terça-feira, fevereiro 15, 2011

CINEMA: TRUE GRIT X 2, + UM ROMANCE

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UM LIVRO E DOIS FILMES
1.
Um crítico literário norte-americano escreveu que “Portis é o mais extraordinário escritor de que nunca se ouviu falar.” Por esta frase (e pela proximidade da estreia da segunda versão deste romance em cinema), resolvi ler a obra e não me arrependo. Trata-se efectivamente de um escritor muito interessante, com uma linguagem fluida mas que impõe uma narrativa elegante e sensível, construindo uma história que aborda temas como a vingança e a justiça, num Oeste que aplica as suas regras muito próprias, num cenário invernoso, com personagens bem desenvolvidas, densas e ricas de nuances, com a característica de ser um relato memorialista, de uma mulher de meia idade, solteirona, que recorda a aventura vivida quando tinha catorze anos, o seu pai foi morto cobardemente por uma bala disparada por um empregado bêbado e exaltado, que Mattie Ross jura apanhar e matar. Para isso contrata o mais violento dos marshalls, o temível Reuben J. 'Rooster' Cogburn. Na companhia de um outro caçador de assassinos, La Boeuf, um ranger do Texas, penetram os três no “Território”, terra de índios, onde se acobertavam os perseguidos, para uma caçada sem tréguas.
                                                                        Charles Portis com John Wayne
Charles Portis nasceu a 28 de Dezembro de 1933, em El Dorado, Arkansas, passou pela guerra da Coreia, alistado no “U.S. Marine Corps”, formou-se depois em jornalismo, trabalhou no “New York Herald Tribune”, como correspondente em Londres, e em 1964 abandonou o jornalismo, regressou ao Arkansas, e iniciou um carreira literária. Além de vários contos, reunidos em colectâneas, assinou cinco romances: 1966, “Norwood”, 1968, “True Grit”, 1979, “The Dog of the South”, 1985, “Masters of Atlantis” e 1991, “Gringos”. Julgo que nenhum deles se encontra traduzido para português, com excepção de “True Grit”, agora lançado com o suporte do filme dos irmãos Coen.
Este foi igualmente o primeiro romance de Portis adaptado ao cinema, numa versão assinada pelo mestre veterano Henry Hathaway, em 1969, a que se seguiram duas outras versões, uma para televisão, “True Grit” (1978), com direcção de Richard T. Heffron, e interpretação de Warren Oates, Lisa Pelikan e Lee Meriwether, outra, recente, da responsabilidade dos já citados Ethan Coen e Joel Coen, “Indomável” (2010), de que falaremos mais à frente.
Entretanto, em 1975, Stuart Millar tinha repescado a personagem de Rooster Cogburn e, com argumento de Martha Hyer, voltara a dar a John Wayne a oportunidade de reviver o truculento “marshall”, agora ao lado de Katharine Hepburn. O filme chamava-se precisamente “Rooster Cogburn” (O Sheriff). Não deixou saudades.
Mas houve ainda uma outra incursão de Charles Portis no cinema, uma adaptação de “Norwood” (A Rapariga do Autocarro), de Jack Haley Jr. (EUA, 1970), com Glen Campbell, Kim Darby e Joe Namath. Uma comédia que nos dizem sem grande qualidade. 
2.
A versão de “True Grit” de 1969, mereceu a John Wayne o único Óscar da sua carreira, e impôs-se com um dos grandes westerns desta época, em que o género começava a ameaçar desmoronar-se na América, enquanto na Europa florescia o chamado “western spaghetti” que contribuía em muito para a decadência do género e das suas características, criando uma espécie de paródia, em tons excessivos, de uma violência desregrada e de um acentuado cinismo.
“Velha Raposa” apresentava-se num classicismo sóbrio, escorreito, solar (sublinhamos “solar”, em oposição ao “nocturno” “Indomável”, dos Coen). A história acompanha de perto o romance de Portis, com uma ou outra alteração de pormenor (prescindia-se, por exemplo, do final, com a narradora a demandar Rooster Cogburn integrado num velho circo do Oeste, a saber da sua morte e a levar o seu caixão para repousar junto do pai, na sua herdade).
Henry Hathaway foi um belíssimo realizador, com vasta filmografia (mais de 70 filmes), que deu algumas obras inesquecíveis no “thriller” e no western (ao lado de outras, como “Niágara”, com Marilyn Monroe) e, em “True Grit”, esmerou-se num trabalho magnífico, na maneira sóbria como definiu personagens, como explorou espaços, como sustentou o suspense, como trabalhou o humor, como sustentou a violência de algumas situações e as nimbou de um humanismo e de uma sensibilidade directamente retirados do olhar de uma criança determinada e voluntariosa.
Conta-se uma curiosa história sobre a compra dos direitos do romance de Charles Portis. Parece que dois pretendentes o disputavam, até que o produtor Hal Wallis os adquiriu pela considerável soma de 350.000 dólares, desconhecendo quem era o outro licitador. Hal Wallis veio finalmente a descobrir que quem pretendia comprar os direitos da obra era John Wayne, que iria interpretar o papel. Mas foi Portis quem não quis vender os direitos a Wayne pois achava que ele poderia desvirtuar a ideia do romance e retirar protagonismo à jovem. Afinal Hal Wallis acabou por ter o melhor de dois mundos: os direitos de adaptação, o concurso de John Wayne. Melhor ainda: 15.000.000 de dólares de receitas, só no mercado americano (a maior receita de um filme interpretado por Wayne).
Houve quem chamasse à criação de John Wayne o Falstaff do Oeste, e a designação tem muito de correcta, dada a forma como o actor compôs para a eternidade a figura deste “marshall” zarolho, beberrão e destemido, agente da lei, que aplica de forma muito pessoal, expedito e sucinto no julgamento. Uma figura concebida à medida da personalidade deste ícone do cinema americano, que aqui tem um dos papéis da sua vida. Mas Hathaway é um pouco sádico ao apresentar este herói muito pouco ortodoxo: para lá de zarolho e velho, bêbado e pouco ágil, não se coibiu de o mostrar sob a aparência de final de uma época de ouro, anunciando um adeus carregado de feridas no corpo e na alma. Mas, por outro lado, mesmo no Outono da vida, Rooster Cogburn não se exime a actos de extrema coragem, como o prova o duelo final, dele sozinho, em campo aberto, contra quatro bandidos, com a heróica postura do vingador, a cavalo, um revólver em cada mão, as rédeas presas pelos dentes, partindo à desfilada ao encontro aos inimigos. É simultaneamente o auge do heroísmo do western e o anúncio do seu desaparecimento. Antes de morrer, ergue-se aqui a estátua do mito.
Também Kim Darby criava uma figurinha cheia de serena impetuosidade, boa contabilista, excelente negociante, fria na vingança, sempre senhora das situações. Como lhe disse Hathaway, “tu é que és a patroa, não o Rooster Cogburn”. A seu lado, Glen Campbell, o mais fraco da companhia, Jeremy Slate, Robert Duvall, Dennis Hopper, Jeff Corey, entre outros, organizavam-se para compor uma galeria de tipos muito convincentes.
Muitos se perguntaram, se já existindo este “True Grit”, para quê regressar ao tema, quando o original se mantinha tão moderno na sua leitura e tão clássico na sua concepção. Falsa questão, claro: não é por haver já uma excelente encenação de Shakespeare que não se tentam outras. E assim surgiu a versão de 2010. 
3.
“Indomável”, dos irmãos Coen, coloca-se desde já entre os melhores filmes realizados por esta dupla, ainda que afastando-se um pouco do seu caminho tradicional. Esta não é uma obra que prolongue o seu estilo muito próprio, movido normalmente por uma narrativa excêntrica, moderna, cínica. Eles, que nunca tinham tentado o western, fazem-no aqui optando por um classicismo que se quadra bem com o género.
Trata-se de um “remake”, obviamente, mas não tanto do filme de Hathaway, com o qual mantém muitas semelhanças, mas de que se distancia consideravelmente. Pode falar-se, sobretudo, de um releitura da obra de Portis. Li por aí que esta era uma versão mais fiel à obra literária, mas também não creio que seja o caso. Ambas são bastante fiéis ao texto de onde partem, ainda que aqui e ali valorizem alguns aspectos em detrimento de outros. O filme dos Coen, por exemplo, aproveita o capítulo final da obra de Portis (com a narradora a levar para a sua propriedade e a enterrar junto do pai o cadáver de Rooster Cogburn, 25 anos depois da sua aventura de adolescente), enquanto Hathaway dispensava este final. Mas há igualmente na versão dos Coen elipses de episódios relatados no texto de Portis.
Há, todavia, diferenças de estilo óbvias e olhares distintos. Os Coen optaram por conservar a narrativa na voz Mattie Ross, assumindo o filme uma toada memorialista, e sobretudo mantiveram-se fieis ao cenário natural, aqui o Arkansas, com uma paisagem mais inóspita do que o Colorado de Hathaway. Depois há aspectos que são próprios dos Coen, o seu humor, o seu realismo mais cru, a austeridade de processos, o lado nocturno da narrativa, que confere a toda a obra uma assinalável densidade dramática. Digamos que em Hathaway prevalecia a aventura, e nos Coen o drama.
Este novo “True Grit » não se afasta muito, na intriga, do anterior. Mesmo o tom é clássico, sem malabarismos escusados, mas com alguns belos momentos, como aquele que marca o início da narrativa, a chegada de comboio da adolescente Mattie Ross (Hailee Steinfeld) à cidade, onde o seu pai fora morto, onde vem recuperar o corpo e os haveres, e iniciar a vingança. Os enquadramentos e os movimentos, quer do comboio quer da câmara, são excelentemente coreografados. A contratação de Rooster Cogburn (Jeff Bridges), o encontro com LaBoeuf (Matt Damon), toda a perseguição ao malvado Tom Chaney (Josh Brolin), agora incluído no gang de Lucky Ned Pepper (Barry Pepper), decorrem com o ritmo certo, revelando personagens e situações, impondo o suspense necessário, sem descurar a definição psicológica e, sobretudo, o jogo de relações, subtil mas denso.
As sequências nocturnas revelam um director de fotografia de grande sensibilidade, Roger Deakins (que pode muito bem levar para casa o Óscar da categoria). As interpretações são todas elas excelentes, e a música de Carter Burwell cria habilmente a envolvência necessária.
Jeff Bridges afastou-se da tentação de se emular a John Wayne. Constrói um novo Rooster Cogburn, menos truculento e mais discreto, e ganha uma postura mais humana, mais nuanceada.  A estreante Hailee Steinfeld, nos seus 13 anos, surpreende pela maturidade. Matt Damon é discreto e inspirado, e  Josh Brolin brilhante no seu malvado Tom Chaney.
Uma vez por outra o western regressa em todo o seu esplendor. Em boa hora. “Indomável” fica como um dos prováveis grandes candidatos aos Oscars.

UM LIVRO:
INDOMÁVEL (True Grit)
de Charles Portis (EUA, 1968); Ed. Presença; Colecção Grandes Narrativas; Lisboa, 2011.

DOIS FILMES:
VELHA RAPOSA
Título original: True Grit
Realização: Henry Hathaway (EUA, 1969); Argumento: Marguerite Roberts, segundo romance de Charles Portis; Produção: Paul Nathan, Hal B. Wallis, Joseph H. Hazen; Música: Elmer Bernstein; Fotografia (cor): Lucien Ballard; Design de produção: Walter H. Tyler; Decoração: John Burton, Ray Moyer; Guarda-roupa: Dorothy Jeakins; Maquilhagem: Carol Meikle, Jack Wilson; Direcção de Produção: Frank Beetson; Assistentes de realização: William W. Gray; Departamento de arte: Adam John Backauskas; Som: Roy Meadows, Elden Ruberg; Companhias de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: John Wayne (Marshall Reuben J. 'Rooster' Cogburn), Glen Campbell (La Boeuf), Kim Darby (Mattie Ross), Jeremy Slate (Emmett Quincy), Robert Duvall (Ned Pepper), Dennis Hopper (Moon), Alfred Ryder (Mr. Goudy), Strother Martin (Coronel G. Stonehill), Jeff Corey (Tom Chaney), Ron Soble, John Fiedler, James Westerfield, John Doucette, Donald Woods, Edith Atwater, Carlos Rivas, Isabel Boniface, H.W. Gim, John Pickard, Elizabeth Harrower, Ken Renard, Jay Ripley, Kenneth Becker, etc. Duração: 128 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Lusomundo Audioviduais; Classificação etária: M/ 12 anos.
Classificação: ****

INDOMÁVEL
Título original: True Grit
Realização: Ethan Coen, Joel Coen (EUA, 2010); Argumento: Joel Coen, Ethan Coen, segundo romance de Charles Portis; Produção: Ethan Coen, Joel Coen, David Ellison, Megan Ellison, Robert Graf, Scott Rudin, Paul Schwake, Steven Spielberg; Música: Carter Burwell; Fotografia (cor): Roger Deakins; Montagem: Ethan Coen, Joel Coen; Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: Jess Gonchor; Direcção artística: Stefan Dechant, Christina Ann Wilson; Decoração: Nancy Haigh; Guarda-roupa: Mary Zophres; Maquilhagem: Kay Georgiou, Thomas Nellen, Christien Tinsley; Direcção de Produção: Catherine Farrell, Karen Ruth Getchell; Assistentes de realização: Stephen Clarke, Bac DeLorme, Betsy Magruder, Jeremy Reisig; Departamento de arte: Jeff B. Adams Jr., John Frick; Som: Craig Berkey; Efeitos especiais: Steve Cremin; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Katie Godwin, Catherine Hughes, Michael Perdew, Payam Shohadai; Companhias de produção: Paramount Pictures, Skydance Productions, Scott Rudin Productions, Mike Zoss Productions; Intérpretes: Jeff Bridges (Rooster Cogburn), Hailee Steinfeld (Mattie Ross), Matt Damon (LaBoeuf), Josh Brolin (Tom Chaney), Barry Pepper (Lucky Ned Pepper), Dakin Matthews (Coronel Stonehill), Jarlath Conroy, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Elizabeth Marvel, Roy Lee Jones, Ed Corbin, Leon Russom, Bruce Green, Candyce Hinkle, Peter Leung, Don Pirl, Joe Stevens, David Lipman, Jake Walker, Orlando Storm Smart, Ty Mitchell, Nicholas Sadler, Scott Sowers, Jonathan Joss, Maggie A. Goodman, Brandon Sanderson, Ruben Nakai Campana, etc. Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Fevereiro de 2011.
Classificação: ****


BAFTAS, OS OSCARS INGLESES

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 OS BAFTAS ENTRONIZAM
“O DISCURSO DO REI”

“O Discurso do Rei” saiu triunfador da noite do Baftas, os Oscars ingleses, atribuídos em Londres. O filme de Tom Hooper ganhou sete troféus (dos 14 para que estava nomeado): melhor filme, melhor actor (Colin Firth), melhores actor e actriz secundários (Geoffrey Rush e Helena Bonham Cárter), melhor argumento original, melhor música e ainda o prémio para “outstanding British Film”, que sublinha o filme britânico que melhor contributo deu esse ano para a indústria do cinema. Curiosamente, Tom Hooper, perdeu o de melhor realizador para David Fincher, de “A Rede Social”, que levou para casa ainda os troféus para melhor argumento adaptado e melhor montagem..
Colin Firth ganhou pelo segundo ano consecutivo o Bafta de melhor actor. É a segunda vez que tal acontece. O anterior triunfador fora Rod Steiger, em 1967 e 1968. Natalie Portman fez o que se esperava e ganhou o prémio de melhor actriz com “Cisne Negro”.
Outro ganhador foi “A Origem” com três prémios: melhor banda sonora, melhor design e efeitos especiais. “Toy Story 3” também não surpreendeu: foi o melhor filme de animação.

Lista dos vencedores:

Melhor Filme: O Discurso do Rei
Melhor Filme Britânico: O Discurso do Rei
Melhor Realizador: David Fincher, A Rede Social
Melhor Actor: Colin Firth, O Discurso do Rei
Melhor Actriz: Natalie Portman, O Cisne Negro
Melhor Actor Secundário: Geoffrey Rush, O Discurso do Rei
Melhor Atriz Secundária: Helena Bonham Carter, O Discurso do Rei
Melhor Actor em Ascensão: Tom Hardy, A Origem
Melhor Estreante Britânico: Argumentista/Realizador Chris Morris, Four Lions
Melhor Argumento Original: David Seidler, O Discurso do Rei
Melhor Argumento Adaptado: Aaron Sorkin, A Rede Social
Melhor Filme Estrangeiro: The Girl With the Dragon Tattoo
Melhor Música: Alexandre Desplat, O Discurso do Rei
Melhor Fotografia: Roger Deakins, True Grit
Melhor Montagem: A Rede Social
Melhor Design de Produção: A Origem
Melhor Guarda-Roupa: Alice no País das Maravilhas
Melhor Som: A Origem
Melhores Efeitos Especiais: A Origem
Melhor Caracterização: Alice no País das Maravilhas
Melhor Filme de Animação: Toy Story 3
Melhor Curta-Metragem: Until the River Runs Red
Melhor Curta-Metragem de Animação: The Eagleman Stag
Troféu de “Academy Fellowship”: Christopher Lee 

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

UMA ANTOLOGIA DA ZARZUELA NA REITORIA

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NOITE LÍRICA ESPANHOLA
NA REITORIA DA UNIVERSIDADE CLÁSSICA

Na  Aula Magna da Reitoria da UCL,  integrada nas comemorações dos 100 desta Universidade, decorreu uma “Noite Lírica Espanhola”, dedicada à zarzuela, género musical espanhol por excelência, que conta muitos adeptos em Portugal. A meio caminho entre a ópera e o musical, paredes-meias com a opereta, a zarzuela foi particularmente acarinhada no séc. XIX e início do seguinte. Mas em Espanha há muitas entidades a preservar o género, como a Fundação Guerreiro, que se dedica sobretudo à sua promoção. Foi da colaboração entre esta Fundação, a Universidade Clássica e a Embaixada de Espanha que se pode ver e ouvir, no último sábado, com entrada livre, uma antologia de trechos célebres de algumas das mais conhecidas zarzuelas, como “As Bodas de Luís Alonso”, “Luísa Fernanda”, “Leces Y Sombras”, “Doña Francisquita”, etc.
A Orquestra Sinfónica de Ghamartin, o Coro Talía, a soprano Sagrario Salamanca, o barítono Karoly Szemerédy, o tenor Alejandro Gonzalez del Cerro, a directora musical Silvia Sanz Torre, no total mais de oitenta pessoas em palco, foram os intérpretes que reavivaram, na medida das suas desiguais possibilidades, o gosto por este género musical.
Pena não se ouvir/ver com maior frequência, nos palcos portugueses, uma ou outra zarzuela, como espectáculo integral. As últimas a que assisti foram em Madrid, onde existe quase sempre um teatro que lhes está destinado durante toda a temporada.
Na impossibilidade de apresentar as versões ouvidas na Aula Magna, aqui ficam dois trechos, muito distintos, para matar saudades. 


Mas sempre se conseguiu, no You Tube, uma amostra da orquestra, coro e directora musical.

TEATRO: MAIS RESPEITO QUE SOU TUA MÃE

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MAIS RESPEITO QUE SOU TUA MÃE

Não se percebe muito bem o porquê, mas a verdade é que a imprensa portuguesa quase não critica teatro dito comercial. É normalmente fraco? É verdade, mas também é muitas vezes fraco o teatro dito mais sério e nem por isso, aqui e ali, deixa de merecer as suas referências. Depois há um aspecto que acho profundamente injusto: quem trabalha no teatro comercial merece ser olhado com o mesmo respeito que os demais. Goste-se ou não, merece que as opiniões sejam conhecidas. É bom ter interlocutores, concorde-se ou não com eles. É bom saber o que X ou Z acham do trabalho de A ou B.
Quase não li críticas a “Mais Respeito que sou Tua Mãe” que se estreou há vários meses no Casino do Estoril, passou pelo Rivoli do Porto, e voltou agora a assentar arraiais no Teatro Armando Cortez, na Casa do Artista. Muita gente viu a peça, chegaram-me opiniões pessoais desencontradas. Houve quem detestasse, ou quem se divertisse muito. Mas quase todos eram unânimes quanto à interpretação de Joaquim Monchique, num travesti divertido e muito bem executado.
Quase todos os grandes cómicos adoram, uma vez por outra, experimentar as dificuldades de se fazerem passar por alguém do sexo oposto. Nomeiem um cómico e logo surge o seu momento de travesti. António Silva? Sim. Raul Solnado? Sim. José Viana? Sim. Herman José? Sim. Vamos lá para fora, e a lista prolonga-se.
Actualmente, em Portugal, há dois exemplos máximos desta arte. Herman e Monchique. O poder de transmutação destes dois actores é absolutamente notável. Parece que não representam, que se transformam em. Olhamos para eles como outras personagens, homens ou mulheres, e deixaram de ser eles, não os reconhecemos como eles próprios, são “outros”.
Joaquim Monchique, em “Mais Respeito que sou Tua Mãe”, encarna a figura de uma mulher, Esmeralda, quarentona ou cinquentona, mãe de uma família disfuncional, suburbana, que vive na outra banda, na Baixa da Banheira, e tem sogra, marido, e três filhos. Ela é o esteio da comunidade. A sogra gosta de fuminhos, o marido é reformado, benfiquista ferrenho e passa os dias no sofá frente à sport tv, e quanto aos filhos, há para todos os gostos, a escanzelada galdéria que ganha a vida com strip teases na internet, o homossexual que se torna hétero e não deixa de se entusiasmar com esta descoberta, e o ganzado que faz esculturas com matéria orgânica.
A peça do argentino Hernán Casciari (nascido em Mercedes, Buenos Aires, a 16 de Março de 1971), mas radicado há muito na Catalunha, tem graça, mas abusa, não tanto da brejeirice, como da escatologia. O seu humor oscila entre a anotação crítica certeira e divertida e a vulgaridade de um diálogo sem controlo.
Entusiasta dos blogues, é aí que Hernán Casciari tem cumprido a maior parte da sua actividade jornalística, inclusive para o jornal “El Pais”. Escreveu blogonovela e crítica a séries de TV. Foi chefe de redacção da revista argentina “La Ventana”. Assinou duas obras premiadas, “Subir de Espaldas la Vida” e “Nosotros Lavamos Nuestra Ropa Súcia” (Prémio Juan Rulfo, Paris, 1998). “Weblog de una Mujer Gorda” (melhor blogue para a cadeia alemã “Deutsche Welle”), foi editado com o título “Más Respeto, que soy tu Madre”. Publicou ainda "El Diario de Letizia Ortiz". Em 2007 lançou “España, Perdiste”. Iniciou agora a publicação de uma revista trimestral, “Orsai”, sem publicidade, de distribuição mundial.
Com discreto e eficaz cenário único, numa sóbria encenação do próprio Joaquim Monchique, “Mais Respeito que sou Tua Mãe” está longe de ser uma obra importante, pretendendo ser apenas um divertimento de duas horas, servido por um elenco que cumpre (Luís Mascarenhas, Maria Tavares, Tiago Aldeia, Rita Tristão da Silva e Emanuel Santos). Um maior rigor no texto (que não convidasse tanto à facilidade) seria bem vindo, mas a adaptação à realidade portuguesa é convincente.
Posto isto, o teatro também vive de espectáculos destes, que não ficam na História, mas ajudam alguns espectadores a passar pelas agruras da vida, e trazem público às salas.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

CINEMA: O DISCURSO DO REI

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O DISCURSO DO REI
“The King's Speech” conta a história real de um rei que era gago. E dos trabalhos por que passou para alinhavar um discurso perceptível num dia de particular gravidade para a sua nação. Mas há um pouco mais do que isso, por detrás desta pequena trama: há uma breve panorâmica sobre a História de Inglaterra nas décadas de 30 e 40 do passado século XX. A acção inicia-se na corte inglesa, durante o final do reinado de George V (Michael Gambon), que tinha dois filhos, o predestinado ao trono, Eduardo (Guy Pearce) e o tímido e gago George (Colin Firth).
Eduardo estava projectado para ser rei, mas não muito apostado em o ser. Tanto mais que convivia intimamente com uma mulher casada de nome Wallis Simpson (Eve Best), com quem, por divórcio desta, pretendia casar. Quando o velho rei morre, Eduardo é coroado, o VI da dinastia, mas por pouco tempo, pois acaba por abdicar para seguir o seu coração e a mulher que amava.
Quem fica com a batata quente na mão, e os berlindes na boca, é o mano mais novo, George, que não consegue articular duas palavras seguidas, sobretudo em momentos de stress. O filme inicia-se precisamente por um doloroso discurso seu, durante uma inauguração oficial, onde a dificuldade em articular palavras torna pungente a cerimónia. A sua gaguez passara já por todos os médicos e charlatães do reino, sem resultados práticos, até que Elizabeth, a sua abnegada esposa, depois mais conhecida por rainha-mãe (aqui muito bem representada pela bela Helena Bonham Carter), resolve seguir uma dica e consultar um tal terapeuta da fala, de nome Lionel Logue (Geoffrey Rush) que afiançava fazer milagres nesse domínio.
Lionel Logue não tinha créditos universitários, mas utilizava processos novos e pouco ortodoxos. Conhecia um pouco de psicanálise, acreditava encontrar na adolescência dos pacientes a razão para a sua gaguez, e pôs o rei a “libertar-se”, ao ser tratado por Bertie e a gritar palavrões, depois de passar pela prova dos berlindes e outras mais. Bertie nunca chegou a ter a eloquência de um orador do “speaker’s corner”, mas lá conseguiu desenvencilhar-se da proclamação de guerra contra os nazis e levantar a moral dos seus concidadãos. Temos dito. O filme não procura ser muito mais do que isto. Mas assume uma curiosa perspectiva, que não sabemos se foi ou não pretendida pelos responsáveis.
Enquanto, por um lado, temos na direcção do Eixo, a retórica efusiva e manipuladora de Hitler e Mussolini, que, com palavras e gestos, encenações grandiosas e o troar de cânticos bélicos, metiam no bolso os seus atordoados espectadores, do lado Aliado, a abrir as hostilidades, tínhamos um rei gago que a muito custo conseguia articular um discurso para mobilizar as suas tropas. O que leva a uma conclusão cautelosa. A demagogia não é boa conselheira, é melhor tentar perceber as palavras, mesmo quando mal pronunciadas, do que deixar-se levar pela demagogia de hábeis manipuladores. É verdade que os Aliados se iriam vingar com Churchil e De Gaule, entre outros, que também sabiam muito bem levar a água ao seu moinho.
A graça de “The King's Speech” está, no entanto, no confronto entre um inseguro e atrofiado rei e um australiano que gostava de representar Shakespeare, mas sem nenhum talento para tal, que tinha um descaramento de primeira, alguma sorte e uns conhecimentos rudimentares de psicologia e psicanálise. Colin Firth e Geoffrey Rush são magníficos, é certo, mas já o sabíamos. Colin Firth, por exemplo, dera-nos, no passado ano, um fabuloso trabalho em “Um Homem Singular” (este sim, merecedor de um Óscar), uma interpretação intimista, secreta e deslumbrante. Agora aparece num daqueles trabalhos que são feitos para agradar à Academia e que vai, de certeza, conquistar a estatueta. Mas, apesar do brio na composição, preferimos-lhe obviamente outros registos anteriores. Mas será a reparação de um injustiça, pois Colin Firth é seguramente um dos maiores actores vivos. Já que falamos de actores, justo é sublinhar ainda a curta aparição de um monstro, Michael Gambon (em George V), além de Derek Jacobi, Guy Pearce, Helena Bonham Carter e Claire Bloom, e espantarmo-nos com a ridícula presença de Timothy Spall (num insuportável Winston Churchill).
O filme aparece nomeado para doze Oscars, mas parece destinado a ser um perdedor nato. Estas nomeações foram a sua vitória. Além de Colin Firth, poucas mais irá arrebatar, apesar da excelência da reconstituição de época, do bom guarda-roupa, da cuidada fotografia, da inspirada banda sonora. Já o mesmo não se pode dizer da realização, que é verdadeiramente desastrosa, com um recurso insano à utilização da grande angular, que transforma personagens e ambientes em grotescas caricaturas, sempre que é usada. Creio ter percebido a intenção de Tom Hooper, um realizador que vem da televisão e nos dera um interessante “Maldito United” (2009). Ele terá pensado que esta era a melhor maneira de traduzir em imagens a perturbação e a claustrofobia do rei gago, mas apenas optou pela facilidade e o resultado é por vezes simplesmente grotesco. Em lugar de traduzir a gaguez do rei, afirma a gaguez do seu realizador. Mais um filme que se vê com algum agrado, mas que está longe de justificar outra atenção. 
O DISCURSO DO REI
Título original: The King's Speech
Realização: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, Australia, 2010); Argumento: David Seidler; Produção: Paul Brett, Iain Canning, Charles Dorfman, Simon Egan, Mark Foligno, Peter Heslop, Phil Hope, Geoffrey Rush, Lisbeth Savill, Emile Sherman, Deepak Sikka, Tim Smith, Gareth Unwin, Bob Weinstein, Harvey Weinstein; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Tariq Anwar; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Netty Chapman; Decoração: Judy Farr; Guarda-roupa: Jenny Beavan; Maquilhagem: Frances Hannon; Direcção de Produção: David Bell, Erica Bensly, Emma Zee; Assistentes de realização: Heidi Gower, Martin Harrison, Guy Heeley, Liam Lock, Chris Stoaling; Departamento de arte: Julia Castle; Som: Paul Hamblin, Martin Jensen, John Midgley; Efeitos especiais: James Davis III, Mark Holt; Efeitos visuais: Derek Bird, Duncan Holland, Thomas M. Horton, Zissis Papatzikis; Companhias de produção: See Saw Films, See-Saw Films, Bedlam Productions; Intérpretes: Colin Firth (Rei George VI), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helena Bonham Carter (Rainha Elizabeth), Derek Jacobi (Arcebispo Cosmo Lang), Michael Gambon (Rei George V), Guy Pearce (Rei Edward VIII), Claire Bloom (Rainha Mary), Timothy Spall (Winston Churchill), Robert Portal, Richard Dixon, Paul Trussell, Adrian Scarborough, Andrew Havill, Charles Armstrong, Roger Hammond, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Freya Wilson, Ramona Marquez, David Bamber, Jake Hathaway, Patrick Ryecart, Teresa Gallagher, Simon Chandler, Orlando Wells, Tim Downie, Dick Ward, Eve Best, John Albasiny, Danny Emes, Anthony Andrews, John Warnaby, Roger Parrott, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 10 de Fevereiro de 2011.
Classificação: ***

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

CINEMA: CISNE NEGRO

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CISNE BRANCO, CISNE NEGRO
 Um cisne ao espelho
Não consigo perceber muito bem nem o deslumbramento de alguns, nem a raiva de outros em relação a este “Cisne Negro”. A coisa roça mesmo o ridículo nalguns casos: li por aí que algumas bailarinas internacionais, muito responsáveis, se insurgiram, afirmando que o mundo do bailado não está bem retratado e que as bailarinas não são como a protagonista Nina Sayers, o que deveria levar, por exemplo, os médicos a protestarem contra a criação do Dr. Jeckyll, já para não falar nos milhares de outras de profissões que tiveram criações artísticas não muito de acordo com a respectiva deontologia profissional. Parece que as divas do ballet são muito ciosas da sua imagem. Mas passemos adiante.
O filme, enquanto tal, e descontando essas discussões disparatadas e laterais, é uma obra interessante nalguns aspectos, não muito entusiasmante noutros, com momentos bem conseguidos e outros que julgo lamentáveis. Neste aspecto refiro-me, sobretudo, à realização de Darren Aronofsky que intercala enquadramentos de gosto mais do que duvidoso, com pormenores de personagens ou objectos em primeiro plano, para permitir uma profundidade de campo que se poderia conseguir de forma menos rebuscada, com alguns bons cortes de montagem, originais e modernos, além de uma ou outra cena mais lograda).
Julgo por isso que se trata de um filme que se vê com algum interesse, resultante sobretudo de certas interpretações e de um argumento curioso, que volta a abordar o caso da duplicidade de personalidade, e do dolorosos processo criativo. Com alguns  estereótipos, mas vamos por partes.
O universo do bailado já foi abordado várias vezes pelo cinema e ainda muito recentemente se pode ver um documentário, “A Dança - Le Ballet de l'Opera de Paris”, de Frederick Wiseman (2009), que para os mais puristas deve servir perfeitamente. Mas, quando se fala deste tema, é obvio referir a obra-prima indiscutível, “Os Sapatos Vermelhos”, de Michael Powell e Emeric Pressburger, que curiosamente também se centra no “Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky. Pode indicar-se igualmente “O Sol da Meia-Noite” (White Nights, 1985), de Taylor Hackford, rodado em grande parte em Portugal, no São Carlos, com Mikhail Baryshnikov. Mas muito pouco têm a ver com esta obra de Darren Aronofsky, que anteriormente se tornou conhecido com títulos como “Pi” (1998), “A Vida não é um Sonho” (2000), “O Último Capítulo” (2006) ou “O Wrestler” (2008).
“Black Swan” parte de um complexo e bem elaborado argumento de Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz, segundo história deste último. Nina Sayers (Natalie Portman) é uma das bailarinas de uma importante companhia norte-americana que prepara uma nova encenação de “O Lago dos Cisnes”. A companhia está em crise, o público tende a afastar-se dos seus espectáculos, e o encenador, Thomas Leroy (Vincent Cassel), procura insuflar-lhe vida, afastando a anterior bailarina principal, Beth Macintyre (Winona Ryder), e avançando para Nina, elemento de técnica perfeita, mas de reduzida vivência.
Thomas invectiva-a a tornar-se não só o “cisne branco”, que ela interpretará sem esforço na perfeição, mas também o “cisne negro”, esse “dark side” da Humanidade que Nina desconhece e anda mesmo apartado do seu íntimo. Filha de uma antiga bailarina que nunca ultrapassou a mediania, Erica Sayers (Barbara Hershey), Nina vive acorrentada dentro da sua meninice, do seu quarto cor-de-rosa povoado por ursinhos de peluche, e amordaçada por essa inquietante mãe de negro, que projecta na filha o seu falhanço, e a castra em todos os sentidos. Personagem intrincada, que tanto sugere o desejo de triunfo da filha, como parece ciumenta do mesmo. Para libertar Nina, Thomas aborda mesmo um tema tabu, a sexualidade, e manda Nina para casa, que se solte, que se masturbe, que reconheça a sua sexualidade, que ponha cá fora “o outro lado do espelho”. 
Falando do espelho, este é um filme que faz jus a este elemento de simbolismo óbvio. Os espelhos estão sempre presentes nesta obra, quer como reflexo de si, quer como factor multiplicador, quer como parte de um trabalho que exige perseverança e esforço contínuo para se atingir a perfeição e que é necessário analisar ao pormenor. No espelho. Nina tem sempre o espelho à sua frente, para controlar os movimentos, para se aperceber de erros, para se ultrapassar, mas será também o espelho que lhe mostra o seu duplo, em si mesmo, ou no rosto das rivais, da veterana vedeta ou da nova aspirante, Lily (Mila Kunis). É necessário estilhaçar o espelho para reunir dentro de si o cisne branco e o cisne negro, o Bem e o Mal, e essa busca da perfeição conduz à auto-destruição.
Há momentos muito bem conseguidos, como a sequência de amor entre Nina e Lily, que assinala a reunião das duas forças antagónicas, agora num mesmo amplexo, ou algumas cenas de ensaios e do próprio bailado, tendo-me ficado na retina uma nocturna, com o palco escassamente iluminado e com Nina atravessando-o, em direcção às trevas. Mas é na montagem (Andrew Weisblum, um nome a reter para os Oscars) que mais nos surpreendemos com algumas ligações de movimentos não muito ortodoxos, mas que resultam magnificamente.
Depois há a interpretação. Natalie Portman compõe um trabalho de grande subtileza, deslizando da pureza para a perversidade com uma delicadeza intocável, e a sua Nina Sayers deve arrecadar a estatueta, depois de ter triunfado nos Globos. Não virá daí nenhuma surpresa. Mas também Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder merecem referência especial. Regressando ao início, nem obra-prima, nem um filme a evitar. Uma obra interessante, irregular, mas que vale a pena ver.
Título original: Black Swan
Realização: Darren Aronofsky (EUA, 2010); Argumento: Mark Heyman, John J. McLaughlin, Andres Heinz, segundo história deste ultimo; Produção: Jon Avnet, Brad Fischer, Scott Franklin, Jerry Fruchtman, Peter Fruchtman, Rose Garnett, Ari Handel, Mike Medavoy, Arnold Messer, Brian Oliver, Joseph P. Reidy, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites; Música: Clint Mansell; Fotografia (cor): Matthew Libatique; Montagem: Andrew Weisblum; Casting: Mary Vernieu; Design de produção: Thérèse DePrez; Direcção artística: David Stein; Decoração: Tora Peterson; Guarda-roupa: Amy Westcott; Maquilhagem: Judy Chin, Marjorie Durand, Michael Marino, Geordie Sheffer; Direcção de Produção: Gabrielle Mahon; Assistentes de realização: Amy Lauritsen, Travis Rehwaldt, Joseph P. Reidy, Jennifer Roberts; Departamento de arte: Miriam Johnson; Som: Brian Emrich, Craig Henighan; Efeitos especiais: Conrad V. Brink Jr.; Efeitos visuais: Christian Cardona, Danny S. Kim, Dan Schrecker, Niko Tavernise; Companhias de produção: Fox Searchlight Pictures, Protozoa Pictures, Phoenix Pictures, Cross Creek Pictures; Intérpretes: Natalie Portman (Nina Sayers), Mila Kunis (Lily), Vincent Cassel (Thomas Leroy), Barbara Hershey (Erica Sayers), Winona Ryder (Beth Macintyre), Benjamin Millepied (David), Ksenia Solo (Veronica), Kristina Anapau (Galina), Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Sergio Torrado, Mark Margolis, Tina Sloan, Abraham Aronofsky, Charlotte Aronofsky, Marcia Jean Kurtz, Shaun O'Hagan, Christopher Gartin, Deborah Offner, Stanley Herman, Michelle Rodriguez Nouel, Kurt Froman, Marty Krzywonos, Leslie Lyles, John Epperson, Arkadiy Figlin, Timothy Fain, Sarah Lane, Liam Flaherty, Patrick Heusinger, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 3 de Fevereiro de 2011.
CISNE NEGRO

terça-feira, fevereiro 08, 2011

CINEMA: DE "POUR ELLE" A "72 HORAS"

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POUR ELLE

Fred Cavayé, em 2008, escreveu (com a colaboração de Guillaume Lemans, o autor da ideia original) e dirigiu “Pour Elle”, um “thriller” que nunca estreou ou foi lançado em DVD em Portugal, e que impressionou vivamente o público de então e os produtores de Hollywood. A história é simples, mas Fred Cavayé envolve-a numa roupagem narrativa interessante, num jogo de flash-backs. O filme começa de forma inquietante: ecrã negro, vozes, gritos, porta de carro que se abre, um corpo, que nunca vemos, lançado para os bancos da retaguarda, depois o rosto do condutor (Vincent Lindon), escoriações e sangue, o carro em correria pela cidade, gemidos no banco traseiro, olhares de esguelha para trás, depois o silêncio e o carro que pára. Uma legenda: três anos antes.
O condutor do carro, sabemos agora, é Julien, casado com Lisa (Diane Kruger) e pai de Óscar, um bebé que come a papa. Ele é professor e Lisa parece ter problemas de relacionamento com a sua chefe, no emprego. O ambiente é, porém, de harmonia.
Súbito, a tempestade. Um toque à porta, a entrada tumultuosa de um grupo de polícias que prende Lisa, acusada de ter assassinado a chefe nessa noite.
Sabe-se depois que Lisa saíra do emprego, depois de uma discussão com a chefe, e descera até a garagem do edifício. Em frente ao seu carro está um extintor de incêndio, que apanha e coloca de lado. Entretanto chocara com o ombro de alguém que lhe deixa uma mancha de sangue no seu casaco. Não repara que ali ao lado se encontra o cadáver da sua chefe. Ao sair da garagem é vista por uma testemunha que descobre a vítima. Estes são os indícios que a incriminam e que os juízes aceitam como verdadeiros. Lisa é condenada a cumprir uma pesada pena de cadeia. Recebe visitas do inconsolável marido e do filho, três anos depois. O recurso é rejeitado, Julien perde a esperança na justiça e resolve organizar a fuga da mulher de uma cadeia de alta segurança. É o que vai fazer e o que o filme acompanha a par e passo.
A realização de Fred Cavayé, um estreante, é boa, sólida, bem ritmada, servida por dois bons actores: Vincent Lindon e Diane Kruger. O clima adensa-se, a inquietação acompanha o correr do tempo. Há bons apontamentos de observação muito cinematográficos. A vida com os pais de Julien ou a procura de companhia por parte de uma mulher que o olha intencionalmente num parque infantil, são dois exemplos. Vincent Lindon e Diane Kruger cumprem eficazmente. Tal como o seu “remake”, o filme levanta alguns problemas de ordem institucional curiosos. Falaremos deles mais adiante. 
72 HORAS


Dois anos depois, Paul Haggis, o director de “Colisão” (Crash, 2004) e de “No Vale de Elah” (2007), interessa-se por uma nova versão de “Pour Elle”, a que chamará “The Next Three Days”, com um elenco de que fazem parte Russell Crowe, Elizabeth Banks e Liam Neeson.
Esta trasladação de França para os EUA traz muito pouco de novo, mas será interessante sublinhar alguns aspectos. O filme de Paul Haggis conta com um orçamento consideravelmente mais chorudo, efeitos muito mais espectaculares, actores mais habituados a este tipo de convenção (deve dizer-se que Elizabeth Banks é excelente), e um tipo de narrativa, nervosa e sincopada, que é a matriz do cinema norte-americano de feição industrial (o que não quer dizer que neste contexto não apareçam muitos “autores” que aí se movimentam bem). 
Há, curiosamente, momentos na narrativa desta nova versão que quase copiam, plano a plano, o original, como é o caso da sequência inicial. Além da passagem do cenário natural, de França para os EUA, no restante poucas alterações se descobrem no entrecho, a não ser as ditadas pela própria configuração arquitectónica da prisão.
John Brennan (Russell Crowe), o protagonista, é professor, Lara Brennan (Elizabeth Banks), a sua mulher, volta a ser presa, acusada de ter assassinado a chefe, nas mesmas circunstâncias e também condenada a pesada pena numa prisão estatal, donde John Brennan irá tentar organizar a fuga. Nesta versão surge mais elaborada a personagem de Damon Pennington (Liam Neeson), um especialista em fugas que dá algumas dicas preciosas ao principiante, e pouco mais. Há os pais de Brennan e a senhora solitária que acompanha a filha ao jardim infantil. E a perseguição final movimenta muito mais meios. É tudo feito com “savoir fair” e muita experiência técnica, mas nada que torne este filme diferente de dezenas de outros. Paul Haggis em crise de inspiração ou apenas num intervalo de um percurso mais pessoal?
Posto isto, uma pertinente questão se levanta. Se eu tivesse visto estes dois filmes há vinte anos ficaria muito preocupado: uma obra destas é um atentado aos valores da democracia e da justiça, um dos principais pilares dessa própria democracia. Este é um filme em que o protagonista não acredita na justiça e resolve exercê-la por mãos próprias. Defender uma tal posição é dar abertura para o caos social. Cada um por si. Cada um a impor a “sua” justiça. Há alguns anos atrás (lembro-me de “O Justiceiro da Noite”, com Charles Bronson), meio mundo tinha caído em cima destas obras, apelidando-as de tudo e mais alguma coisa. Hoje a indiferença é total. Não é só em Portugal que a justiça está em crise, portanto, para a maioria achar natural que se exerça “justiça pelas próprias mãos”. Inquietante.

POUR ELLE
Título original: “Pour elle” ou "Anything for Her" ou "For Her"
Realização: Fred Cavayé (França, 2008); Argumento: Fred Cavayé, Guillaume Lemans; Produção: Christine De Jekel, Olivier Delbosc, Eric Jehelmann, Marc Missonnier, Fernando Victoria de Lecea; Música: Klaus Badelt; Fotografia (cor): Alain Duplantier; Montagem: Benjamin Weill; Casting: Gigi Akoka; Design de produção: Philippe Chiffre; Decoração: Ariane Audouard; Guarda-roupa: Fabienne Katany; Maquilhagem: Fabienne Robineau; Direcção de Produção: Samuel Amar, Marie-Eve Graviou-Dural; Departamento de arte: Thomas Akoka, Tara Roy; Som: Nicolas Dambroise, Alain Féat; Efeitos especiais: Olivier Marais, Julien Poncet de la Grave ; Efeitos visuais: Alain Carsoux, Brice Colinet, Séverine De Wever, Guillaume Le Gouez, Joel Pinto; Companhias de produção: Fidélité Films, Wild Bunch, TF1 Films Production, Jerico, TPS Star; Intérpretes: Vincent Lindon (Julien), Diane Kruger (Lisa), Lancelot Roch (Oscar), Olivier Marchal (Henri Pasquet), Hammou Graïa (Comandante Susini), Liliane Rovère (Mãe de Julien), Olivier Perrier (Pai de Julien), Moussa Maaskri, Rémi Martin, Thierry Godard, Slimane Hadjar, Dorothée Tavernier, Alaa Safi, Joseph Beddelem, Ivan Franek, Pascal Parmentier, Kader Boukhanef, Odile Roire, Martine Vandeville, Gilles Kneuse, Nathalie Bécue, Frédéric Maranber, Marie-France Santon, Pierre Benoist, Patrick Doud, Diane Stolojan, etc. Duração: 96 minutos; sem distribuição em Portugal; Estreia em França: 3 de Dezembro de 2008.
Classificação: **

72 HORAS
Título original: The Next Three Days
Realização: Paul Haggis (EUA, França, 2010); Argumento: Paul Haggis, segundo argumento de “pour Elle”, de Fred Cavayé e Guillaume Lemans; Produção: Olivier Delbosc, Eugénie Grandval, Paul Haggis, Anthony Katagas, Agnès Mentre, Marc Missonnier, Michael Nozik; Música: Danny Elfman, Alberto Iglesias; Fotografia (cor): Stéphane Fontaine; Montagem: Jo Francis; Casting: Randi Hiller; Design de produção: Laurence Bennett; Direcção artística: Gregory S. Hooper; Decoração: Linda Lee Sutton; Guarda-roupa: Abigail Murray; Maquilhagem: Camille Friend, Melanie Hughes; Direcção de Produção: John Fedynich, Anthony Katagas, Curtis A. Miller, Carl Pedregal, Donna Sloan; Assistentes de realização: Dieter 'Dietman' Busch, Alexander H. Gayner, Craig Haagensen, Susan Ransom-Coyle, Donald Sparks; Departamento de arte: Jenn Albaugh, Eva Kamienska-Carter, Joseph Waterkotte; Som: Lon Bender, Gary A. Hecker; Efeitos especiais: Drew Jiritano; Efeitos visuais: Justin Pascal, Mike Uguccioni, Ashley J. Ward; Companhias de produção: Lionsgate, Fidélité Films, Hwy61; Intérpretes: Russell Crowe (John Brennan), Elizabeth Banks (Lara Brennan), Liam Neeson (Damon Pennington), Michael Buie (Mick Brennan), Moran Atias (Erit), Remy Nozik (Jenna), Helen Carey (Grace Brennan), Brian Dennehy (George Brennan), Toby Green, Tyler Green, Jason Beghe, Aisha Hinds, Ty Simpkins, Veronica Brown, Olivia Wilde, Leslie Merrill, Alissa Haggis, Daniel Stern, James Donis, Rachel Deacon, Glenn Taranto, Derek Cecil, Kaitlyn Wylde, Zachary Sondrini, Lauren Haggis, Jonathan Tucker, Tyrone Giordano, James Ransone, Etta Cox, Barry Bradford, Rick Warner, etc. Duração: 122 minutos; Distribuição em Portugal: EcoFilmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 27 de Janeiro de 2011.
Classificação: **

HOJE, NA REITORIA DA UNIVERSIDADE CLÁSSICA

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As Cem Lições, integradas na celebração do Centenário, serão dadas por cem antigos alunos da Universidade de Lisboa. O tópico da lição é de livre escolha de quem a profere. É talvez natural que a experiência universitária e o seu prolongamento, eufórico ou menos eufórico, na vida desses antigos alunos possam ser objecto das suas lições. É igualmente natural que as actividades profissionais ou áreas disciplinares a que, com reconhecido brilho, se dedicaram nas suas vidas, nelas sejam objecto de análise.
Sala de conferências
Reitoria da Universidade de Lisboa
18h – 20h

 PROGRAMAÇÃO

Lição 18 - Ter. 8 Fevereiro
Nuno Júdice - Tema: Reler Camões
Poeta e professor universitário. N. Mexilhoeira Grande, 1949. Antigo aluno de Filologia Românica na F. Letras da UL. Autor de vários livros de poesia, iniciados por A Noção do Poema (1972), romances e diversos ensaios e estudos. Professor Associado na FCSH da UNL.

Lição 19 - Ter. 8 Fevereiro
Lauro António - Tema: Vamos falar de Cinema
Cineasta. N. Lisboa, 1942. Antigo aluno de História da F. Letras da UL. Dedicou-se à crítica cinematográfica, mantendo o programa televisivo “Lauro António apresenta”. Realizador e documentarista, a sua obra mais conhecida é “Manhã Submersa” (1980). 

Lição 20 - Qua. 9 Fevereiro
Guilherme Oliveira Martins - Tema: Cultura de responsabilidade - prestar contas e agir criativamenteJurista. N. Lisboa, 1952. Presidente da recém constituída Associação de Antigos Alunos da UL, onde cursou Direito. Foi deputado e ministro. Actualmente é Presidente do Tribunal de Contas.

 Lição 21 - Qua. 9 Fevereiro
Vasco Graça Moura - Tema: Sôbolos rios que vão: algumas recapitulaçõesPoeta e ensaísta. N. Foz do Douro, 1942. Antigo aluno da F. de Direito da UL. Obra inclui poesia, ensaio, romance e tradução de clássicos. Foi deputado (AR e PE) e membro do governo. Exerceu cargos de direcção em empresas públicas (INCM) e comissões oficiais (CNC Descobrimentos Portugueses, "Expo'92" de Sevilha).

Lição 22 - Qui. 10 Fevereiro
Carlos Matos Ferreira - Tema: A FCUL, o IST e a Física dos Plasmas: os acasos de uma vidaProfessor universitário. N. Lisboa, 1948. Fez os preparatórios na Faculdade de Ciências da UL, licenciando-se em Engenharia Electrotécnica no Instituto Superior Técnico. Trabalha na área da Física de Plasmas. Foi presidente do IST entre 2001 e 2009.

Lição 23 - Qui. 10 Fevereiro
António-Pedro Vasconcelos - Tema: A importância da TV no mundo de hojeCineasta. N. 1939, Leiria. Antigo aluno da F. Direito da UL. Co-fundador do Centro Português de Cinema (C.P.C.), que produziu “Perdido por Cem...” (1972), a sua primeira longa metragem. Realizou, entre outros, "O Lugar do Morto" (1984), "Jaime" (1999) e, mais recentemente, "Os Imortais" (2003), "Call Girl" (2007) e "A Bela e o Paparazzo" (2010).
 
Lição 24 – Sex. 11 Fevereiro
Carlos Caldas - Tema: Da Universidade de Lisboa a Universidade de Cambridge: uma jornada a fazer perguntasInvestigador em Genómica Funcional do Cancro. N. Oliveira de Frades, 1960. Antigo aluno da F. Medicina da UL. Dirige unidades de oncologia clínica em Cambrige, na Universidade e no Cancer Research Institute. 

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

FPF: A CORAGEM NA JUSTIÇA!


A FPF resolveu fazer justiça. Finalmente! Numa atitude de um total arrojo, multou o Atlético Clube da Malveira e impediu-o de se manter na prova que disputava, a série E da terceira divisão nacional, por incumprimento. Não pagou o que devia, 7, 28 (sim sete euros e vinte e oito cêntimos!). (ver notícia no "Record" de hoje).
É esta mesma Federação Portuguesa de Futebol que incorre em várias penas, a nível nacional e internacional, por não respeitar regras, nacionais e internacionais.
É esta mesma FPF que tem no seu seio dezenas e dezenas de clubes que têm passivos de milhões de euros. Mas é sempre necessário ser corajoso e dar o exemplo e nada melhor do que atacar o mexilhão.
E um pano encharcado, não ia bem?