MILK
Harvey Milk, que nasceu em 1930, em Long Island, Nova Iorque, filho de judeus de origem leste-europeia, era um conservador nato, antigo combatente da guerra da Coreia, empregado na tradicionalista Wall Street e que, em 1964, fez campanha pelo republicano Barry Goldwater, que foi um dos mais radicais e extremistas candidatos reaccionários a presidente dos EUA que este País conheceu. Posteriormente, porém, as posições políticas e sociais de Milk foram-se atenuando e transferindo para o campo da “contra-cultura”, sobretudo a partir do momento em que resolveu assumir as suas orientações sexuais, mudando-se de Nova Iorque para São Francisco, cidade onde a percentagem de gays era então a maior dos EUA, e onde a vida boémia e intelectual era muito mais estimulante. Abriu consultório de advogado, entrou na vida política, concorreu a vários lugares públicos, foi eleito em 1977 para o Conselho de Supervisores da Cidade de São Francisco, e, em 27 de Novembro de 1978, ele e o Presidente da Câmara, George Moscone, foram assassinados por um colega supervisor, polícia tresloucado e fanatizado. O argumento de Dustin Lance Black parte dos últimos dez anos de vida de Harvey Milk para nos restituir um panorama histórico, político e social dessa época conturbada, e nos esboçar um retrato individual que com ela se cruza.
O filme começa mesmo em tom de “actualidades”, documentando com imagens a preto e branco, do ano de 1969, os conflitos que se produziram em N.Y, durante a violenta repressão aos homossexuais, presos em bares e conduzidos às esquadras em minúsculas carrinhas, espancados e injuriados publicamente. São imagens hoje estranhas, aquelas de gays algemados, e escoltados, rostos tapados por chapéus ou jornais, escondendo o opróbrio da situação, ou furtando-se à identificação pública que poderia ter graves consequências na família, no emprego, na rua. Ser gay nesses tempos, não tão recuados assim, era comportamento considerado ilícito e é isso mesmo que Harvey Milk recorda, ao longo do filme, quando, de gravador em punho, rememora aspectos da sua vida passada, perante a ameaça de morte que pairava sobre si.
São esses registos que se vão intercalando na acção do filme e introduzindo novos capítulos. Como por exemplo, decorria o ano de 1970, o seu encontro com Scott Smith (James Franco) que se torna seu amante e uma personagem de forte impacto na sua vida. É com ele que deixa N.Y. em 1972, a caminho de São Francisco, onde abrem uma loja de fotografia na chamada área Castro, uma rua, ou um bairro, inteiramente dominada pela comunidade gay. É também aí que, anos mais tarde, conhece Cleve Jones (Emile Hirsch), um prostituto de Phoenix, com quem mantém uma relação, que terminará de forma trágica, é aí que inicia a sua acção de activista, sobretudo através de uma actuação junto do sindicato dos camionistas, impondo o emprego de gays, e oferecendo, em contrapartida, o apoio dos bares gays ao boicote a uma marca de cerveja.Os seus discursos, que se iniciavam na rua, em cima de um pequeno caixote, começavam invariavelmente por uma frase que o tornou célebre: "My name is Harvey Milk and I want to recruit you," (“O meu nome é Harvey Milk e quero recrutar-te”). É também por essa altura que se associa à “leader” lésbica Anne Kronenberg (Alison Pill) que se torna igualmente pessoa influente na sua “entourage”. Com a chegada ao poder do Mayor Moscone (Victor Garber), Milk consegue ascender a Supervisor da Câmara, iniciando aí a sua principal campanha, em 1978, para contrariar a “Proposta 6”, que pretendia aprovar legislação que descriminava a liberdade sexual e impedia o acesso de gays ao ensino público, campanha que contava com apoios tão diversos como são os de Ronald Reagan e Jimmy Carter, e de uma popular cantora, Anita Bryant, que desencadeou violentos ataques aos homossexuais, baseando-se em princípios fundamentalistas de uma Convenção Baptista de Sul a que pertencia. Ao seu lado, o senador John Briggs (Denis O'Hare), foi outra força de bloqueio importante, que, aliás, se iria confrontar com Harvey Milk num debate no Estado da Califórnia, no conhecido “Orange County”, onde uma tirada de Milk entraria na História: “Se é verdade que as crianças imitam os seus professores, então deveria existir um número muito maior de freiras andando por aí.” (“If it were true that children mimicked their teachers, you'd sure have a helluva lot more nuns running around."). A proposta seria derrotada, o que foi considerado uma grande vitória de Milk e do seu movimento.
Mas o fim de Milk estava à vista, quando o vacilante polícia Dan White (Josh Brolin), católico de ascendência irlandesa, e que chegara mesmo a ser considerado “um dos nossos” pelos gays, resolve tomar uma atitude drástica, subir as escadarias da City Hall de São Francisco e esvaziar um revólver nos corpos do “mayor” e do supervisor Milk. Seguiu-se uma das maiores vigílias de que há memória em São Francisco, com milhares de pessoas descendo as avenidas com velas nas mãos, partindo de “The Castro” em direcção ao City Hall.“Milk”, quer pela estrutura narrativa, quer pela tonalidade da fotografia, procura inscrever-se num género a que se costuma chamar o docdrama, uma ligação entre a ficção e o documentário, onde se tenta reconstituir uma realidade, usando para isso a representação dramatizada de certos aspectos dessa realidade. No tom difere de uma biografia romanceada normal, onde a ficção se impõe desde início, mesmo que respeitando aspectos da verdade histórica. Normalmente o docdrama dá uma importância maior às imagens de arquivo do que acontece em “Milk”, mas realmente a organização geral do projecto, a cor das imagens, saturadas, e o próprio rigor da reconstituição encaminham-nos para o registo do docdrama, que resulta magnificamente – há uma “verdade” insofismável no que se vê, um dos aspectos mais interessantes desta obra que, por outro lado, radica numa certa tradição de cinema vanguardista ou alternativo, não fosse o tema a homossexualidade. Tecnicamente, portanto, e artisticamente, “Milk” é uma completa “reussite”.
Por outro lado, a interpretação de Sean Penn é perfeita. Diria, mais que perfeita, assombrosa. Foram vários os candidatos ou actores sondados para este papel. Sean Penn acabaria por ser eleito, sendo ele definitivamente um “não gay” (o que até levantou, na altura da rodagem, algumas objecções da comunidade gay). Mas o resultado final é brilhante, pela forma como o actor se investe na personagem, sem um excesso, sem nunca cair na caricatura, representando com a voz, com o rosto, mas igualmente com todo o corpo, cada músculo, cada gesto, cada olhar. Sean Penn é Harvey Milk no sorriso, mas também no andar, na forma de beijar, na pose, na manifestação de rua ou nos momentos mais íntimos passados com namorados. Uma atenção notável ao pormenor. Perfeito, uma invulgar lição de representar. A seu lado, todos os outros actores são excelentes.
Obra de uma delicadeza e pudor total, muito embora seja ostensiva nalgumas cenas de amor, “Milk” é seguramente um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano, e um fortíssimo candidato aos Oscars, se estes não estivessem desde há muito atribuídos a outro aspirante. Sean Penn, porém, só por uma grande injustiça deixará fugir a atribuição do Oscar de “melhor actor”. (Atenção: não vi ainda o Mickey Rourke de "The Wrestler").
Gus van Sant, o realizador, nascido nos EUA, em 1952, é autor de uma vasta obra, muito pessoal, onde a homossexualidade ocupa destacado lugar (o cineasta é assumidamente gay). Entre os seus títulos mais conhecidos contam-se “Mala Noche” (1985), “Drugstore Cowboy” (1989), “My Own Private” Idaho (1991), “Even Cowgirls Get the Blues” (1993), “To Die For” (1995) “Good Will Hunting” (1997), “Psycho” (1998), “Finding Forrester” (2000), “Gerry (2002), “Elephant” (2003), “Last Days” (2005), “Paris, je t' Aime” (episódio "Le Marais") (2005), “Paranoid Park” (2007) ou “Milk”).
Em 1984, já havia sido realizado um filme documental sobre o mesmo período e a mesma personagem. “The Times of Harvey Milk”, dirigido por Rob Epstein, ganharia o Oscar de melhor documentário de longa-metragem de 85. Escrito por Harvey Fierstein e o próprio Rob Epstein, tinha narração de Judith Coburn e apresentava imagens autênticas de arquivo onde se podiam ver Harvey Milk, Anne Kronenberg, Tory Hartmann, Tom Ammiano, Jim Elliot, Henry Der, Jeannine Yeomans, Bill Kraus, Sally M. Gearhart, John Briggs, Jerry Brown, Jimmy Carter, Dianne Feinstein, David Fowler, Joseph Freitas, Terence Hallinan, George Moscone ou Dan White.
MILKTítulo original: Milk
Realização: Gus Van Sant (EUA, 2008); Argumento: Dustin Lance Black; Produção: Dustin Lance Black, Bruce Cohen, Barbara A. Hall, William Horberg, Dan Jinks, Michael London, Bruna Papandrea; Música: Danny Elfman; Fotografia (cor): Harris Savides; Montagem: Elliot Graham; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Bill Groom; Direcção artística: Charley Beal; Decoração: Barbara Munch; Guarda-roupa: Danny Glicker; Maquilhagem: Steven E. Anderson, Sterfon Demings, Stephan Dupuis, Gregory Nicotero, Michael White; Direcção de Produção: Robert Hackl, Barbara A. Hall, Michelle Lankwarden; Assistentes de realização: Ian Calip, Neil Lewis, John R. Saunders, David J. Webb; Departamento de arte: Chad Owens; Som: Robert Jackson; Efeitos especiais: Tom Sindicich; Efeitos visuais: Tsui Ling Toomer, Chel White; Companhias de produção: Focus Features, Axon Films, Groundswell Productions, Jinks/Cohen Company; Intérpretes: Sean Penn (Harvey Milk), Emile Hirsch (Cleve Jones), Josh Brolin (Dan White), Diego Luna (Jack Lira), James Franco (Scott Smith), Alison Pill (Anne Kronenberg), Victor Garber (Mayor George Moscone) Denis O'Hare (Senador John Briggs), Joseph Cross (Dick Pabich), Stephen Spinella (Rick Stokes), Lucas Grabeel (Danny Nicoletta), Brandon Boyce (Jim Rivaldo), Howard Rosenman, Kelvin Yu, Jeff Koons, Ted Jan Roberts, Boyd Holbrook, Frank M. Robinson, Allan Baird, Tom Ammiano, Carol Ruth Silver, Hope Tuck, Steven Wiig, Ashlee Temple, Wendy Tremont King, Kelvin Han Yee, Robert Chimento, Ginabel Machado, Daniel Landroche, Trace Webb, Velina Brown, Scott Patrick Green, Mary Dilts, Roman Alcides, Robert George Nelson, Brian Danker, Richard Gross, Borzin Mottaghian, Brian Yates Sharber, Camron Palmer, Cully Fredricksen, Mark Martinez, Danny Glicker, Catherine Cook, Joe Meyers, Dominic Sahagun, William McElroy, Joey Hoeber, Mark E. Stanger, Christopher Greene, Jesse Caldwell, Lynn McRee, Cleve Jones, John Parson, Jay Kerzner, Kristen Marie Holly, Sandi Ippolito, Roger Groh, Maggie Weiland, Dustin Lance Black, Drew Kuhse, Eric Cook, Roger Mudd, John Douglas Ayers, Tom Brokaw, Anita Bryant, Greg Cala, Jimmy Carter, Cabran E. Chamberlain, John Clerkin, Walter Cronkite, Zachary Culbertson, Harvey Milk, John Prudhont, Ronald Reagan, Corbett Redford, Jeff Redlick, Timothy Roberts, Lin Shukla, Serene Sidher, Christopher Sugarman, Jeremiah Turner, Brian Vowell, Cindy Warner, etc. Duração: 128 minutos; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 29 de Janeiro de 2009.

A 5 de Agosto de 1955, morre Carmen Miranda em sua casa (Los Angeles, Beverly Hills, Bedford Drive, 616), aos 46 anos de idade, vítima de um colapso cardíaco, após filmar com Jimmy Durante um programa para a televisão. A 12 de Agosto, o corpo embalsamado chega ao Brasil, para ser velado na antiga Câmara de Vereadores do Rio. Das 13 horas desse dia até às 13 horas do dia 13, mais de 60.000 pessoas desfilaram em preito de gratidão e homenagem. No dia seguinte, Carmen Miranda seria sepultada no Cemitério de São João Batista, num lote cedido pela Santa Casa de Misericórdia. Fala-se que entre 500.000 e um milhão de pessoas acompanhou o enterro, que foi considerado o mais concorrido de toda a história do Rio de Janeiro. O Brasil chorava a diva que Portugal tinha oferecido ao mundo.
Em 26 de Setembro de 1926, a revista "Selecta" publica o retrato de CM, na secção de cinema do jornalista Pedro Lima, sem citação de seu nome. Três anos depois canta num festival, organizado pelo baiano Aníbal Duarte, no Instituto Nacional de Música no centro do Rio. Josué de Barros, compositor e violonista baiano, interessa-se por esta voz e promove-a junto de estações de rádio, clubes e discográficas. No mesmo ano, canta na Rádio Educadora e na Rádio Sociedade. Em Setembro, grava o seu primeiro disco na Brunswick (Lado A: "Não Vá Sim'bora", samba, Lado B: "Se O Samba É Moda", chôro), lançado no fim do ano, e, em Dezembro, volta a gravar, pela etiqueta Víctor, com "Triste Jandaia" e "Dona Balbina".


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Quando ouvi falar na rodagem de “A Vida Privada de Salazar”, antecipei o pior, depois de livro de Felícia Cabrita, que oferecia pistas para uma escabrosa história de sexo e poder. Quase todos os portugueses sabiam do que se pretendia ter sido um “flirt” platónico com a jornalista francesa Christine Garnier que, no Verão de 1951, veio a Portugal fazer-lhe uma entrevista que deveria durar umas horas e acabou numa longa estada no retiro do Vimeiro, que culminaria num livro, “Vacances avec Salazar”. Mas, para lá desta aventura sentimental (e sexual), muitas outras se foram depois conhecendo a Salazar. Depois e antes, logo desde o seu tempo no seminário. É isso que esta mini-série de 180 minutos (dividida em dois episódios de 90’) pretende contar, partindo obviamente do livro de Christine Garnier que, apaixonada pelo ditador, tudo a ele entregou, a honra pessoal e a honra literária, e de algumas outras obras biográficas entretanto aparecidas.
O resultado, porém, é uma agradável surpresa. A realização de Jorge Queiroga é de uma enorme sobriedade e eficácia, delicada e subtil nas sugestões (mesmo que aqui e ali force o tom erótico, por força do apelo comercial). A narrativa evolui com alguma argúcia, por entre diversas épocas e rostos de mulheres. Falta-lhe apenas, o que é grave, uma maior contextualização política e social. Os diálogos não ofendem. A reconstituição histórica, de ambientes e personagens, muito boa, credível e de bom gosto. (Quando não inventam quedas na banheira, que nunca existiram). Boas a fotografia e a partitura musical. E a interpretação bastante uniforme e bem conseguida, discreta, interiorizada, contida, feita de olhares e de gestos esboçados, conferindo ao todo uma consistência inusitada. Haverá quem não goste de ver esta “Vida Privada de Salazar”, mas tecnicamente e artisticamente, esta é definitivamente uma aposta ganha.

Da Índia o cinema deu já centenas de olhares, muitas vezes complementares. Quem viu "Calcutta", de Louis Malle, viu uma Índia. Quem assistiu a “Pather Panchali”, de Satyajit Ray, ou "Salaam Bombay!", de Mira Nair, uma outra. Vista de dentro. "A Passage to India", de David Lean, ou "Gandhi", de Richard Attenboroug, refere uma Índia diferente, com o seu vestígio colonial, bem como “India Song”, de Marquerite Duras, desta feita numa perspectiva francófona. Uma obra-prima como “Rio Sagrado”, de Jean Renoir, apresenta um outro olhar, e quase todos estes são olhares cruzados, provenientes de diferentes civilizações e culturas (muitas vezes de culturas que se identificam ora com colonizados, ora com colonizadores). Haveria centenas de filmes a referir, porque a índia sempre foi cenário apetecível para o cinema, do mistério ao romantismo, do teror ao exotismo.
A forma inteligente e ágil como Danny Boyle entrelaça estas duas realidades, mercê de uma montagem nervosa, sincopada, de ritmo por vezes avassalador, é um dos méritos desta película que conta ainda com uma excelente interpretação, nomeadamente dos actores mais jovens e do seu protagonista. A fotografia é igualmente notável, oferecendo-nos as cores de uma Bombaim (ou Mumbai) cheia de contrastes, onde o “straigth for life” fomenta as formas mais atrevidas de procurar alimento, de chegar até um ídolo da canção, de roubar turistas ou o vizinho do lado. O dinheiro é o fito maior, a miragem da independência, mesmo quando só serve para encher de notas sem préstimo uma banheira onde se espera a morte anunciada. A tiros de revólver.







“Frost/Nixon” assemelha-se muito a um combate de boxe entre duas personagens com real existência física: o apresentador de televisão David Paradine Frost (nascido a 7 de Abril de 1939), que ainda há pouco mantinha na televisão inglesa um programa de entrevistas, “Frost Over The World”, na “Al Jazeera English”, e Richard Milhous Nixon (nascido em Yorba Linda, Califórnia, a 9 de Janeiro de 1913 e falecido a 12 de Abril de 1994), que foi o 37º Presidente dos Estados Unidos da América, entre 1969 e 1974, ano em que resignou, depois de se ver envolvido no caso Watergate. Nixon foi o único Presidente dos EUA até hoje a ser obrigado a afastar-se do cargo, em virtude de ter cometido graves irregularidades durante a sua administração. Republicano, tinha atrás de si uma carreira repleta de duvidosos casos políticos, desde a sua activa e decisiva contribuição para o período da “Caça às Bruxas”, durante o Machartismo, tendo depois sido Vice-presidente de Dwight D. Eisenhower (entre 1953 e 1961). Em 1960 perdeu as eleições presidenciais para John F. Kennedy, e em 1962 para governador da Califórnia. Mas, em 1968, seria eleito Presidente e reeleito em 1972. A sua Presidência seria tumultuosa, com graves questões internas e externas (guerra do Vietname, a que curiosamente pôs termo, depois de uma escalada fatídica, e de ter a aceite uma má dissimulada rendição, relações com a China e a URSS, com as quais logrou alguma contenção, guerra com o Cambodja, o Laos, crise económica e caos social nos EUA). A 14 de Agosto de 1974 demitia-se de Presidente, com uma curta declaração, e o seu sucessor, Gerald Ford, anunciava, pouco depois, um perdão para todos os “crimes federais” por si cometidos. Assim se retirou para a sua residência “La Casa Pacifica”, em San Clemente, Califórnia, onde escreveu, em 1978, as mil páginas “The Memoirs of Richard Nixon”, a que se seguiram nove outros volumes (todos muito bem remunerados).
As primeiras gravações das entrevistas não foram brilhantes para Frost, que se mostrava demasiado retraído, dando todos os pontos a Nixon, mas, quando chegou a ocasião de abordar o caso Watergate, tudo mudou de figura. Nixon acabaria por confessar publicamente alguns erros e ilegalidades (que, quando cometidas por um presidente, “não eram ilegalidades”, explicou perante a incredibilidade do país). As entrevistas que até aí não tinham motivado grande interesse por parte das cadeias de tv americanas, acabaram por ser um sucesso televisivo, com mais de 45 milhões (há quem fale em 50 milhões) de espectadores em todo o mundo, o que as tornou no maior êxito de sempre no campo das entrevistas políticas televisionadas.
Enquadrado historicamente o acontecimento, e o seu inequívoco interesse, cremos não andar muito longe da verdade se dissermos que o verdadeiro protagonista deste filme de Ron Howard é, no entanto, George W. Bush. E porquê? Porque muitas vezes ouvimos Frost, no filme, fazer perguntas a Nixon e quem ouvimos a responder é Bush, tal a sobreposição de questões. De certa forma as entrevistas de Frost constituíram uma espécie de julgamento público de um presidente que levou os EUA para a guerra com falsas questões, com mentiras organizadas a seu favor, acabando por desencadear uma das piores crises militares, políticas, económicas, financeiras e sociais da história daquele país e do mundo. Estamos portanto a ouvir perguntas que poderiam ser endereçadas a George W. Bush, e a julgá-lo publicamente por interposta pessoa. O resultado é confrangedor para um e outro. O filme adquire o estatuto de requisitório indiscutível.
Ao olharmos, porém, para estes dois homens em confronto, não nos restam muitas dúvidas de que ambos se equivalem. O duelo é de morte, mas o que está em causa será a reposição da verdade e o julgamento público de um Presidente crápula? Ou será antes os 600 mil dólares que fascinaram Nixon e saíram do bolso de Frost? Ou será o futuro profissional de cada um deles e da rede de colaboradores que os mantêm em exercício? Há algum quixotismo em Frost? Há algum arrependimento em Nixon? Não estarão ambos a investir ao mais alto nível nos seus futuros? Um a querer regressar à ribalta da TV de Inglaterra, outro a querer rentabilizar, o melhor possível, as suas memórias, impondo a comiseração por um lado e o branqueamento, limitado é certo, da sua imagem pública? Afinal o resultado foi o julgamento de Nixon, é uma realidade, mas com um perdão para todos os “crimes federais” e a nova imagem do homem que, apesar dos crimes cometidos, se tinha humilhado, confessando num acto de contrição que todo o país (e o mundo) iria compreender (e perdoar), continuando a comprar “as memórias” que iria futuramente publicar e tanto jeito lhe fariam à contabilidade pessoal.
Claro que Ron Howard, não sendo um cineasta particularmente criativo e um “autor” de primeiro plano, é um realizador atento e eficaz. O filme movimenta-se bem em interiores cerrados, as cenas das entrevistas conseguem justificar o tom de quase “thriller” psicológico, adensando o clímax com habilidade. Há um momento, absolutamente ficcionado no filme, que funciona muito bem, quando Nixon, embriagado (apenas um plano de copos e garrafa, anterior, prenuncia o desenlace), telefona a meio da noite a Frost. No dia seguinte, Frost evoca esse telefonema a Nixon, este não o recorda, mas essa confidência do entrevistador irá retirar ao ex-presidente toda a segurança, fragilizá-lo e viabilizar a confissão. Também aqui as comparações com Bush não deixam de se estabelecer.
Vamos, pois, e finalmente, ao diálogo de actores. Frank Langella (Richard Nixon) e Michael Sheen (David Frost) são dois bons actores, particularmente o primeiro. Deve sublinhar-se o trabalho de ambos, na assimilação de características e de pormenores de gestos, olhares, entoações, mas se o desempenho é minucioso, e por vezes brilhante, há algo que nos afasta dos verdadeiros protagonistas. Percebe-se que a intenção não foi mimar ao extremo o físico de Nixon ou Frost, mas construir essas figuras sobre a aparência física dos actores que lhe acrescentaram apenas certos tiques ou particularidades. O resultado, não afectando demasiado o filme, acaba por nos distanciar. Não sabemos mesmo se não haverá algo de propositado neste distanciamento (um Nixon que não é totalmente o Nixon das actualidades e dos telejornais da época, para o filme se centrar mais na figura de um Presidente dos EUA, pouco escrupuloso, dado à bebida, prepotente e ardiloso, populista e atávico – será só Nixon que corresponde ao retrato, quando o filme de Ron Howard se estreia em plena campanha de Barack Obama?).




Este o início de “Vicky Cristina Barcelona”, uma deliciosa comédia de costumes que Woody Allen escreveu e foi rodar a Barcelona, cidade que se afirma igualmente como personagem nesta trama de amores lícitos e ilícitos. O mais divertido neste filme é que parece que estamos a assistir a uma obra concebida a quatro mãos: Vicky e Cristina são personagens de Woody Allen; José António e a sua fogosa e fatal ex-mulher Maria Elena (Penélope Cruz) são personagens de Almodóvar; o diálogo tem o brilhantismo próprio de um certo humor judeu nova-iorquino, que Woody Allen tão bem desenvolve, numa ironia fina e numa inequívoca ternura pelos seres humanos, as suas fraquezas e as suas forças, mas o cenário, de Barcelona a Oviedo, parece o “décor” de uma obra de Almodóvar.
Inteligentemente escrito, na narrativa em off, bem como nos diálogos, inventivo nas situações, subtil no humor, magnificamente encenado em cenários que percorrem os lugares essenciais de Barcelona, sem cair no rodriguinho do bilhete postal turístico, “Vicky Cristina Barcelona” impõe-se ainda pela qualidade do trabalho dos actores Javiem Bardem é o fulgurante artista romântico por excelência (a ex-mulher tem a teoria, quem sabe se certa?, de que só são românticos os amores impossíveis ou condenados ao fracasso, no caso dela, aos sucessivos fracassos, porque volta sempre ao lugar do crime, repetindo a dose); Penélope Cruz, é uma espanhola que gosta de “touros de morte” e avança de faca ou pistola em punho para qualquer ajuste de contas emocional; Scarlett Johansson mantém o nível a que nos habituou ultimamente, mas continua a desiludir um pouco, e Rebecca Hall torna-se a grande surpresa do filme, ela que se impõe nos últimos anos de título em título (em exibição igualmente em “Frost/Nixon”).

