

Três homens, três mulheres perdidos (ou achados?) em Paris: Thierry (André Dussolier) é um agente imobiliário que tenta encontrar um apartamento para Dan (Lambert Wilson) e Nicole (Laura Morante), um casal de problemáticos clientes. Na agência onde trabalha tem como colega Charlotte (Sabine Azéma), doce companheira de horas mortas que leva o seu espírito de missão até ao ponto de emprestar semanalmente ao seu vizinho de secretária cassetes gravadas de piedosas emissões de um programa de TV, “Estas canções que mudaram a minha vida”, entrevistas e variedades de teor religioso que ela não dispensa, e que deixa entrever, após o final da gravação, cenas de sado masoquismo altamente perturbadoras. Por seu turno, Thierry, vive com uma irmã mais nova, Gaelle (Isabelle Carré), mulher sedenta de amor, que procura concretizar através de encontros fortuitos em bares, onde espera pelo príncipe encantado com uma flor na lapela. No bar de um hotel de Bercy, Nicole (Pierre Arditi), barman e confidente, ouve os sucessivos fracassos, profissionais e sentimentais, de Dan, recentemente afastado da carreira militar e separado de Nicole. Depois de deixar o trabalho no bar, Lionel regressa a casa, onde cuida do pai, Artur, um velho acamado e irascível. É aí que encontra Charlotte, em serviço de apoio a idosos. É Charlotte quem funciona como elemento de ligação neste puzzle de “corações, solitários caçadores” que a neve caindo sobre Paris irmana numa mesma imagem. Diga-se que esse efeito de montagem é um dos trunfos desta obra discreta, amável, elegante, quase secreta, sussurrada, que se aproxima muito de uma miniatura de extrema sensibilidade e pudor. Alias na linha de outras obras de Alain Resnais, como “É Sempre a mesma Canção”, obra que mantém com “Corações” curiosas afinidades temáticas e de construção.
Excelentes actores franceses (e não só!) que infelizmente tão mal conhecemos (pois raros são os filmes franceses – e europeus - que se estreiam em Portugal!) ajudam a transformar “Corações” numa festa de emoções que sabe bem frequentar. Será curioso revelar um pormenor da direcção de actores segundo Resnais. Para ele, os actores precisam de conhecer toda a vida anterior (e futura) do seu personagem. Assim, antes do início da rodagem, cada actor recebeu, juntamente com o guião, um envelope lacrado, com um selo de “confidencial”!, contendo a biografia do respectivo personagem, descrevendo o que pudesse ter sido a sua vida anterior, que não é revelada no filme, mas poderá ser adivinhada. Cada figura cria assim uma densidade de comportamento inesperada, muito embora pouco se saiba realmente de cada uma delas.
Título original: Coeurs
Realização: Alain Resnais (França, Itália, 2006); Argumento: Jean-Michel Ribes, segundo peça teatral de Alan Ayckbourn ("Private Fears in Public Places"); Música: Mark Snow; Fotografia (cor): Eric Gautier; Montagem: Hervé de Luze; Design de produção: Jacques Saulnier, Solange Zeitoun; Direcção artística: Jean-Michel Ducourty; Guarda-roupa: Jackie Budin; Maquilhagem: Sylvie Aid, José-Luis Casas, Patrick Inzerillo, Delphine Jaffart; Direcção de produção: Hervé Duhamel, Frédéric Grunenwald, Béatrice Mauduit; Assistentes de realização: Charlotte Buisson-Tissot, Dorothée Chesnot, Laurent Herbiet, Christophe Jeauffroy, Iris Wong; Departamento de arte: Jacky Hardouin, Philippe Margottin, Marc Pinquier; Som: Jean-Marie Blondel, Thomas Desjonquères; Efeitos especiais: Géraldine Banet, Pascale Butkovic, Karine Dubois, Benoît Rousselin, Stéphane Ruet; Efeitos visuais: Thibault Deloof, Stéphane Keller, Frederic Moreau, Frederic Moreau, Fred Roz; Produção: Valerio De Paolis, Bruno Pésery, Julie Salvador, Vitaliy Versace; Companhias de produção: Soudaine Compagnie, Studio Canal, France 2 Cinéma, Société Française de Production (SFP), BIM, Banque Populaire Images 6, Canal+, TPS Star, Centre National de la Cinématographie (CNC), Eurimages, Région Ile-de-France.
Intérpretes: Sabine Azéma (Charlotte), Isabelle Carré (Gaëlle), Laura Morante (Nicole), Pierre Arditi (Lionel), André Dussollier (Thierry), Lambert Wilson (Dan), Claude Rich (Arthur, voz); Françoise Gillard (entrevistadora de TV), Anne Kessler, Roger Mollien, Florence Muller, Michel Vuillermoz, etc.
Duração: 120 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/12 anos; Prémios: Melhor Realizador, Alain Resnais, e Melhor Actriz, Laura Morante, no Festival de Veneza, 2006.
























Este é também o retrato de uma América de violência traumatizante, desconhecida, perturbante, que é atravessada primeiro pelas palavras secas e austeras de Cormac McCarthy neste romance, nervoso, agressivo, provocador, estimulante que nos recoloca na melhor tradição da literatura norte-americana. Hemingway, sim, pela aridez dos diálogos, pela poesia dos cenários, Falkneur, sem dúvida, pela descrição das paixões e das paisagens, mas também um pouco da violência ingénua de uns “Ratos e Homens”, mas reciclada para novos continentes de um total desencanto. Depois há quem fale de escritores actuais, como Don Delillo, Philip Roth ou Thomas Pynchon, é possível, sobretudo no retrato de uma sociedade doente, dada num registo sincopado, que mostra as aparências e deixa as chagas soterradas, à espera que o leitor as descubra por si só. Terríveis os tempos que geram obras como esta, de um cinzento pesado, de um ar poluído pelo desespero, de uma humanidade desgarrada e à deriva.
Acompanhando o percurso do livro quase a par e passo, apenas saltando aqui e ali um ou outro episódio e elidindo quase todos os solilóquios do velho xerife (o que acaba por empobrecer o filme, dado que é desse confronto de dois tempos de narrativa que nasce uma das iluminações mais fortes do romance e a ideia de que o homem pode transcender-se e permanecer "humano", apesar da brutalidade que o rodeia), o filme dos Coen é uma adaptação bastante fiel da obra de Cormac McCarthy, recriando a mesma terra seca, o mesmo ar saturado de poeira, a mesma solidão, a mesma violência climática, a mesma psicologia rasteira, a mesma rudeza de comportamento, a mesma agressividade de uns, o mesmo desalento de outros, a frustração de tantos, a desilusão de muitos, os gestos repetidos sem significado de alguns, o desespero, sim o desespero no olhar de quem morre e o olhar vítreo de quem mata. Estamos em que País afinal? Na América pós-Vietname, na América pós-11 de Setembro, na América pós-invasão do Afeganistão e do Iraque, na América dos adolescentes “serial killers”, que dizimam turmas de escolas, na América profunda da opressão, do racismo, do fanatismo, mas também na América da auto-crítica, da má consciência, na América que invariavelmente ergue a voz contra as injustiças, que discute, que recusa, que se insurge, que faz filmes como este ou “Haverá Sangue”.