segunda-feira, fevereiro 17, 2014

CINEMA: HER


UMA HISTÓRIA DE AMOR

“Her” é um triunfo em toda a linha, a começar desde logo pelo clima que cria. Ao pretender-se um história de amor num futuro próximo, a ambiência que o filme suscita é particularmente inquietante, porque tão depressa nos parece estarmos nos nossos dias, como num “futuro próximo”. Na verdade, estamos nos “nossos dias”. Os cenários terão sido aqui e ali retocados, mas no essencial, nos exteriores e interiores, o que vemos é Los Angeles e Xangai, bem enquadrados para nos oferecer alguma estranheza, mas nada mais do que isso. O vestuário e os adereços parecem de hoje, talvez um pouco “casual” demais. Elegantes mas desportivos. Há os telemóveis, que são mais de imagem do que de som, mas ver as pessoas nas ruas passarem agarradas a eles já não é surpresa. Só as funções diferem. Mas a inquietação que transmite ao espectador, ao afirmar-se num futuro próximo e ao nos surgir tão banal, é fortíssima. Tanto mais que o tema é inquietante.
Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor de cartas sentimentais, profissão de futuro (apesar de já ter sido do passado, ainda que de outra forma), acaba de se separar da mulher, vive sozinho, é um indivíduo solitário, que tem amigos no local de trabalho e na vizinhança, mas não é só ele que nos oferece uma imagem de solidão. A solidão é uma tonalidade colectiva, mas os rostos não são de infelicidade. Há sorrisos, uma certa nostalgia nalguns olhares, anda-se só pelas ruas, mas a qualidade de vida aparenta ser boa. Não se vê miséria, não se fala de dificuldades, as ruas estão esmeradamente limpas, estamos longe das imagens catastróficas de certas obras que nos imaginam futuros negros, tipo “Blade Runner”.

O computador é o local de trabalho de Theodore. Um dia, ouve falar num novo sistema operacional para seu computador, o SO1, através do qual pode falar com operadoras virtuais que podem satisfazer os seus desejos. Profissionais, de início. Emocionais logo a seguir.  Nada de muito novo para quem já frequentou chats, blogues, facebooks e quejandos. Com a diferença de que a Samantha (Scarlett Johansson) que responde do outro lado não é real, paira no éter. Nos chats pode não se saber quem está do outro lado, mas em princípio é alguém de carne e osso. Aqui essa materialidade não existe à partida.
Mas, apesar disso, Theodore não resiste ao apelo e apaixona-se pela voz e por tudo quanto ela traz consigo. Ela está sempre disponível, desliga-se quando não é necessária, ajuda-o no que ele necessita, e geme languidamente de prazer nas ocasiões certas. A relação amorosa é um facto, pelo menos do lado de Theodore, mas quem sabe o que sente Samantha?


No mesmo andar de Theodore vive um casal. Amy (Amy Adams) é abandonada pelo marido, e encosta a cabeça no ombro do vizinho, para se sentir reconfortada. Poderia ser uma nova história de amor, esta mais normal, mas o que será a normalidade num “futuro próximo”? O que “Her” nos deixa é a sensação de que tudo será diferente e, apesar de uma certa nostalgia que paira no ar, nada nos diz que o futuro será pior do que o presente, o que é um aspecto  muito inquietante do filme de Spike Jonze. Com um tal argumento, o que se aguarda é um final calamitoso, onde o homem contemporâneo se poderia ver dominado pela tecnologia, onde a solidão tudo corrói até ao suicídio, onde o desespero emocional fosse devastador. Nada disso se sente no filme. Há incomodidade, há alguma ausência de comunicação, há emoções perdidas? Claro, mas sempre houve e “Her” diz-nos que sempre haverá. Não é um filme catástrofe, mesmo que a catástrofe seja sentimental. Muito pelo contrário. No final de “Tempos Modernos”, de Chaplin (1935), Charlot e a companheira partem com alguma esperança, rumo ao desconhecido, vemo-los de costas estrada fora. Aqui, Theodore e Adam, do alto do seu terraço, olham o horizonte. Na companhia um do outro. Vemo-los igualmente de costas e é um “end” que não sabemos se é “happy” ou não, mas é um grande final.
Spike Jonze é um dos mais interessantes cineastas da moderna Hollywood e um dos menos convencionais. Tem uma extensa filmografia, com dezenas e dezenas de curtas metragens e de documentários, muitos experimentais, e algumas longas que mostram bem o seu desalinhamento da produção corrente: “Queres Ser John Malkovich?” (1999), “Inadaptado” (2002), “O Sítio das Coisas Selvagens” (2009) até chegar a esta “Uma História de Amor” (2013) que é um exercício brilhante de um cineasta que manuseia como poucos as subtilezas das emoções e passeia a câmara com a delicadeza e o pudor e um predestinado.
Depois o argumento, do mesmo Spike Jonze, é de uma inteligência e originalidade invulgares, a fotografia de Hoyte Van Hoytema ajusta-se brilhantemente à doçura meiga das tonalidades, a música de Owen Pallett, e dos Arcade Fire, é de uma envolvência absoluta, a montagem de Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen muito boa e a concepção plástica de K.K. Barrett admirável de justeza. Começam a faltar os adjectivos para a interpretação absolutamente extraordinária, de rigor e contenção, de Joaquin Phoenix, muito bem acompanhado por Amy Adams (que belíssima actriz!), Rooney Mara, Olivia Wilde, ou de Scarlett Johansson, a voz de Samantha.
Indispensável, portanto.


UMA HISTÓRIA DE AMOR
Título original: Her

Realização: Spike Jonze (EUA, 2013); Argumento: Spike Jonze; Produção: Ray Angelic, Chelsea Barnard, Megan Ellison, Natalie Farrey, Spike Jonze, Vincent Landay, Daniel Lupi; Música: Owen Pallett, Arcade Fire; Fotografia (cor): Hoyte Van Hoytema; Montagem: Jeff Buchanan, Eric Zumbrunnen; Casting: Cassandra Kulukundis, Ellen Lewis; Design de produção: K.K. Barrett; Direcção artística: Austin Gorg; Decoração: Gene Serdena; Guarda-roupa: Casey Storm; Maquilhagem: Steve Artmont, Kristin Berge, Cydney Cornell, Bo Xian, Nani Velez, Joy Zapata; Direcção de Produção: Randall James Bol, Daniel Lupi, James Masi, Michael McDermott, Hameed Shaukat, Will Weiske; Assistentes de realização: Robert E. Kay, Sylvia Liu, David K. Riebel, Rod Smith, Thomas Patrick Smith, Cecilia Sweatman; Departamento de arte: Allen Coulter, Venessa De Anda, Jane Fitts, Chris Forster, Sonny Gerasimowicz; Som: Ren Klyce; Efeitos especiais: Elia P. Popov; Efeitos visuais: Janelle Croshaw, Doron Kipper, Brice Liesveld, Fredrik Nord, Andrew Wood; Companhias de produção: Annapurna Pictures; Intérpretes: Joaquin Phoenix (Theodore Twombly), Amy Adams (Amy), Rooney Mara (Catherine), Olivia Wilde (mulher em encontro), Scarlett Johansson (voz de Samantha), Chris Pratt (Paul), Matt Letscher (Charles), Sam Jaeger (Dr. Johnson), Luka Jones (Mark Lewman), Kristen Wiig (voz sexy), Bill Hader (amigo em sala de chat), Spike Jonze (voz de criança), Portia Doubleday, Soko, Brian Cox, Lynn Adrianna, Lisa Renee Pitts, Gabe Gomez, Chris Pratt, Artt Butler, May Lindstrom, Rooney Mara, Matt Letscher, David Azar, Dr. Guy Lewis, Melanie Seacat, Pramod Kumar, Evelyn Edwards, Steve Zissis, Dane White, Nicole Grother, James Ozasky, Samantha Sarakanti, Luka Jones, Gracie Prewitt, Claudia Choi, Laura Kai Chen, Portia Doubleday, Wendy Leon, Charles Riley, Robert Benard, etc. Duração: 126 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Audiovisuais; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Fevereiro de 2014.

BAFTAS 2014: OS VENCEDORES



BAFTAS 2014: OS VENCEDORES

Acabaram de ser atribuídos os BAFTAS 2014, os Oscars de Inglaterra. Grande Vencedor "Gravidade", mas também "12 Anos Escravo" e "Golpada Americana". 
Seguem os nomeados em cada categoria e os vencedores assinalados com **.

MELHOR FILME EM LÍNGUA INGLESA
**12 Years a Slave, Anthony Katagas, Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Steve McQueen
American Hustle, Charles Roven, Richard Suckle, Megan Ellison, Jonathan Gordon
Captain Phillips, Scott Rudin, Dana Brunetti, Michael De Luca
Gravity, Alfonso Cuarón, David Heyman
Philomena, Gabrielle Tana, Steve Coogan, Tracey Seaward

MELHOR FILME INGLÊS
** Gravity, Alfonso Cuarón, David Heyman, Jonás Cuarón
Mandela: Long Walk to Freedom, Justin Chadwick, Anant Singh, David M. Thompson, William Nicholson
Philomena, Stephen Frears, Gabrielle Tana, Steve Coogan, Tracey Seaward, Jeff Pope
Rush, Ron Howard, Andrew Eaton, Peter Morgan
Saving Mr Banks, John Lee Hancock, Alison Owen, Ian Collie, Philip Steuer, Kelly Marcel, Sue Smith
The Selfish Giant, Clio Barnard, Tracy O’Riordan

REVELAÇÂO INGLESA (ARGUMENTISTA, REALIZADOR ou PRODUTOR)
Colin Carberry (Writer), Glenn Patterson (Writer) - Good Vibrations
Kelly Marcel (Writer) - Saving Mr Banks
** Kieran Evans (Director/Writer) - Kelly + Victor
Paul Wright (Director/Writer), Polly Stokes (Producer) -  - Those in Peril
Scott Graham (Director/Writer) – Shell

MELHOR FILME EM LINGUA NÃO INGLESA
The Act of Killing, Joshua Oppenheimer, Signe Byrge Sørensen
Blue is the Warmest Colour, Abdellatif Kechiche, Brahim Chioua, Vincent Maraval
** The Great Beauty, Paolo Sorrentino, Nicola Giuliano, Francesca Cima Metro Manila Sean Ellis, Mathilde Charpentier Wadjda Haifaa Al-Mansour, Gerhard Meixner, Roman Paul

DOCUMENTÁRIO
** The Act of Killing, Joshua Oppenheimer
The Armstrong Lie, Alex Gibney
Blackfish, Gabriela Cowperthwaite
Tim’s Vermeer, Teller, Penn Jillette, Farley Ziegler
We Steal Secrets: The Story of Wikileaks, Alex Gibney

MELHOR ANIMAÇÃO
Despicable Me 2, Chris Renaud, Pierre Coffin
** Frozen, Chris Buck, Jennifer Lee
Monsters University, Dan Scanlon

MELHOR REALIZADOR
Steve McQueen  - 12 Years a Slave
David O Russell  - American Hustle
Paul Greengrass  - Captain Phillips
** Alfonso Cuarón  - Gravity
Martin Scorsese  - The Wolf of Wall Street

MELHOR ARGUMENTO
** Eric Warren Singer, David O. Russell  - American Hustle
Woody Allen  - Blue Jasmine
Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón  - Gravity
Joel Coen, Ethan Coen  - Inside Llewyn Davis
Bob Nelson  - Nebraska

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
John Ridley  - 12 Years a Slave
Richard LaGravenese  - Behind the Candelabra
Billy Ray  - Captain Phillips
** Steve Coogan  - Jeff Pope, Philomena
Terence Winter  - The Wolf of Wall Street

MELHOR ACTOR
Bruce Dern  - Nebraska
** Chiwetel Ejio -  12 Years a Slave
Christian Bale  - American Hustle
Leonardo DiCaprio  - The Wolf of Wall Street
Tom Hanks  - Captain Phillips

MELHOR ACTRIZ
Amy Adams  - American Hustle
** Cate Blanchett  - Blue Jasmine
Emma Thompson  - Saving Mr Banks
Judi Dench  - Philomena
Sandra Bullock  - Gravity

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
** Barkhad Abdi  - Captain Phillips
Bradley Cooper  - American Hustle
Daniel Brühl  - Rush
Matt Damon  - Behind the Candelabra
Michael Fassbender  - 12 Years a Slave

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
** Jennifer Lawrence  - American Hustle
Julia Roberts  - August: Osage County
Lupita Nyong’o  - 12 Years a Slave
Oprah Winfrey  - The Butler
Sally Hawkins  - Blue Jasmine

MELHOR MÚSICA ORIGINAL
Hans Zimmer  - 12 Years a Slave
John Williams  - The Book Thief
Henry Jackman  - Captain Phillips
** Steven Price  - Gravity
Thomas Newman  - Saving Mr Banks

MELHOR FOTOGRAFIA
Sean Bobbitt  - 12 Years A Slave
Barry Ackroyd  - Captain Phillips
** Emmanuel Lubezki  - Gravity
Bruno Delbonnel  - Inside Llewyn Davis
Phedon Papamichael  - Nebraska

MELHOR MONTAGEM
Joe Walker  - 12 Years a Slave
Christopher Rouse  - Captain Phillips
Alfonso Cuarón, Mark Sanger  - Gravity
** Mike Hill, Dan Hanley  - Rush
Thelma Schoonmaker  - The Wolf of Wall Street

MELHOR DIRECÇÃO ARTISTICA
Adam Stockhausen, Alice Baker  - 12 Years a Slave
Judy Becker, Heather Loeffle  - American Hustle
Howard Cummings  - Behind the Candelabra
Andy Nicholson, Rosie Goodwin, Joanne Woodlard  - Gravity
** Catherine Martin, Beverley Dunn  - The Great Gatsby

MELHOR GUARDA ROUPA
Michael Wilkinson  - American Hustle
Ellen Mirojnick  - Behind the Candelabra
** Catherine Martin  - The Great Gatsby
Michael o’Connor  - The Invisible Woman
Daniel Orlandi  - Saving Mr Banks

MELHOR MAQUILHAGEM
** Evelyne Noraz, Lori Mccoy-Bell  - American Hustle
Kate Biscoe, Marie Larkin  - Behind the Candelabra
Debra Denson, Beverly Jo Pryor, Candace Neal  - The Butler
Maurizio Silvi, Kerry Warn  - The Great Gatsby
Peter Swords King, Richard Taylor, Rick Findlater  - The Hobbit: The Desolation of Smaug,

MELHOR SOM
Richard Hymns, Steve Boeddeker, Brandon Proctor, Micah Bloomberg, Gillian Arthur  - All is Lost
Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith, Chris Munro, Oliver Tarney  - Captain Phillips
** Glenn Freemantle, Skip Lievsay, Christopher Benstead, Niv Adiri, Chris Munro  - Gravity
Peter F. Kurland, Skip Lievsay, Greg Orloff  - Inside Llewyn Davis
Danny Hambrook, Martin Steyer, Stefan Korte, Markus Stemler, Frank Kruse  - Rush

MELHORES EFEITOS VISUAIS
** Tim Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould, Nikki Penny  - Gravity
Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton, Eric Reynolds  - The Hobbit: The Desolation of Smaug
Bryan Grill, Christopher Townsend, Guy Williams, Dan Sudick  - Iron Man 3
Hal Hickel, John Knoll, Lindy De Quattro, Nigel Sumner  - Pacific Rim
Ben Grossmann, Burt Dalton, Patrick Tubach, Roger Guyett  - Star Trek Into Darkness

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO INGLESA
Everything I Can See From Here, Bjorn-Erik Aschim, Friederike Nicolaus, Sam Taylor
I Am Tom Moody, Ainslie Henderson
** Sleeping With The Fishes, James Walker, Sarah Woolner, Yousif Al-Khalifa

MELHOR CURTA-METRAGEM INGLESA
Island Queen, Ben Mallaby, Nat Luurtsema
Keeping Up With The Joneses, Megan Rubens, Michael Pearce, Selina Lim
Orbit Ever After, Chee-Lan Chan, Jamie Stone, Len Rowles
** Room 8, James W. Griffiths, Sophie Venner
Sea View, Anna Duffield, Jane Linfoot

MELHOR ACTOR REVELAÇÃO (votado pelo público)
Dane Dehaan
George Mackay
Lupita Nyong’o
** Will Poulter

Léa Seydoux

sábado, fevereiro 15, 2014

CINEMA: AO ENCONTRO DE MR. BANKS


AO ENCONTRO DE MR. BANKS

Pamela Lyndon Travers, escritora que criou “Mary Poppins” e assinava P.L. Travers para encobrir o facto de ser mulher, fora baptizada com o nome de Helen Lyndon Goff e nascera na Austrália, em Maryborough, Queensland, a 9 de Agosto de 1899, vindo a morrer em Londres, a 23 de Abril de 1996. Quando tinha sete anos, o pai faleceu, um acontecimento que para sempre marcaria a jovem. Desde muito nova que se dedica à poesia, tornando-se escritora, jornalista e passando mesmo pelo teatro, como actriz. Anda pela Austrália e pela Nova Zelândia, em tournée, depois viajou até à Irlanda, onde conheceu vários poetas e escritores, passando a Londres, onde se instala. Publica em 1934 “Mary Poppins”, que rapidamente se tornou um sucesso retumbante.
Em Hollywood, as filhas de Walt Disney lêem o livro e adoram. O pai promete-lhes que o vai adaptar ao cinema. Entra em contacto com a escritora, que nem quer ouvir falar em adaptações, detesta musicais e tem horror a “bonecos animados”. Durante vinte anos, trocam cartas e nem um nem outro desiste dos seus intentos. “Saving Mr. Banks” é, pois, a história de dois teimosos que se enfrentam para cumprir promessas. Ele quer adaptar a cinema o livro para cumprir o que jurara às filhas, ela não quer ceder para se manter fiel à promessa que fizera a si própria.


A determinada altura da vida de P.L. Travers, as receitas literárias começam a diminuir e o seu agente convence-a a viajar até Los Angeles. Isso acontece em 1961. Como se calcula, a escritora começa por detestar a cidade e o encontro com Walt Disney é desastroso. A autora de “Mary Poppins” revela-se uma velhota ácida, fria, distante, agressiva, nada cooperante, mostra que está a fazer um frete insuportável. As reuniões com argumentistas, compositor, letristas, produtores, secretárias and so on, são lendárias. A má disposição e o negativismo de P.L. Travers julgar-se-iam inultrapassáveis. Se o tivessem sido, não haveria agora este filme, nem “Mary Poppins” com pinguins em desenho animado, a dançarem em redor de Dick Van Dyke. Mas, lentamente, vai cedendo aos encantos do lugar e das personagens e talvez também ao cansaço. O filme faz-se, estreia-se em 1964, é um triunfo, mas ela mantém as reservas e não permite a Walt Disney aproveitar nenhuma das quatro sequelas que entretanto escrevera e editara com a sua Mary Poppins como protagonista. Fim de história, que não contém nenhum suspense especial, pois é do conhecimento geral. Faz parte da História. Este é mais um filme que ficciona factos reais.
John Lee Hancock, o realizador, é igualmente um argumentista de algum sucesso, tendo assinado, enquanto tal, algumas obras muito interessantes, como “Um Mundo Perfeito” e “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, ambas rodadas por Clint Eastwood, tendo dirigido como realizador “The Rookie - O Treinador”, “Álamo” e “Um Sonho Possível”, antes de se entregar a este “Ao Encontro de Mr. Banks”. Nada de particularmente excitante, o mesmo acontecendo agora, ainda que neste último caso, a história tenha a sua graça, e os intérpretes sejam excelentes. Emma Thompson compõe um retrato inspirado desta insuportavelmente irritante P.L. Travers; Tom Hanks é um Walt Disney impecável, talvez demasiado “politicamente correcto” (mas que dizer, se a produção é dos seus estúdios e herdeiros?); Annie Rose Buckley é uma miudinha adorável, que as asperezas da vida transformaram na agreste escritora; Colin Farrell é o pai destemperado que morre cedo e deixa um rasto de tristeza na filha; Ruth Wilson é a sacrificada mãe; Paul Giamatti é admirável como motorista particular de Travers, e por aí fora. Só pelas interpretações merece a pena as duas horas de visionamento. Mas a produção é cuidada, os aspectos técnicos estão à altura da casa produtora e o resultado final é mais um daqueles filmes para “toda a família” a que estes estúdios nos habituaram há longas décadas.


Para quem gosta de cinema e de espreitar os bastidores das produções de Hollywood, este é mais um aspecto a ter em conta. O que coloca algumas objecções ao produto, será por um lado o ar muito bem comportado de toda a gente, o que os permite supor que os argumentistas (Kelly Marcel e Sue Smith) adocicaram muito a realidade e, por outro, uma estrutura narrativa, tipo sanduíche, com duas histórias entremeadas a decorrer em simultâneo, por um lado a juventude de P.L. Travers na Austrália, por outro lado o encontro desta com Disney em Hollywood. Obviamente que se percebe o porquê da opção: a história da juventude de P.L. Travers é a base para a compreensão do seu comportamento ao longo da vida. Mas o esquema acaba por ser um pouco enfadonho, por repetitivo.
Globalmente, é um espectáculo que se vê com agrado, mas não muito mais do que isso. O que já não é pouco se lhe acrescentarmos o brilhantismo das representações.


AO ENCONTRO DE MR. BANKS
Título original: Saving Mr. Banks

Realização: John Lee Hancock (EUA, Inglaterra, Austrália, 2013); Argumento: Kelly Marcel, Sue Smith; Produção: Ian Collie, Mark Cooper, K.C. Hodenfield, Christine Langan, Troy Lum, Andrew Mason, Alison Owen, Philip Steuer, Paul Trijbits; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): John Schwartzman; Montagem: Mark Livolsi; Casting: Ronna Kress; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Lauren E. Polizzi; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi, Catherine Childers, Deborah La Mia Denaver, Julie Hewett, Frances Mathias; Direcção de Produção: Andrew C. Keeter, Philip Steuer, Todd London; Assistentes de realização: Paula Case, Clark Credle, K.C. Hodenfield, Jeff Okabayashi, Stuart Renfrew; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Martin Charles, Steve Christensen, Mike Piccirillo, Terry Scott, Sally Thornton; Som: Yann Delpuech, Jon Johnson, David M. Roberts; Efeitos especiais: J.D. Schwalm; Efeitos visuais: Vincent Cirelli, Justin Johnson, Lauren Miyake, Simon Mowbray, Luma Pictures; Companhias de produção: Walt Disney Pictures, Ruby Films, Essential Media & Entertainment, BBC Films, Hopscotch Features; Intérpretes: Emma Thompson (P.L. Travers), Tom Hanks (Walt Disney), Annie Rose Buckley (Ginty), Colin Farrell (Travers Goff), Ruth Wilson (Margaret Goff), Paul Giamatti (Ralph), Bradley Whitford (Don DaGradi), B.J. Novak (Robert Sherman), Jason Schwartzman (Richard Sherman), Lily Bigham (Biddy), Kathy Baker (Tommie), Melanie Paxson (Dolly), Andy McPhee (Mr. Belhatchett), Rachel Griffiths (Tia Ellie), Ronan Vibert (Diarmuid Russell), Jerry Hauck, Laura Waddell, Fuschia Sumner, David Ross Paterson, Michelle Arthur, Michael Swinehart, Bob Rusch, Paul Tassone, Luke Baines, Demetrius Grosse, Steven Cabral, Kimberly D'Armond, Mia Serafino, Claire Bocking, Dendrie Taylor, etc. Duração: 125 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Janeiro de 2014.

                                                                 A verdadeira P.L. Travers e Emma Thompson, no filme.

sábado, fevereiro 08, 2014

CINEMA: O LOBO DE WALL STREET


O LOBO DE WALL STREET

Conta-se que, em várias épocas, e através de testemunhos diversos, reis e imperadores, generais e chefes de estado, quando recebiam uma má notícia, normalmente das frentes de batalha, mandavam matar o mensageiro. Existe um ditado latino que confirma a história ou a lenda: “Ne nuntium necare”: Não mate o mensageiro. Shakespeare actualizou a mensagem para "Don't shoot the messenger", em “Henry IV”, e igualmente em “Antony and Cleopatra”. Na Antiguidade Clássica, Sófocles, em “Antigona”, não era tão drástico, mas mantinha o essencial: “ninguém gosta do mensageiro que traz más notícias”.
Nos nossos dias, há muita gente que não gosta de “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese. Já li um pouco de tudo, da “obra-prima” à “merda”, e parece-me que muitos atacam o filme, não pelo trabalho de Scorcese, mas essencialmente pela “mensagem” que ele transmite. Julgo que há alguns espectadores que detestam não tanto o filme, mas sobretudo o retrato que ele oferece de um certo extracto da sociedade contemporânea. Recusam-se mesmo a acreditar que tal retrato seja autêntico. Na verdade, é demasiado mau para ser verdade. Mas acredito que seja verdade. Vou mais longe: acredito que é por causa do que vimos e ouvimos em “O Lobo de Wall Street” que estamos como estamos, um pouco por todo o lado. O filme fala de Wall Street, mas Walll Street aqui é um símbolo mundial, dos EUA à China, passando por este recanto à beira Atlântico plantado.


Vamos por partes. Este é mais um filme baseado em factos reais. Jordan Belfort, o protagonista, existiu e existe, escreveu um livro que anda nas montras de todas as livrarias do mundo, que conta as suas “aventuras” no universo da alta e da baixa finança. O livro tornou-se um best-seller e percebe-se o que levou Scorsese a interessar-se por ele: é um excelente ponto de partida para um argumento sobre o que se passa, de há umas décadas para cá, com um certo tipo de operações bolsistas, que envolvem toda a finança mundial, os bancos, as bolsas, a corrupção, o arrivismo, impondo um estilo de vida que é a personificação da falta de escrúpulos destes indivíduos medonhos que comandam os destinos da Humanidade.
Os factos remontam aos anos 80. Como poderia deixar de ser, se foi aí que tudo começou, com Reagan e Thatcher, e o aparecimento dos yuppies tão acarinhados pelos poderes públicos, que iriam provocar, através deles, a “revolução” económica, social e política que estamos a viver agora. A ideia central era valorizar o dinheiro e desvalorizar tudo o mais. Não há moral, não há ética, não há amizades ou amor, não há cultura, não há nada que não seja cifrões. A globalização ajudou à festa e a realidade virtual foi a cereja no cimo do bolo. Antigamente, o capitalismo vivia do acumular da riqueza que se extraía do trabalho, trabalho de administradores e gestores, e sobretudo da mão de obra de operários (estes explorados, em noventa por cento dos casos), mas, a partir da economia virtual, da especulação bolsista, o dinheiro multiplica-se de forma mágica. A exploração continua, mas agora não há “rostos”, o que existe é a “financia internacional”.


Jordan Belfort percebeu isso quando entrou para uma empresa de correctores de bolsa e teve um mestre fabuloso, Mark Hanna (um espantoso Matthew McConaughey no filme), que lhe ensina que na vida há três pilares: dinheiro para multiplicar, prostitutas para usar e drogas para consumir e manter a “máquina” alerta. Bater no peito, como os raguebistas neozelandeses também ajuda, mas não é vital. Quando se começa a ambientar e a subir na vida, a empresa vai a falência e Jordan, espertalhaço, segue os ventos da mudança. Em lugar de uma grande empresa que joga com o capital dos tubarões, vai para a uma pequena loja que faz o mesmo, mas com as economias do peixe miúdo. Com uma diferença. Enquanto nas grandes empresas os corretores cobram 10% e dão a ganhar algum aos multimionários, ali cobram 50% e a arraia-miúda que se cuide. O mais certo é não ganhar nada e perder as economias, mas os seus 50% estão garantidos.
Faz fortuna, funda a sua própria empresa e torna-se ele próprio um multimilionário com uma filosofia de vida muito restrita: ganhar o máximo de dinheiro, o mais rapidamente possível (nenhum dos seus empregado está “autorizado” a desligar um telefone sem ter “abatido” o cliente que se encontra do outro lado do fio), enquanto promove grandes bacanais com miúdas “fixes” e drogas a rodos. Uma chamada “lemon”, novidade no meio, é a que está a dar. Enquanto vão arruinando milhares de pequenos (mas gananciosos) especuladores, eles vão-se divertindo com frases que pouco mais dizem do que “fuck” e comportamentos de risco que podem acabar mal para eles e sobretudo para a economia mundial (não a economia da alta finança, mas a dos desgraçados que vivem do seu ordenado ou da sua reforma - vidé o que se passa por aqui, boa amostra).


Claro que a certa altura, o cambalacho chama a atenção das autoridades, o FBI entra na jogada, a maioria vai parar à cadeia, Jordan Belfort cumpre uma pena, três anitos, coisa pouca, mas ironia das ironias, “the show must go on”, sai da cadeia com um livro escrito a contar as suas façanhas, e agora dá conferências, bem pagas, a explicar o seu método de “empreendorismo” (onde é que eu já ouvi falar disto?).
Pois acredito que muita gente não goste de ouvir esta “mensagem”. É a confissão de uma sociedade virada do avesso, que compensa o criminoso e pune a vítima. É uma sociedade do desarincanço, da total falta de valores, de um hedonismo mórbido, de uma ausência de cultura evidente. Vive-se ao nível animalesco mais primário. Sexo já nem sequer é prazer, é mera funcionalidade, droga é entorpecimento até à idiotia, dinheiro é a suprema glorificação da carreira. As orgias relembram Roma, esquecendo-se que a seguir viria a “Queda do Império Romano”.
Martin Scorcese imprime ao seu filme o ritmo de um circo romano, com uma ironia que roça o sarcasmo, e um realismo que só muito a custo poderemos julgar caricatural. Esta é a realidade concentrada em três horas infernais que custam a digerir, é verdade. De resto, a montagem é vulcânica, as interpretações brilhantes (Leonardo Di Caprio é excelente, mas não só ele), a fotografa e a sonoplastia notáveis, e “O Lobo de Wall Street” é um must que sobretudo não deve ser ignorado. Nem sempre quem nos traz más notícias é nosso inimigo. Pode bem ser o único amigo que nos resta e aquele que nos apela ao bom senso e à racionalidade.


O LOBO DE WALL STREET
Título original: The Wolf of Wall Street

Realização: Martin Scorsese (EUA, 2013); Argumento: Terence Winter, segundo obra de Jordan Belfort; Produção: Riza Aziz, Richard Baratta, Leonardo DiCaprio, Danny Dimbort, Georgia Kacandes, Joey McFarland, Alexandra Milchan, Martin Scorsese, Adam Somner, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler, Rick Yorn; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: Thelma Schoonmaker; Casting: Ellen Lewis; Design de produção: Bob Shaw; Direcção artística: Chris Shriver; Decoração:  Ellen Christiansen; Guarda-roupa:  Sandy Powell; Maquilhagem: Mindy Hall, Michael Marino, Mary Anne Spano, Joseph Whitmeyer; Direcção de Produção:  Richard Baratta, Kelley Cribben, Adrian Harrison, Georgia Kacandes, Francesco Marras; Assistentes de realização: Adam Somner, Scott Bowers, David Fischer, Don H. Julien, Robert Legato, Francisco Ortiz; Departamento de arte: Philip Canfield, David Meyer, Alyssa Motschwiller, Raymond M. Samitz, Sha-Sha Shiau; Som: Frank Graziadei, Heather Gross, James J. Sabat Jr., James Sabat, Philip Stockton; Efeitos especiais: Drew Jiritano, R. Bruce Steinheimer; Efeitos visuais: Joe DeWalt Brown, Bruce Hwang Chen, Justin Ferk, Jason Kolowski, Robert Legato, Ben Record, Mark Russell, Dan Seddon, Lisa Spenc;  Agradecimentos: Luc Besson, Rick Hohmann, James P. Schramm; Filme dedicado a Roger Ebert; Companhias de produção: Red Granite Pictures, Sikelia Productions, Appian Way, EMJAG Productions, TWOWS; Intérpretes:  Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robbie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (Agente Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), Jon Favreau (Manny Riskin), Jean Dujardin (Jean Jacques Saurel), Joanna Lumley (Tia Emma), Cristin Milio (Teresa Petrillo), Christine Ebersole (Leah Belfort), Shea Whigham, Katarina Cas, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Brian Sacca, Henry Zebrowski, Ethan Suplee, Barry Rothbart, Jake Hoffman, Mackenzie Meehan, Bo Dietl, Jon Spinogatti, Aya Cash, Rizwan Manji, Stephanie Kurtzuba, J.C. MacKenzie, Ashlie Atkinson, Thomas Middleditch, Stephen Kunken, Edward Herrmann, Jordan Belfort, Ted Griffin, Fran Lebowitz, Robert Clohessy, Natasha Newman Thomas, Sandra Nelson, etc. Duração: 180 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 9 de Janeiro de 2014.

CRÓNICA DA SEMANA NO JORNAL I

SESSÕES CONTINUAS
MIRA MIRÓ, QUE VERGUENZA!


Ingénuos, os portugueses julgaram que, ao votar, estavam a eleger um governo. Enganaram-se. Votaram numa comissão liquidatária nomeada pela finança internacional. O que tem vindo a acontecer a seguir é bem testemunho disso: venda-se o país para os credores ficarem satisfeitos, não com o pagamento da dívida, que não pára de crescer, mas com os juros que também crescem a olhos vistos. Assim, quem tem muito fica com mais, quem tem pouco, que morra à míngua.
Depois de várias vendas a chineses, angolanos, brasileiros, americanos, europeus, restam ainda umas coisitas que dariam muito jeito a alguns outros (ou aos mesmos) estrangeiros, agora irmanados na grande Ordem do Capital Pária sem ideologia. Como sobraram umas obras de Miró (oitenta e tal, uma ninharia!), depois do cambalacho do BPN, um governo minimamente nacional pensaria na melhor forma de rentabilizar esse espólio, criando um museu, uma galeria, uma fonte nacional de receitas que não alienassem o património. A comissão liquidatária que nos (des)governa resolveu mandar à socapa as obras de arte para Londres e colocá-las em leilão na Christie´s.
Má opção, obviamente. Por várias razões. É péssimo perder património cultural nacional. É péssimo mandar para fora do país obras de arte, sem as devidas autorizações. É péssimo oferecer ao estrangeiro esta imagem de país em saldo, estilo loja de 300 ou mesmo loja de chineses. É péssimo o governo e o país serem repreendidos pela Christie´s (imagine-se ao que chegámos!) quando a leiloeira retira do leilão o que para lá mandaram com a justificação de que “as incertezas legais criadas pela disputa em curso significam que a venda não possa ocorrer em segurança”.
Só tristezas, a que se acresce mais uma, bem grave: que moral tem este governo para, a partir de agora, proibir a venda de obras do património cultural português, detidas por particulares, quando estes as pretenderem levar para fora do país?

Lauro António

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

MORRE EDUARDO COUTINHO


Eduardo Coutinho (nascido em São Paulo, a 11 de Maio de 1933, falecido a 2 de Fevereiro de 2014, no Rio de Janeiro) era considerado o maior documentarista brasileiro.  Entre muitos outros dirigiu “Edifício Master” (2002), “Santo Forte” (1999) e “Cabra Marcado Para Morrer” (1985).
Foi igualmente argumentista de alguns dos mais importantes filmes do cinema brasileiro, desde a época do cinema novo: “A Falecida” (1965) e “Garota de Ipanema” (1967), ambos  de Leon Hirszman, “Os Condenados”, de Zelito Viana (1973), “Lição de Amor”, de Eduardo Escorel (1975) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto (1976).

Na sua filmografia encontram-se: 1966: O Pacto (episódio de “ABC do Amor”); 1968: O Homem que Comprou o Mundo; 1970: Faustão; 1976: O Pistoleiro de Serra Talhada; 1976: Seis Dias em Ouricuri; 1978: Teodorico, o Imperador do Sertão; 1979: Exu, uma Tragédia Sangrenta;  1980: Portinari, o Menino de Brodósqui; 1984: Cabra Marcado para Morrer; 1987: Santa Marta - Duas semanas no morro; 1989: Volta Redonda, o Memorial da Greve; 1989: O Jogo da Dívida; 1991: O Fio da Memória; 1992: A Lei e a Vida; 1993: Boca de Lixo; 1994: Os Romeiros de Padre Cícero; 1999: Santo Forte; 2000: Babilónia 2000; 2002: Edifício Master; 2004: Peões; 2005: O Fim e o Princípio; 2007: Jogo de Cena; 2009: Moscou; 2011: As Canções. 

A Globo, do Brasil, Informou:
Filho do cineasta Eduardo Coutinho é preso pelo assassinato do pai no Rio Daniel Coutinho está internado em hospital sob custódia da polícia.Segundo a PM, vizinhos disseram que ele surtou e esfaqueou os pais.
O filho do cineasta Eduardo Coutinho, morto a facadas aos 80 anos neste domingo (2), em sua casa, na Lagoa, Zona Sul do Rio, foi preso em flagrante, segundo a Polícia Civil. Daniel Coutinho, 42 anos, é o principal suspeito do crime e está internado no Hospital Miguel Couto, sob custódia. A mulher do cineasta, Maria das Dores Coutinho, 62 anos, também foi esfaqueada e está hospitalizada em estado grave e só sobreviveu porque se trancou no banheiro após ser golpeada, segundo a Divisão de Homicídios da Polícia Civil.
saiba mais
O corpo de Eduardo Coutinho será velado a partir das 10h, na Capela 3 do Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul. O enterro está marcado para as 16h.
Segundo o delegado Rivaldo Barbosa, Daniel foi preso por homicídio doloso, quando há intenção de matar, e tentativa de homicídio. "Que o Daniel atingiu o pai e a mãe, isso é fato. Tanto é que está preso em flagrante pela morte do pai e tentativa de homicídio da mãe", explicou, em entrevista coletiva na sede da DH, na Barra. "O que aconteceu hoje, por volta das 11h, é a expressão genuína da palavra tragédia", acrescentou.
'Libertei meu pai', teria dito Daniel, que sofre esquizofrenia, teria batido na porta de um vizinho após o crime dizendo palavras desconexas. "Libertei meu pai, tentei libertar minha mãe e a mim mesmo", teria dito, segundo Rivaldo.
Daniel passou por cirurgia e está internado na unidade intermediária do Miguel Couto, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Ele levou duas facadas no abdômen e tem quadro estável. De acordo com a policiais que foram ao apartamento do cineasta, na Rua Lineu de Paula Machado, moradores disseram que o filho surtou, esfaqueou os pais e depois tentou o suicídio. Vizinhos teriam confirmado a versão à Polícia Civil, que verificou o apartamento revirado ao chegar no local, pela manhã.
A mãe dele levou dois golpes de faca nos seios, três no abdômen e teve ainda uma lesão no fígado. Segundo o delegado, elá só sobreviveu porque se trancou no banheiro e ligou para outro filho, o promotor Paulo Coutinho. De lá, só saiu com a chegada dos bombeiros. Maria das Dores também já passou por cirurgia e seu estado de saúde é grave, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.
O corpo do cineasta foi levado para o Instituto Médico Legal, de onde foi liberado por volta das 21h30. O atestado de óbito indica "perfuração contundente" na altura do abdômem, segundo funcionário da Santa Casa da Misericórdia.
O Corpo de Bombeiros informou que a chamada para a ocorrência no apartamento de Coutinho foi feita às 11h48. Homens do quartel do Humaitá constataram que o cineasta já estava morto ao chegar no local, e levaram os outros dois feridos para o Miguel Couto.
Um dos primeiros a se manifestar sobre a morte do diretor foi o também cineasta Cacá Diegues. “Ele era muito respeitado, era um mestre, os jovens cineastas do Brasil respeitavam muito ele. Coutinho era uma pessoa acima do bem e do ma”, declarou.
O também diretor de cinema Jorge Furtado ficou chocado com a notícia. "A morte do Coutinho é uma tragédia do cinema brasileiro, ele é um dos maiores documentaristas do mundo, um grande pensador do cinema."
Coutinho adorava mostrar pessoas simples em cenas comuns do dia a dia
Considerado um dos maiores documentaristas do Brasil, o paulistano Coutinho é ganhador do Kikito de Cristal, principal premiação do cinema nacional, pelo conjunto da obra. Entre seus principais filmes estão "Edifício Master", "Jogo de cena", "Babilônia 2000" e "Cabra Marcado para Morrer".
Em Junho do ano passado, ele e o também cineasta José Padilha (autor dos filmes "Tropa de Elite 1 e 2") foram convidados a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela premiação do Oscar.

CINEMA: O CLUBE DE DALLAS


O CLUBE DE DALLAS

Anos 80, nos EUA. Ron Woodroof (Matthew McConaughey, no filme) foi um electricista texano, amigo de rodeos e mulherengo, dado a drogas e de carácter um pouco violento. Em 1985, ao passar por um hospital, é-lhe diagnosticada uma infecção com o vírus da SIDA e dão-lhe trinta dias de vida. Para lá disso, amigos e conhecidos começam a evitá-lo como gay e Ron sente-se ultrajado na sua virilidade. Inicia a contragosto uma terapia com um medicamento que o hospital disponibiliza, mas não sente melhoras. Durante as sessões de tratamento, encontra um transexual, Rayon (Jared Leto), a quem a princípio repudia. Não quer nada com homossexuais. 
Mas quer viver. Começa uma investigação sobre outros medicamentos que existem fora dos EUA, onde não são permitidos pela comunidade farmacêutica, que procura privilegiar os seus produtos. Resolve então viajar até ao México e aconselhar-se com um médico proscrito que tem tido bons resultados com outros medicamentos. Contrabandear esses medicamentos proibidos para o interior dos EUA necessita de alguma imaginação. Não os pode vender a quem deles necessita, mas pode oferecê-los aos sócios de um clube que funda, onde, para se ser aderente, se pagam 400 dólares por mês e se tem direito a todas as doses necessárias. O clube é um sucesso, Ron Woodroof não só estabiliza o seu estado, como consegue tornar-se uma espécie de missionário de uma cura milagrosa. Filantropia de um lado, aventureirismo por outro, comércio a ajudar, o electricista do Texas torna-se uma personalidade incómoda a desafiar os monopólios farmacêuticos e a legislação estatal.


Entretanto, cria aliados que vão da sua médica hospitalar, Drª. Eva Saks (Jennifer Garner), ao excêntrico transexual, passando por uma multidão de doentes e de assistentes sociais que se oferecem para ajudar. Ron consciencializa a importância da sua luta, pessoal e social. Coloca o seu caso em tribunal que, de certa forma lhe dá razão, mas se sente sem poderes para ir mais longe. Perde a luta, perde a vida, mas só sete anos depois dos trinta dias que lhe tinham augurado, mas o seu testemunho e o seu exemplo serviu para alertar a sociedade, quer através de depoimentos e publicações, quer através deste filme de Jean-Marc Vallée, que recupera esta história e lhe dá o relevo merecido, sobretudo como denúncia de uma mais que possível mafia no campo dos organismos corporativos farmacêuticos que defendem os seus produtos e os seus lucros, mesmo contra os interesses da saúde pública e dos doentes.
Já não é primeiro filme a denunciar tais casos, não será certamente o último, infelizmente.
"Inspired by true events", “Dallas Buyers Club” conta com um argumento escrito por Craig Borten e Melisa Wallack, que vai investigar a vida deste homem e o seu combate pela vida e pela dignidade. Certamente com algumas liberdades ficcionais, é evidente. A realização de Jean-Marc Vallée é escorreita, sensível, furtando-se ao espectacular e à especulação fácil, mantendo um registo discreto, clássico, puxando a primeiro plano a questão social, nunca descurando, todavia, o lado pessoal e humano dos seus protagonistas. Neste aspecto, é particularmente ajudado pelas interpretações dos seus actores principais, uma dupla de respeito, Matthew McConaughey, que perdeu uma dezena e meia de quilos para se aparentar com o físico esquelético do verdadeiro Ron, e Jared Leto, que sofreu idênticas transformações para erguer a personagem do transexual Rayon. Mas estas modificações físicas de pouco serviriam se os actores não as metaformoseassem em algo de mais consistente do que uma pura perda de peso e numa performance de maquilhagem. Eles criam personagens complexas, densas, de uma plausibilidade humana singular. Matthew McConaughey, depois de uma começo de carreira a protagonizar comédias sem grande relevo, mostra em "Magic Mike", "Mud”, "Dallas Buyers Club" e nessa curta mas fulgurante aparição em “The Wolf of Wall Street”, que é, presentemente, um dos grandes actores do cinema norte-americano. Quanto a Jared Leto, que ultimamente é mais conhecido pela sua banda musical "30 Seconds to Mars", o seu trabalho é de uma delicadeza e sobriedade que lhe tem merecido os mais destacados prémios, e com razão.
Mais um excelente filme desta óptima colheita de 2013, que ficará seguramente como um dos grandes anos de cinema na história da cinematografia norte-americana.

                         O autentico Ron Woodroof e a personagem criada por Matthew McConaughey

O CLUBE DE DALLAS
Título original: Dallas Buyers Club

Realização: Jean-Marc Vallée  (EUA, 2013); Argumento: Craig Borten, Melisa Wallack; Produção: Robbie Brenner, David L. Bushell, Nicolas Chartier, Parry Creedon, Cassian Elwes, Zev Foreman, Logan Levy, Joe Newcomb, Tony Notargiacomo, Nathan Ross, Michael Sledd, Dominique Séguin, Holly Wiersma, Rachel Winter; Música: Alexandra Stréliski, Michael Wickstrom; Fotografia (cor): Yves Bélanger; Montagem: Martin Pensa, Jean-Marc Vallée; Casting: Kerry Barden, Rich Delia, Paul Schnee; Design de produção: John Paino; Direcção artística: Javiera Varas; Decoração: Robert Covelman; Guarda-roupa:  Kurt and Bart; Maquilhagem: Melanie Deforrest, Adruitha Lee, Robin Mathews, Kat Percy; Direcção de Produção:  Rachelle Bergeron, Parry Creedon, Josh Rappaport, Pierre Thériault; Assistentes de realização: Urs Hirschbiegel, Kevin Lum, Mark C. Stevens; Departamento de arte: Roger Johnson, Jessica Lee; Som: Marie-Lou Morin, Martin Pinsonnault, Leonard Suwalski; Efeitos especiais: Katie Riggs; Efeitos visuais: Marc Cote, Nathalie Lanthier; Companhias de produção: Voltage Pictures, Truth Entertainment; Intérpretes: Matthew McConaughey (Ron Woodroof), Jennifer Garner (Eve), Jared Leto (Rayon), Denis O'Hare (Dr. Sevard), Steve Zahn (Tucker), Michael O'Neill (Richard Barkley), Dallas Roberts (David Wayne), Griffin Dunne (Dr. Vass), Kevin Rankin (T.J.), Donna Duplantier (Nurse Frazin), Deneen Tyler (Denise), J.D. Evermore (Clint), Ian Casselberry, Noelle Wilcox, Bradford Cox, Rick Espaillat, Lawrence Turner, Lucius Falick, James DuMont, Jane McNeill, Don  Brady, Matthew Thompson, Tony Bentley, Sean Boyd, Rachel Wulff, Neeona Neal, Scott Takeda, John Tabler, Joji Yoshida, Carl Palmer, Martin Covert, Douglas M. Griffin, David Lichtenstein, Craig Borten, Henry Frost, Arthur Smith, etc. Duração: 117 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 16 anos; Data de estreia em Portugal: 16 de Janeiro de 2014.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

CINEMA: GOLPADA AMERICANA


GOLPADA AMERICANA

“American Hustle”, de David O. Russell, pertence a uma levada de filmes norte-americanos, de 2013, baseados em factos reais, que nos oferecem um olhar muito crítico sobre a sociedade actual, em particular a sociedade ianque. Quase todos giram em redor dos ambientes da alta finança e da corrupção que a rodeia, da sexualidade e da droga que os envolve, do crime de colarinhos brancos e da violência física e psicológica em que sobrevivem. É uma constante da cinematografia daquele país evoluir ao sabor das incidências políticas: quando ganham os republicanos as eleições para a presidência, temos obras na sua generalidade puritanas e rosáceas; quando triunfam os democráticos, a opção é por filmes críticos, de tonalidade social acentuada. Os americanos quase nunca põem em causa o sistema. Apenas se conformam com ele, no primeiro caso, elevando-o ao nível de quase perfeito, e o criticam com um olhar reformista, procurando aperfeiçoar as mazelas, no segundo caso. “Golpada Americana” pertence, pois, a esta última categoria.
Entre finais da década de 70 e inícios da de 80, nos EUA, surgiu um escândalo que ficou conhecido por “Abscam Operation”. Os seus protagonistas foram Melvin 'Mel' Weinberg, um escroquezito americano, a sua companheira de golpadas, a inglesa Evelyn Knight, e o agente do FBI, Anthony Amoroso, Jr. Junta-se a este trio a mulher oficial de Weinberg, Cynthia Marie Weinberg, e o principal visado nesta emboscada, Angelo Errichetti, então governador do Estado. Este foi um escândalo que explodiu bombasticamente nos anos 70, nos EUA, quando o agente do FBI empurra Melvin 'Mel' Weinberg e a sua amiga Evelyn Knight para um esquema sórdido que mete chantagem e delação para apanhar o citado político com a boca na botija, empochando generosa quantia de um suposto nababo árabe que se dizia disposto a investir forte em casinos no Estado de New Jersey.
“Golpada Americana”, o filme, mantém o essencial da história, alterando nomes e não muito mais. O vigarista chama-se agora Irving Rosenfeld (Christian Bale), e a sua companheira, aqui a fazer-se passar por inglesa, é a sedutora Sydney Prosser (Amy Adams). O agente do FBI é  Richie DiMaso (Bradley Cooper), o político na ficção é Carmine Polito (Jeremy Renner), e Rosalyn Rosenfeld (Jennifer Lawrence) é a ofendida esposa que irá ter papel decisivo neste imbróglio.


Num universo pantanoso, onde impera a corrupção, a violência, o sexo e as drogas, onde a suprema ambição é aumentar o pecúlio em dólares e saborear os prazeres da vida no limite, “Golpada Americana” é um retrato de uma sociedade sem escrúpulos, onde vale tudo para atingir os fins, quer se esteja do lado dos profissionais do crime como do dos agentes da ordem. Todos lutam por “uma carreira”, “um estatuto”, “subir na vida”, amealhar o mais possível e desfrutar do que lhes passe pela frente. Uma sociedade sem valores, a não ser os valores sonantes. Estamos em finais da década de 70 do século passado, mas o filme é de 2013, e por alguma razão o será: tudo se mantém igual, ou terá piorado. O caso refere-se a New Jersey, EUA, mas pode muito bem servir um pouco por todo o lado, dos EUA à China, da Itália a Angola, de Portugal ao resto do mundo. Casos destes são descobertos todos os dias. Nós só conhecemos, porém, os que vêm a público. 
O retrato não é bonito de se ver, mas a arte de David Owen Russell e o magnífico talento dos actores torna irrecusável esta viagem pelos meandros de uma sociedade a preparar as grandes crises económicas e socais que dela iriam sair (inclusive a que vivemos hoje e que não deixa de ser uma filha directa desses anos que geraram o polvo tentacular). 
David Owen Russell nasceu a 20 de Agosto de 1958, em Nova Iorque. Iniciou-se nos anos 90 com duas curtas-metragens, a que se segue em 1994 a sua primeira longa, “Spanking the Monkey”, uma comédia. Em 1999, chama a atenção com uma charge militar, “Três Reis”, a que se seguem “Os Psico-Detectives” (2004), “The Fighter - Último Round” (2010), “Guia para um Final Feliz” (2012) e agora este “Golpada Americana” (2013). Tem em preparação “Nailed”. Tornou-se um realizador habitual nas nomeações dos Oscars nos três últimos filmes, oferecendo aos seus protagonistas estatuetas douradas. Christian Bale e Melissa Leo, em “The Fighter - Último Round”, Jennifer Lawrence, em “Guia para um Final Feliz”, e agora vai de certeza voltar para casa com mais algum actor devidamente oscarizado (a escolher entre os casos de Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence ou Bradley Cooper). David O. Russell tornou-se em poucos anos um realizador de sucesso e se “Guia para um Final Feliz” era uma comédia inteligente, subtil e ligeiramente crítica, “Golpada Americana” coloca-se a um nível mais exigente e igualmente mais conseguido. O argumento é extremamente bem construído, a realização é vibrante, sem efeitos escusados, e deixa brilhar, na medida certa, os seus magníficos actores, que erguem personagens de uma impressionante credibilidade (mesmo que ligeiramente caricaturados, por vezes).

GOLPADA AMERICANA
Título original: American Hustle

Realização: David O. Russell (EUA, 2013); Argumento: Eric Singer, David O. Russell; Produção: Matthew Budman, Bradley Cooper, Megan Ellison, Jonathan Gordon, Andy Horwitz, Mark Kamine, George Parra, Charles Roven, Eric Singer, Richard Suckle; Música: Danny Elfman; Fotografia (cor): Linus Sandgren; Montagem: Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers; Casting: Lindsay Graham, Mary Vernieu; Design de produção: Judy Becker; Direcção artística: Jesse Rosenthal; Decoração: Heather Loeffler; Guarda-roupa: Michael Wilkinson; Maquilhagem: Kristen Barry, Kathrine Gordon, Evelyne Noraz, Trish Seeney, Wesley Wofford; Direcção de Produção: Shea Kammer, James Masi, Tim Pedegana; Assistentes de realização: Michele Ziegler, Xanthus Valan, Ben Bray, Guy Efrat, Jason Fesel, Allan Rafael, Peter Soldo; Departamento de arte: Theodore Suchecki, Chris Sullivan; Som: Jay Nierenberg, John Ross; Efeitos especiais: John Ruggieri; Efeitos visuais: Sean Devereaux, Lloyd Hackl, Marc D. Rienzo, Ryan Suchor; Companhias de produção: Atlas Entertainment; Intérpretes: Christian Bale (Irving Rosenfeld), Bradley Cooper (Richie DiMaso), Amy Adams (Sydney Prosser), Jeremy Renner (Mayor Carmine Polito), Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosenfeld), Louis C.K. (Stoddard Thorsen), Jack Huston (Pete Musane), Michael Peña (Paco Hernandez / Sheik Abdullah), Shea Whigham (Carl Elway), Alessandro Nivola (Anthony Amado), Elisabeth Röhm  (Dolly Polito), Paul Herman (Alfonse Simone), Saïd Taghmaoui, Matthew Russell, Thomas Matthews, Adrian Martinez, Anthony Zerbe, Colleen Camp, Steve Gagliastro, Chris Tarjan, Zachariah Supka, Christy Scott Cashman, Simon Hamlin, Martie Barylick, Dawn Oliveri, Becki Dennis, Jay Giannone, Arthur Birnbaum, Rob DiNinni, Michael Fennimore, Jack Jones, Danny Corbo, Sonny Corbo, Robert De Niro (Victor Tellegio), etc. Duração: 138 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Janeiro de 2014.