitui Sand Dams), de Eva Zwart e Hans van Westerlaak (Holanda, 2006), contactou com a “Sahelian Solutions Foundations Kenya (SASOL) que desenvolve represas da areia em pequena escala nos rios no Kitui (um distrito do Quénia), no leste do Nairobi. Kitui é um dos distritos menos desenvolvidos do Quénia. A sua população tem que enfrentar secas e a escassez de alimento todos os anos. A SASOL visa ajudar os fazendeiros a minimizar os efeitos das secas. O objectivo é resolver os problemas relacionados com a água e com a agricultura, o principal sector económico no Kenya. A filosofia da SASOL é trabalhar com as comunidades locais e usar o seu conhecimento para a inovação e o desenvolvimento. O projecto da represa da areia no distrito de Kitui mostra que, com a participação forte da comunidade, a adaptação à mudança do clima pode ser bem sucedida. O filme testemunha.
“Gharat”, de Pankas Rishi Kumar (Índia, 2005) é um filme sobre o desenvolvimento sustentável descentralizado. O filme problematiza as questões de maior gravidade que assolam os Himalaias de Garwhal, com a proximidade da construção de grandes barragens como o Tehri Hydro Project.
“Nakkala”, de Peter Ramseier (Suíça, 2005) - Uma aldeia na vasta tundra finlandesa, tornou-se na segunda casa de Hans Ulrich Schwaar, oriundo da região “Emmental” da Suíça. Vive lá com o seu amigo e anfitrião, Lisakki-Matias Syväjärvi. O ritmo da natureza determina a vida do dia-a-dia. Peter Ramseier capturou esta vida e a amizade entre dois homens de diferentes culturas.

"Ovas de Ouro"

“Ovas de Ouro” (Ovas de Oro), de Manuel González Llanos e Anahí Sucarrat Johnsen (Chile, 2005) denuncia o comportamento do império industrial da pesca do salmão que manobra nas costas do Chile. De forma aberta, esta obra tenta informar sobre as consequências que sofrem dia a dia os operários, os pescadores artesanais, as comunidades lituânas, a cultura das vilas e o meio ambiente devido ao desejo de se tornarem o primeiro produtor mundial de salmão.
”Eco Dharma” (Eco Dharma), de Malgorzata Skiba (India, 2005), conta a história de dedicação e sacrifício da comunidade de Bishnoi, a mais antiga que se dedica a práticas ambientalistas na Índia, para quem a preservação da vida animal e da floresta é uma religião. Os Bishnois vivem no Grande Deserto Índio de Rajasthan. As suas aldeias-oásis são fáceis de distinguir porque se encontram cheias de árvores e vida animal. A comunidade é conhecida por sacrificar os próprios bens e sua vida à sua defesa. A fé Bishnoi é construída sobre o ecossistema do deserto, proclamado por um visionário hindu, Guru Jambeshwarji, em 1542 a C, que usava uma poderosa religião para ajudar as massas a viverem uma vida social saudável e amiga do ambiente.
“Nandini”, de Helle Ryslinge (Dinamarca, 2006) oscila entre o realismo e o humor, ao apresentar o quotidiano das vacas na Índia. O que faz uma vaca da cidade na Índia durante todo o dia? Onde vai? Que relação existe entre a religião na Índia e as vacas? “Nandine” dá as respostas a estas e muitas outras perguntas.

(continua com obras lusofonas)

CINE ECO 2006: Balanço crítico 2

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente

3.
Obras a Concurso
As Premiadas

Foram muitas as obras premiadas durante o Cine Eco 2006, dando razão aos que acham que esta foi a mais competitiva edição de sempre. Muitas e muito boas obras. É verdade. Já referi algumas de que muito gostei e que, por uma razão ou por outra, nem sequer entraram na lista das premiadas. Vou falar agora de outros títulos, de que também muito gosto, mas estes sim, figuram no cardápio final das honrarias. Mas antes uma ressalva: vou deixar para outra nota tudo o que diga respeito a lusofonia. Agora fico-me somente pelos títulos em língua estrangeira, tipo Melhores Filmes em Língua não Portuguesa.
"O Ataque do Tigre" - Grande Prémio

“O Ataque do Tigre” (Conflit Tiger), de Sasha Snow (Inglaterra, Rússia, 2005), é um documentário de reconstituição, estilo “docdrama”. Passa-se nas florestas da Rússia de Leste, e conta-nos um caso verídico: um caçador de tigres, inexperiente e insensato, provoca uma série de ataques de tigres que atingem as pessoas do vilarejo próximo. As autoridades locais convocam os serviços de Yuri Trush, um especialista na perseguição e abate de tigres que perderam o medo ao homem. “Conflict Tiger” estabelece-se assim como um documentário de suspense, assistindo-se a uma perseguição que envolve homem e fera, em que, a determinada altura, não se sabe quem é o perseguidor e quem o perseguido. O filme aborda um tema importante, a conflituosidade que o homem estabelece com a natureza, muitas vezes em função da pobreza que o atira para práticas aparentemente fáceis de ganhar dinheiro, mas que, mais tarde, se mostram delapidadoras do património e geradoras de violência. Neste sentido, esta perseguição pode funcionar quase como metáfora de um tempo onde a harmonia do homem com o seu habitat natural se quebrou e cria fricções graves.
Sasha Snow foi fotógrafo de arquitectura antes de surgir como montador na BBC, em 1991. Em 1997 ganha o BAFTA/Post Office Scholarship para Melhor Filme de Estudante, com “Peace Under A Power Station”, enquanto estuda realização documental na The National Film & Television School. Em 2002 diploma-se com o seu primeiro filme rodado na Rússia, “A St. Petersburg Symphony”. Seguem-se ‘Arctic Crime & Punishment’ e ‘Conflict Tiger’.
"Feridas Atómicas" - Grande Prémio Juventude

“Feridas Atómicas”(Atomic Wounds), de Marc Petitjean (França, 2005), retoma uma preocupação que ressurgiu no horizonte da Humanidade: a ameaça atómica. Recuando até Hiroshima e Nagasaki, o filme recorda a tragédia de 6 de Agosto de 1945, com testemunhos de sobreviventes que evocam o dia em que a bomba atómica em segundos aniquilava duas cidades e milhares de pessoas, deixando outros milhares a morrer lentamente, contaminadas pelas radiações. Com a Coreia do Norte e o Irão de um lado, os EUA do outro, a ameaça é mais forte do que nunca. Mas o filme vai mais longe através da palavra do Dr. Hida, uma das últimas testemunhas adultas do lançamento da bomba atómica em Hiroshima, que defende a teoria de que as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram usadas como testes. O próprio médico foi exposto às radiações e tratou os feridos nas horas que se seguiram à explosão. Hoje continua a cuidar dos cerca de 250.000 sobreviventes da bomba. Recorrendo a raras gravações de arquivo, o filme descreve os trabalhos do laboratório montado pelos cientistas americanos em 1946, no local dos bombardeamentos, para observar e interrogar os sobreviventes, mas com ordens para não os tratarem nem fornecer aos médicos japoneses os resultados dos testes. No mínimo polémico e inquietante.
"Ouro Branco" - O Prémio “Educação Ambiental”

“Ouro Branco – O Verdadeiro Preço do Algodão” (White Gold – The True Cost of Cotton), de Sam Cole (Inglaterra, 2005), é uma curta-metragem de 7 minutos, de uma eficácia notável. O que custa o algodão que vestimos? Viaja-se até ao Uzbequistão, o segundo maior exportador de algodão do mundo, onde um regime político altamente repressivo não permite outras alternativas do que lançar mão do vídeo doméstico para documentar fases da produção do “algodão de ouro”. Os militantes de EJF obtêm provas da exploração do trabalho infantil, da exploração rural e da destruição ambiental generalizada.
“Atingido” - Prémio "Polis"

Da Alemanha, “Atingido!” (Shoot Back!), de Michael Trabitzsch e Katharina Kiecol (2005/2006) afirma-se como uma versão africana (e reduzida) de “Eight Mile”. Trata-se essencialmente um documentário sobre pessoas reais: quatro adolescentes aprendem como usar uma câmara digital numa das piores zonas africanas. Como um diário, eles começam a documentar-se a si mesmos e às suas vidas, entre a esperança e o inferno, com a música da revolta por pano de fundo. Michael Trabitzsch, entre 1987 e 1991, foi assistente de direcção e produção de Harun Farocki. Desde 1992 é director de produção da “Prounen Film”, em Berlim. Do seu curriculum fazem parte trabalhos como “Allende”; “The Marble Road” ou “A Quiet Rebel. The Sculptor Wieland Forter”.

"H20 (Água à Venda)" - prémio Júri da Jjuventude

Outro filme alemão é “H2O (Água à Venda)” (Wasser unterm Hammer ou H2O Up For Sale), de Leslie Franke e Hermann Lorenz (2005) que mostra, numa perspectiva de recentes experiências inglesas, como a privatização da água, esse “ouro azul”, ocorre em diferentes cidades alemãs. As consequências são semelhantes um pouco por toda a parte: milhares de empregos foram “exterminados”, os custos foram reduzidos, registou-se um aumento do desperdício, a qualidade da água piorou, os preços aumentaram exponencialmente. O lucro é o “deus” na indústria da água. Mas a resistência está a surgir.

“Uma Alquimia em Verde”, Prémio “Vida Natural"

Da Nova Zelândia, “Uma Alquimia em Verde” (An Alchemy in Green), de Dave Dawson (2005), enquadra-se no cenário actual da luta contra o aquecimento global e do número cada vez mais elevado de espécies em extinção. “Alquimia em Verde” lança um olhar retrospectivo para a instalação do ser humano na Nova Zelândia e a subsequente destruição das gigantescas florestas tropicais, enquanto conta a história de Barry Brickell, um artista cerâmico, construtor de caminhos de ferro e defensor da natureza. Ele fala do seu projecto visionário para recriar a primitiva floresta Kauri, que um dia cobriu a Península de Coromandel. Depois de diversos anos, durante a década de 90, de colaboração na realização de documentários, em França e Alemanha, e mais tarde como freelancer como operação de câmara e fotógrafo de arte natural, na Nova Zelândia, Dave Dawson estreia-se na realização com este filme, onde fica reflectida a sua preocupação com as questões relacionados com a natureza e aproveitamento paisagístico, com uma especial atenção na saúde ambiental do Planeta. Um belo trabalho, tanto de um ponto de vista ambiental, como cinematográfico.

Prémio “Antropologia Ambiental” - “O Cavalo Operário”

“O Cavalo Operário” (Le Cheval Ouvrier), de Alain Marie (França, 2006), é um belíssimo olhar sobre o trabalho escravo dos cavalos, em pleno coração da bacia mineira. Um velho criador de cavalos de carga transmite-nos a sua paixão pelos “Traits du Nord” numa perfeita harmonia com o universo. Paralelamente um velho mineiro de origem polaca, que é hoje guia no complexo mineiro de Wallers-Arenberg, mostra-se um investigador apaixonado pela vida dos cavalos nas minas. O encontro dos dois universos permite-nos partir à descoberta dos últimos vestígios do trabalho dos cavalos em terra, sob a terra e… no mar. O cavalo é um objecto estético invulgar e Alain Marie retira deles uma presença deslumbrante, num filme nostálgico e de uma perturbante delicadeza.
Prémio “Camacho Costa” - “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”

De Itália: “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais" (Giovanni e Il Mito Impossibilie delle Arti Visive), de Ruggero Di Maggio (1976), retoma um tema muito curioso, a arquitectura ao serviço do homem ou ao serviço da estética? Sicília, 1968. Uma pequena cidade chamada Gibellina é destruída por um terrível terramoto. Nada fica de pé. É tomada a decisão de reconstruir completamente a cidade, a 18 quilómetros para Este das ruínas. Os melhores arquitectos e artistas italianos são chamados para criar uma Gibelina, nova e futurista. Giovanni, de 70 anos, mudou-se da velha cidade para a nova, mas as suas palavras revelam um mundo de dúvidas. Pertinentes ou não? Irónicas, seguramente.

"Filhos da Montanha de Prata" - Prémio Júri Juventude

“Filhos da Montanha de Prata” (Hijos de la Montanã), de Juan S. Betancor (Espanha, 2005), aponta para uma realidade que remonta a 1545, quando os conquistadores espanhóis descobriram prata pura numa montanha na região Inca de Kollasuyo, hoje o Planalto da Bolívia. Deram-lhe o nome de Cerro Rico (a Montanha Rica) e à poderosa e próspera cidade que cresceu na sua base, Potosí. Cedo criaram a maior indústria mineira do seu tempo, sustentada por um miraculoso sistema de força mineira, “La Mita”. Religião e exploração.
“Os Refugiados do Planeta Azul” (Les Réfugiés de la Planète Bleue), de Jean-Philippe Duval e Héléne Choquette (França e Canada, 2006) – Sabia que há refugiados do ambiente? Este belíssimo e perturbador filme revela-nos um agricultor canadiano, um pescador das Maldivas e um “peasant” brasileiro: todos eles vivem em pólos opostos, sob uma enorme variedade de condições sócio-económicas. Eles são, todavia, vítimas de uma mesma tragédia. Encontram-se entre os 25 milhões de pessoas que por questões ambientais são forçados a deslocar-se… Inquietante.

“Terras a Separam-se: Uma Saga Islandesa” (Parting Lands), de Zoltan Torok (Hungria, Suécia, 2005) leva-nos até à Islândia, o único país que faz parte quer da Europa, quer da América do Norte. Nascida da fenda que separa os dois continentes nas profundidades do Oceano Atlântico, lenta mas irreversivelmente, a Islândia separa-se inexorávelmente em duas. Este filme mostra a vida natural, única e só muito raramente filmada, desta ilha e a sua interacção com as mais rudes forças da natureza.
“Melhor Animação” - “49"

Vários filmes de animação passaram em Seia. O melhor veio do Japão, “49”, de Ichiro Iwano (2006) sobre um homem que trabalha numa base de mísseis. Hoje o seu filho faz anos. Mas assim que se preparava para sair do trabalho, o telefone tocou. Com essa voz vinda do longe, surge uma ordem para disparar um míssil. Que fazer? Boa animação, adensando o dramatismo do nuclear.
(continua com outras obras não premiadas, e não lusofonas)

quarta-feira, novembro 01, 2006

CINE ECO 2006: Balanço crítico 1

"O Picador de Pedra"

Uma Maratona de
Bom Cinema e Bom Ambiente

1

Terminou a décima segunda edição do único festival de cinema dedicado ao ambiente que se realiza em Portugal. No ano em que a Confederação Portuguesa de Associações de Defesa do Ambiente atribuiu o Prémio Nacional do Ambiente (Fernando Pereira) 2006 ao CineEco - Festival Internacional de Cinema e Vídeo do Ambiente da Serra da Estrela – por mérito, coincidência ou acaso (ou pela reunião de todos estes elementos), a selecção das obras a concurso foi de um modo geral excelente. Não é tanto mérito do festival, que se limitou a seleccionar entre as cerca quatrocentas obras oriundas de quatro dezenas e meia de países, mas consequência da importância que o ambiente vai adquirindo na consciência colectiva, que impõe novas obras, revela novos autores, estende o seu público alvo. As preocupações com o ambiente, quando sinceras e despartiradizadas, são uma das grandes causas que une as pessoas e as mobiliza individual e colectivamente. Quando a crise das ideologias é manifesta, quando a desconfiança com as causas politicas se generaliza, é na defesa do ambiente que as pessoas encontram um ponto de contacto, uma bandeira, um lema. Um pouco por todo o mundo a preocupação domina: da Índia os Estados Unidos, do Irão ao Chile, da Estónia à África do Sul, passando por toda a Europa. Isso mesmo ficou patente na selecção que reuniu obras de cerca de vinte países: Alemanha, Brasil, Canadá, Chile, Croácia, Dinamarca, Espanha, EUA, Quénia, França, Holanda, Índia, Inglaterra, Irão, Israel, Itália, Japão, Montenegro, Nova Zelândia, Portugal, Rússia, Inglaterra, Suiça e Venezuela.


2
Obras a Concurso
As minhas preferidas


Infelizmente, ou não, poucas das minhas obras preferidas integraram a lista final dos jurados. Os Júris não representam um olhar único, mas vários olhares, coincidentes ou não. Por vezes divergentes. Das reuniões sai uma confluência de votos e de ideias. Nunca uma unanimidade, memo quando esta é manifesta. Nunca o “cada cabeça, cada sentença” assentou melhor. Por isso, o resultado de um Júri é o resultado de várias subjectividades que se reúnem, para criarem uma nova subjectividade. Como subjectiva é a minha escolha.

"Carpatia"

O meu dilecto chama-se “Carpatia” (Carpatia - Geschichten aus der Mitte Europas/Carpatia), uma realização de Andrzej Klamt e Ulrich Rydzewssky (Alemanha, 2004), e já trazia atrás de si um apreciável palmarés. Creio que o facto terá pesado junto do Júri, não de forma positiva, mas negativa. Era uma obra que já não precisava de ter mais prémios, depois de ter sido premiada em Turim, Rodes, Goiás (aqui com o prémio “Festival dos Festivais”, uma espécie de Óscar do filme ambientalista). Aceito o raciocínio, mas não esqueço o belíssimo olhar dos realizadores pelas paisagens e gentes que habitam diversas regiões e outros tantos países que se estendem pelos montes Cárpatos, sistema montanhoso da Europa Central que forma um arco de 1.500 quilómetros e que passa pela Roménia, a Ucrânia, a República Checa, a Polónia e a Eslováquia, chegano a tocar na Hungria, na Sérvia e na Áustria. Que faz o filme de Andrzej Klamt e Ulrich Rydzewssky? Passeia longamente, demoradamente o seu olhar pela paisagem, de forma contemplativa, mas não passiva, procurando interrogar a terra e os homens, os que amam ali viver, os que aceitam ali viver, os que se revoltam por ali viver Os que se integram, os que se excluem, os que criam grupos, os que sobrevivem isolados. Este diálogo de imagens e vozes, sempre diferente, do homem com o local, registado com uma sensibilidade e ternura impares, mas sem qualquer tipo de paternalismo, fica para mim como o melhor momento do festival e um dos mais sugestivos documentários dos últimos anos. É uma viagem poética, pautada por serenos travellings laterais que introduzem novas regiões, e por imagens fixas que mostram como o cinema pode ser simples, despojado e brilhante. Apercebemo-nos das raízes culturais e civilizacionais de cada povo, de cada homem, ao assistirmos a retratos poderosos de sinceridade e discrição. Conhecemos garimpeiros de ouro, magos, boiadeiros e suas boiadas, os velhos “Chassids”. Assistimos de perto à vida de grupos étnicos da região, como os “Hultsul”, os “Gorali e os “Roma”. Duas horas de pura magia que Andrzej Klamt e Ulrich Rydzewssky nos proporcionam.

"Fumo"

Dois filmes se aproximam pelo projecto. Um vem da Croácia, “O Picador de Pedra”, de Branko Istvancic (2006), outro de Montenegro, Fumo (Dim), de Vladimir Perovic. De “Fumo”, imagens de solidão: um velho homem sobe a montanha, com uma paisagem sem fim a estender-se atrás de si. Uma aldeia ao fundo, uma casa no cimo da montanha, um rio correndo no fundo do vale, uma fogueira que se acende, o fumo que assinala a presença do humano, num cenário de inicio de mundo. Quanto a “O Picador de Pedra”, mais um homem sobe a montanha, picareta às costas, para mais um dia de trabalho duro, picar e cortar a pedra, na solidão de um cenário desolador. Enquanto trabalha, imagina ou sonha danças na velha pedreira. Sem diálogo. Dança em silêncio com trabalho de pés, e sons de pedra. Duas belas curtas-metragens sobre o confronto diário do homem com a Natureza em majestosas terras telúricas. Uma linguagem descarnada, sem efeitos. O cinema em estado puro. Humilde. Acompanhando o homem que trabalha. Com respeito.
"Charles Jencks"

“Charles Jencks e o seu Jardim de Especulação Cósmica - Novos Jardins (Neue Gartenkunst – Im Kosmos von Charles Jencks), de Christoph Schuch (Alemanha, 2005), é um documentário de um outro tipo. Mais importante o que conta do que a forma de contar, tradicional e escorreita. Mas o universo de Charles Jencks, o importante crítico de arquitectura do pós-modernismo, faz a diferença e desperta o interesse. Conhecemos muitos jardins. Por tradição, diz-se, os jardins e parques tendem a contar uma história. No entanto, o que aconteceu durante estes últimos dez anos em Dumfriesshire, no Sul da Escócia, foge, provavelmente, ao alcance do conceito de paisagem de jardim definido durante os últimos duzentos anos. Charles Jencks antecipou os jardins de Alice, de Tim Burton, e cria espaços verdes totalmente re-construídos que são fascinantes jardins, que tem como tema nada menos do que o Universo.

"Ganges, Rio para o Paraíso"

Outro filme que retive, e não aparece mencionado nas actas do Júris, foi “Ganges: Rio para o Paraíso” (Ganges: River to Heaven), de Gayle Ferraro (India, 2003). Trata-se de uma cuidada investigação sobre a inexplicável ligação entre um rio (o Ganges) e as suas gentes com uma inigualável intimidade e profundidade. Dos trabalhadores do “ghat” que juntam a madeira para as cremações, aos analistas químicos que recolhem amostras de água para testes de contaminação, cada perspectiva oferece uma luz nova no interior da sociedade indiana e a sua imutável veneração pelo Ganges. Documentário sobre um rio sagrado, poluído por anos de uso abusivo, questiona se a força natural que esculpiu os picos dos Himalaias e as crenças de uma nação conseguirá sobreviver para a adoração das gerações vindouras. Este é o terceiro filme de Gayle Ferraro. Foi rodado em Varanasi, Índia, documentando os lendários “ghats” em chamas, onde mais de 200 corpos são lançados todos os dias para cremação, a fim de alcançarem o “Moksha”. Os anteriores filmes de Ferraro foram “Anonymously Yours” (2002), sobre o mundo do tráfico do sexo no Sudeste Asiático, e “Sixteen Decisions” (2000), onde abordou os esforços corajosos de mulheres pobres do Bangladesh que lutam para enfrentar igualmente essa realidade devastadora.

"Gambit"

“Gambit”, de Sabine Giseger, co-produção da Suíça e da Finlândia (2005), lança um olhar retrospectivo sobre a explosão de um reactor químico, numa fábrica de produtos farmacêuticos, em 1976, na parte norte da cidade italiana de Seveso. Posteriormente, dióxido altamente venenoso derrama-se na atmosfera. Em Monza, no ano de 1983, o químico Jorg Sambeth é sentenciado a cinco anos de prisão, como um dos principais culpados do desastre. É ele que resolve falar e contar a sua versão dos acontecimentos, uma história que trata de mentiras, verdades e vigarices. Sabine Gisiger, nascida em 1959 em Zurique, estudou História, e, em 1989, começa a trabalhar como jornalista de TV para a televisão suíça - SF DRS. A partir deste momento, produz uma série de documentários e reportagens sobre os problemas sociais e políticos da sua terra. Desde 2002, Sabine dá aulas de produção de documentários na Escola de Arte e Desing em Zurique (HGKZ). O filme alterna a reconstituição histórica da tragédia com a serena vida familiar de Jorg Sambeth, e fá-lo com sensibilidade e um apuramento estético invulgar. O resultado é surpreendente.

(continua com Premiados)

segunda-feira, outubro 30, 2006

Cine Eco: Os Prémios

“O Ataque do Tigre”
do realizador russo Sasha Snow
foi o grande vencedor
do Festival de Seia -
Cine’Eco 2006


O Filme “O Ataque do Tigre” (Conflict Tiger) do realizador russo Sasha Snow é o grande vencedor do Cine’Eco 2006 – XII Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela, que se realizou em Seia de 20 a 29 de Outubro.

“O Ataque do Tigre” fala de um caçador inexperiente e insensato, que nas florestas do Leste Russo, provoca uma infame série de ataques de tigres nas pessoas do vilarejo. As autoridades locais convocam os serviços de Yuri Trush, um especialista em seguir e eliminar os tigres que perderam o seu medo do homem. O filme mostra a mais notável perseguição de Yuri a um tigre comedor de gente como base de um documentário de suspense.
Sasha Snow era fotografo de arquitectura antes de surgir como montador na BBC, em 1991. Em 1997 ganha o BAFTA/Post Office Scholarship para Melhor Filme de Estudante, com “Peace Under A Power Station”, enquanto estuda realização documental The National Film & Television School. Em 2002 diploma-se com o seu primeiro filme rodado na Rússia, “A St. Petersburg Symphony”. Seguem-se ‘Arctic Crime & Punishment’ e ‘Conflict Tiger’. “O Ataque do Tigre” arrecada assim o Grande Prémio Cine’Eco atribuído pela Câmara Municipal de Seia, no valor de € 3.750 Euros, além da campânula de ouro, símbolo máximo do festival.

Outro dos grandes vencedores do festival é o filme “Ainda Há Pastores?” de Jorge Pelicano, que ganhou o prémio Lusofonia, (que é visto como o segundo melhor prémio do Cine’Eco) no valor de € 2.500 Euros e a respectiva campânula.
O filme, considerado a melhor obra a concurso, produzida e realizada em país lusofono, retracta a vida de Herminio, um jovem pastor de 28 anos nos casais de Folgosinho, em plena Serra da Estrela, onde não há luz eléctrica, não corre água canalizada, não há estradas. “Um lugar que se perde no silêncio de um vale entre as montanhas da Serra, que em tempos foi um autêntico santuário de pastores. Contudo, Hermínio contraria o fim. Dizem que é o pastor mais novo, mas também o mais doido. O futuro de Hermínio é inquietante. Até quando o jovem Hermínio será pastor? Mas...ainda há pastores?”

O Prémio “Educação Ambiental” foi atribuído ao filme “Ouro Branco – O Verdadeiro Preço do Algodão” de Sam Cole (Reino Unido, 2005), por ter sido considerada a obra que melhor abordou, do ponto de vista didáctico - pedagógico os temas a concurso.

O Prémio “Água” foi para o filme “Águas Agitadas” do jornalista da SIC Bernardo Ferrão (Portugal, 2005) por ser a obra a concurso a promover melhor o tema dos recursos hídricos.

Uma Alquimia em Verde”, de Dave Dawson (Nova Zelândia, 2005) venceu o prémio “Vida Natural”, por ser a obra a concurso que no entender do júri melhor promove o tema da conservação da natureza e da bio-diversidade.

O Prémio “Polis” foi atribuído ao filme “Atingido” do realizador Michael Trabitzsch (Alemanha, 2005/2006), por ter sido considerado o melhor a promover o tema da requalificação urbana e valorização ambiental.

O Prémio “Antropologia Ambiental” foi atribuído ao documentário “O Cavalo Operário” de Alain Marie (França, 2006) por ser a obra a concurso que melhor promove o tema da inserção do homem no seu quotidiano.

O Prémio Vídeo Não Profissional foi conquistado pelo filme “Muitchareia” de Uliana Duarte (Brasil, 2006).

O Prémio “Camacho Costa” foi para o filme “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”, de Gabriele Gismondi & Ruggero Di Maggio (Itália, 2005).

O Júri Internacional presidido pelo Professor Fernando Catarino atribuiu ainda Menções Honrosas aos seguintes filmes: - “O Amendoim da Cutia” de Komoi Panará e Paturi Panará (Brasil, 2005); “Da Pele à Pedra”, de Pedro Sena Nunes (Portugal, 2005); “Feridas Atómicas” de Marc Petitjean (França, 2005);

O Júri da Juventude atribuiu por sua vez os seguintes prémios:

“Grande Prémio” para o filme “Feridas Atómicas” de Marc Petitjean (França, 2005);
“Melhor Animação” para o filme de animação “49”, de Ichiro Iwano (Japão, 2006);
“Prémio Verde” para o filme “Uma Alquimia em Verde”, de Dave Dawson (Nova Zelândia, 2005);
“Melhor Curta metragem” para o documentário “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”, de Gabriele Gismondi & Ruggero Di Maggio (Itália, 2005);
“Prémio Verdade Inconveniente” ao filme “Os Filhos da Montanha” de Juan S. Betancor (Espanha, 2005);
“Prémio Humanidade” ao filme “Os Refugiados do Planeta Azul” de Jean Philippe Duval e Heléne Choquette (França e Canadá, 2006);
Menções Honrosas para: “O Ataque do Tigre”, do realizador Sasha Snow (Russia, 2005); “Terras A Separam-se: Uma Saga Islandesa” de Zoltán Török (Hungria e Suécia, 2005); “Ouro Branco” de Sam Cole (Reino Unido, 2005); “H2O – Água à Venda”, de Leslie Frank (Alemanha, 2005) e “Ainda Há Pastores?” de Jorge Pelicano (Portugal, 2006).
Comunicado do Festival.

sexta-feira, outubro 20, 2006

UM DEBATE: O ABORTO

O REFERENDO
SOBRE O ABORTO
ilustração da Xilla, pedida de emprestimo do seu blog "Confidências"
No "Divas & Contrabaixos", a MRF está a publicar um conjunto de textos sobre o aborto, ou a IVG, que merecem toda a nossa atenção, agora que a questão voltou à praça pública. De acordo com quase tudo, descordo de um ou outro ponto, sobretudo estratégico. Por isso lá deixei este comentário:
Bons “posts” sobre o IVG, mas julgo que o caminho não é o melhor. Há motivos para muitas dúvidas e equívocos. O que se invoca a nosso favor, também pode ser invocado contra. Por exemplo, a doutrina do “Probabilismo”. Explicas: “Elaborada por teólogos católicos no século XVII, baseia-se no conceito de que uma obrigação moral que provoque dúvida não se pode impor como se fosse indiscutível. O princípio fundamental é "Onde há dúvida, há liberdade". Já viste que a liberalização da IVG provoca dúvidas? Logo há liberdade para a proibir. De resto “ Estas são posições antigas, mas cada vez mais válidas, na sociedade plural em que vivemos.” Por que razão as “posições antigas” são cada vez mais válidas? Muito pelo contrário, acho intolerável a Inquisição, apesar de ser uma posição antiga. Logo, o simples facto de serem posições antigas, não as faz melhores ou piores. Como também muito bem dizes, as questões tem de ser colocadas no seu tempo. E enfrentar abertamente as posições do seu tempo, neste caso do nosso tempo. Aí a opinião da Igreja, oficial, papal, não deixa dúvidas e é sobre essa que teremos de reflectir.
O caso do aborto, ou da IVG, só tem uma questão a que nos devemos reportar: cada casal, porque não há IVG sem homem e mulher, tem de decidir em liberdade o que quer fazer. Para haver essa liberdade, é preciso que ela esteja consignada na lei. De resto, não discuto posições católicas ou feministas ou outras quaisquer, porque a partir do momento que exista essa liberdade de opção, cada um fará o que quiser, o que a sua consciência e a sua condição ditarem. Para quê discutir a posição dos católicos, dos ateus, os xiitas, dos turcos ou dos índios? Não tenho nada a ver com o que cada um pensa. Tenho a ver com a liberdade de cada um poder pensar o que quiser. E não vou rebater os argumentos dos outros, pois estou a entrar no seu jogo. Não quero ter “a consciência de outros”, quero poder “exercer a minha”.Não quero mudar “a consciência de outros”, porque também não quero que me obriguem a mudar a minha. Quero lá saber se o aborto era permitido no século XII ou no XVII. Não vivo no século XII nem no XVII, e nesses séculos havia tanta outra coisa de que discordo, que se concordo com uma é mera coincidência. Todas estas discussões visam apenas fornecer argumentos ao NÃO. Eu voto SIM, inclusive para os católicos poderem continuar a não exercer a IVG, se quiserem. E outros a praticarem, se assim o julgarem necessário. E outros ainda nunca praticarem a cópula sequer, se não tiverem prazer nisso e não quiserem aumentar o índice demográfico. Enfim, voto sim porque quero a liberdade de eu decidir como acho justo e o meu contrário decidir o inverso. Não discuto argumentos. Discuto a liberdade de decidir. É a única coisa em causa neste referendo.
De resto, o teu trabalho de investigação é óptimo, e chamar a atenção para a decisão homem-mulher excelente. Falar “no corpo”, “na barriga” e “na liberdade da mulher” é mais uma vez fazer o jogo dos que acham que a mulher é a causa de todos os pecados. E a impediam de votar. Além de que, numa gravidez, “a barriga não é só da mulher”. Que eu saiba ainda não se atingiu essa “perfeição”. Essa “barriga” é sempre de dois, mesmo que um tenha vindo em “ampola” laboratorial. Bjs. LA
(nota: coloquei "aborto" no motor de busca e fui procurar imagens para ilustrar este texto. Por que será que, contra ou a favor, é tudo tão horrível?)
Esclarecimento (da MRF) :
LA, provavelmente tens razão, mas a conclusão a que chego é esta: "Os católicos portugueses, polacos, irlandeses e malteses são a minoria que, na Europa, ainda está presa à visão mais intransigente da Santa Sé."Porque existe de facto, mesmo na Santa Sé, teólogos com um pensamento distinto do "oficial". O "recurso ao mal menor" não é dos séculos XI ou XVII, é de agora. De resto, é com base nesse postulado que a Igreja, noutros países ditos católicos, enquadrou a lei "laica" que permite a realização do aborto a pedido da mulher.Porquê que isto me parece importante? Para deixar claro que não existem verdades absolutas. Para tranquilizar aqueles que, como eu, porque educados em meios conservadores, se descobrem a defender a despenalização do aborto, sempre com um nó na garganta e um ligeiro sentimento de culpa.Eu acho que foi também por isso que em Junho de 1998, apenas 31% dos eleitores foram votar.


# posted by MRF : 09:15
Perdeu-se o referendo de 1998 porque se entrou nesse debate, e porque a grande maioria dos que votavam Sim achavam que a questão estava ganha, e muitos não foram votar. Entrar outra vez no mesmo debate, só me parece contraproducente. O debate é: ter ou não liberdade para cada um decidir. Não há que debater pontos de vista, já que todos podem ser legítimos, se estribados em questões de fé ou de consciência. O que não é legítimo é impedir a liberdade de decisão de quem quer que seja. Essa é a grande arrogância de quem quer que faça as leis. Vou mesmo mais longe: o que pretendo é que os católicos permitam a liberdade de outros pensarem diferentemente. Não quero mais radicalismos religiosos, nem de Maomé, nem de Cristo. Nem de feministas exacerbadas. A questão é só uma: posso ou não agir de acordo com o que penso e sinto? É isso a democracia. A questão seria ainda mais radical. Mesmo que 90% dos portugueses seja contra o aborto, os restantes 10% terão direito de agir consoante a sua consciência. É essa liberdade que o referendo deve consignar. LA 10.20.06 - 3:29 pm #


Entre 20 e 29/X/06
em Seia
no Cine Eco
em 12ª edição


(saiba mais sobre a cidade de Seia)

Poesia Popular
encontrada na Internet:
Canção a Seia
(Jorge Camelo)

São neves que caiem
Aguarela de pintor
O trovão na Serra
São sonhos de amor
É luz da minha vida
A aragem da noite
É minha alma perdida.
Estribilho

Ouve uma prece
Ó Seia querida
Não quero deixar-te
Por que jurei amar-te
Toda a minha vida
Seia adorada
De mim tem piedade
Porque os que partiram
E nunca mais te viram
Morreram de saudade.
II

É teu tapete
O verde do vale
E as águas que passam
São fios de cristal
Quando o sol se põe
Vejo que ele sorri
Não quer ir embora
Fica a olhar para ti.

Sem Título
(Francisco Dias)

Adeus Cidade de Seia,
Capela de Santa Rita,
Por seres menina feia
O luar te virou bonita…

Fui da praça à Carvalha,
Ai solidão, solidão,
Encontrei lá a mortalha,
Do bairro de S. João.

As torres da Velha Igreja,
Lindas são como os amores,
Carnudos lábios se beijam,
Rosas sim que são flores.

A Cidade de Seia é bela,
Dizem do alto os pastores,
É a alegre sentinela
Do Portugal, meus amores…
Balada de Seia

Quem passar por Seia
De certo que anseia
Continuar a passar;
Porque Seia
É cidade de encantar.
É romagem de turistas,
É passagem de alpinistas,
Que à serra querem chegar;
Porque Seia
É terra de lembrar.
Tem castelos e muralhas,
Sinais de batalhas
Que Viriato travou
Tem igrejas e capelas,
Moças mui belas
Que Camões cantou.
Tem poetas e cantores,
Noites de amores
Que constróem os lares.
É cidade hospitaleira,
Onde se salta a fogueira
Nos santos populares.
Tem a carvalha no alto
E um castelo de valores.
Tem a Sant’Ana na serra,
E aos seus pés
Fontes de amores.

Seia, 09 de Julho de 1989

Cidade que és minha

Na noite oculta do tempo,
Vagueio
Pelas ruelas da cidade,
Que sonha dormindo,
Coberta do manto azul,
Onde moram as estrelas.
Meus ideais de rapaz,
Desfilam na penumbra-sombra
Da recordação deste repouso-paz…
Cidade que és minha,
Num amplexo de abafo
Como querendo fundir-te
À alma que me fez teu filho!
Cidade -que te renovas em cada hora
No compasso dum tempo
Incomum,
Ressurgida da história,
Que as brumas frias das madrugadas
De inverno cristalizaram,
Em estalactites de gelo vítreo.
Cidade memória dos que partiram,
Com a dor de te amarem,
Fica tu comigo, cidade para
Que vagueie
Na noite oculta do tempo.

Seia, Outubro de 1987
Como é fácil de perceber
todos os caminhos vão dar a Seia.
Siaba como:

Adeus, até ao meu regresso!

quarta-feira, outubro 18, 2006

LIVROS

LEITURAS

Com a organização do Festival de Seia (começa a 20), não tenho tido muito tempo para o blog. Nem tenho ido ao cinema, nem ao teatro, nem sequer visto DVDs em casa. Não será bem assim: ontem revi Rita Hayworth e Glenn Ford em “Affair in Trinidad”, de Vincent Sherman, e, se bem que não se aproxime, nem de perto nem de longe, de “Gilda” ou “Notorius”, modelos que obviamente procura “recuperar”, é um thriller que se vê bem, com um belíssimo preto e branco, e uma Rita Hayworth como sempre de cortar a respiração. Tinha então 34 anos, acabara de divorciar-se de Ali Khan, e pretendia regressar em glória. Duas magníficas cenas de dança / canção ("Trinidad lady" e, sobretudo, "I've Been Kissed Before," que tem tudo a ver com o fabulosa "Put the Blame on Mame", de "Gilda") chegariam para valer a pena, tanto mais que tem Glenn Ford por perto.
Mas se tenho saído pouco, lá vou lendo umas coisas. Na livraria folheei “Não Contem aos nossos Filhos”, a confissão de uma puta portuguesa que, acompanhada pelo marido, “atendeu” clientes de norte a sul de Portugal, sempre com o esposo, ou no quarto, a “interagir”, ou por perto, ambos com dificuldades económicas para manterem um belo apartamento (elogiado pelos visitantes), o carro e as duas crianças. Comprei para ler. Gosto de ler tudo. Curiosidade insaciável. Li. Em nome das dificuldades tudo se justifica (se calhar até estas confissões anódinas de quem nada tem de especial para contar, editadas pela “Oficina do Livro”), mas o curioso, o desarmante, é a lata moralista da “Rita” (pseudónimo), que “julga” toda a gente que lhe pagou pelos serviços. Para ela, tirando um coimbrão bonito e bem fornecido, o resto é tudo pessoal moralmente depravado e sexualmente frustrado. Ela não. Enfrentou de caras o que havia a fazer. Acabada a empreitada, regressaram marido e mulher a casa, sem problemas. “Não Contem aos nossos Filhos”. Por mim, podem estar descansados.
Mal acabei, peguei em “O Elogio da Intolerância”, de Slavoj Zizek, e comecei a ler aquele que dizem ser um dos mais interessantes e estimulantes intelectuais e filósofos da actualidade. O livro começa bem, com uma espécie de interpretação da merda, como elemento de valorização civilizacional, tendo em conta a forma com a mesma é tratada nas sanitas da Alemanha, de França e dos EUA. Depois, parece-me realmente de leitura estimulante, numa linha radical que propõe a recuperação dos movimentos sociais e das revoluções que cortem com qualquer tipo de conciliação que só favorece as forças no poder. Logo a “sociedade ocidental, machista, capitalista, dominada pelos EUA.” Uma espécie de marxismo recuperado e estripado do que provou ser perverso. Em vez dos “sans coulete” e dos “proletários de todo o mundo”, agora são os “sem parte”. Continuarei a ler, e já tenho em fila de espera “A Subjectividade por Vir” e “Bem-Vindo ao Deserto do Real”. Do mesmo. Comprei por atacado. Ainda por cima é cinéfilo. Muito.
Entretanto li, reli, releio, continuarei a ler “Outro Nome, Escassez, As Aves”, poesia de Gastão Cruz. Muito bom. E mais uma tradução magnifica de Aníbal Fernandes, “Sem Amanhã”, de Vivant Denon, uma pequenina pérola francesa (que em cinema deu “Os Amantes”, de Louis Malle). Aníbal Fernandes não traduz só magnificamente, como faz de cada seu trabalho um enquadramento histórico e literário que clarifica e torna muito mais densa a leitura. De Aníbal Fernandes tenho para comentar já há umas semanas uma tradução notável, “Zaroff (O Jogo Mais Perigoso)”, de Richard Connell, que deu uma obra-prima do cinema fantástico, e que neste volume, editado pela Assírio e Alvim, agrupa a novela do escritor e o guião do filme. E ainda uma introdução histórica impressionante de informação recolhida e condensada. A não perder. Sobretudo por quem goste de literatura e cinema fantásticos. Realmente fantásticos.
Por outro lado, tenho a meio “O Mar”, de John Banville, que alguém me recomendou (em boa hora), e comecei a devorar o último da Agustina Bessa Luís, escritora que amo. Não queria começar a ler já. Queria guardar para mais tarde. Mas abri o livro (e como são voluptuosos os livros da Agustina, começam na capa, no toque do papel, no tipo de letra, no desejo que provoca o manuseio, desejo, voragem de não mais parar) e não resisti. Assim foi. Li: “Porque até muito tarde se cozinhava a lenha e se usava a lenha para os fogões de sala. Ouvia-se o crepitar das achas secas como um ruído de bom augúrio na manhã enevoada.” Era domingo. Apeteceu-me enroscar-me no sofá, e continuar a ler. Imaginar o fogão a lenha. E ler Agustina: “A Ronda da Noite”. É o que vou continuar a fazer quando me deitar agora. “As Mãos Desaparecidas”, do meu predilecto Robert Wilson (quem não leu: “O Último Acto em Lisboa”, “A Companhia de Estranhos” ou “O Cego de Sevilha” não conhece um dos grandes romancista actuais, que ainda por cima vive em Portugal) ficará à espera das noites de Seia, durante o Festival.

(um dia destes ilustro o post com capas de livros – hoje vou ler Agustina, boa noite!)

terça-feira, outubro 17, 2006

EXPOSIÇÂO EM LISBOA: AMOR-TE (2)

Adenda sobre
a serenidade da morte:



A verdade é que esta exposição não se descola de nós. Tenho os olhos de muitos dos fotografados a acompanharem-me durante os dias que passam. Os olhos semi-abertos dos semi-vivos, os olhos fechados dos mortos. Uma questão continua a intrigar-me: a serenidade na morte. Que serenidade, se todas as fotos da morte são encenadas? O que vemos não são retratos do momento da morte, mas “encenações” da morte. Não se vislumbra um olhar vítreo, uma expressão de dor, um corpo em estertor, a agonia. O que se vê são os olhos generosamente fechados. Por familiares, por enfermeiros, por técnicos de tanatoestética. O horror da morte vai dando lugar à tal serenidade programada. Fecham-se os olhos, alinda-se a face, arruma-se o corpo e veste-se, tira-se o branco da face (a morte é branca, dizem, logo dá-se uma corzinha para alindar), e se houver dinheiro para tal e interesse da família, o
tanatoesteticista não se poupa a esforços. Verniz nas unhas, rímel nas pestanas, uma tonalidade nas pálpebras, o cabelo bem arranjado, a insinuação de um sorriso. Esta imagem da morte que vemos, nos velórios e nas fotografias (não há uma foto de morto de olhos abertos na exposição), é uma imagem fabricada, para nos dar precisamente a noção de serenidade, para esconjurar o medo, para afastar o mais possível o confronto dos vivos com a realidade última da morte. Não há serenidade na morte. Pintam-nos essa serenidade no rosto, depois de mortos. Fotografam-nos essa placidez com a ternura do olhar do fotógrafo, que também ele teme enfrentar a morte. A morte pode ser uma libertação, mas nunca será serena. Quem “se apaga” “como um passarinho”, durante o sono, ou de uma outra forma qualquer, apaga-se serenamente? Eis uma questão a que ninguém conseguirá responder. Eis uma dúvida que ninguém gostaria de poder resolver.

Nota: no último domingo (15.10.2006), duas revistas de jornais diários, trazem artigos que se cruzam com a matéria aqui tratada. No “Noticias Magazine”, “Retratos, A Vida daqueles que ninguém vê.” (onde se fala por exemplo, de um tanatoesteticista), e na “Pública” uma entrevista Tsering Paldron (no B.I., Emília Marques Rosa), monja budista, que fundou a associação Amara, de apoio a doentes terminais, entidade que está na base desta exposição em Portugal. Leitura interessante.
o texto anterior começava aqui


Heiner Schmitz
52 anos
Nascido a 26 de Novembro de 1951
Primeira fotografia efectuada a 19 de Novembro de 2003
Falecido a 14 de Dezembro de 2003
Hamburgo Leuchtfeuer Hospiz

Heiner Schmitz viu a mancha na tomografia do seu cérebro. Compreendeu imediatamente que não lhe restava muito mais tempo. Schmitz é um comunicador nato, de expressão fácil e raciocínio imediato,não sem profundidade. Trabalha em publicidade. Nessa área, em circunstâncias normais, está sempre toda a gente bem disposta. Os amigos de Heiner não querem que ele esteja triste, querem distraí-lo. No hospital põem-se a ver futebol com ele, como sempre. Cerveja, cigarros, uma festa no quarto. As miúdas da agência trazem-lhe flores. Muitos aparecem acompanhados, para evitarem ficar sozinhos com ele. Sobre o que é que se conversa com um condenado à morte? Há quem lhe deseje as melhoras ao despedir-se. “Vê lá se te pões fino, pá!”. “Ninguém me pergunta como é que me sinto”, diz Heiner Schmitz. “Estão todos borrados de medo. Aquelas conversas embaraçosas sobre isto e aquilo. Eh, ainda não toparam? Eu vou morrer! É esse o meu único pensamento em cada minuto que me encontro sozinho”.
Foto e texto da exposição - um caso

domingo, outubro 15, 2006

MÚSICA: Nuda



MUSICA NUDA



Não há ninguém mais de amores à primeira vista, de paixões assolapadas do que eu. “Coup de foudre”, autêntico. Ouvi duas canções e fiquei conquistado. Amanhã vou percorrer as discotecas. Já vi na Amazon que o DVD não há de momento. Esgotado no editor. Há dois CDs. Vou tentar em Lisboa, se não mando vir. Expresso. Chamam-se Petra Magoni e Ferruccio Spinetti formam “Musica Nuda”. Descobri num blog de bom gosto. Lá encontram alguma informação e duas canções “apaixonantes”, e promessas de mais. De resto podem ir ler a entrevista anunciada e saber tudo o mais na net. Mas, sobretudo, deliciem-se com a mistura de voz e contrabaixo. Um espanto. Discreto.