quarta-feira, janeiro 05, 2011

CINEMA: O CONCERTO

:

 O CONCERTO


“O Concerto” é mais um daqueles filmes de uma cinematografia minoritária que, todavia, engata junto do público desde o dia da sua estreia e vai por aí fora. “Cinema Paraíso”, “O Carteiro de Pablo Neruda”, “Adeus, Lenine”, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, etc. Normalmente são filmes que apelam ao sentimento, que lutam por causas nobres, que são bem dirigidos e interpretados, que sendo filmes de autor são simultaneamente obras de grande público. Podem sair-se bem ou não, mas nestes casos resultam em cheio. Maionese bem batida, já o afirmei por diversas vezes.
Radu Mihaileanu, o director, é romeno por nascimento (Bucareste, 23 de Abril de 1958), mas francês por formação. Fugido da ditadura de Ceauşescu, passou por Israel (é judeu), e fixou-se em Paris desde os vinte e poucos anos, onde estudou cinema no IDHEC, foi assistente de Marco Ferreri, e se estreou no cinema com uma curta, “Les Quatre Saisons” (1980), a que se seguiram diversas longas: “Shuroo” (1990), “Trahir”, (1993), “Bonjour Antoine” (telefilme, 1997), “Train de vie” (1998), “Les Pygmées de Carlo” (telefilme, 2002), “Vai e Vive” (Va, vis et deviens, 2005), “Opération Moïse” (documentário, 2007); e finalmente “O Concerto” (Le Concert, 2009). Prepara entretanto “La Source des Femmes”, para estrear em 2011.
“O Concerto” confirma qualidades anteriormente entrevistas (em Portugal dele só se viu “Vai e Vive”) e aponta um curioso caminho para o cineasta: uma nostálgica viagem ao passado, aos tempos de Brejnev na URSS, e um ajuste de contas com essa recordação, mas eivado de um tom de comédia romântica por um lado, satírica por outro.
O filme arranca na actualidade, mas entronca nos anos 80, na URSS governada por Brejnev. Nessa altura, Andreï Filipov era o maior maestro da URSS, dirigindo a célebre Orquestra do Teatro Bolshoï. Um dia, porém, recusa-se a despedir os seus músicos judeus, como havia ordenado o Partido, e entre os quais se contava o seu amigo Sacha, e foi afastado da direcção do Bolschoi. Trinta anos mais tarde, continua no mesmo teatro, agora como empregado de limpeza, mas sempre apaixonado pela música. Uma noite, quando Filipov fica a trabalhar até mais tarde, surpreende a chegada de um fax, endereçado à direcção do Teatro, com um convite do Teatro de Châtelet de Paris para que a Orquestra de Bolshoï ali vá tocar. É então que Filipov tem uma ideia brilhante: e se reunisse os seus antigos companheiros, que hoje em dia sobrevivem (os que sobreviveram) em pequenos trabalhos, e fosse com eles até Paris, fazendo-se passar pela actual orquestra do Bolchoï? A proposta é de difícil execução, mas em cinema não há impossíveis, basta os argumentistas quererem e a obra nasce.
Assim aconteceu “O Concerto” que, não sendo uma obra-prima, satisfaz plenamente o público que fez dele um sucesso estrondoso a nível mundial. A comédia nunca é burlesca, o sorriso impera, terno e discreto; a crítica aos maus costumes da URSS nunca é virulenta, mas o bastante para fazer a distinção entre os bons perseguidos e os maus perseguidores; o lado sentimental nunca é explorado até à náusea, antes se fica pela emoção contida; o todo é sabiamente manuseado, não é particularmente excitante, mas nunca incomoda. Há sensibilidade e inteligência, apontamentos críticos divertidos (os músicos repescados estão mais interessados em conhecer Paris e fazer negócio do que tocar no famoso Châtelet, onde não ensaiam, e chegam atrasados para o concerto) e uma interpretação escorreita: Alexei Guskov defende bem o papel de maestro, e Mélanie Laurent (que já conhecia de “Sacanas sem Lei”) merece referência especial, tanto pela beleza, que é radiosa, como pela forma como aguenta a música de Tchaikovsky, no “concerto para violino e orquestra em ré menor” final, momento alto do filme.

O CONCERTO
Título original: Le Concert
Realização: Radu Mihaileanu (França, Itália, Roménia, Bélgica, Rússia, 2009); Argumento: Radu Mihaileanu, Matthew Robbins, Alain-Michel Blanc, Héctor Cabello Reyes, Thierry Degrandi; Produção: Alain Attal, Valerio De Paolis, André Logie, Bogdan Moncea, Vlad Paunescu; Música: Armand Amar; Fotografia (cor): Laurent Dailland; Montagem: Ludo Troch; Casting: Gigi Akoka, Hervé Jakubowicz; Design de produção: Christian Niculescu, Stanislas Reydellet; Direcção artística: Vlad Roseanu; Decoração: Gina Stancu; Guarda-roupa: Viorica Petrovici, Maira Ramedhan Lévy; Maquilhagem: Daniela Busoiu, Michèle Constantinides, Catherine Crassac, Bernard Floch, Adelina Popa; Direcção de Produção: Xavier Amblard, Nicolas Mouchet, Grégory Valais, Elena Valeanu; Assistentes de realização: Vasile Albinet, Hany El-Sayed, Julie Grumbach, Olivier Jacquet, Ovi Morariu, Michaël Pierrard; Som: Pierre Excoffier; Efeitos visuais: Benjamin Ageorges, Stephane Bidault; Companhias de produção: Oï Oï Oï Productions, Les Productions du Trésor, France 3 Cinéma, Europa Corp., Castel Film Romania, Panache Productions, Radio Télévision Belge Francophone, BIM Distribuzione, Canal+, CinéCinéma, France 3 (FR 3), Eurimages, Région Ile-de-France, Belgacom TV, Tax Shelter ING Invest de Tax Shelter Productions, Le Fonds d'Action de la Sacem, Wild Bunch; Intérpretes: Aleksey Guskov (Andrey Simonovich Filipov), Dimitri Nazarov (Aleksandr 'Sasha' Abramovich Grosman), Mélanie Laurent (Anne-Marie Jacquet / Lea), François Berléand (Olivier Morne Duplessis), Miou-Miou (Guylène de La Rivière), Valeriy Barinov (Ivan Gavrilov), Lionel Abelanski (Jean-Paul Carrère), Laurent Bateau (Bertrand), Vlad Ivanov (Pyotr Tretyakin), Anna Kamenkova (Irina Filipova), Roger Dumas, Anghel Gheorghe, Aleksandr Komissarov, Vitalie Bichir, Despina Stanescu, Guillaume Gallienne, Valentin Teodosiu, Ion Sapdaru, Ramzy Bedia, etc. Duração: 90 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 6 anos; Estreia em Portugal: 25 de Novembro de 2010. 

terça-feira, janeiro 04, 2011

"MANHÃ SUBMERSA" EM SEIA

:



AUDITÓRIO DA CASA MUNICIPAL DA CULTURA

CINEMA ESPECIAL

Dia 27 de Janeiro de 2011 | Quinta-Feira21:30H
“MANHÃ SUBMERSA”
Esta exibição, assinala os 30 anos do filme de Lauro António

Adaptação do romance de Virgílio Ferreira, Manhã Submersa descreve o despertar para a vida de uma criança, passado entre a austeridade da casa senhorial de D. Estefânia (uma fabulosa Eunice Muñoz), a neve, a sensualidade da sua aldeia natal (Linhares, na serra da Estrela) e o silêncio das paredes do seminário.
Uma obra poderosa, oscilando entre a luz e as sombras, por entre as quais um jovem de doze anos parte à descoberta de si próprio e do mundo que o rodeia: a repressão na educação, a pobreza da sua terra, as desigualdades sociais, o desejo do seu corpo em formação, a amizade e o amor.

Realizador: Lauro António; Intérpretes: Eunice Muñoz, Vergílio Ferreira, Canto e Castro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Adelaide João, Alexandra Prado Coelho, José Camacho Costa, Manuel Cavaco, etc. Género: ficção / drama; Classificação: M/ 12 anos; Duração: 131 minutos 

Entrada Livre

segunda-feira, janeiro 03, 2011

CINEMA: O MÁGICO

:
O MÁGICO, 
 UMA NOSTÁLGIA SERÔDIA 
Final da década de 50 em França: um ilusionista de teatro e cabaret começa a ter algumas dificuldades em assegurar o posto de trabalho. Os tempos mudam, o público prefere os cabelos compridos de Juliette Greco ou, mais a norte, na Grã-Bretanha, os sons do rock e da irrequietude dos Baetles, aos magos que retiram coelhos brancos das cartolas. Nem os incondicionais da ópera o compreendem. O mágico vai andando de cidade em cidade e de fiasco em fiasco, apesar de, na Escócia, num pequeno pub de uma cidadezinha da província, tocar o coração de Alice, a jovem empregada que faz as limpezas e arruma os quartos. Quanto ele parte para Edimburgo, ela persegue-o. Coabitam num quarto de pensão, mas as dificuldades aumentam, o mágico tenta outros empregos, sem se fixar em nenhum. Compra vestidos a Alice, mas não lhe toca, olha-a de longe. Dir-se-ia um delicado e sensível cavalheiro a quem o mundo trocou as voltas e o fez viver num universo que já não é o seu. História de nostalgia e tristeza. Não é só o mágico que perde o comboio do tempo, apesar de muito andar de comboio. Ventríloquos, palhaços ou malabaristas estão no mesmo comboio, uns suicidam-se, outros acabam a pedir esmola pelas esquinas da vida. Triste. Sim, muito triste.
Sylvain Chomet, o mesmo que nos dera "Belleville Rendez-vous", o mesmo que não abandona a animação clássica, e que não adere ao digital (ainda que aqui e ali se sinta a cumplicidade disfarçada), foi buscar ao espólio de Jacques Tati um argumento que este nunca havia rodado, “L'illusionniste”, e transforma-o em animação com a intenção óbvia de ser ao mesmo tempo uma homenagem ao fabuloso cineasta que nos deu meia dúzia de obras-primas que para sempre ficarão na nossa memória (e mais forte ainda, no nosso coração): “Há Festa na Aldeia”, “As Férias do Senhor Hulot”, “O Meu Tio”, “Vida Moderna”, “Sim, Senhor Hulot” ou “Parade”. Jacques Tati era francês, mas de ascendência russa, o seu verdadeiro nome era Jacques Tatischeff. Sylvain Chomet constrói uma belíssima personagem que se chama precisamente Tatischeff, e que tem a aparência da mais célebre criação de Tati, o senhor Hulot. Por vezes chegamos a ter a sensação de que Hulot voltou, está ali à nossa frente e a homenagem é bonita.
Como muito bonita é a animação desta obra de cores nostálgicas e suaves, que nos restitui um pouco do universo de Tati. Mas aqui entronca então a questão essencial. O espírito deste “O Mágico” tem algo a ver com Tati, mas deturpa-o escandalosamente. Tati era crítico e mordaz, mas era terno e sensível. A mudança de tom não seria algo de profundamente errado, pois o realizador é outro, e imprime-lhe o seu próprio pensamento e sentir. Acontece que estes pensamento e sentir é que são, no mínimo, muito discutíveis.
O que ressalta desta obra? Que a marcha do tempo é inexorável e que há quem vá ficando pelo caminho, mesmo que de forma injusta? Essa seria talvez a visão equilibrada do problema, mas “O Mágico” opta por uma outra vereda: o mágico assume-se como o homem certo no lugar errado, rodeado de burgessos sem alma, todos vendidos ao dinheiro, à facilidade, à “monstruosidade” grotesca que são Greco, Beatles, Montserrat Caballé e etc., todos eles apresentados de forma caricatural, bem como o seu público. Depois há os patrões sem coração. O garagista que o despede por incompetente ou o dono da loja que o põe a fazer publicidade a produtos na montra do seu estabelecimento. Sylvain Chomet despreza o primeiro, não se percebendo bem porquê, dado que Tatischeff pode ser um bom mágico, mas revela-se um incompetente técnico, e mostra a indignidade dos segundos que colocam a arte ao serviço da venda dos produtos (o que também não é muito coerente com a sua própria actividade de animador que assinou diversas obras de publicidade, nomeadamente para a Renault, Swissair, Swinton, entre outras).
O fim de um tempo é sempre traumático para as suas vítimas, e pode ser um momento excelente para olhar para trás e elogiar esses homens e mulheres engolidos pela mudança. Sobre um tema semelhante, há um filme magnífico de Tony Richardson, "The Entertainer" (1960), que nos fala de um actor de vaudeville que vê a sua arte ser ultrapassada, ou uma outra obra de dolorosa nostalgia, “The Dresser” (1983), de Peter Yates, igualmente sobre um actor em fim de carreira.
Mesmo no plano emocional, Sylvain Chomet se mostra injusto para a personagem Alice (a que gosta de passar para o outro lado do espelho, atrás de um coelho branco que aqui sai da cartola de Tatischeff), quando a acusa de ser interesseira, aproveitando-se da bondade do mágico, mas trocando-o pelo primeiro duplo de Jack Palance que lhe aparece na janela da frente. Mas que se poderia esperar daquela relação compartimentada entre sala e quarto senão um tal desfecho?
Por estes motivos todos parece-me que com “L'illusionniste” se perdeu um bom momento para o elogio da animação tradicional, que pode e deve coabitar com as novas tecnologias. Não com este arzinho enraivecido que Sylvain Chomet destila, pessimista, derrotista, serôdio. Mas mostrando que sempre há e sempre houve lugar para todos. “Toys Story” pode muito bem conviver com "Belleville Rendez-vous".
No final, Tatischeff parte de comboio, depois de deixar um bilhete a dizer a “Alice” que a magia não existe. O que Alice não deve compreender muito bem, numa altura em que encontrou o seu “príncipe encantado”. Mas Tatischeff parece ter finalmente aprendido a lição. No comboio, uma miúda deixa cair um pequeno lápis com que desenha. Tatischeff encontra-o e compara-o com o seu: o da criança está gasto, e seu está novo. Por um gesto de prestidigitação vai trocá-los? Não, apenas fazer o que é justo: dar à miúda o lápis dela. Tatischeff perdeu a magia. Outros a encontrarão. Acho muito irritante aqueles que julgam ter a verdade consigo, e que todos os outros estão errados. “O Mágico” entra abertamente por esses caminhos e o que de bom e muito bom há no filme acaba por sucumbir a este espírito que roça o mesquinho.

O MÁGICO
Título original: L'illusionniste ou The Illusionist
Realização: Sylvain Chomet (França, Inglaterra, 2010) ; Argumento: Sylvain Chomet, segundo argumento original de Jacques Tati; Produção: Philippe Carcassonne, Sally Chomet, Jake Eberts, Jinko Gotoh, Bob Last; Música: Sylvain Chomet; Direcção artística: Bjarne Hansen; Direcção de Produção: Fiona Hall, Michael Solinger, Pierre Tissot; Assistentes de realização: Paul Dutton; Departamento de arte: Pierre-Henri Laporterie, Emma McCann, Rhiannon Tate, Evgeni Tomov; Som: Carl Goetgheluck; Efeitos visuais: Jean Pierre Bouchet; Animação: Paul Dutton, Victor Ens, Toby Schwarz, Mike Swofford, Yann Tremblay; Companhias de produção: Django Films Illusionist, Ciné B, France 3 Cinéma, Canal+, CinéCinéma, France 3; Intérpretes (vozes): Jean-Claude Donda (Tatischeff, o mágico), Eilidh Rankin (Alice), Duncan MacNeil, Raymond Mearns, James T. Muir, Tom Urie, Paul Bandey, etc. Duração: 80 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 23 de Dezembro de 2010. 

quinta-feira, dezembro 30, 2010

UM ÓPTIMO 2011!

:
DESEJOS DE UM ÓPTIMO 2011
Calculo que seja mais fácil retirar um coelho de uma cartola,
do que fazer de 2011 um óptimo ano.
Mas vale a pena sempre desejar e tentar.
(Imagem do filme "O Mágico", de Sylvain Chomet)

segunda-feira, dezembro 27, 2010

CINEMA: INSIDE JOB

:
INSIDE JOB - A VERDADE DA CRISE
 
De há muitas décadas a esta parte que, ao longo da história do cinema,  se vai exercitando um sub-género que goza de grandes simpatias entre os espectadores de obras de acção: os filmes de assaltos a bancos. É uma categoria de um género mais vasto, o filme de assalto, conhecido em inglês por “heist film”. Quase sempre acabam mal para os assaltantes, mas o público acompanha com sofreguidão o seu desenrolar, na esperança de que “seja desta” que se sinta vingado, e que os assaltantes levem a melhor sobre a instituição. Mas ultimamente, o “heist film” parece criar uma nova categoria, o filme de assalto do banco. Sim, isso mesmo: o assalto é levado a cabo pelo próprio banco e as vítimas são obviamente os seus clientes e a população em geral.
Esta é uma prática há muito radicada na realidade, mas que só agora tem conseguido furar o bloqueio e aparecer nas telas. Uma vez por outra vimos obras onde pequenos agiotas bancários faziam umas trapaças e eram por elas vagamente punidos, mas agora chegámos à fraude a nível global. Já tinha havido um ensaio em grande estilo, em finais dos anos 20, nos EUA, com o “crash de 1929” e a crise financeira, económica, política e social que se prolongou por décadas, agora tivemos um replay actualizado, que se iniciou em 2008 e vai durar seguramente décadas também.
“Inside Job – A Verdade da Crise, é um trabalho investigado, escrito, produzido e realizado por um norte-americano, Charles Ferguson, que está longe de se poder considerar um comunista ou um terrorista primário, daqueles que fazem filmes enrolados em granadas ou carregados de bombas dos pés à cabeça. No entanto, o seu filme é um trabalho de minúcia e precisão, que explode frente aos olhos dos espectadores a cada nova exibição.
Com uma investigação de dados e de testemunhos impressionante, com clareza e eficácia de analise e de exposição, servindo-se de entrevistas e gráficos, de documentos e imagens de arquivo, Charles Ferguson mostra-nos o que aconteceu a nível da economia global para se dar a crise que começamos a atravessar desde 2008. Tudo se passou a nível dos grandes centros financeiros de Wall Street, com a conivência de muitos outros centros financeiros por todo o mundo, movidos pela ganância de os milionários quererem ser mais milionários, não olhando a meios para o conseguir. Com a entrada em cena do cowboy Reagan na presidência dos EUA, em plena década de 80, o capitalismo desenfreou-se numa corrida ao lucro fácil com as economias dos outros.
Desde 1929, e durante algumas décadas, inicialmente por imposição da administração Roosevelt, a actividade bancária foi estando mais ou menos condicionada, não se permitindo operações de grande risco, para não pôr em causa a solvência das instituições, logo o capital dos seus depositantes. Mas, depois de Reagan, o regabofe recomeçou, e a “economia de casino” expandiu-se, agora apoiada em casinos virtuais, com a maioria das acções a ser efectuada via internet, ao mesmo tempo que aumentava a bolha imobiliária, e se estimulavam os sonhos dos americanos médios (a quem vendiam a crédito casas que sabiam que eles não poderiam jamais pagar).
Com uma habilidosa e ardilosa engenharia financeira, de venda e revenda de empréstimos, que iam deixando cair pelo caminho apetecíveis percentagens com que se foram abotoando os tubarões do costume, o gráfico da insanidade financeira foi engrossando entre 2006 e 2008, até explodir: bancos falidos, companhias de seguros descapitalizadas, indústria em crise, desemprego a subir em flecha, George W. Bush de olhar vítreo a sair de cena, e milhões e milhões de cidadãos que nada fizeram para sofrer esta crise, viram-se, de um dia para o outro, sem poupanças, sem casas, sem futuro. Mas os administradores dos bancos e das companhias de seguros, as agências de rating e os professores universitários de economia, que foram e são conselheiros de bancos e do governo, esses continuaram a embolsar chorudas recompensas pelo trabalho feito. Finalmente, na história do cinema, o “roubo perfeito”. Acontece que “Inside Job” não é ficção, é a realidade retratada em documentário, que apela à inteligência do espectador e dói de ver.
Este terá sido um dos piores crimes da história do mundo. Sem culpados, apesar de todos lhes conhecermos os nomes. Estas operações criminosas eram avalisadas pelas tais agências de rating, que colocavam AAA em operações da mais pura falcatrua, com professores universitários a venderem opiniões positivas, com banqueiros conluiados, e com os papalvos do costume a entrar com as poupanças. Enquanto milhões sofrem na pele a desgraça que não provocaram, vivem em barracas depois de terem sido despejados das suas casas, enquanto outros pagam impostos exorbitantes e são despedidos dos empregos, estes nababos da trafulhice financeira multiplicam casas sumptuosas, engrossam contas em paraísos fiscais, snifam cocaína, coleccionam jactos e iates privados, e brincam com prostitutas de luxo, tudo pago com cartão do banco e em nome do interesse da empresa que tão bem administram.
O filme organiza-se em quatro tempos, ou capítulos, que procuram responder a algumas perguntas: Como foi possível chegar-se a esta crise infame? Onde se encontram as raízes deste descalabro? Quem são os culpados? Que foi feito ou que há a fazer para debelar a crise?
A narração é do actor Matt Damon e oferece-nos uma visão dantesca deste novo inferno. O realizador Charles Ferguson tem formação em Matemáticas, sendo doutorado em Ciências Políticas. No cinema, estreou-se em 2007, com um documentário sobre a guerra do Iraque, “No End in Sight”. O seu inquérito é sóbrio e rigoroso, não tem paralelo com os trabalhos de Michael Moore, estes muito mais de “agit prop”. Ferguson questiona quem tem a questionar, uns aceitam responder, outros recusam o depoimento, um anuncia que só concede mais três minutos, dois ou três gaguejam sem palavras, e há mesmo um que pede para desligarem a câmara. Arrependimento ou vergonha é coisa que não existe. Um alto dignitário deste (i)mundo financeiro chega mesmo a declarar que a culpa é do governo que não controla: “Nós somos gananciosos, não podemos deixar de o ser. O governo é que tem de nos controlar.”
Uma espiral de acrobacias que nos leva a um final surpreendente. Porque é que um engenheiro financeiro ganha quarenta vezes mais do que um engenheiro civil?, pergunta um dos entrevistados, que acrescenta: “Um engenheiro civil constrói pontes. Um engenheiro financeiro oferece-nos sonhos.”
Num mundo virtual, estes “sonhos” são afinal a essência do nada. Por que se paga muito dinheiro para se chegar à extrema penúria. Vendem-nos, portanto, uma mão cheia de nada, enriquecem com as nossas economias em jogos de monopólio cujas regras só eles conhecem, e quando explodem são as nossas cabeças que rolam. Ganância. Curioso jogo este.
É obvio que a revolta cresce ao ver um filme como este. À saída não há dúvidas: há que alterar este estado de coisas. Uma revolução sangrenta? Já se sabe o resultado: mudam os gananciosos e fica tudo na mesma ou pior ainda (em qualquer ditadura revolucionária nem este filme vinha à luz do dia). Mas criar uma zona de independência total entre a esfera política e a financeira é absolutamente indispensável, impondo-se a esta um controle absoluto. Para nosso grande desgosto, a administração Obama pouco tem feito, apesar de ter feito alguma coisa. Mas muitos dos responsáveis pelo colapso de 2008 estão agora como colaboradores da Casa Branca. “Inside Job”.

Nota: Devia ser obrigatório todo o cidadão ver este filme, mas mais ainda os nossos governantes, desde o PR ao PM, passando por todos os Ms, mais deputados e partidos de todas as cores. Comentadores políticos incluídos. Os banqueiros não vale a pena incomodarem-se. Talvez os bancários. Quem sabe? Talvez seja deles o reino dos céus.
INSIDE JOB - A VERDADE DA CRISE
Título original: Inside Job
Realização: Charles Ferguson (EUA, 2010); Argumento: Chad Beck, Adam Bolt; Investigação: Carola Mamberto, Kalyanee Mam, Christopher Murphy, Rosemary Rotondi; Produção: Charles Ferguson, Jeffrey Lurie, Kalyanee Mam, Audrey Marrs, Anna Moot-Levin, Christina Weiss Lurie; Música: Alex Heffes; Fotografia (cor): Svetlana Cvetko, Kalyanee Mam; Montagem: Chad Beck, Adam Bolt; Decoração: Mariko Marrs; Som: Rich Bologna; Efeitos visuais: Jonathan Gershon; Companhias de produção: Representational Pictures, Sony Pictures Classics; Intérpretes: Matt Damon (narração); Duração: 120 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia TriStar Warner Filmes de Portugal; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 11 de Novembro de 2010.  

CINEMA: OS MELHORES DE 2010

:

Os melhores filmes estreados em 2010
(por ordem de estreia no nosso país)

- “O Laço Branco” (Das Weisse Band), de Michael Haneke (Alemanha, Áustria)
- “Tudo Pode Dar Certo” (Whatever Works), de Woody Allen (EUA)
- “Um Homem Singular” (A Single Man), de Tom Ford (EUA)
- “Shutter Island”, de Martin Scorsese (EUA)
- “As Ervas Daninhas” (Les Herbes Folles), de Alain Resnais (França)
- “Eu Sou o Amor” (Io Sono l'Amore), de Luca Guadagnino (Itália)
- “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella (Argentina)
- “Meu Filho, Olha o que Fizeste!”, de Werner Herzog (EUA)
- “O Escritor Fantasma” (The Ghost Writer), de Roman Polanski (Inglaterra)
- “A Origem” (Inception), de Christopher Nolan (EUA)
- “Irene”, de Alain Cavalier (França)
- “Mistérios de Lisboa”, de Raul Ruiz (Portugal, França)
- “A Rede Social” (The Social Network), de David Fincher (EUA)
- “Inside Job - A Verdade da Crise”, de Charles Ferguson (EUA)
 
O mais importante filme estreado em Portugal em 2010:
- “Inside Job - A Verdade da Crise”, de Charles Ferguson (EUA)
O melhor filme do ano:
- “A Rede Social” (The Social Network), de David Fincher (EUA)

segunda-feira, dezembro 20, 2010

CINEMA: JOGO LIMPO

:

 JOGO LIMPO

"Fair Game" volta a abordar o tema das armas de destruição maciça que supostamente existiriam no Iraque e que motivaram a invasão deste país do Médio Oriente pela administração de George W. Bush em 2003. O argumento baseia-se em factos e personagens reais, e em duas obras, ambas escritas pelos próprios protagonistas, Valerie Plame, a agente da CIA, e o seu marido, Joseph Wilson, senador e diplomata norte-americano. “Fair Game" e "The Politics of Truth" o que contam e discutem são acontecimentos hoje em dia do domínio público: teria o Iraque de Saddam Hussein verdadeiramente armas de destruição maciça? A CIA sabia se existiam ou não essas armas? O que era realmente do conhecimento da Casa Branca e do governo de George W. Bush? Dizia-se que a Nigéria tinha vendido ao Iraque urânio enriquecido? Era verdade? Joe Wilson foi convidado pela CIA a informar-se sobre a verdade ou mentira dessa informação, relatou-a à CIA, esta reportou à White House. Tudo indicava que a operação nunca se efectivara. Se assim foi, por que razão o governo dos EUA invadiu o Iraque?
Por isso, quando George W. Bush reafirmou a presença de armas de destruição maciça no Iraque como justificação para a invasão, Joe Wilson escreveu um artigo no “New York Times” relatando o que sabia de concreto, como observador no local, e que se opunha radicalmente à “verdade” revelada pela Casa Branca.
Pouco depois deste artigo, e para desacreditar o senador, é revelada a profissão da mulher de Joe Wilson, Valerie Plame, agente da CIA, num artigo do jornalista Robert Novak. A “encomenda” teve o seu impacto certo. Valerie foi afastada da CIA. Esta “inocente” denúncia provocou o caos na família de Joe e Valerie que, pela defesa das suas posições, foram insultados e agredidos, ostracizados por todas as formas e feitios. Os contactos de Valerie no Iraque foram igualmente dizimados, depois de deixados à sua sorte no terreno, quando antes lhes havia sido prometido apoio na sua retirada. 
Tanto Joe Wilson como Valerie não se calaram, defenderam-se, foram a programas de televisão, escreveram artigos, deram conferências de imprensa, foram às universidades, “pediram a palavra”. Acabaram por fazer triunfar a verdade (ou, pelo menos, contrariar as mentiras difundidas pelo poder estabelecido), repor a integridade das suas condutas e colocar a descoberto as hipocrisias e as golpadas governamentais. E a criminosa actividade desencadeada por uma guerra que tinha intuitos diversos daqueles por que era publicamente desencadeada.
Será apenas esta a intenção primeira de “Jogo Limpo”? Não me parece que seja tanto repisar um conjunto de factos já conhecidos de quase todo o cidadão mais ou menos informado (o artificialismo das causas que conduziram à guerra do Iraque), mas, sobretudo, mostrar como um cidadão se deve comportar numa sociedade democrática em que a sua palavra tem de ter peso e ser ouvida. Numa democracia não se aceitam as injustiças e as inverdades. Luta-se com as armas que essas democracias colocam nas mãos dos cidadãos. Muito na linha do cinema, algo ingénuo e edificante, de um Frank Capra (com filmes como “Uma Noite Aconteceu”, “Doido com Juízo”, “Não o Levarás Contigo”, “Peço a Palavra”, “Um João Ninguém”, “O Mundo é Um Manicómio” e “Do Céu Caiu uma Estrela”), nos anos 30 e 40, quando a América procurava recuperar do grande desastre de 1929 e da enorme depressão económica e social que sobre ela se abatera.
Numa época em Roosevelt tentou galvanizar os cidadãos norte-americanos para um combate colectivo e solidário, com o programa do “New Deal”, o cinema acompanhou essa luta em obras de Frank Capra, John Ford, Preston Sturges, William Wyller, e tantos outros. Parece ser esse o caminho, oitenta anos depois, de algum cinema norte-americano que tem sido estreado recentemente. Apontar erros, e mostrar como o cidadão se pode revoltar perante enganos e mentiras, injustiças e prepotências. Fazendo ainda por cima “Jogo Limpo”.
Doug Liman, que já assinara o primeiro capítulo da gesta de Jason Bourne, o agente secreto imortalizado por Matt Damon e criado pelo escritor Robert Ludlum, em “The Bourne Identity” (2002), a que se seguiram “Mr. & Mrs. Smith” (2005) e “Jumper” (2008), não parece ser um realizador particularmente inspirado. Eficaz em cenas de acção, escorreito a contar uma história, não trará novidades de maior à história do cinema, mas encarrega-se com dignidade das encomendas que recebe. "Fair Game" é exemplo disso, movimentadas sequências, um bom clima de “suspense” psicológico, uma narrativa que acompanha um intrincado inquérito. Um olhar critico sobre a política norte-americana, numa projecção reformista, aceitando que o sistema se pode e deve reformar a si próprio, ao corrigir as perversidades que a própria engrenagem permite, o que acaba por ser um sintomático voto de confiança nas virtudes da democracia representativa, mas onde o cidadão nunca deve perder a voz. Neste particular o filme é não só curioso, como sintomático de uma nova era na história dos EUA. Era Obama, obviamente. Também no cinema. Não deixa de ser invulgar ver um filme onde personalidades relevantes da política actual são nomeadas pelo próprio nome, sem tibiezas ou disfarces.
Tecnicamente escorreito, com interpretações seguras de Naomi Watts (Valerie Plame) e Sean Penn (Joe Wilson), e sequências de arquivo onde se colhem imagens bem seleccionadas do cinismo governamental (pela obra passam George W. Bush, Dick Cheney, Colin Powell, Condoleezza Rice, Bill Walters e a própria Valerie Plame), “Jogo Limpo” não terá o brilhantismo de “Os Homens do Presidente” ou de “Nixon”, mas é um bom testemunho que valerá a pena não desperdiçar.
 
JOGO LIMPO
Título original: Fair Game
Realização: Doug Liman (EUA, Emiratos Árabes Unidos, 2010); Argumento: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, segundo obras de Joseph Wilson ("The Politics of Truth") e Valerie Plame ("Fair Game"); Produção: Mohamed Khalaf Al-Mazrouei, Dave Bartis, Jez Butterworth, Gerry Robert Byrne, Kerry Foster, Sean Gesell, Akiva Goldsman, Anadil Hossain, Doug Liman, Bill Pohlad, David Sigal, Mari-Jo Winkler, Kim H. Winther, Janet Zucker, Jerry Zucker; Música: John Powell; Fotografia (cor): Doug Liman; Montagem: Christopher Tellefsen; Casting: Joseph Middleton; Design de produção: Jess Gonchor; Direcção artística: Kevin Bird; Decoração: Ibrahim Khorma, Sara Parks; Guarda-roupa: Cindy Evans; Maquilhagem: Amanda Miller; Direcção de Produção: David Bausch, Driss Benyaklef, Brian Buckland, Gerry Robert Byrne, Frank Hildebrand, Issam M. Husseini; Assistentes de realização: Yanal Kassay, Kim H. Winther; Departamento de arte: Kelly Solomon, Jae Pak; Som: Paul Urmson, Steven Visscher; Efeitos especiais: Ken Goodstein; Efeitos visuais: Joseph DiValerio, Christina Mitrotti; Companhias de produção: River Road Entertainment, Participant Media, Imagenation Abu Dhabi FZ, Zucker Productions, Weed Road Pictures, Hypnotic, Fair Game Productions; Intérpretes: Naomi Watts (Valerie Plame), Sean Penn (Joe Wilson), Noah Emmerich (Bill Johnson), Liraz Charhi (Dr. Zahraa), Nicholas Sadler, Sam Shepard (Sam Plame), Bruce McGill (Jim Pavitt), Sonya Davison, Vanessa Chong, Anand Tiwari (Hafiz), Michael Kelly (Jack), Ty Burrell, Stephanie Chai, Jessica Hecht, Norbert Leo Butz, Rebecca Rigg, Brooke Smith, Thomas McCarthy, Ashley Gerasimovich, Quinn Broggy, Iris Bahr, Ghazil, Kristoffer, Ryan Winters, Louis Ozawa Changchien, Sean Mahon, Mohamed Abdel Fatah, Rashmi Rao, David Andrews, David Denman, Remy Auberjonois, Tim Griffin, Sunil Malhotra, Kevin Makely, Mousa Al Satari, Khaled Nabawy, Rafat Basel, Maysa Abdel Sattar, Judith A. Resnik, Ben Mac Brown, Satya Bhabha, Nabil Koni, Mohammad Al Sawalqa, Jenny Maguire, David Warshofsky, Geoffrey Cantor, David Iklu, Deidre Goodwin, Donna Placido, Adam LeFevre, Brian McCormack, James Rutledge, Tricia Munford, Michael Goodwin,  Nasser,  Chet Grissom, James Joseph O'Neil, Danni Lang, Jane Lee, James Moye, Judy Maier, Polly Holliday, Kola Ogundiran, Byron Utley, Anastasia Barzee, Sanousi Sesay, Harry L. Seddon, e ainda em imagens de arquivo George W. Bush, Dick Cheney, Valerie Plame, Colin Powell, Condoleezza Rice, Bill Walters, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Zon-Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 1 de Dezembro de 2010.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

OS "FALSOS SPORTINGUISTAS"


UM SPORTING DESASTRADO
:

Gosto muito de futebol e sou sportinguista desde que me conheço. Sócio com emblema de 25 anos de fidelidade (tenho muitos mais anos, mas com intermitências). Já não vou ao estádio há vários anos. Desisti de ir depois de ver o comportamento abjecto de algumas claques. Sou “sportinguista” mas respeito os adversários. Não admito a ordinarice organizada. Um popular chamar "filho da puta" ao árbitro num momento de raiva, compreendo e até posso achar graça. Uma massa organizada a cantar em coro hinos de ódio e a praticar violências sem pejo, isso nunca. Com bandeiras a lembrar suásticas? Não, não contem comigo.
Quando o Sporting joga com o Porto, o Benfica, o Setúbal ou o Carcavelinhos, quero que jogue melhor e ganhe. Não me importo muito que jogue pior e ganhe. Não gosto é de perder, nem de ganhar com truques extra quatro linhas. E mesmo dentro das quatro linhas não gosto de árbitros que se “enganem” premeditadamente. Sou ferrenho, mas tenho “fair play”.
Este ano tenho-me abstido de comentar a péssima carreira do meu clube. Limito-me a não pagar as cotas há uns meses. É o meu protesto. Acho que se têm cometido asneiras a mais, mas enfim… Chegou, porém, a hora de explodir. Quando vejo um senhor chamado Maniche, que eu conheci como jogador do Benfica e do Porto, e que chegou em fim de carreira ao Sporting, dizer que há muitos “falsos sportinguistas” a dizerem mal do clube, não resisto mais. A seguir, logo no dia imediato, vejo um senhor chamado Costinha, a quem chamam “Ministro” não sei porquê (será uma ofensa, já que ninguém parece gostar de políticos neste país?), e que eu conheci como destacado centro campista do FCP, dizer a Sousa Cintra que se “deve meter na sua vida” e deixar de comentar questões do Sporting, aí chegou-me a mostarda ao nariz.
Eu sei que hoje em dia todos são “profissionais” e mudam de clube por dá cá aquele milhão de euros. Tudo bem, é assim a vida. Mas ver esses “profissionais” chegarem a um novo clube, que lhes paga bem, e confessarem que são “sportinguistas” desde o berço, é algo que não me cai bem. Não gosto de ver o Coentrão dizer que é “sportinguista” desde que se conhece e que ir para o Sporting é o sonho da sua vida, e depois ir para o Benfica, nem me soa muito bem ver o Maniche estar “agora no clube do seu coração”.
São “profissionais”? Então calem-se. Recebam o ordenado, joguem o melhor que possam a defender as cores do seu patrão, mas esqueçam o clubismo. Calem-se! Se se sentem mal com os “falsos sportinguistas”,  mudem de clube, vão embora, que não fazem falta nenhuma. Eu sei que o Sporting é um “ninho de vespas” (como acontece em todos os clubes), mas há as vespas sportinguistas e há as vespas que voam de colmeia em colmeia. As vespas sportinguistas até podem dizer muito disparate, mas quase sempre querem o melhor para o clube. As opiniões são livres e assim se devem manter. Mas lições de moral de “profissionais” da bola, não obrigado. Joguem, e calem-se. Os sportinguistas e os falsos sportinguistas pagam cotas, ou simplesmente sofrem com o clube, e não mudam de emblema, não se transferem, não recebem luvas, não fazem contratos milionários. Estão 18 anos sem ver a cor da taça de campeão, mas aguentam. Firmes. Protestam, criticam, dizem mal do presidente e do treinador, mas estão ali sempre, enquanto todos os outros vão mudando. Eles “são” o clube. Antigamente podia dizer-se que havia jogadores que “eram” o clube. Hoje não há. Antigamente, os dirigentes e os directores desportivos trabalhavam de borla e até metiam dinheiro do seu bolso no clube. “Eram” património do clube. Hoje são pagos. Pagos para trabalhar no que sabem (e ás vezes muito bem pagos para fazerem asneiras consecutivas). Os sócios não pagam a uns senhores para depois os ouvirem chamar-lhes “falsos sportinguistas”. Façam favor de ter um certo pudor e tento na língua.
Já agora, mais uma questão: o senhor “Ministro” Costinha afirma que o senhor Sousa Cintra deve estar calado, porque senão ainda torna pública uma papelada que tem em seu poder. Ora bem, isto é muito grave e não deve ficar por aqui: o senhor “Ministro” Costinha insinua que tem em seu poder algo de comprometedor sobre a gestão do senhor Sousa Cintra. Nesta altura do campeonato, o senhor “Ministro” Costinha só tem uma atitude a tomar: revelar o que sabe ou demitir-se. Esta insinuação é muito grave para o clube e os sócios têm obrigação de saber o que se passa.
Eu sei que, “nesta altura do campeonato”, os sócios são a última das preocupações das direcções e das SADs, muito mais interessadas em bancos e SMVM. Os sócios são o verbo-de-encher. Mas era bom que de vez em quando tivessem algum respeito por eles, como neste caso, e esclarecessem de vez esta questão.

terça-feira, dezembro 14, 2010

INVICTA FILMES: ENCERRAMENTO DO ANO

:
Os ciclos da Invicta Filmes, na Biblioteca Almeida Garrett, referentes a 2010, terminam na próxima quinta-feira, 16 de Dezembro, pelas 18, 30 horas, com um debate sobre a obra de Stanley Kubrick. Segue-se a exibição de "Kubrick, Uma Vida em Filmes".


Antes, pelas 18, 00 horas, no mesmo local, sessão de autógrafos do livro "Temas de Cinema, Griffith, Welles, Kubrick" (edição Dinalivro).  

segunda-feira, dezembro 13, 2010

EM QUE FICAMOS?


Em que ficamos? 
É esta uma boa forma de fazer jornalismo?
Sozinho e infeliz?
Juntos e felizes?
Duas revistas que sairam na mesma semana?

Cinema: CÓPIA CERTIFICADA

 :


CÓPIA CERTIFICADA
 Abbas Kiarostami é iraniano (nascido em Teerão, a 22 de Junho de 1940), estudou artes e iniciou uma carreira de realizador no início dos anos 70, começando sobretudo pelo documentarismo e a curta-metragem. Julgo que a primeira longa-metragem que dele conhecemos em Portugal foi “E a Vida Continua” (1992), a que se seguiram “Através das Oliveiras” (1994), “O Sabor da Cereja” (1997) e agora este “Cópia Certificada” (2010). Nas duas últimas décadas, tornou-se uma das figuras mais internacionais da cultura iraniana, cineasta premiado em vários festivais, autor de poemas e fotografias que mereceram exposições em diversos cantos do mundo. Vivendo no Irão, não abdica de alguma crítica sobre a política do seu país, tendo ainda este ano publicado uma carta aberta defendendo a libertação de dois realizadores iranianos (Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof), presos por delito de opinião.

“Cópia Certificada” mantém muitas das características do seu cinema realizado no Irão, de que “Através das Oliveiras” e “O Sabor da Cereja” são dois excelentes exemplos, mas embrenha-se por terrenos que não são os seus mais habituais. O seu estilo, delicado e contemplativo, de fina observação e de magnífica austeridade formal, onde a qualidade plástica por vezes assombra o espectador, é conservado com uma exigência invulgar, mas o facto de vir filmar para Itália, na belíssima Toscânia, com um actor britânico, William Shimell, barítono de ópera que aqui se estreia como intérprete no cinema (depois de três incursões por teledramáticos), e a fabuloso francesa Juliette Binoche, parece ter-lhe retirado um pouco de autenticidade.

Acontece que o filme é inteligente e sensível, extremamente belo e sedutor na sua construção, mas no final fica a sensação de algo artificial (precisamente e sobretudo por causa da sua extremamente inteligente construção, o que torna a sua arquitectura demasiado conceptual). Obviamente que deve muito a Rossellini e à sua “Viagem a Itália”, segue-lhe as pisadas e os propósitos, aparenta-se a uma viagem a Itália, tomo 2, mas enquanto em Rossellini a frescura e a novidade do tom surpreendiam, em “Cópia Certificada”, essas qualidades não são tão visíveis. Podem dizer, então, que é sobre isso mesmo que o filme fala, sobre a diferença ou não entre originais e cópias, mas se assim é, uma das conclusões do filme, de que uma boa cópia pode valer um bom original, porque pode suscitar as mesmas reacções, ou até melhores, fica um pouco comprometida neste caso.

Um escritor inglês vem à Toscânia apresentar o seu último livro sobre arte. Fala precisamente do valor e da importância da cópia e do original. Para ele, a diferença pode não ser muita. Entre a assistência, está uma mulher e o seu filho, que partem antes do debate acabar. Mas ela, dona de uma galeria de arte e arqueologia, deixa um convite para ser entregue ao escritor que a visita na manhã do dia seguinte, na sua galeria. Ela admira-o e contesta-o discretamente. Convida-o a passear, a visitar a aldeia de Lucignano. Partem de viagem, em busca de representações artísticas e de pessoas reais, de paganismo e religiosidade, de originais e de cópias. Visitam igrejas e assistem a casamentos, e a dona de um café toma-os por marido e mulher. Ela não contesta. Daí em diante, por um subtil e manso jogo de “raccords” (“raccord” em cinema é termo que indica a ligação harmoniosa entre planos e acções, sem que se sinta o salto, a quebra entre eles), ela e ele passam a comportar-se como um casal, e são vistos enquanto tal.

O jogo é conduzido habilmente por “ela” (que é, foi, obviamente casada e com razões de queixa do marido, mas também alguma nostalgia dos tempos passados). Ela “toma-o” como marido, ele deixa-se conduzir, nada no filme nos diz se se trata de realidade ou ficção, se cópia se original, o encontro com outros casais parece indicar que o que está em causa não é “este” casal, mas os casais, ou o casamento como instituição, intrinsecamente ligada a uma religiosidade ancestral, que tem, todavia, muito de pagã.

Mas há momentos em que esta viagem em Itália, pelos caminhos da Toscânia, se aproxima de uma fria análise da incomunicabilidade: ela olha-se ao espelho, olhando-nos a nós, ele faz o mesmo, tempo depois, ambos procuram um interlocutor que não está presente (ou que está somente presente na sala de cinema, como testemunha), quando falam entre si raramente parece um diálogo, mas dois monólogos paralelos que por vezes se tocam.

A fotografia restitui os tons da Toscânia, que são quentes e envolventes, os actores usam um naturalismo que por vezes atravessa a improvisação, o tom de Kiarostami é de uma eficácia narrativa total, nunca procurando o espectáculo exterior, mas sim a viagem interior, mesmo quando as duas personagens divagam de carro. O essencial é o que se passa dentro de cada um, mesmo quando a paisagem se reflecte nos vidros do pequeno automóvel em que se deslocam.

Um filme que vale obviamente a pena, mas que nos parece uns furos abaixo do Kiarostami genuinamente iraniano. (na foto abaixo, Kiarostami e Binoche)

Cópia Certificada
Título original: Copie conforme
Realização: Abbas Kiarostami (França, Itália, Irão, 2010); Argumento: Abbas Kiarostami; Produção: Angelo Barbagallo, Gaetano Daniele, Claire Dornoy, Charles Gillibert, Marin Karmitz, Marin Karmitz, Nathanaël Karmitz, Abbas Kiarostami; Fotografia (cor): Luca Bigazzi; Montagem: Bahman Kiarostami; Design de produção: Giancarlo Basili, Ludovica Ferrario; Guarda-roupa: Marzia Nardone; Maquilhagem: Fabienne Robineau; Direcção de Produção: Simona Chiocca, Ivana Kastratovic, Maria Panicucci; Departamento de arte: Lorenzo Sartor, Francesco Spina; Som: Grégory Noël, Dominique Vieillard; Efeitos visuais: Rodolfo Migliari; Companhias de produção: MK2 Productions, BiBi Film, Abbas Kiarostami Productions, France 3, Canal+, Centre National de la Cinématographie, Toscana Film Commission; Intérpretes: Juliette Binoche (Ela), William Shimell (James Miller), Jean-Claude Carrière (homem na praça), Agathe Natanson (mulher na praça), Gianna Giachetti (dona do café), Adrian Moore (o filho), Angelo Barbagallo (o apresentador), Andrea Laurenzi (o guia), Filippo Trojano (a noiva), etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 18 de Novembro de 2010.


NATAL 2010

CÁ VAMOS NÓS MAIS UMA VEZ...



dreaming of a White Christmas...
(contra todas as crises e contra os velhos do Restelo
...que andam por todo o lado, e não só no Restelo)

sábado, dezembro 11, 2010

PEQUENOS APONTAMENTOS POLÍTCOS




ESTENDENDO O TAPETE VERMELHO
À MAIORIA LARANJA
E OUTROS APONTAMENTOS POLÍTICOS

Agora que se comemoram os 30 anos sobre a trágica morte de Sá Carneiro, o seu sonho político parece concretrizar-se: um presidente, um governo, uma maioria.
Pelo andar da carruagem, alguém tem dúvidas de que Cavaco Silva seja reeleito Presidente? Com quatro adversários, dois dos quais a brincar, todos a darem tareia no candidato da direita e a fazerem dele a vítima necessária, e alguns deles sem qualquer prestígio para o desafiarem, que esperam? Mas há mais: a proliferação de candidatos só mostra a divisão e a ineficácia desta votação. Muito votante se interroga: valerá a pena votar, quando a decisão já é conhecida?
A reeleição de um Presidente tem estado quase sempre garantida. Esta chegou a tremer quando se descobriu “escutas” no gabinete do futuro candidato. No afã de derrotarem o PS, que cometeu muitos erros, mas não tantos como os que se lhe apontam, CDS, PSD, BE, PCP juntaram-se para conseguirem o resultado esperado: vitória de Cavaco, dissolução da Assembleia, eleições com uma nova AD a triunfar em toda a linha. Nunca uma Frente Comum foi tão unida. A ver vamos o que o eleitorado dirá daqui a dois anos. Qual o grau de contentamento de certos sindicalistas, de milhares de professores, do funcionalismo público, do Serviço Nacional de Saúde, e por aí fora.
Não percebo como se pode ser tão cego que não se veja certas coisas que estão a acontecer no mundo (e que objectivamente se reflectem no nosso país). A saber: a crise que hoje o mundo atravessa não tem a ver com países isolados ou melhores ou piores governos (estes podem agravar ou atenuar a crise, nada mais). A crise é um fenómeno conjuntural global. O PCP tem razão em acusar o capitalismo de estar na origem desta crise. Mas perde toda a razão quando deliberadamente se esquece que um dos principais países capitalistas do mundo é a China.
Na verdade, foi a vergonhosa avidez dos capitalistas que se entretiveram a multiplicar dinheiro virtual e a brincar aos monopólios com o capital dos depositantes que provocou esta crise que nos afunda a todos. Já tinha sido assim em 1929. Já se sabe que o capital não tem sentimentos. O que se pode estranhar é que um país dito “comunista” entregue a sua massa de trabalhadores quase a custo zero e em condições de perfeita escravatura às multinacionais para ali produzirem muito mais barato o que nos países ditos industrializados (Europa, América, Canadá, Japão e poucos mais) fica obviamente mais caro, dadas as conquistas sociais de que dispõem os seus trabalhadores.
Por isso o desemprego sobe em flecha na Europa e nos EUA, acompanhando a subida em flecha dos lucros das multinacionais e dos bancos. Os trabalhadores portugueses, para dar um exemplo próximo, julgavam ter adquirido “certas regalias sociais” quando as conquistaram aos capitalistas ocidentais. Esqueceram-se que havia o outrora “terceiro mundo” e que este passou a chamar-se, nalguns casos, “economias emergentes”. China, Índia, países árabes, alguns centros em África, vários países da América Latina. Esqueceram-se que muitos povos se iriam revoltar contra essa condição de colonizados, mesmo depois de oficialmente descolonizados.
E a revolta surgiu, mas infelizmente quem a comandou não foram os descamisados, mas o capitalismo “emergente” nesses territórios que se aliou ao já antigo capitalismo para dividir em partes mais equitativas o bolo. Alguém mais beneficiou com esta troca? Uma certa burguesia burocrata e tecnocrata que prolifera na China, na Índia, e mais ninguém. Os trabalhadores da China e da Índia não lucram com o facto dos camaradas da Europa e da classe média portuguesa apertarem o cinto. Estamos a apertar o cinto para os comilões do costume, mais os que recentemente se vieram sentar à mesa, para desfrutarem de mais regalias.
A luta é, pois, contra o capitalismo selvagem que não olha a meios para alcançar os fins. Acontece que não há só um capitalismo “de direita”. Há também capitalistas ditos “de esquerda”, que é preciso igualmente combater. A exploração do homem pelo homem, que às vezes roça um servilismo feudal e abjecto, é essa que tem de ser contrariada. À direita ou à esquerda, que neste caso as etiquetas não querem dizer nada: eles andam todos misturados atrás do lucro fácil. As multinacionais, como o próprio nome anuncia, não têm nação, nem rosto humano.
Teria todo o gosto em perder parte das minhas (curtas, diga-se) regalias, se isso fosse impedir que alguém morresse à fome na China ou em África. Mas para engordar mais o capitalista americano sentado à mesma mesa com o capitalista chinês, não, obrigado.
O que nos leva a outro tema "momentoso": a actividade da Wikileaks, que julgo particularmente relevante, ao denunciar não tanto as adjectivações diplomáticas, como as corrupções escondidas. Acontece que, ao acusar certos países democráticos, a Leakpedia está igualmente a elogiá-los: afinal consegue-se penetrar nas suas engrenagens, o que não acontece com os países que vivem em monarquia absolutista ou em ditadura. Nem China, nem alguns países árabes ou africanos, nem Cuba (para citar alguns apenas) têm visto as suas malas diplomáticas devassadas. Segurança de sistemas nesses países ou parcialidade na difusão do material apreendido por parte da Wikileaks? Neste dilema, a primeira conclusão é grave, a segunda gravíssima. A liberdade de expressão tem de ser defendida, mas a honestidade de processos também. 

quinta-feira, dezembro 09, 2010