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segunda-feira, julho 30, 2007

UM NOVO BLOGUE



Surgiu um novo blogue na blogosfera nacional. Chama-se "221 - B Baker Street" e, como é óbvio, é dedicado a Sherlock Holmes. São seus autores a Ana Paula, de "Musica do Acaso", de "Marcador Somático" e de "Sibila", e eu próprio. Quem quiser saber mais Conan Doyle e a sua magnifica criação pode dar uma vita de olhos. Nasceu ontem, ainda está fresquinho (nesta caloraça!), mas promete crescer e ter muita informação e opinião. Pode ir a:



"Elementar, meus caros."

domingo, maio 27, 2007

LIVROS: "MUNDO PERDIDO", DE PATRICIA MELO

Patrícia Melo


Patrícia Melo é, nos últimos anos, uma das explosões brasileiras em termos de literatura. Rubem Fonseca é o seu mestre confessado. O que deixa garantia de bom gosto, não de génio. Mas o génio descobre-se por detrás deste seu último romance, “Mundo Perdido” (Ed. Campo das Letras, Porto, 2007).
“O Matador” era um dos seus romances de início de carreira, tinha Máiquel como protagonista, alguém que se transformava em assassino pelas contingências da vida e de uma sociedade marcada pela violência. Máiquel regressa agora neste “Mundo Perdido”, assumidamente assassino profissional, que mata por encomenda, mas que percorre as quase duzentas páginas da obra em busca da filha Samanta, que Erika, sua ex-companheira, e o pastor Marlénio, de uma seita neopentecostal, raptam e levam consigo, ao longo de uma tortuosa fuga que passa por todo o Brasil e ainda entra e sai da Bolívia.
Numa escrita forte, incisiva, nervosa, popular na sua terminologia, utilizando o calão com à vontade e propriedade, Patrícia Melo dá-nos um retrato de um pistoleiro aparentemente sem escrúpulos, que mata com um simples dedilhar de gatilho e vai embora sem problemas de consciência, mas que também se toma de amores por um cão vadio, feio, sujo e doente, que leva consigo até ao inferno sem pestanejar igualmente. Para lá desses retratos individuais, de Máiquel, mas também de algumas mulheres (como Eunice) que com ele se cruzam, e de alguns outros detectives privados que o servem, o que mais impressiona é a descarnada panorâmica de um país onde a violência se entranhou em todo o seu tecido social, onde ela é física, despudorada e animalesca, é certo, mas sobretudo psicológica, em seitas religiosas, em chefões policiais ou políticos, numa onda de capitalismo selvagem que mergulha até ao mais ínfimo, e onde o sucesso económico se basta como projecto de vida, desde o capitalista de São Paulo ao sem-terra da Rondonia.
A loucura homicida de Máiquel é um símbolo da loucura homicida de uma sociedade que se autodestrói sem futuro, sem alma, sem perspectivas. O humor e a ternura de algumas passagens só serve para estabelecer um confronto e agigantar a falta de uma perspectiva moral ou, melhor ainda, apenas humana.
Patrícia Melo tem a paixão do cinema. Já escreveu argumento para Rubem Fonseca e este já adaptara em 2003, o “Matador” de patrícia ao cinema, num filme chamado "O homem do ano", com realização de José Henrique Fonseca, filho de Rubem Fonseca. Tudo leva a crer que “Mundo Perdido” lhe siga o rasto e não nos tomamos por videntes excepcionais se preconizarmos matéria fértil para um bom thriller. Os americanos de 40 (Walsh, Fuller, Hawks, Huston, etc.) chamavam-lhe um figo. Que lhe chamarão os brasileiros de 2000?

Excertos de “Mundo Perdido”

(…) Estrada é bom pra pensar. Você engata a quinta, os pensamentos nascem do nada, de um buraco negro, você vê uma propaganda de seguro de vida para toda a família, uma família na mesa de jantar, sorrindo, papai, mamãe e filhinhos, e você pensa que a melhor hora de atacar é essa mesmo, quando todos estão se empanturrando, e depois os pensamentos continuam, um atrás do outro, e, quando você vê, você já está lá, pensando coisas, pum, o dia em que eu vou morrer, vermes, podrião, fim, ninguém mais mora aqui, só casca, esse carro vira lixo, sucata, as pessoas vão todas morrendo, as que você conhece, não sobra quase nada, e você continua com seus pensamentos, remexendo lá atrás, com raiva, adorando, odiando, esquecendo, e a coisa vai crescendo, ou nãoi, porque a Eunice atrapalha muito, ela tem mania de ler placas em voz alta e fala sem parar, desde pequena, sabe?, Máiquel, quando aprendi a ler, vi que não tinha volta, eu saía na rua com minha mãe e lia tudo o que aparecia na minha frente, preços, faixas, listas, placas, cartazes, propagandas, tudo, minha mãe, analfabeta, queria que eu lesse para ela alguma informação, nome de linha de ônibus, essas coisas, eu me sentia na obrigação de ler tudo o que aparecia na minha frente, era uma sensação ruim, como se as letras me atacassem, às vezes eu fechava os olhos, só para ter paz. Até hoje eu sou assim. Quer dizer, não fecho os olhos, leio tudo. Mas não sofro. Se está escrito, leio. Mas não dá para ler baixo?, perguntei. Não, não dava, ela precisava ler em voz alta. Porque era costume. Olha essa. Vendo esse terreno e outros melhores que este. Caramba, Máiquel, quem vai comprar este se eles vendem outros melhores? E depois você fala que Nova Iguaçu é feia. Osasco é de matar, hein? Poluída. Entulhada. Porra. Assim, eu não conseguia pensar . (p. 45-46)

(…) Eu ando pensando em virar pastor, também, disse Anderson, isso é que dá dinheiro no Brasil. Além do mais, você não precisa de faculdade, é só blábláblá mesmo, sabendo ler e escrever, o Espírito Santo cuida do resto.
Estávamos no escritório do Anderson, ele fumando, eu ouvindo. Pago tanto imposto, ele dizia, agora esses safados, esses macacos animadores de auditório, porque é isso que eles são, no começo sem as câmeras, sem os estúdios, e depois conseguem tudo, concessões do governo, viram donos de televisão, você já viu a quantidade de programa religioso na TV? Eu quase não ligava mais a televisão desde que a Eunice tinha se mandado. Só para ver futebol. Uísque, cigarro, cartão de crédito, antigamente eu adorava assistir essas propagandas, mulheres lindas, felizes, com jóias, homens com copos de bebida na mão, gargalhando, cheios de dentes, fumando, com cada carrão, andando na praia, de calça branca, em câmera lenta, agora isso quase não existia mais. Você nem via mais mulherão na TV. Só executivas, donas de casa, preocupadas em economizar. O Ministério da Saúde adverte, eles dizem, cigarro provoca câncer. Agora é assim. E oferecem frango a granel, coxão mole, boneca Susi pesquisadora de borboletas, três vezes de dez e noventa, aparelho de jantar dezesseis peças Duralex, quatro pratos rasos, quatro fundos, três vezes de seis e sessenta, e cortina em algodão cru, panela de pressão, tudo baratinho, a prazo, em vinte vezes ou mais, as Casas Nahia não te deixam em paz, propagandas feias, gente feia, tudo para você e seu lar, eles dizem. Quem não tem lar, como eu, não se interessa.
Para abrir uma seita, continuou Anderson, a única coisa que você precisa é cara-de-pau. Você vai no cartório e pronto, vira ministro. E não paga nada. É por isso que hoje tem igreja para cada tipo de fiel, bicha, empresário, surfista, até para os que querem falar com Deus em inglês. Neguinho mata dois coelhos com uma só cajadada, fala com Deus e aprende inglês. Mas e a Érica?, perguntei. Impressionante como o Anderson fugia do assunto. Érica se mandou, e você está perdendo seu tempo aqui em Campo Grande, ele disse. Pode fazer a mala e se picar. Ela deixou a cidade faz quatro dias. O safado do marido foi junto. (pág. 83-84)

(…) Fazia três dias que a gente estava na farra. Ela gostava de cheirar, a Lúcia. E de beber. Trazia pó para a pensão, trazia uísque também, e a gente se divertia.
Lembro ainda da primeira vez que ela subiu para o quarto. Fodemos de roupa e tudo. Agarrei Lúcia na porta. Levantei a saia dela, enfiei meu pau pela lateral da calcinha, segurando-a pela bunda. Ela sussurrou no meu ouvido, vou gozar, e aquilo me deixou com as pernas bambas. Deitei Lúcia na cama e passei o resto do dia fodendo. Lúcia era escandalosa, ria alto, gargalhava, falava palavrão, mas, na hora de gozar, sussurrava.
Outra coisa boa de Lúcia é que ela gostava de pau. Logo notou que eu tinha uma estrela tatuada ali. Nem toda mulher notava. Tem mulher que gosta de foder, gosta de um caralho no meio das pernas, mas não gosta de pau. Digo, não gosta de pegar. Nem de chupar. Não era o caso de Lúcia.
Por que você fez essa tatuagem?
Contei que tinha sido por causa de Érica. Sou mais velha que você, ela disse, vou te ensinar um segredinho: quando você está na cama com uma mulher, uma mulher bonita como eu, não fale de outra mulher. É chato, entendeu? Inventa qualquer merda. Minta. Diga que foi promessa. Para Nossa Senhora Aparecida.
Você perguntou, eu disse.
Isso não significa que eu queria saber a verdade. Não sou cientista. Nem sua mulher. Estamos aqui curtindo, entendeu?
Entendi. Foi promessa. (pág. 141)

domingo, abril 08, 2007

LIVROS - O Homem da Carbonária

O HOMEM DA CARBONÁRIA

O romance histórico está na moda. Existe mesmo uma receita: crime em cenário histórico igual a (quase certo) “best seller”. Nos escaparates das livrarias pululam os volumes de biografias, de situações, de épocas, de mitos, de enigmas históricos e outras coisas que tais. Estrangeiros e portugueses. Muitos são bem escritos e valem mesmo a pena, outros não serão muito bem escritos, mas ainda valem a pena como recolha e divulgação históricas, a maioria não vale nem uma coisa nem outra. A grande parte desta escrita a metro obedece a uma fórmula, aprendida seguramente nesses milhares de “work shops” de “escrita criativa” que se apregoam um pouco por todo o lado, ministrados a maioria das vezes por quem não sabe sequer escrever, quanto mais criar, mas que julga saber, por que “leu nos manuais” da indústria livreira, que a intriga deve ter “plots” e ganchos, e outros disparates que tais, como se a escrita (ou qualquer outra forma de criação artística) pudesse estar espartilhada por prescrições. O resultado é, na sua generalidade, penoso.
Mas de vez em quando surge uma surpresa, como é o caso deste “O Homem da Carbonária”, escrito por Carlos Ademar, que durante anos exerceu a investigação criminal, na Policia Judiciaria, se formou depois em História e se virou para a escrita. O seu primeiro romance não o li, chamava-se “O Caso da Rua Direita”, mas este “O Homem da Carbonária” em boa hora não me escapou. Não vou dizer que “descobri” uma obra-prima da literatura portuguesa contemporânea, mas basta-me a satisfação de surpreender quatrocentas páginas escorreitas, bem escritas, historicamente muito bem documentadas, aliciantes como leitura, acompanhando um caso curioso policial.
Estamos em Lisboa, no ano de 1926. No Jardim da Estrela aparece assassinado um tal Peres, chefe da segurança do Presidente do Conselho. Tanto o político como o seu devotado guarda-costas pertenceram a uma sociedade secreta que teve um papel essencial no derrube da Monarquia e na implantação da República: a Carbonária. Com base neste crime, Carlos Ademar lança na investigação o inspector Afonso Pratas que, não só segue as pistas dos suspeitos, como nos vai desvendando a vida politica do País nesses anos de fim da Primeira Republica e de advento da ditadura do Estado Novo, descobrindo os republicanos e as facções, de Afonso Costa a Bernardino Machado, os membros da Carbonária e os da Maçonaria, os Integralistas e os Sidonistas, apologistas da ditadura, os católicos e os agnósticos, os democratas e os camisas negras de Rolão Preto. Para lá deste esboço histórico com H grande, há a história com h pequeno, a saborosa pintura da vida quotidiana nesta Lisboa dos loucos anos 20.
Por vezes há uma excessiva exposição histórica, bem vinda como informação, mas às vezes fazendo emperrar um pouco a escrita. De um modo geral, porém, parece-me um bom livro e julgo poder assegurar a Carlos Ademar um futuro auspicioso neste campo que já se percebeu ser o de sua eleição. Mesmo literariamente, o livro é bom, e com uma excelente solução, simbólica. O epílogo é inesperado. A ditadura de 1928 consolidava-se no poder e a democracia morre mesmo ali. Deixo aqui a sugestão: leiam.
Nota: vasculhando a Internet sobre a Carbonário, fui encontrar um curioso site de que deixo duas referências:

http://triplov.com/carbonaria/carbonaria_portuguesa/bomba/bomba_01.htm

http://triplov.com/carbonaria/carbonaria_portuguesa/aquilino_ribeiro/index.htm