domingo, outubro 15, 2006

EXPOSIÇÃO EM LISBOA: AMOR-TE (1)



AMOR-TE










“Amor-te” é uma exposição inquietante, sobretudo numa sociedade que não sabe confrontar-se com a morte. Dizemos nós da nossa, cristã ocidental. Mas quem sabe confrontar-se com a morte? Haverá alguém, por mais preparado que pense estar, que no momento decisivo não vacile, não se interrogue, não tenha medo? No momento decisivo, ou algum tempo antes, ou muito antes do momento decisivo, apenas quando as inquietações se acentuam, com o avolumar da idade ou o andar da doença? Quem ficará impune perante a presença do velho esqueleto encapuzado que traz na mão a foice?
Pois bem um fotógrafo alemão, Walter Schels, e a sua mulher, a jornalista Beate Lakotta, do “Der Spiegel”, têm 30 anos de diferença de idade. E o fotógrafo pensou: “o que farás quando eu morrer? Como será quando morreres?” Como não podiam saber por experiência própria (ninguém voltou ainda para contar como era, e não consta que tão cedo tal aconteça), foram procurar doentes terminais e seguiram os seus percursos por hospitais e tratamentos, até à morte. Os doentes sabiam que iam morrer em breve, e tudo leva a crer que autorizaram esta invasão de privacidade. Estávamos no ano de 2003. Depois disso a exposição foi inaugurada em Dresden, e passou por várias cidades europeias, nomeadamente Berlim, Basileia e Roma, onde foi vista por mais de 200 mil pessoas.
O que vemos são 21 imagens duplas de um mesmo rosto: primeiro, durante a doença, com a vida ainda presente, apesar do sopro estar já desgastado, a dor e o sofrimento se terem instalado, e depois, o rosto da morte. A conclusão imediata a extrair é que antes se nota a inquietação e o sofrimento, depois a uma serena paz. Não me parece. O que se vê é primeiro a presença e depois a ausência, e quando não há presença da vida não há nada neste corpo que espera regressar à terra donde veio. Logo qualquer tipo de aparente serenidade quando não há capacidade de decisão, não há escolha, é uma serenidade de pedra. Não estão em causa questões de fé. A fé passa ao lado das fotos, pressente-se nalguns dos comentários que a jornalista Lakotta acrescenta, testemunhando cada “estória” pessoal (“Uns desejam a morte como fim do sofrimento. Outros sentem-se revoltados com o que lhes aconteceu”), mas não está nunca presente, quer se trate de um velho que espera a morte por cancro, ou de uma criança ou de um bebé precocemente levados pela doença. A única excepção das 21 fotos duplas é uma trilogia dramática: uma criança ainda viva, já morta, e o retrato da mãe que a seguiu alguns dias depois da morte da filha. O drama em estado puro, o “voeyrismo” na morte, sem que o termo aqui acuse qualquer valorização moralista. Toda a arte do espectáculo é voeyrista quer se queira quer não. Fotógrafos e cineastas nada mais fazem do que olhar e tirar prazer desse olhar, mesmo quando é horror o que se vêem. O prazer advém então da possibilidade de transmitir o horror, e, na melhor das hipóteses, de através da imagem captada se tentar anular, ou atenuar, o horror futuro. Neste caso, a fotografia alerta para o convívio com a morte, mas em lugar de preparar para a morte (bom princípio, mas de resultados duvidosos), deve preparar para enfrentar, o melhor possível, os últimos dias de vida. Com ou sem doença. Por isso esta exposição que marca definitivamente quem a vê, se encontra incluída numa semana relacionada com “os cuidados paliativos.” A conjugação das palavras Amor e Morte não me parece ir num sentido necrófilo, mas no sentido de, perante a morte, se amar cada vez mais a vida.

“Amor-te” está aberta de 3 a 28 de Outubro, todos os dias, também domingos, das 10 às 18 horas, no Museu da Água, Mãe d'Água das Amoreiras, Lisboa.
Quem quiser pode e deve visitar o site da exposição em:
http://www.exposicaoamor-te.blogspot.com/
se quiser, este texto continua aqui

4 comentários:

xilla disse...

Ainda não fui ver mas estou com muita curiosidade , talvez no proximo fim de semana ja possa dizer o que senti ao visitar a exposição:)

inominável disse...

Lindo comentário sobre um tema inquietante... por que a morte é isso: inquietante. E imperdoável.

Mendes Ferreira disse...

arrasador tocante surreal

REAL!!!!!!!!!!!!





beijo.

nelson d'aires disse...

"Fotógrafos e cineastas nada mais fazem do que olhar e tirar prazer desse olhar, mesmo quando é horror o que se vêem."

e esta é uma verdade, sim.
sendo depois o ciclo completo com as muitas (milhares) visitas em lazer de pessoas anónimas às exposições (filmes ou peças de teatro).