terça-feira, fevereiro 10, 2009

CINEMA: MILK

MILK
“Milk”, de Gus Van Sant, é indiscutivelmente um dos grandes filmes de 2008 e um dos mais sedutores objectos de arte cinematográfica presentemente em exibição em salas de estreia de Lisboa. O motivo central desta obra é a figura de Harvey Milk, o primeiro e talvez ainda o mais conhecido activista e político gay de toda a recente história norte-americana.
Harvey Milk, que nasceu em 1930, em Long Island, Nova Iorque, filho de judeus de origem leste-europeia, era um conservador nato, antigo combatente da guerra da Coreia, empregado na tradicionalista Wall Street e que, em 1964, fez campanha pelo republicano Barry Goldwater, que foi um dos mais radicais e extremistas candidatos reaccionários a presidente dos EUA que este País conheceu. Posteriormente, porém, as posições políticas e sociais de Milk foram-se atenuando e transferindo para o campo da “contra-cultura”, sobretudo a partir do momento em que resolveu assumir as suas orientações sexuais, mudando-se de Nova Iorque para São Francisco, cidade onde a percentagem de gays era então a maior dos EUA, e onde a vida boémia e intelectual era muito mais estimulante. Abriu consultório de advogado, entrou na vida política, concorreu a vários lugares públicos, foi eleito em 1977 para o Conselho de Supervisores da Cidade de São Francisco, e, em 27 de Novembro de 1978, ele e o Presidente da Câmara, George Moscone, foram assassinados por um colega supervisor, polícia tresloucado e fanatizado. O argumento de Dustin Lance Black parte dos últimos dez anos de vida de Harvey Milk para nos restituir um panorama histórico, político e social dessa época conturbada, e nos esboçar um retrato individual que com ela se cruza.
O filme começa mesmo em tom de “actualidades”, documentando com imagens a preto e branco, do ano de 1969, os conflitos que se produziram em N.Y, durante a violenta repressão aos homossexuais, presos em bares e conduzidos às esquadras em minúsculas carrinhas, espancados e injuriados publicamente. São imagens hoje estranhas, aquelas de gays algemados, e escoltados, rostos tapados por chapéus ou jornais, escondendo o opróbrio da situação, ou furtando-se à identificação pública que poderia ter graves consequências na família, no emprego, na rua. Ser gay nesses tempos, não tão recuados assim, era comportamento considerado ilícito e é isso mesmo que Harvey Milk recorda, ao longo do filme, quando, de gravador em punho, rememora aspectos da sua vida passada, perante a ameaça de morte que pairava sobre si. São esses registos que se vão intercalando na acção do filme e introduzindo novos capítulos. Como por exemplo, decorria o ano de 1970, o seu encontro com Scott Smith (James Franco) que se torna seu amante e uma personagem de forte impacto na sua vida. É com ele que deixa N.Y. em 1972, a caminho de São Francisco, onde abrem uma loja de fotografia na chamada área Castro, uma rua, ou um bairro, inteiramente dominada pela comunidade gay. É também aí que, anos mais tarde, conhece Cleve Jones (Emile Hirsch), um prostituto de Phoenix, com quem mantém uma relação, que terminará de forma trágica, é aí que inicia a sua acção de activista, sobretudo através de uma actuação junto do sindicato dos camionistas, impondo o emprego de gays, e oferecendo, em contrapartida, o apoio dos bares gays ao boicote a uma marca de cerveja.
Os seus discursos, que se iniciavam na rua, em cima de um pequeno caixote, começavam invariavelmente por uma frase que o tornou célebre: "My name is Harvey Milk and I want to recruit you," (“O meu nome é Harvey Milk e quero recrutar-te”). É também por essa altura que se associa à “leader” lésbica Anne Kronenberg (Alison Pill) que se torna igualmente pessoa influente na sua “entourage”. Com a chegada ao poder do Mayor Moscone (Victor Garber), Milk consegue ascender a Supervisor da Câmara, iniciando aí a sua principal campanha, em 1978, para contrariar a “Proposta 6”, que pretendia aprovar legislação que descriminava a liberdade sexual e impedia o acesso de gays ao ensino público, campanha que contava com apoios tão diversos como são os de Ronald Reagan e Jimmy Carter, e de uma popular cantora, Anita Bryant, que desencadeou violentos ataques aos homossexuais, baseando-se em princípios fundamentalistas de uma Convenção Baptista de Sul a que pertencia. Ao seu lado, o senador John Briggs (Denis O'Hare), foi outra força de bloqueio importante, que, aliás, se iria confrontar com Harvey Milk num debate no Estado da Califórnia, no conhecido “Orange County”, onde uma tirada de Milk entraria na História: “Se é verdade que as crianças imitam os seus professores, então deveria existir um número muito maior de freiras andando por aí.” (“If it were true that children mimicked their teachers, you'd sure have a helluva lot more nuns running around."). A proposta seria derrotada, o que foi considerado uma grande vitória de Milk e do seu movimento. Mas o fim de Milk estava à vista, quando o vacilante polícia Dan White (Josh Brolin), católico de ascendência irlandesa, e que chegara mesmo a ser considerado “um dos nossos” pelos gays, resolve tomar uma atitude drástica, subir as escadarias da City Hall de São Francisco e esvaziar um revólver nos corpos do “mayor” e do supervisor Milk. Seguiu-se uma das maiores vigílias de que há memória em São Francisco, com milhares de pessoas descendo as avenidas com velas nas mãos, partindo de “The Castro” em direcção ao City Hall.
“Milk”, quer pela estrutura narrativa, quer pela tonalidade da fotografia, procura inscrever-se num género a que se costuma chamar o docdrama, uma ligação entre a ficção e o documentário, onde se tenta reconstituir uma realidade, usando para isso a representação dramatizada de certos aspectos dessa realidade. No tom difere de uma biografia romanceada normal, onde a ficção se impõe desde início, mesmo que respeitando aspectos da verdade histórica. Normalmente o docdrama dá uma importância maior às imagens de arquivo do que acontece em “Milk”, mas realmente a organização geral do projecto, a cor das imagens, saturadas, e o próprio rigor da reconstituição encaminham-nos para o registo do docdrama, que resulta magnificamente – há uma “verdade” insofismável no que se vê, um dos aspectos mais interessantes desta obra que, por outro lado, radica numa certa tradição de cinema vanguardista ou alternativo, não fosse o tema a homossexualidade. Tecnicamente, portanto, e artisticamente, “Milk” é uma completa “reussite”.
Por outro lado, a interpretação de Sean Penn é perfeita. Diria, mais que perfeita, assombrosa. Foram vários os candidatos ou actores sondados para este papel. Sean Penn acabaria por ser eleito, sendo ele definitivamente um “não gay” (o que até levantou, na altura da rodagem, algumas objecções da comunidade gay). Mas o resultado final é brilhante, pela forma como o actor se investe na personagem, sem um excesso, sem nunca cair na caricatura, representando com a voz, com o rosto, mas igualmente com todo o corpo, cada músculo, cada gesto, cada olhar. Sean Penn é Harvey Milk no sorriso, mas também no andar, na forma de beijar, na pose, na manifestação de rua ou nos momentos mais íntimos passados com namorados. Uma atenção notável ao pormenor. Perfeito, uma invulgar lição de representar. A seu lado, todos os outros actores são excelentes.
Obra de uma delicadeza e pudor total, muito embora seja ostensiva nalgumas cenas de amor, “Milk” é seguramente um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano, e um fortíssimo candidato aos Oscars, se estes não estivessem desde há muito atribuídos a outro aspirante. Sean Penn, porém, só por uma grande injustiça deixará fugir a atribuição do Oscar de “melhor actor”. (Atenção: não vi ainda o Mickey Rourke de "The Wrestler").Gus van Sant, o realizador, nascido nos EUA, em 1952, é autor de uma vasta obra, muito pessoal, onde a homossexualidade ocupa destacado lugar (o cineasta é assumidamente gay). Entre os seus títulos mais conhecidos contam-se “Mala Noche” (1985), “Drugstore Cowboy” (1989), “My Own Private” Idaho (1991), “Even Cowgirls Get the Blues” (1993), “To Die For” (1995) “Good Will Hunting” (1997), “Psycho” (1998), “Finding Forrester” (2000), “Gerry (2002), “Elephant” (2003), “Last Days” (2005), “Paris, je t' Aime” (episódio "Le Marais") (2005), “Paranoid Park” (2007) ou “Milk”). Em 1984, já havia sido realizado um filme documental sobre o mesmo período e a mesma personagem. “The Times of Harvey Milk”, dirigido por Rob Epstein, ganharia o Oscar de melhor documentário de longa-metragem de 85. Escrito por Harvey Fierstein e o próprio Rob Epstein, tinha narração de Judith Coburn e apresentava imagens autênticas de arquivo onde se podiam ver Harvey Milk, Anne Kronenberg, Tory Hartmann, Tom Ammiano, Jim Elliot, Henry Der, Jeannine Yeomans, Bill Kraus, Sally M. Gearhart, John Briggs, Jerry Brown, Jimmy Carter, Dianne Feinstein, David Fowler, Joseph Freitas, Terence Hallinan, George Moscone ou Dan White.
MILK
Título original: Milk
Realização: Gus Van Sant (EUA, 2008); Argumento: Dustin Lance Black; Produção: Dustin Lance Black, Bruce Cohen, Barbara A. Hall, William Horberg, Dan Jinks, Michael London, Bruna Papandrea; Música: Danny Elfman; Fotografia (cor): Harris Savides; Montagem: Elliot Graham; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Bill Groom; Direcção artística: Charley Beal; Decoração: Barbara Munch; Guarda-roupa: Danny Glicker; Maquilhagem: Steven E. Anderson, Sterfon Demings, Stephan Dupuis, Gregory Nicotero, Michael White; Direcção de Produção: Robert Hackl, Barbara A. Hall, Michelle Lankwarden; Assistentes de realização: Ian Calip, Neil Lewis, John R. Saunders, David J. Webb; Departamento de arte: Chad Owens; Som: Robert Jackson; Efeitos especiais: Tom Sindicich; Efeitos visuais: Tsui Ling Toomer, Chel White; Companhias de produção: Focus Features, Axon Films, Groundswell Productions, Jinks/Cohen Company; Intérpretes: Sean Penn (Harvey Milk), Emile Hirsch (Cleve Jones), Josh Brolin (Dan White), Diego Luna (Jack Lira), James Franco (Scott Smith), Alison Pill (Anne Kronenberg), Victor Garber (Mayor George Moscone) Denis O'Hare (Senador John Briggs), Joseph Cross (Dick Pabich), Stephen Spinella (Rick Stokes), Lucas Grabeel (Danny Nicoletta), Brandon Boyce (Jim Rivaldo), Howard Rosenman, Kelvin Yu, Jeff Koons, Ted Jan Roberts, Boyd Holbrook, Frank M. Robinson, Allan Baird, Tom Ammiano, Carol Ruth Silver, Hope Tuck, Steven Wiig, Ashlee Temple, Wendy Tremont King, Kelvin Han Yee, Robert Chimento, Ginabel Machado, Daniel Landroche, Trace Webb, Velina Brown, Scott Patrick Green, Mary Dilts, Roman Alcides, Robert George Nelson, Brian Danker, Richard Gross, Borzin Mottaghian, Brian Yates Sharber, Camron Palmer, Cully Fredricksen, Mark Martinez, Danny Glicker, Catherine Cook, Joe Meyers, Dominic Sahagun, William McElroy, Joey Hoeber, Mark E. Stanger, Christopher Greene, Jesse Caldwell, Lynn McRee, Cleve Jones, John Parson, Jay Kerzner, Kristen Marie Holly, Sandi Ippolito, Roger Groh, Maggie Weiland, Dustin Lance Black, Drew Kuhse, Eric Cook, Roger Mudd, John Douglas Ayers, Tom Brokaw, Anita Bryant, Greg Cala, Jimmy Carter, Cabran E. Chamberlain, John Clerkin, Walter Cronkite, Zachary Culbertson, Harvey Milk, John Prudhont, Ronald Reagan, Corbett Redford, Jeff Redlick, Timothy Roberts, Lin Shukla, Serene Sidher, Christopher Sugarman, Jeremiah Turner, Brian Vowell, Cindy Warner, etc. Duração: 128 minutos; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 29 de Janeiro de 2009.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

NOS 100 ANOS DE CARMEN MIRANDA

HOMENAGEM A CARMEN MIRANDA
A 5 de Agosto de 1955, morre Carmen Miranda em sua casa (Los Angeles, Beverly Hills, Bedford Drive, 616), aos 46 anos de idade, vítima de um colapso cardíaco, após filmar com Jimmy Durante um programa para a televisão. A 12 de Agosto, o corpo embalsamado chega ao Brasil, para ser velado na antiga Câmara de Vereadores do Rio. Das 13 horas desse dia até às 13 horas do dia 13, mais de 60.000 pessoas desfilaram em preito de gratidão e homenagem. No dia seguinte, Carmen Miranda seria sepultada no Cemitério de São João Batista, num lote cedido pela Santa Casa de Misericórdia. Fala-se que entre 500.000 e um milhão de pessoas acompanhou o enterro, que foi considerado o mais concorrido de toda a história do Rio de Janeiro. O Brasil chorava a diva que Portugal tinha oferecido ao mundo.
Foi a 9 de Fevereiro de 1909 que nasceu na Freguesia da Várzea da Ovelha, Conselho de Marco de Canavezes, antiga São Martinho da Aliviada, no Distrito do Porto, em Portugal, uma menina de nome Maria do Carmo Miranda da Cunha. Filha de José Maria Pinto da Cunha (17-2-1887 / 21-6-1938) e de Maria Emilia Miranda da Cunha (10-3-1886 / 9-11-1971), foi baptizada na Igreja de São Martinho da Aliviada. Logo no ano seguinte a família parte ara o Brasil, primeiro o pai, depois a mãe e a irmã Olinda. O pai estabeleceu-se como barbeiro, no "Salão Sacadura", à Rua da Misericórdia nº 70, no Rio. Em 1919, matricula-se na Escola Santa Tereza, à Rua da Lapa nº 24, no Rio. Em 1925, mudam-se para o nº 13 da Travessa do Comércio, no centro comercial do Rio, onde instalaram uma pensão, para fazer face às despesas com o tratamento pulmonar de Olinda em Portugal, num sanatório do Caramulo. Cármen Miranda, com 14 anos, deixa a escola e emprega-se numa loja de gravatas. Em 26 de Setembro de 1926, a revista "Selecta" publica o retrato de CM, na secção de cinema do jornalista Pedro Lima, sem citação de seu nome. Três anos depois canta num festival, organizado pelo baiano Aníbal Duarte, no Instituto Nacional de Música no centro do Rio. Josué de Barros, compositor e violonista baiano, interessa-se por esta voz e promove-a junto de estações de rádio, clubes e discográficas. No mesmo ano, canta na Rádio Educadora e na Rádio Sociedade. Em Setembro, grava o seu primeiro disco na Brunswick (Lado A: "Não Vá Sim'bora", samba, Lado B: "Se O Samba É Moda", chôro), lançado no fim do ano, e, em Dezembro, volta a gravar, pela etiqueta Víctor, com "Triste Jandaia" e "Dona Balbina".
Em Fevereiro de 1930, o lançamento de "Tá hi", consagra-a durante o ano. Participa em vários espectáculos, "Noite Brasileira de Francisco Alves", "Monroe", "Tarde da Alma Brasileira", "Miss Rio de Janeiro", "Tarde do Folclore Brasileiro", até organizar o seu próprio, Festival Carmen Miranda, no Teatro Lírico. "O Pais" publica uma entrevista com CM, considerando-a a maior cantora popular brasileira. De 13 a 21 de Setembro, canta na revista musical "Vai Dar o que Falar", no Teatro João Caetano. É um fenómeno de popularidade. Requisitada internacionalmente: Em Outubro de 1931 embarca com Francisco Alves e Mário Reis, e outros artistas, para Buenos Aires, com contrato de um mês no Cine Broadway. Voltam pelo "Astúrias" a 8-11-1931. Continua a gravar com êxito redobrado pela “Victor”. Sucedem-se espectáculos por todo o Brasil. Em 1933, estreia-se no cinema com "A Voz do Carnaval", no Cine Odeon. Em Agosto, assina contrato de 2 anos com a Rádio Mayrink Veiga, ganhando 2 contos de réis mensais. Foi a primeira cantora de rádio a merecer contrato. César Ladeira, director desta rádio, chamou-a de "Cantora do It", e depois de "Ditadora Risonha do Samba" e, em 1934 ou 1935, de "Pequena Notável".
Embarca para Buenos Aires com outros artistas, para cantar na L.R.-5. Volta a 5 de dezembro de 1933. Começa a ser conhecida como a "Embaixatriz do Samba". É eleita "Rainha do Broadcasting Carioca", em concurso do jornal "A Hora". Em Julho de 1934, de visita ao Brasil, para promoção do filme "Voando para o Rio", Ramon Novarro encontra CM numa recepção. Começa a falar-se na sua provável ida para Hollywood. Passa por São Paulo com sucesso louco, embarca para Buenos Aires, com Aurora Miranda, sua irmã, e o "Bando da Lua", contratados por Jaime Yankelevisch, da Rádio Belgrano, para uma temporada de um mês. Em 1935, estreia "Alô, Alô Brasil", primeiro filme brasileiro com som directo na película. Inicia asgravações na Odeon, com contratos milionários. Estréia novo filme, "Estudantes", no Cine Alhambra. Em 1936, actua no Cassino Copacabana, estreia "Alô, Alô Carnaval" no Cine Alhambra, exibe-se no Teatro Coliseu de Santos e nesse ano fala-se na vinda das irmãs Miranda para Portugal. CM recusa outro vantajoso contrato da Rádio El Mundo, de Buenos Aires, e rejeita a participação num filme argentino em que faria o segundo papel. Surge na Rádio Tupi, que a roubou à rádio Mayrink Veiga, mercê um fabuloso contrato de 5 contos de réis por mês, para 4 horas mensais, isto é, dois programas semanais de meia hora. Triunfa no Cassino da Urca.
Viagens e sucessivos êxitos no Brasil e no mundo. A 21 de Junho de 1938, morre o pai. Em Dezembro, Tyrone Power e a noiva Annabella visitam o Rio e tornam-se amigos de CM, a quem convencem num triunfo em Hollywood. 1939, de novo no ecran, com "Banana da Terra", onde assume a personagem de "baiana". Grava com Dorival Caymmí "O Que É Que a Baiana Tem". A 3 de Maio de 1939, parte para os Estados Unidos, onde á chega afirma: "Vocês verão principalmente que sou cantora e tenho ritmo". Estreia-se na revista "Streets of Paris", em Boston, com êxito estrondoso. Depois, em Nova York, com o "Bando da Lua", revoluciona Broadway, a "Feira Mundial" e toda Nova York. Grava os seus primeiros discos na Decca. Em Fevereiro de 1940, canta nas filmagens de "Serenata Tropical". Volta ao Brasil, triunfal. Mas, entre 2 e 27 de Setembro de 1940, grava suas últimas músicas no Brasil, tentando reagir às críticas que a viam “americanizada”. A 3 de Outubro de 1940, regressa aos Estados Unidos. No ano seguinte, suprema honra: Imprime mãos e sapatos no cimento dos passeios do Teatro Chinês de Los Angeles, até aí primeira e única sul-americana a receber tal honraria. Integra o elenco da revista de Schubert "Sons O' Fun", no Teatro Winter Garden de Nova York.
Entre 1941 a 1953, intervém em 13 filmes em Hollywood, para lá de se tornar preseça assídua nos mais importantes programas de rádio, televisão, "night-clubs", cassinos e teatros. Em 1946 é tida como a mulher que mais impostos paga nos E.U.A. Casa-se com o americano David Sebastian. Em Abril de 1948, estreia-se no Teatro Palladium, de Londres, onde esperava fazer 4 semanas, e teve de ficar 6, ganhando 100.000 dólares. Em Agosto de 1948, perde um filho que esperava. Em 1951, é a artista de show que mais dinheiro ganha nos E.U.A. Visita o Havai. Excursão por vários países da Europa. Em Dezembro de 1954, depois de 14 anos de ausência, volta ao Brasil, traz consigo um profundo esgotamento nervoso. Matou saudades, compareceu a homenagens em teatros e festas, e a 4 de Abril de 1955, aparentemente restabelecida, volta aos E.U.A. Trabalha em Las Vegas, Havana em Cuba e na televisão. Não dura muito.
A 5 de Dezembro de 1956, o prefeito Negrão de Lima assina a Lei nº 886, que cria o Museu Carmen Miranda, para guardar, conservar e expor o acervo da artista, doado pelo marido, e constante de sapatos, roupas, jóias e troféus. A 5 de Agosto de 1976, é inaugurado o "Museu Carmen Miranda", em frente ao número 560 da Avenida Rui Barbosa, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.
NO BRASIL
1932 - O Carnaval Cantado no Rio, de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro
1933 - A Voz do Carnaval, de Ademar Gonzaga e Humberto Mauro
1935 - Alô, Alô Brasil!, de Wallance Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro
1935 – Estudantes, de Wallace Downey
1936 - Alo, Alo Carnaval, de Adhemar Gonzaga
1939 - Banana da Terra, de João de Barro

NOS EUA:
1940 – Sinfonia dos Trópicos (Pt) Serenata Tropical (Br) (Down Argentine Way)
1941 – Uma Noite no Rio (Pt e Br) (That Night In Rio)
1941 – Férias em Havana (Pt) Aconteceu em Havana (Br) (Weekend In Havana)
1942 – Primavera nas Montanhas (Pt) Minha Secretária Brasileira (Br) (Springtime In The Rockies)
1943 – Sinfonia de estrelas (Pt) Entre a Loira e Morena (Br) (The Gang´S All Here)
1944 – Quatro Raparigas Encantadoras (Pt) Quatro Moças num Jeep (Br) (Four Jills In A Jeep)
1944 – Serenata Boemia (Pt e Br) (Greenwich Village)
1944 – Alegria Rapazes! (Pt e Br) (Something For The Boys)
1945 – A Canção da Felicidade (Pt) Sonhe eu Fosse Feliz (Br) (If I´M Lucky)
1947 – Copacabana
1948 – A Professora de Rumba (Pt) O Principe Encantado (Br) (A Date With Judy)
1950 – Festa no Brasil (Pt) Romance Carioca (Br.) (Nancy Goes To Rio)
1953 – O Castelo das surpresas (Pt) Morrendo de Medo (Br) (Scared Stiff)

Carmen Miranda: "Nasci em Portugal, mas me criei no Brasil e, portanto, considero-me brasileira. O local do nascimento não importa, nem sequer o sangue. O que importa é o que os americanos chamam de "environment", a influência do país e dos costumes em que vivemos, se bem que sempre existe um grau de gratidão e fidelidade aos pais que nos geraram. Da minha parte, sou mais carioca, mais sambista de favela, mais carnavalesca do que cantora de fados. O sangue tem uma certa importância, mas só no temperamento, não na maneira de sentir as coisas."
Heitor Villa Lobos, compositor: "Nenhum brasileiro pode ignorar o que Carmen fez por nós lá fora. Ela espalhou nossa língua, ensinou pessoas que nunca ouviram falar da gente a cantar nossas músicas e a amar nossos ritmos. Ela irá sempre significar muito para nós."
Kevin Stayton, vice - director do Brooklyn Museum: “Carmen Miranda era uma portuguesa que virou brasileira e levou a sua música e as suas fantasias - temperadas com elementos e ritmos dos escravos - para os Estados Unidos, e ainda conquistou a América através do cinema. E tudo isso em plena Segunda Guerra Mundial.”

Televisão: Salazar em Mini Série

"A Vida Privada de Salazar"
A humanização dos ditadores nunca me preocupou muito. A desumanização de que foram capazes, essa sim, preocupa-me, a mim e a todas as pessoas decentes, acredito. É muito mais inquietante percebermos que alguém que ama, que sofre, que gosta de passear e de fazer festas a um cão, que sorri para a empregada, que se preocupa com as vinhas e gosta de um bom copo de tinto, alguém que aprecia os prazeres da vida, é o mesmo alguém que reprime sem misericórdia, que manda matar, que sabe da tortura e a aceita. A existência de “monstros” desculpabiliza os homens. Mas haver homens iguais a mim que são capazes de tais torpezas alerta-me para o vizinho e para mim próprio. Nada é certo na vida, e é conveniente estar atento. Logo uma série de televisão sobre a vida amorosa de Salazar não me apoquenta. Saber que ele foi também capaz de pequenas tropelias sentimentais, que mentiu, traiu, escondeu-se, foi hipócrita, beijou, desejou, acariciou a pele de alguém, agarrou uma mão, tocou com o pé forrado a bota no delicado pé da mulher que estava ao seu lado no jantar, ou que deu uma queca bravia para os lados de Santa Comba Dão, com francesa ou portuguesa que se lhe atravessava pelo caminho, enquanto “estava casado com a Nação”, não me causa especiais engulhos. A Pide, a censura, o Tarrafal, Humberto Delgado (e muitos mais, com idêntica sorte), a guerra de África, as perseguições políticas, a falta de liberdade, o cinzentismo deste País (que ainda se prolonga em tantos salazarentos que por aí há, basta ler meia dúzia de blogues carregados de bolor e de ódio), isso sim, foi trágico. Saber que “ontem” existiu um homem, que até gostava de mulheres, mas que não gostava de pessoas que pensassem diferente dele, e que esse homem pôde chegar ao poder e fazer de um País o que lhe apeteceu, com a conivência cobarde de tantos, isso sim é revoltante. No entanto, salazarinhos de aviário continuam por aí, mandando beijinhos a senhoras, e proclamando a vontade de passar a ferro e fogo tudo quando mexa de forma diferente da sua. Preocupante, sobretudo quando há gente de boa fé (enfim, esperemos que estejam de boa fé!) que vai atrás da voz da sereia inquinada pelo ódio. Portanto, fica-se sabendo que amor e ódio coexistem na mesma pessoa facilmente. Quando ouvi falar na rodagem de “A Vida Privada de Salazar”, antecipei o pior, depois de livro de Felícia Cabrita, que oferecia pistas para uma escabrosa história de sexo e poder. Quase todos os portugueses sabiam do que se pretendia ter sido um “flirt” platónico com a jornalista francesa Christine Garnier que, no Verão de 1951, veio a Portugal fazer-lhe uma entrevista que deveria durar umas horas e acabou numa longa estada no retiro do Vimeiro, que culminaria num livro, “Vacances avec Salazar”. Mas, para lá desta aventura sentimental (e sexual), muitas outras se foram depois conhecendo a Salazar. Depois e antes, logo desde o seu tempo no seminário. É isso que esta mini-série de 180 minutos (dividida em dois episódios de 90’) pretende contar, partindo obviamente do livro de Christine Garnier que, apaixonada pelo ditador, tudo a ele entregou, a honra pessoal e a honra literária, e de algumas outras obras biográficas entretanto aparecidas. O resultado, porém, é uma agradável surpresa. A realização de Jorge Queiroga é de uma enorme sobriedade e eficácia, delicada e subtil nas sugestões (mesmo que aqui e ali force o tom erótico, por força do apelo comercial). A narrativa evolui com alguma argúcia, por entre diversas épocas e rostos de mulheres. Falta-lhe apenas, o que é grave, uma maior contextualização política e social. Os diálogos não ofendem. A reconstituição histórica, de ambientes e personagens, muito boa, credível e de bom gosto. (Quando não inventam quedas na banheira, que nunca existiram). Boas a fotografia e a partitura musical. E a interpretação bastante uniforme e bem conseguida, discreta, interiorizada, contida, feita de olhares e de gestos esboçados, conferindo ao todo uma consistência inusitada. Haverá quem não goste de ver esta “Vida Privada de Salazar”, mas tecnicamente e artisticamente, esta é definitivamente uma aposta ganha.
Título original: A Vida Privada de Salazar
Realização: Jorge Queiroga (Portugal, 2009); Argumento: Pedro Marta Santos/ António Costa Santos; Fotografia (cor): Orlando Alegria; Assistente de realização: João Roque; Produtora executiva: Ana Torres; Direcção de produção: Adelaide Empis; Produtor: Manuel S. Fonseca / Valentim de Carvalho / SIC.
Intérpretes: António de Oliveira Salazar (Diogo Morgado), D. Maria de Jesus (Ana Guiomar/Margarida Carpinteiro), Júlia Perestelo (Catarina Wallenstein), Carolina Assenca (Ana Padrão), Christiane Garnier (Helena Nogueira), Hermínia (Benedita Pereira); Mário Figueiredo (João Lagarto), Felismina (Maria João Pinho), Sofia (Cláudia Vieira), Maria Emília Vieira (Soraia Chaves), Micas (Maria da Conceição) Jesus (Alexandra Viveiros/Alda Gomes), Maria Antónia (Beatriz Costa), Cardeal Cerejeira (Filipe Vargas), Padre confessor (José Pinto), Amália Rodrigues (Sandra Barata Belo), Duarte Pacheco (Tó Melo), etc.
Duração: 2x90 minutos; Exibição na SIC, a 8 e 9 de Fevereiro de 2009





sábado, fevereiro 07, 2009

CINEMA: QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

QUEM QUER SER BILIONÁRIO?
“Slumdog Millionaire”, de Danny Boyle (“Trainspotting”, 1996; “28 Days Later”, 2002; “Millions”, 2004, entre outros), é um filme extremamente inteligente sobre dois mundos, duas realidades que sobrevivem, quer seja na Índia (onde esta obra se passa), quer seja no mundo em geral (onde o programa “Quem quer ser Milionário” acontece, em Portugal também obviamente, em Inglaterra ou EUA, com graus de aproximação diversa, mas mantendo a sua essência).
Vejamos como: “Quem quer ser Bilionário?” acompanha a vida de Jamal Malik (e também de seu irmão mais velho, Salim Malik, e de uma amiga de infância, Latika). São gente muito pobre que vive em constante sobressalto, originária de bairros da lata que parecem pocilgas, encurralada pela miséria, a polícia, o crime, as castas inimigas, as perseguições religiosas. O filme, inicialmente, ao abordar esta realidade brutal parece ir buscar influência, até formal, a “O Fiel Jardineiro”, de Fernando Meirelles (a presença do comboio e os longos “travellings” sobre os bairros da lata não deixam de criar sintomáticos paralelismos). Mas, ao mesmo tempo que vamos assistindo a esta descrição de uma realidade que ultrapassa a dureza da miséria e se instala já no território de um brando genocídio consentido, vamos descobrindo uma outra realidade, feita de holofotes e de prémios chorudos, que nos é restituída sobretudo através do ecrã da televisão: os concursos televisivos que prometem milhões e a felicidade na terra. O mesmo obstinado Jamal Malik, que inicia na meninice uma longa e tormentosa fuga à miséria, à fome, à morte, à prepotência policial, responde vitorioso a uma série de perguntas que o faz galgar os diferentes degraus desse mirífico concurso. O seu saber, de experiência feito, como iremos percebendo ao longo do filme, e a sua inteligência e argúcia (que foi o traquejo da vida que também as aguçou), levam os organizadores do programa e as autoridades a supor que se trata de um esquema de batota bem dissimulada, e agir em conformidade, ao longo de um sangrento interrogatório onde impera a tortura e vale tudo. Existem assim dois planos de realidades diferentes que se vão confrontado e elucidando um ao outro, tanto mais que a violência da realidade se transfere para esse outro plano de aparente conto de fadas que afinal não é também e está sujeito às mesmas regras mafiosas. Da Índia o cinema deu já centenas de olhares, muitas vezes complementares. Quem viu "Calcutta", de Louis Malle, viu uma Índia. Quem assistiu a “Pather Panchali”, de Satyajit Ray, ou "Salaam Bombay!", de Mira Nair, uma outra. Vista de dentro. "A Passage to India", de David Lean, ou "Gandhi", de Richard Attenboroug, refere uma Índia diferente, com o seu vestígio colonial, bem como “India Song”, de Marquerite Duras, desta feita numa perspectiva francófona. Uma obra-prima como “Rio Sagrado”, de Jean Renoir, apresenta um outro olhar, e quase todos estes são olhares cruzados, provenientes de diferentes civilizações e culturas (muitas vezes de culturas que se identificam ora com colonizados, ora com colonizadores). Haveria centenas de filmes a referir, porque a índia sempre foi cenário apetecível para o cinema, do mistério ao romantismo, do teror ao exotismo.
“Slumdog Millionaire” refere-se a uma outra Índia, multifacetada, contraditória (ou talvez não), onde prevalecem a miséria extrema e o luxo asiático do Tal Mahal, ao lado do “boom” económico actual, onde a globalização penetra fundo e tudo unifica (o concurso televisivo tem o mesmo cenário em todo o mundo, os mesmo apresentadores, o mesmo estilo, as mesmas reacções do público, encomendadas pelos assistentes de produção de serviço, as mesmas intenções, o mesmo efeito de conto de fadas). É esse inquietante retrato de uma sociedade onde o ser humano não é minimamente respeitado, onde tudo se vende e se troca, onde se arrancam os olhos a uma criança com uma colher para ser uma mais valia como pedinte (um pouco mais violento que em “Oliver Twist”, de Charles Dickens, universo que aqui se prolonga numa modernidade que nada transforma no essencial), ou se viola uma miúda virgem sem uma hesitação. É dessa sociedade que só se pode fugir, numa desesperada corrida para a frente, sem que se saiba muito bem em direcção a quê. Repare-se que as crianças fogem durante o filme todo, de tudo, de todos, permitindo afirmar que toda a obra é uma correria desenfreada pela sobrevivência. Uma sobrevivência que se estratifica num concurso televisivo, que é, no fundo, uma realidade virtual, tal como decorre dessa muito improvável história de amor, com “happy end” glamoroso, que só pode mesmo existir nesse final de musical à Bollywood, onde tudo se passa num cenário imaginário de estação de caminho-de-ferro idealizada. A forma inteligente e ágil como Danny Boyle entrelaça estas duas realidades, mercê de uma montagem nervosa, sincopada, de ritmo por vezes avassalador, é um dos méritos desta película que conta ainda com uma excelente interpretação, nomeadamente dos actores mais jovens e do seu protagonista. A fotografia é igualmente notável, oferecendo-nos as cores de uma Bombaim (ou Mumbai) cheia de contrastes, onde o “straigth for life” fomenta as formas mais atrevidas de procurar alimento, de chegar até um ídolo da canção, de roubar turistas ou o vizinho do lado. O dinheiro é o fito maior, a miragem da independência, mesmo quando só serve para encher de notas sem préstimo uma banheira onde se espera a morte anunciada. A tiros de revólver.
Numa aparente toada de entretenimento, “Quem quer ser Bilionário?” é não só uma lição de cinema como uma lição de vida. Compreende-se que alguns indianos se tenham sentido atingidos pela metáfora de conto de fadas inquinada de uma vigorosa critica social. Mas a critica não se destina só aos indianos, mas aos humanos em geral. Curiosamente, porém, este não é um universo tão desesperado como se poderia esperar do atrás exposto. “Quem quer ser Bilionário?” consegue introduzir um optimismo de olhar que permanece para lá do final da obra. Afinal, todos percebemos, que o concurso é impossível de ganhar e a história de amor impossível de cumprir-se. A não ser no cinema, nessa ficção que nos oferecem. Mas a obstinácia do protagonista e o seu olhar decisivo, a sua afirmação peremptória de que “se lhe fazem perguntas, ele responde”, enquadra-se bem nesta nova era pós vitória de Obama com um inesquecível, “Yes, we can!”. O que faz certamente o grande sucesso do filme um pouco por todo o lado, mas particularmente no mundo ocidental. Os prémios sucedem-se, e não sendo “o melhor filme do ano”, nem uma obra-prima (terá mesmo algumas fragilidades na estrutura), tudo leva a crer que seja o grande triunfador da noite dos Oscars. A América (ou melhor, uma grande parte da América) está possuída por essa vontade de mudança e por essa nova esperança num mundo de possibilidades para todos, incluindo nesses todos os mais desprotegidos e vulneráveis. É bom sentir essa chama e é saudável que muitos filmes a transformem em actos de decisão colectiva. Como no tempo de Roosevelt e do “New Deal”, por muito que possa parecer ingénua essa esperança (era-o também nos filmes de Capra!). Compreende-se essa aposta na vontade do homem, como se compreendem outras reacções de efeito contrário: Clint Eastwood, que eu julgo o grande realizador de 2008, viu-se penalizado pelos seus pares por ser um fervoroso republicano e conservador, que apoiou Bush. Não lhe bastou realizar os melhores filmes, com o melhor cinema (e com uma indisfarçável defesa da pena de morte, em “A Troca”, o que não lhe perdoamos também). Acabou por ser arrastado na onda anti-Bush.
QUEM QUER SER BILIONÁRIO?
Título original: Slumdog Millionaire
Realização: Danny Boyle (e ainda Loveleen Tandan, co-realizador na Índia) (Inglaterra, EUA, 2008); Argumento: Simon Beaufoy, segundo romance de Vikas Swarup ("Q & A"); Produção: Christian Colson, Paul Ritchie, François Ivernel, Ivana Mackinnon, Cameron McCracken, Tabrez Noorani, Tessa Ross, Paul Smith; Música: A.R. Rahman; Fotografia (cor): Anthony Dod Mantle; Montagem: Chris Dickens; Casting: Gail Stevens, Loveleen Tandan; Design de produção: Mark Digby; Decoração: Michelle Day; Guarda-roupa: Suttirat Anne Larlarb; Maquilhagem: Virginia Holmes, Natasha Nischol; Direcção de Produção: Lucie Graves, Jennifer Wynne; Assistentes de realização: Raj Acharya, Avani Batra, Yugandhar S. Narvekar, Sonia Nemawarkar, Rohit Ved Prakash, Tanya Singh; Departamento de arte: Kathy Heaser, Brendan Houghton, Aditya Kanwar, Andrew Tapper; Som: Glenn Freemantle, Tom Sayers; Efeitos visuais: Adam Gascoyne; Companhias de produção: Celador Films, Film4; Intérpretes: Dev Patel (Jamal Malik), Anil Kapoor (Prem Kumar), Saurabh Shukla (Sargento Srinivas), Rajendranath Zutshi (Director), Jeneva Talwar, Freida Pinto (Latika), Irrfan Khan (Inspector da polícia), Azharuddin Mohammed Ismail (Salim, criança), Ayush Mahesh Khedekar (Jamal, criança), Sunil Kumar Agrawal (Mr Chi), Jira Banjara, Sheikh Wali, Mahesh Manjrekar (Javed), Sanchita Choudhary (mãe de Jamal), Himanshu Tyagi (Mr Nanda), Sharib Hashmi (Prakash), Virendra Chatterjee (Slum Man), Feroz Abbas Khan (Amitabh Bachchan), Virender Kumar, Devesh Rawal, Rubiana Ali, Ankur Vikal, Chirag Parmar, Nazneen Shaikh, Farzana Ansari, Anupam Shyam, Salim Chaus, Singh Shera Family, Harvinder Kaur, Narendra Singh Bhati, Tanay Chheda, Ashutosh Lobo Gajiwala, Satya Mudgal, Janet de Vigne, William Relton, David Gilliam, Mia Drake, Kinder Singh, Christine Matovich Singh, Thomas Lehmkuhl, Siddesh Patil, Najma Shaikh, Saeeda Shaikh, Alka Satpute, Tabassum Khan, Tanvi Ganesh Lonkar, Sitaram Panchal, Nigel Caesar, Ajit Pandey, Kedar Thapar, Amit Leonard, Rajesh Kumar, Sagar Ghopalkar, Pradeep Solanki, Abdul Hamid Sheikh, Dheeraj Waghela, Arfi Lamba, Taira Colah, Varun Bagri, Ankur Tewari, Anjum Sharma, Madhur Mittal, Sarfaraz Khan, Syed Fazal Hussain, Umar Khan, Imran Hasnee, Homai Billimoria, Udayan Baijal, Sandeep Kaul, Rufee Ahmed, Rhea Lawyer, Deepali Dalvi, Anisha Nagar, Farrah Shaikh, Mamta Sharma, Neha M. Khatarawalla, Tanya Singh, Anand Tiwari, Faezeh Jalali, Meghana Jhalani, Rupali Mehra, Anju Singh, Saurabh Agarwal, Amitabh Bachchan, Shruti Seth, etc. Duração: 120 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Zon; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 5 de Fevereiro de 2009.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

PROPAGANDA ENGANOSA


UM CARTAZ VERGONHOSO
Para falar honestamente não sei em que medida José Sócrates interveio no Caso Freeport e agradeço que o mais rapidamente possível se dissipem as dúvidas. As minhas e as de todos os portugueses. Creio, por que um homem que aspira ao cargo de Primeiro-ministro não se iria meter em alhadas destas meses antes, mas espero para ver.
Acontece que, enquanto espero para ver o resultado das investigações policiais, não há acusados nem réus. Por isso, para mim, e para qualquer pessoa bem intencionada, ninguém é culpado até prova em contrário. Seja de que partido for, seja de que cor seja.
A política do vale tudo é verdadeiramente nojenta. É o caso deste “outdoor” imaginado pela Juventude Social-democrata de Setúbal, onde se diz, em letras garrafais, que Sócrates mente, e depois, lá em cima, em letras miudinhas, se diz que prometeu 150.000 novos empregos. Acontece que todos sabem que Sócrates prometeu algo numa época em que não existia a crise que se abateu sobre TODO o mundo. Por isso não se lhe devem imputar essas culpas (outras haverá, como por exemplo a muito recente ideia peregrina de sugerir trabalho gracioso a professores reformados, sobretudo NESTE ALTURA do campeonato). Mas o mais grave não é isso. O mais grave é aproveitar, de uma forma totalmente despudorada, o caso Freeport para passar a mensagem que “Sócrates mente” (ou tal como lá está escrito: “Ainda acredita?”, com a imagem do nariz do “Pinócrates”).
Há atitudes que só se podem voltar contra quem as pratica. Esta é uma delas. Ainda haverá gente de bem e com princípios no PSD? Claro que há. Por que actuam?

SONDAGENS: SE AS ELEIÇÕES FOSSEM AGORA


Uma Eurosondagem, realizada para o Expresso, a SIC e a Rádio Renascença, entre 28 de Janeiro e 3 de Fevereiro (período dominado pelo caso Freeport) dá resultados muito curiosos (como se pode verificar AQUI). Se se somar PS, Bloco e PCP dá um resultado de cerca de 60% de possiveis votantes, contra 36% de PSD e PP.


Mas há mais a considerar. Sócrates desce um pouco na popularidade, mas é, ainda assim, e sem rival perto, o mais popular (saldo positivo de 20, 6%; desce 3, 2), e Manuela Ferreira Leite desce para os -10, 5. Um dos piores resultados de sempre do PSD. Francisco Louça mantém um saldo positivo de 4,3%, Paulo Portas fica-se pelos 3,1%, positivos, Jerónimo de Sousa tem um saldo negativo de 5,8%.

(Veja tudo no Expresso de 8.2.2009)

Veja mais dados sobre esta e outra sondagem no blogue Da Literatura.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

REGRESSO A VERGÍLIO FERREIRA

Regresso a Vergílio Ferreira. Pediram-me mais uma vez um testemunho sobre o escritor de “Manhã Submersa”. Desta feita para incluírem num documentário sobre “Aparição”, a exibir futuramente na RTP.

Apeteceu-me reler a obra, uma das suas que pela primeira vez descobri, ainda adolescente.
Que assombração! Que deslumbramento!
Como se escreve límpido e profundo, como se ficciona e se filosofa.
Como se pensa a vida na inevitabilidade da morte. Como se pensa a vida e a morte “do interior de mim”.


Um exemplo:

“E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo – da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre do que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei – não do olhar dos outros.”

(Aparição, 1959).

domingo, fevereiro 01, 2009

MÚSICA: CORVOS

UM CONCERTO MEMORÁVEL
No Centro Olga Cadaval, em Sintra, aconteceu um concerto memorável. O grupo “Corvos” juntou-se à Banda Sinfónica do Exército e realizaram um “ensemble” que não estaria na imaginação de muita gente. Colocar uma (excelente, diga-se de passagem) Banda Sinfónica do Exército a tocar rock sinfónico, com violinos em destaque, com arranjos clássicos para temas de um universo fantástico e mítico não era de supor ser feito e sobretudo resultar tão bem. Na verdade o efeito foi surpreendente e largamente estimulante para o público que enchia a sala e acarinhou vibrantemente o grupo de cordas constituído pelos primos Pedro Teixeira da Silva, Tiago Flores (violinos), Nuno Flores (viola d´arco) e Carlos Costa (violoncelo).
Exímios executantes, todos eles de sólida formação clássica, com passagem por inúmeras bandas (Ornatos Violeta, Mafalda Veiga, Santos e Pecadores, Jorge Palma, Titãs, Jethro Tull e algumas mais), admiradores incondicionais dos “Xutos e Pontapés” (a quem dedicaram o primeiro álbum, “Corvos Visitam Xutos”, que funcionou como um magnífico cartão-de-visita para o grupo), “Corvos” vão agora no seu quarto álbum, recentemente saído, “The Jinx”, depois de "Post Scriptum" (evocando Kurt Weill, Jim Morrison, Kurt Cobain. Para lá dos sempre presentes Xutos e Pontapés), e de “Corvos 3”.
Tocar rock como se fosse Mozart ou Ravel, tocar Bach ou Mahler como se fosse rock não é crime de lesa música, mas uma forma de tornar viva e actual a música que se ama. Os “Corvos”, vestidos de preto e com os rostos rasgados por uma maquilhagem “gótica”, levam mais longe a aposta, criando uma sonoridade que é só deles, que passa pela noite brumosa dos filmes fantásticos de antanho, pela vibração céltica, pelos sons medievais da gesta portucalense, assim como pelas florestas de Siegfried, pelo terror intimista de Edgar Allan Poe, pelas inquietações mais profundas da alma humana. Temos aqui seguramente um dos grandes grupos musicais portugueses da actualidade. A seguir com o maior interesse. Para já, dia 21 de Março, encerram o Famafest, por mérito próprio, associando-se assim às comemorações do segundo centenário do nascimento de Edgar Allan Poe, o autor de “O Corvo”, um dos poemas mais célebres da literatura mundial.










Corvos - With Or Without You (U2) Live @ Fnac Chiado











Corvos - Alabama Song

sexta-feira, janeiro 30, 2009

FAMAFEST 2009

A abrir, dia 14 de Março, 21,30 horas:


CARLOS DO CARMO

*

A fechar, dia 21 de Março, 21, 30 horas



CORVOS


COMO É BOM LER TEXTOS INTELIGENTES!

E se Obama fosse africano?
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Mia Couto (com a devida vénia), in Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008

quinta-feira, janeiro 29, 2009

CINEMA: FROST/NIXON

FROST/NIXON
“Frost/Nixon” assemelha-se muito a um combate de boxe entre duas personagens com real existência física: o apresentador de televisão David Paradine Frost (nascido a 7 de Abril de 1939), que ainda há pouco mantinha na televisão inglesa um programa de entrevistas, “Frost Over The World”, na “Al Jazeera English”, e Richard Milhous Nixon (nascido em Yorba Linda, Califórnia, a 9 de Janeiro de 1913 e falecido a 12 de Abril de 1994), que foi o 37º Presidente dos Estados Unidos da América, entre 1969 e 1974, ano em que resignou, depois de se ver envolvido no caso Watergate. Nixon foi o único Presidente dos EUA até hoje a ser obrigado a afastar-se do cargo, em virtude de ter cometido graves irregularidades durante a sua administração. Republicano, tinha atrás de si uma carreira repleta de duvidosos casos políticos, desde a sua activa e decisiva contribuição para o período da “Caça às Bruxas”, durante o Machartismo, tendo depois sido Vice-presidente de Dwight D. Eisenhower (entre 1953 e 1961). Em 1960 perdeu as eleições presidenciais para John F. Kennedy, e em 1962 para governador da Califórnia. Mas, em 1968, seria eleito Presidente e reeleito em 1972. A sua Presidência seria tumultuosa, com graves questões internas e externas (guerra do Vietname, a que curiosamente pôs termo, depois de uma escalada fatídica, e de ter a aceite uma má dissimulada rendição, relações com a China e a URSS, com as quais logrou alguma contenção, guerra com o Cambodja, o Laos, crise económica e caos social nos EUA). A 14 de Agosto de 1974 demitia-se de Presidente, com uma curta declaração, e o seu sucessor, Gerald Ford, anunciava, pouco depois, um perdão para todos os “crimes federais” por si cometidos. Assim se retirou para a sua residência “La Casa Pacifica”, em San Clemente, Califórnia, onde escreveu, em 1978, as mil páginas “The Memoirs of Richard Nixon”, a que se seguiram nove outros volumes (todos muito bem remunerados).
Anteriormente, porém, em 1977, Nixon pretendeu organizar um regresso à vida pública, procurando de alguma forma recuperar a imagem perdida. Foi por isso que aceitou encontrar-se com David Frost, apresentador de shows de variedades e entrevistador de celebridades mediáticas, que tivera alguns programas de certo sucesso em Inglaterra, mas que caíra em desgraça e se encontrava então na Austrália. Forst e Nixon eram por esse tempo “anjos caídos” que viviam tempos de exílio forçado. Ambos combatentes de têmpera, ambos pretendiam um regresso em grande. As seis entrevistas que ficaram combinadas (por um chorudo pagamento de 600 mil dólares, quase todos saídos do bolso de Frost) seriam, portanto, um combate público em que só poderia “haver um vencedor”. Ou um “combate combinado” que assim teria dois vencedores, o que também chegou a ser ventilado nesse momento. As primeiras gravações das entrevistas não foram brilhantes para Frost, que se mostrava demasiado retraído, dando todos os pontos a Nixon, mas, quando chegou a ocasião de abordar o caso Watergate, tudo mudou de figura. Nixon acabaria por confessar publicamente alguns erros e ilegalidades (que, quando cometidas por um presidente, “não eram ilegalidades”, explicou perante a incredibilidade do país). As entrevistas que até aí não tinham motivado grande interesse por parte das cadeias de tv americanas, acabaram por ser um sucesso televisivo, com mais de 45 milhões (há quem fale em 50 milhões) de espectadores em todo o mundo, o que as tornou no maior êxito de sempre no campo das entrevistas políticas televisionadas. Enquadrado historicamente o acontecimento, e o seu inequívoco interesse, cremos não andar muito longe da verdade se dissermos que o verdadeiro protagonista deste filme de Ron Howard é, no entanto, George W. Bush. E porquê? Porque muitas vezes ouvimos Frost, no filme, fazer perguntas a Nixon e quem ouvimos a responder é Bush, tal a sobreposição de questões. De certa forma as entrevistas de Frost constituíram uma espécie de julgamento público de um presidente que levou os EUA para a guerra com falsas questões, com mentiras organizadas a seu favor, acabando por desencadear uma das piores crises militares, políticas, económicas, financeiras e sociais da história daquele país e do mundo. Estamos portanto a ouvir perguntas que poderiam ser endereçadas a George W. Bush, e a julgá-lo publicamente por interposta pessoa. O resultado é confrangedor para um e outro. O filme adquire o estatuto de requisitório indiscutível.
Mas o filme pode (e deve) ser visto ainda sob outros pontos de vista, nomeadamente o das relações entre os meios de comunicação social e o poder instituído. Nixon era pessoa que, a bem ou a mal, “sabia” tratar com a comunicação social. Os seus processos eram quase sempre mafiosos, mas o filme relembra como “as coisas” se podem estruturar. A começar desde logo pelo próprio caso Watergate, que, na base, tem precisamente este problema: como calar certas vozes incómodas da oposição nos jornais? Foi para saber como que colaboradores da Casa Branca resolveram entrar em instalações do Partido Democrata para recolher informações. Ao serem descobertos, desbloquearam toda a tramóia que haveria de liquidar Nixon. Ao olharmos, porém, para estes dois homens em confronto, não nos restam muitas dúvidas de que ambos se equivalem. O duelo é de morte, mas o que está em causa será a reposição da verdade e o julgamento público de um Presidente crápula? Ou será antes os 600 mil dólares que fascinaram Nixon e saíram do bolso de Frost? Ou será o futuro profissional de cada um deles e da rede de colaboradores que os mantêm em exercício? Há algum quixotismo em Frost? Há algum arrependimento em Nixon? Não estarão ambos a investir ao mais alto nível nos seus futuros? Um a querer regressar à ribalta da TV de Inglaterra, outro a querer rentabilizar, o melhor possível, as suas memórias, impondo a comiseração por um lado e o branqueamento, limitado é certo, da sua imagem pública? Afinal o resultado foi o julgamento de Nixon, é uma realidade, mas com um perdão para todos os “crimes federais” e a nova imagem do homem que, apesar dos crimes cometidos, se tinha humilhado, confessando num acto de contrição que todo o país (e o mundo) iria compreender (e perdoar), continuando a comprar “as memórias” que iria futuramente publicar e tanto jeito lhe fariam à contabilidade pessoal.
A forma como a televisão (e toda a comunicação social por arrasto) dialoga com o poder é outra questão delicada que o filme aborda, com alguma subtileza, mas mostrando bem o jogo de influências, sobretudo quando se apostam fortunas numa transmissão e se arriscam carreiras. O início da obra é esclarecedor, desvendando os mecanismos que estão na base dos projectos e como os mesmos se montam ou desmontam. Claro que Ron Howard, não sendo um cineasta particularmente criativo e um “autor” de primeiro plano, é um realizador atento e eficaz. O filme movimenta-se bem em interiores cerrados, as cenas das entrevistas conseguem justificar o tom de quase “thriller” psicológico, adensando o clímax com habilidade. Há um momento, absolutamente ficcionado no filme, que funciona muito bem, quando Nixon, embriagado (apenas um plano de copos e garrafa, anterior, prenuncia o desenlace), telefona a meio da noite a Frost. No dia seguinte, Frost evoca esse telefonema a Nixon, este não o recorda, mas essa confidência do entrevistador irá retirar ao ex-presidente toda a segurança, fragilizá-lo e viabilizar a confissão. Também aqui as comparações com Bush não deixam de se estabelecer.
Retirado de uma peça de teatro de Peter Morgan, que também a adaptou a cinema, “Frost/Nixon” não perde esse intimismo de “filme de câmara”, conseguindo sustentar o confronto (“aproxima-te mais dele, para o intimidares, olha-o nos olhos, interrompe-o para o enervares, não o deixes monologar sobre o que quer”, aconselham os colaboradores de Frost ao apresentador, que até aí garantia a Nixon muito à vontade). A adaptação é por isso boa, mantendo certamente as virtualidades da peça que foi sucesso em Londres e na Broadway, procurando novos valores narrativos, sem desvirtuar o essencial. Informação adicional: Frank Langela e Michael Sheen também interpretavam os mesmos papéis no teatro que agora recriam no cinema. Vamos, pois, e finalmente, ao diálogo de actores. Frank Langella (Richard Nixon) e Michael Sheen (David Frost) são dois bons actores, particularmente o primeiro. Deve sublinhar-se o trabalho de ambos, na assimilação de características e de pormenores de gestos, olhares, entoações, mas se o desempenho é minucioso, e por vezes brilhante, há algo que nos afasta dos verdadeiros protagonistas. Percebe-se que a intenção não foi mimar ao extremo o físico de Nixon ou Frost, mas construir essas figuras sobre a aparência física dos actores que lhe acrescentaram apenas certos tiques ou particularidades. O resultado, não afectando demasiado o filme, acaba por nos distanciar. Não sabemos mesmo se não haverá algo de propositado neste distanciamento (um Nixon que não é totalmente o Nixon das actualidades e dos telejornais da época, para o filme se centrar mais na figura de um Presidente dos EUA, pouco escrupuloso, dado à bebida, prepotente e ardiloso, populista e atávico – será só Nixon que corresponde ao retrato, quando o filme de Ron Howard se estreia em plena campanha de Barack Obama?).
Resumindo: não será o grande cinema norte americano, mas é definitivamente o cinema norte americano liberal, que investiga, que denuncia, que tenta clarificar, tomar partido, defender causas, e mostrar que, no final, numa democracia, por muitos erros que se cometam, há sempre mecanismos que permitem de alguma forma remediar o mal. Claro que para quem não acredita nas democracias representativas, este filme não faz mais do que salvar a face. Aceitamos até a crítica, desde que nos mostrem alternativas, e alternativas viáveis. Mas não serão certamente exemplos do passado, carregados de prepotência, tortura e morte, que nos irão fazer mudar de ideias. Por isso achamos este filme um bom exemplo do que o cinema pode fazer para interferir na realidade e ajudá-la a mudar, para melhor.





Curiosidade suplementar; parece que este projecto antes de ser entregue a Ron Howard passou por várias mãos que o cobiçavam: Martin Scorsese, Mike Nichols, George Clooney, Sam Mendes ou Bennett Miller foram alguns.

FROST/NIXON
Título original: Frost/Nixon
Realização: Ron Howard (EUA, França, Inglaterra, 2008); Argumento: Peter Morgan, segundo peça de teatro de sua autoria; Produção: Tim Bevan, William M. Connor, Eric Fellner, Brian Grazer, Todd Hallowell, Ron Howard, Kathleen McGill, Peter Morgan, Louisa Velis; Música: Hans Zimmer; Fotografia (cor): Salvatore Totino; Montagem: Daniel P. Hanley, Mike Hill; Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins; Design de produção: Michael Corenblith; Direcção artística: Brian O'Hara, Gregory Van Horn; Decoração: Susan Benjamin; Guarda-roupa: Daniel Orlandi; Maquilhagem: Colleen Callaghan, Edouard F. Henriques, Elizabeth Hoel, Karyn Huston, Sabine Roller, Justin Stafford; Direcção de Produção: Kathleen McGill; Assistentes de realização: William M. Connor, Todd Hallowell, Scott R. Meyers, Kristen Ploucha, Scott Schaeffer; Departamento de arte: Lorrie Campbell, Chad S. Frey; Som: Anthony J. Ciccolini III, Teri E. Dorman, Gary A. Hecker, Solange S. Schwalbe; Efeitos especiais: Chad Baalbergen, Jeff Miller; Efeitos visuais: Eric J. Robertson; Companhias de produção: Imagine Entertainment, Relativity Media, Studio Canal, Working Title Films; Intérpretes: Frank Langella (Richard Nixon), Michael Sheen (David Frost), Sam Rockwell (James Reston, Jr.), Kevin Bacon (Jack Brennan), Matthew Macfadyen (John Birt), Oliver Platt (Bob Zelnick), Rebecca Hall (Caroline Cushing), Toby Jones (Swifty Lazar), Andy Milder (Frank Gannon), Kate Jennings Grant (Diane Sawyer), Gabriel Jarret (Ken Khachigian), Jim Meskimen (Ray Price), Patty McCormack (Pat Nixon), Geoffrey Blake, Clint Howard, Rance Howard, Gavin Grazer, Simon James, Eloy Casados, Jay White, Wil Albert, Keith MacKechnie, Penny L. Moore, Janneke Arent, David Ross Paterson, Jennifer Hanley, Robert Pastoriza, Louie Mejia, Kevin P. Kearns, David Kelsey, James Ritz, Pete Rockwell, Ned Vaughn, Simone Kessell, Ben Pauley, Noah Craft, Talley Singer, Kaine Bennett Charleston, Gregory Alpert, Kimberly Robin, Michelle Manhart, Steve Kehela, Antony Acker, Jenn Gotzon, Googy Gress, Marc McClure, Joe Spano, etc. Duração: 122 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 22 de Janeiro de 2009.

NIXON E FROST, OS AUTÊNTICOS

DOIS VIDEOS SOBRE A DEMISSÃO DE NIXON DE PRESIDENTE





FOTOS DOS VERDADEIROS INTERVENIENTES, FROST E NIXON

quarta-feira, janeiro 28, 2009

UM DISCURSO MEMORÁVEL

Sobre Religião, Democracia, Inteligência e Direitos Individuais

CINEMA: VICKY CRISTINA BARCELONA

VICKY CRISTINA BARCELONA
Duas jovens americanas aterram em Barcelona para umas férias de Verão. Vicky (Rebecca Hall) vem estudar a cultura catalã e a arte de Gaudi, por que se apaixonara aos 14 anos, e está noiva de um executivo norte-americano, tendo o casamento aprazado para daí a meses; Cristina (Scarlett Johansson) parece ser o inverso da “bem comportada” amiga, inquieta e instável, quer sorver a vida sofregamente, a goles de paixões que se sucedem. Instalam-se em casa de amigos que as convidaram e, numa inauguração de uma galeria de arte, conhecem Juan Antonio Gonzalo (Javier Bardem) que as convida, na primeira conversa que mantêm, para uma visita a Oviedo, um jantar e uma cena de amor a três. Claro que Vicky, chocada, protesta o seu puritanismo e invoca o próximo casamento, enquanto Cristina acaba por levar todos até Oviedo, onde tudo se passa ao contrário do que se poderia pensar. Cristina vai ao quarto de Juan António, mas acaba doente, a sopas e descanso, sozinha no “seu” quarto, e a preconceituosa Vicky, secretamente, e sem dar conhecimento do caso a ninguém, nem à melhor amiga (nem, sobretudo, ao namorado, futuro marido), dá livre curso à sua libido desenfreada. Nem tudo o que parece é, e as mais sonsas são as que mais prevaricam, já se sabe. Nomeadamente as que mais invocam a sua incorruptível moralidade. Este o início de “Vicky Cristina Barcelona”, uma deliciosa comédia de costumes que Woody Allen escreveu e foi rodar a Barcelona, cidade que se afirma igualmente como personagem nesta trama de amores lícitos e ilícitos. O mais divertido neste filme é que parece que estamos a assistir a uma obra concebida a quatro mãos: Vicky e Cristina são personagens de Woody Allen; José António e a sua fogosa e fatal ex-mulher Maria Elena (Penélope Cruz) são personagens de Almodóvar; o diálogo tem o brilhantismo próprio de um certo humor judeu nova-iorquino, que Woody Allen tão bem desenvolve, numa ironia fina e numa inequívoca ternura pelos seres humanos, as suas fraquezas e as suas forças, mas o cenário, de Barcelona a Oviedo, parece o “décor” de uma obra de Almodóvar.
Filme sobre a imponderabilidade da vida e os caprichos do amor, rodado numa Barcelona de cores doces e voluptuosas, cuja arquitectura de Gaudi ajuda a moldar numa perspectiva arrevesada e tortuosa, “Vicky Cristina Barcelona” é mais uma daquelas obras onde o confronto de duas civilizações, e de dois comportamentos quase inconciliáveis cria o conflito e mantém a expectativa. De um lado, os americanos planificados, pragmáticos e algo puritanos, por muito que afirmem que “não julgam ninguém”. Por outro lado, a vida boémia e libertina dos artistas europeus, herdeiros de um contexto histórico muito diferente, e que exerceu sempre um enorme fascínio nos companheiros do outro lado do Atlântico (veja-se por exemplo, a dita “geração perdida” dos anos 20, que emigrou quase toda para o Velho Continente, por longas temporadas, em busca de inspiração e vivência intensa). Cristina é um caso desses, americana como Vicky, mas sequiosa de novidades e pronta a entregar-se aos mais díspares triângulos e duetos amorosos. A sua franqueza irá talvez fazê-la sofrer mais, cada nova paixão equivale a um novo desgosto, mas, para quem assim vive, a dor é o equivalente ao prazer e tudo vale a pena se a vida não é pequena. Inteligentemente escrito, na narrativa em off, bem como nos diálogos, inventivo nas situações, subtil no humor, magnificamente encenado em cenários que percorrem os lugares essenciais de Barcelona, sem cair no rodriguinho do bilhete postal turístico, “Vicky Cristina Barcelona” impõe-se ainda pela qualidade do trabalho dos actores Javiem Bardem é o fulgurante artista romântico por excelência (a ex-mulher tem a teoria, quem sabe se certa?, de que só são românticos os amores impossíveis ou condenados ao fracasso, no caso dela, aos sucessivos fracassos, porque volta sempre ao lugar do crime, repetindo a dose); Penélope Cruz, é uma espanhola que gosta de “touros de morte” e avança de faca ou pistola em punho para qualquer ajuste de contas emocional; Scarlett Johansson mantém o nível a que nos habituou ultimamente, mas continua a desiludir um pouco, e Rebecca Hall torna-se a grande surpresa do filme, ela que se impõe nos últimos anos de título em título (em exibição igualmente em “Frost/Nixon”).
Vicky Cristina Barcelona
Título original: Vicky Cristina Barcelona
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2008); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley, Bernat Elias, Charles H. Joffe, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures; Fotografia (cor): Javier Aguirresarobe; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Alain Bainée; Direcção artística: Iñigo Navarro; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Robert Fama, Manolo García, Ana Lozano, Jesús Martos, Eva Quilez; Direcção de Produção: Bernat Elias, Oriol Marcos; Assistentes de realização: Daniela Forn, Murphy Occhino, Richard Patrick, Anna Rua; Departamento de arte: Marina Pozanco; Som: Robert Hein; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer, J. John Corbett; Companhias de produção: Mediapro, Gravier Productions, Antena 3 Films, Antena 3 Televisión; Intérpretes: Rebecca Hall (Vicky), Scarlett Johansson (Cristina), Javier Bardem (Juan Antonio Gonzalo), Penélope Cruz (Maria Elena), Christopher Evan Welch (Narrador), Chris Messina (Doug), Patricia Clarkson (Judy Nash), Kevin Dunn (Mark Nash), Julio Perillán (Charles), Juan Quesada (Guitarista), Richard Salom, Manel Barceló, Josep Maria Domènech, Emilio de Benito, Maurice Sonnenberg, Lloll Bertran, Joel Joan, Sílvia Sabaté, Jaume Montané, Pablo Schreiber, Carrie Preston, Zak Orth, Abel Folk, Jordi Basté, Michael Bennett, Paco Mir, Rodrigo Rojas, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 22 de Janeiro de 2009;

terça-feira, janeiro 27, 2009

CRISES: 1929 - 2009

o crash de 1929...
APRENDER, OU NÃO, COM O PASSADO

A situação mundial agrava-se a olhos vistos. Preocupante nos seus actuais contornos sociais, mas sobretudo preocupante no desenho que ameaça esboçar-se no futuro. No entanto, há no passado suficientes razões para se ter aprendido um pouco com o que aconteceu e não permitir que o futuro repita erros. Acontece que tudo parece evoluir numa mesma direcção, como se nada se tivesse assimilado.
O que está a acontecer agora, com base na América, assemelha-se em muito ao que aconteceu a partir de 1929, com origem na mesma América. O crash bolsista, a crise financeira, a derrocada económica, o desregramento social, o desemprego, o aumento de criminalidade, o extremar dos campos políticos, com extrema esquerda e extrema direita a tentarem aproveitar o caos, para destruírem a democracia e implantarem regimes totalitários, tudo isso aí está outra vez, com algumas nuances, mas muito pouco de novo.
A crise resulta obviamente de uma desregularização capitalista, que teve como base a inconcebível administração Bush. Não há dúvidas possíveis. Escandaloso apoio a mafiosos banqueiros, proteccionismo aos mais fortes, despesismo acima do legítimo, endividamento, crédito mal parado, guerras estúpidas, mentiras, isolamento internacional, enfim, o retrato já foi revelado e não adianta muito estar a enunciar tudo, a não ser para se reflectir nos erros (inclusive os que permitem que um completo incompetente tenha ascendido ao mais alto posto político mundial) e procurar antídotos. Não se pode voltar atrás, só se pode prever o futuro, ou fazer alguma coisa para isso.
Tal como em 1929, o que veio a seguir foi muito pior do que a funesta crise. O que veio a seguir foram as ditaduras por todo o mundo e a II Guerra Mundial. Agora, em 2009, tudo se pode repetir e existem muitos elementos que nos permitem dizer que se está já a repetir. Acontece que o mundo evoluiu, a globalização é um facto (por vezes negativo, mas também pode ser positivo, se bem aproveitado) e as sociedades podem e devem encontrar dentro de si os antibióticos certos para combater o bacilo. Mas o que se vai vendo, com raras excepções, não é isso.
O que se vai vendo é as democracias a suicidarem-se às mãos dos seus inimigos tradicionais. É sabido que há regulares fontes de intoxicação, à direita e à esquerda, que só procuram a instalação do caos social para terem a veleidade de chegar ao poder que de outra forma nunca atingiriam (em períodos de lucidez social). Mas as crises económicas e políticas trazem consigo a desordem social e sobretudo a desordem mental. O cidadão comum, que normalmente até pensa, parece prescindir desse dom e deixa-se levar na mais baixa demagogia, deixa-se instrumentalizar pela manipulação mais reles, grita como um louco, gesticula, e no fim acaba manietado numa ditadura que ajudou a criar e vai bater com os costados numa qualquer guerra que depois afirma não saber como aconteceu e de que afinal, desculpabiliza-se, não teve responsabilidade nenhuma. Falso: teve-a toda, se tivesse pensado a tempo e agido de acordo.
Mas o que se vê é assumpção da idiotia, nos meios de comunicação social, na política, nas instâncias oficiais, nos partidos, na opinião pública (leiam-se os blogues, os posts que proliferam, os comentários bacocos, levianos e irresponsáveis). Veja-se as filosofices baratas de aprendizes de feiticeiros que ressuscitam teorias da prepotência para condicionar o exercício da inteligência. Veja-se a forma nada subtil como se tenta denegrir tudo e todos para se impor o deserto das ideias. Os políticos são todos uns corruptos, as instituições de um legal exercício do poder são torpedeadas, as opiniões dos intelectuais e dos pensadores em geral são minimizadas (cambada de gajos que se alimenta, que até ganha dinheiro para escrever o que pensa), o opinião pessoal é desprezada, em favor de uma opinião pública que se sabe como se manipula facilmente. O que se vê é o que se viu antes do nazismo, do fascismo, do estalinismo terem assentado arrais pelo mundo. A morte da inteligência, o suicídio da tolerância e do diálogo, a apologia do confronto, do extremar de posições, o apelo da guerra. Um ligeiro arremedo pode desencadear o tsunami. Uma faísca causa o incêndio.
A América em 1929 teve Roosevelt para arrumar a casa. Pode ter Obama em 2009. Mas entre 39-45 a guerra foi sobretudo na Europa. Em 2000 e não sei quantos voltará a ser na Europa, se não tivermos juízo. E o juízo deve vir dos políticos, dos intelectuais, dos quadros, mas sobretudo de nós todos, da “arraia miúda” de que falava Fernão Lopes, que não se pode deixar levar mais por mensageiros da desgraça e da catástrofe, que tudo fazem para colocar os seus interesses e o seu poder ditatorial acima do interesse geral. Campos de extermínio na Alemanha ou na Sibéria outra vez, não obrigado. Nem em nome da raça ariana, nem em nome do “homem novo”. Viver com dignidade em liberdade é quanto basta. Se houver que fazer sacrifícios para as manter, que se façam, mas não se peçam paraísos na terra, quando o que se sabe que vem depois são infernos devastadores.

...acabou assim.