sábado, junho 07, 2008

VAMOS A ELES!

e fomos mesmo:
Portugal, 2; Turquia, O
Que venha o próximo e que continuemos a jogar bom futebol
(e a acertar menos na madeira e mais no fundo das redes!)

sexta-feira, junho 06, 2008

CINEMATECA PORTUGUESA?

Anda por ai a circular uma petição para a Cinemateca Portuguesa criar um extensão no Porto. Já assinei, claro. Mas acho estranho existir a Cinemateca Portuguesa há tanto tempo, e só agora se lembrarem dela como sendo “portuguesa” e não “lisboeta”, que é o que tem sido desde que o seu actual director a dirige a seu belo prazer. Acontece que o facto da Cinemateca Portuguesa não ter extensões no Porto, não é estranho, pois que não tem em mais parte nenhuma, e que há tantas outras anomalias no seu funcionamento e quase ninguém dizer nada. Uma cinemateca é um local onde se recolhe e se ajuda a fazer a história do cinema. Não de uma corrente histórica ou estética do cinema, mas de todo o cinema. A Cinemateca Portuguesa nunca o fez. Obedece aos ditames estéticos do seu director e só a esses. O senhor não gosta de 80 por cento do cinema português, que aliás já o disse e o escreveu, “não existe”. Quando morre um daqueles de quem não gosta, lá aceita passar um ciclozinho de homenagem, com o ar de que “deste já nos livrámos”, já não volta a chatear. E publica um opusculozinho de vinte páginas a preto e branco para celebrar a efeméride e arrumar com o caso. Mas depois há “os filhos” e “os amigos” para quem nunca são demais as benesses.
O senhor gosta de fazer ciclos para cem espectadores em Lisboa e ninguém se lembrou nunca de questionar esta característica. O senhor não gosta de emprestar os seus filmes a ninguém, nem em extensões, nem em festivais, nem em ciclos, nem em comemorações. Todos sabem isso, mas tudo continua na paz dos anjos. O senhor gosta de catálogos luxuosos, onde imprimir os seus textos e os trabalhos que os seus empregados coligem para ele. Com o orçamento de um catálogo, poderiam fazer-se dois ou três, mas que importa? O senhor acha que o cinema é uma arte, e esquece que o cinema não é só uma arte, é uma indústria, é um precioso espólio histórico, é uma fonte inesgotável de conhecimento e de ensinamentos, mas nunca o foi para a Cinemateca Portuguesa.
O senhor gosta de se julgar um reizinho que pode por e dispor, até de nomear sucessores e deixar descendência. E a malta aceita. Não se vêem manifestações na rua Barata Salgueiro. O senhor afinal pode dizer as asneiras que quiser, atropelar a História, inventar factos e personagens que está imune. Não se contraria um Prémio Pessoa. Quando se tenta repor a verdade dos factos e se escreve para um jornal e se pede publicação, se a pessoa visada for o senhor, nada a fazer. O texto cai no esquecimento e o senhor não será incomodado. Não se publica nem se dá qualquer explicação para o facto.
Há factos que concedo: o senhor escreve bem e tem, normalmente, bom gosto. Mas não são essas as características essenciais para dirigir uma Cinemateca. Numa Cinemateca não se exige bom gosto, exige-se competência histórica, exige-se igualdade de tratamento, exige-se isenção, exige-se um respeito idêntico por todos, para lá que qualquer “questão” de gosto pessoal. Exige-se que uma Cinemateca Portuguesa esteja ao serviço de todos quantos a sustentam. Que somos nós todos, portugueses, e não o grupinho de amigos fixes que se reúne para ver as obras que o mestre sanciona.
Exige-se mais. Exige-se alguém que percebe que o cinema não parou no tempo. Que a única maneira de ver filmes não é numa sala de cinema, onde corre uma película de 35 milímetros. Por muito que lhe custe, o cinema muda, como tudo na vida. É vergonhoso que a Cinemateca Portuguesa não tenha ainda colocado à disposição do público DVDs com clássicos do Cinema Português. Não há um único filme mudo à disposição do espectador, das escolas, das universidades. Deveria ser uma tarefa da Cinemateca. Todas as congéneres no mundo o fazem. Em Portugal, o cinema é para ver em sala, em 35 milímetros, e fundamentalmente na salinha da Barata Salgueiro.
Será que algo vai mudar?
Petição: Mais de 3.600 pessoas já assinaram. Aqui:


CINE ECO EM LISBOA. HOJE NO S.JORGE


CINEMA: O SABOR DO AMOR

O SABOR DO AMOR
Um filme menos conseguido de Wong Kar Wai não é um filme desinteressante. Devo dizer que este “My Blueberry Nights”, rodado nos EUA, com actores de língua inglesa, entre os quais a estreante Norah Jones, é tudo menos um filme desinteressante. Poderá não ter o fôlego e a densidade de situações e de ambientes que outros filmes seus anteriores nos ofereceram, mas ainda assim é um belíssimo retrato de meia dúzia de figuras que se cruzam e descruzam pelas paisagens da América, num bailado de emoções à superfície que deixa certamente um forte vestígio de presença em cada um que assiste à sua projecção. Depois há um factor curioso que convém desde já referir: apesar de trocar o seu Hong Kong tradicional pela América e de trabalhar com actores de língua inglesa, que não domina tão bem como os chineses, “My Blueberry Nights” mantém inalterável o estilo de Kar Wai. Este é um filme que só poderia ter sido rodado por este autor e isto é já dizer muito. Quando um cineasta consegue uma tal caracterização temática e estilística é porque é um grande cineasta, uma personalidade fortíssima, ostentando um poderoso universo pessoal inconfundível.
Os primeiros vinte minutos do filme centram-se num café de esquina numa rua de Nova Iorque, onde o jovem proprietário, Jeremy (Jude Law) encontra, numa noite de rotina vazia, uma rapariga em crise emocional, Elizabeth (Norah Jones). A relação desta com alguém falhara, ele partira, ela ficara, com as chaves de um apartamento na mão e o coração desfeito. As chaves esquece-as no bar, o coração leva-o consigo por meses, estrada fora. As chaves ficam ao lado de muitas outras esquecidas, num frasco de “perdidos e achados”, de amores esquecidos, de apartamentos abandonados, de sonhos desfeitos. Mas nunca se sabe se se deve, ou não, deitar fora uma chave, como afirma Jeremy. “Quando se deita fora uma chave, nunca mais se pode abrir aquela porta.” O drama que vive Elizabeth é, de certa maneira, o drama que vive Jeremy, que também acaba de assistir a uma separação dolorosa. Para tudo se assemelhar a espelhos que se reflectem uns nos outros, se Elizabeth é interpretada por Norah Jones, cantora, Katya, a ex-namorada de Jeremy, é Cat Power, cantora, ainda que aqui apresentada sob o seu verdadeiro nome, Chan Marshall.
Muito pouco sabemos das razões dos sofrimentos. Nem interessa. Basta olhar as chaves perdidas e os olhos chorosos para se sentir a solidão de uns e o sofrimento de outros. Isso chega a Wong Kar Way. Como quase sempre nos filmes deste cineasta, é noite. Passam comboios em carris de alta velocidade, há néons e muitas palavras escritas nos vidros do café, há cores garridas e sentimentos intensos, há ruas encharcadas de água que reflecte luzes e sons de uma vida agitada e tumultuosa que está para lá dos limites do plano. Há rostos enquadrados de forma a ler-se a textura da pele, há uma câmara que regista, do alto da porta do café, todos os movimentos dos clientes, e até os beijos roubados em momentos de relaxe, ou de íntima aproximação. Há o cinema de Hong Kar Wai por terras americanas, carros e avenidas, restaurantes de fast food, bares, o jogo, Las Vegas, par ou impar, a companhia ou a solidão, ganhar e perder. Guardar a chave para entrar de novo aquela porta, ou …?
Wong Kar Wai sempre foi um autor de intensos amores, carnais, voluptuosos, ardentes, interpretados por mulheres sensuais vestidas da cor do desejo, e de um certo desencanto das relações. Que morrem. Que se destroem lentamente. Que fenece, como tudo na vida. Mas em “My Blueberry Nights” o seu cepticismo parece dar lugar a algum optimismo. Elizabeth vai percorrer uma longa estrada, 300 dias de viagem, milhares de quilómetros, trabalhar de dia num restaurante, à noite num bar, ambos em Memphis, amealhando dólares para comprar um carro, e olhando em redor, vendo o amor e o desamor, a vida e a morte, o desinteresse e o ciúme que passam à frente dos balcões que serve, e se cristalizam na fabulosa história de uma fulgurante casal de actores, David Strathairn, o polícia de giro que se recusa a aceitar que a mulher, Rachel Weisz, o abandonou de vez. Este episódio é dos momentos mais conseguidos desta obra, sobretudo pelo que carrega de dramatismo e tragédia, tonalidades que Wong Kar Wai maneja com extrema contenção e rigor. Elizabeth vai continuando a sua iniciação e o esquecimento do amor antigo, enquanto vai escrevendo postais sem remetente, ao seu ocasional amigo do café de Nova Iorque que incessantemente a tenta localizar, nem que para tanto tenha de telefonar a 90 bares de Memphis e redondezas. Sem resultados práticos. Mas igualmente sem desistir.
Elizabeth segue para o Nevada, onde se emprega num casino, onde encontra a loura Leslie (Natalie Portman) que joga desde criança, que aposta forte no tudo ou nada, que julga que valete é o numero que vem a seguir a 10, que não acredita em ninguém, aprendeu a apostar sozinha, mas acaba por ter de contar com Elizabeth para recuperar a esperança. Dirá que teve “de aprender a viver não acreditando em ninguém”, para concluir: “Ainda bem que falhei”. Elizabeth não sabia ficar no mesmo lugar, mas Jeremy tinha essa máxima, “Não saias do teu lugar, para que te encontrem”. Assim foi, 300 dias depois, a tarte de mirtilo estava no balcão, pronta a ser comida, tal como outrora acontecera, numa noite que terminara num beijo furtivo, visto e revisto até a fita da cassete desaparecer sob o efeito da erosão. Da erosão da espera. Da erosão do amor. Da erosão de um passado, de que se libertam, em direcção a um futuro que tudo permite.
A escolha de Norah Jones para protagonista parece-me certa, sem ser brilhante. Não acredito que possa vir a interpretar muitos outros papéis, diferente deste, mas esta figura de uma mulher dorida e frágil, mas resoluta, julgo-a bem conseguida, sem deslumbrar. Brilhantes são David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman ou Jude Law. Brilhante é a banda sonora, a fotografia e a montagem que, na voragem do tempo e dos espaços percorridos, deixa entrever rostos humanos que sofrem e esperam algum amor da vida. È pouco? Julgo que é tudo. O resto, são as formas mais ou menos evidentes e eficazes de se atingir a felicidade. Ou de a perseguir, com esperança. Esquecendo chaves, se necessário for, mas tendo sempre alguma nova porta para abrir. Os estando “aqui”, se acaso alguém nos quiser encontrar. Afinal o amor pode ter muitos sabores e haverá sempre muitas formas de saborear a tarte de mirtilo, aquela que nunca ninguém faz esgotar no café de Jeremy.
MY BLUEBERRY NIGHTS - O SABOR DO AMOR
Título original: My Blueberry Nights
Realização: Kar Wai Wong (Hong Kong, China, França, EUA, 2007); Argumento: Kar Wai Wong, Lawrence Block, segundo história de Kar Wai Wong; Música: Ry Cooder; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: William Chang; Casting: Avy Kaufman; Design de Produção: William Chang; Direcção artística: Judy Rhee; Guarda-roupa: Sharon Globerson; Maquilhagem: Janice Byrd, Sandy Jo Johnston, Persefone Karakosta, Mandy Lyons, Nuria Sitja; Direcção de Produção: Kim Surowicz, Pamela Thur; Assistentes de realização: H.H. Cooper, Cary Jones, Jamie Sheridan, Peter Thorell, Xan Valan; Departamento de arte: Katya Blumenberg, Sheila Bock, Jackie Glisson, Laurel Kolsby, Thomas Machan, Leann Murphy, Jane Shirkes, Rodney Sterbenz; Som: Michael Baird, Michael Feuser, Claude Letessier; Efeitos Especiais: Lisa Reynolds, Bob Shelley; Efeitos visuais: Nicholas Kay; Produção: Stéphane Kooshmanian, Jean-Louis Piel, Pamela Thur, Jacky Pang Yee Wah, Wang Wei, Kar Wai Wong; Companhias de produção: Block 2 Pictures, Jet Tone Production, Lou Yi Ltd., Studio Canal.
Intérpretes: Jude Law (Jeremy), Norah Jones (Elizabeth), Rachel Weisz (Sue Lynne Copeland), David Strathairn (policia Arnie Copeland), Natalie Portman (Leslie), Chad R. Davis (amigo de Elizabeth), Katya Blumenberg (rapariga, amiga de Jeremy), John Malloy (dono do bar), Demetrius Butler (freguês), Frankie Faison (Travis), Adriane Lenox (Sandy), Benjamin Kanes (Randy), Cat Power (Katya), Michael Hartnett, Michael May (Aloha), Jesse Garon (jogador de poker), Sam Hill, Tracy Elizabeth Blackwell, Michael Delano (Cowboy), Audrei Kairen jogador de poker), Bill Hollis, C. Clayton Blackwell, Hector A. Leguillow, Nate Bynum (Harlan), Naseera Lewis, Kenon Walker, Jan Falk, Laurie Johnson, Donald Meyers, etc.
Duração: 90 minutos; Classificação etária: M/12 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Data de estreia:1 de Maio de 2008 (Portugal); Locais de Filmagem: Caliente, Ely, Las Vegas, McGill, Nevada; Los Angeles, Califórnia; Memphis, Tennessee; New York City, New York (EUA).

quarta-feira, junho 04, 2008

FAIAL, II

A MULHER DE PORTO PIM

Ler é uma actividade apaixonante, e nunca se lê duas vezes o mesmo livro de idêntica maneira. Assim como não há duas pessoas a ler de forma semelhante o mesmo romance. Mas há obras que sofrem oscilações vibrantes e inesperadas. “A Mulher de Porto Pim” (1) foi, para mim, uma delas. Li-a quando saiu na tradução portuguesa e gostei. “Donna di Porto Pim e Altre Storie” assinalava a passagem do escritor pelos Açores e reunia num pequeno volume vários textos sobre este arquipélago que marcou decisivamente a sua vida. “Naufrágios, Destroços, Passagens, Distâncias” era uma das partes em que a obra se subdividia, a outra era “De Baleias e Baleeiros” e aí aparecia “Mulher de Porto Pim. Uma história”. Uma história de amor e morte, trágica, sensual, com cantos de encantar moreias e mulheres. Coisa que me enfeitiçou, na época.
Anos depois, visitei o Faial, e descobri o verdadeiro Porto Pim. Não tinha levado comigo o livro, mas de regresso a Lisboa, rebusquei na incongruente biblioteca até descobrir o tímido volume, e a história de Tabucchi teve um outro sabor. Apaixonei-me mesmo por ela. Comecei a sonhar fazer dele um filme. Não uma longa-metragem, não, mas uma curta de vinte ou trinta minutos, curta como o conto, mas densa e trágica como as palavras no-lo restituem. Percebi ao relê-lo, depois de conhecer o cenário natural, que o conto era muito melhor do que pressentira de início. Tabucchi tinha tido a percepção plena da magia do lugar e nele tinha inscrito uma daquelas histórias mágicas que transformam um lugar num mito. Mas só se descobre isso, lendo o conto e “estando” fisicamente no local. Hoje não se vai à Horta sem se visitar Porto Pim. E não se passa por ali sem se evocar Tabucchi.
É uma baía de águas claras, que tem na memória noites de pesadelo na caça à baleia e que recolhe no fundo do mar o vermelho vivo do sangue de baleias e de pescadores, que guarda destroços de outras eras, que deixa passar a aragem quente de fins de tarde na fina areia da praia ou nas esplanadas de tabernas e cafés que a rodeiam.
Ao lado, transformada em museu, conserva a última “fábrica de baleia”, cuja existência e história resguardada o “Patrão Manel” zelosamente vai contando aos visitantes com o olhar azul de uma nostalgia compreensiva para com os tempos modernos. Vemos as fotos, e nelas como que se trancava o cachalote, se matava e se rebocava a baleia em botes ou baleeiras de cerca de doze metros de comprido por dois de largo (quando as baleias oscilavam entre os quinze e os dezoito, por vezes atingindo os vinte e dois metros de comprimento). Vemos e sentimos a carne da baleia a ser cozida, ser espremida pela maquinaria, ser transformada em farinha, o óleo a escorrer, a alimentar uma população pobre e dorida, que retirava do mar quase todo o sustento.

Vemos lá em cima, no Monte da Guia, em noites de bonança ou tempestade, nas coloridas palavras do Patrão Manel, o vigia a perscrutar o horizonte, em busca de um qualquer jacto de água que denunciasse a presença de uma baleia ou de um grupo delas, ouvimos o foguete a estalejar no ar, vemos os pescadores, alertados, a reunirem-se para se lançarem ao mar na perseguição de uma presa vital, o arpão que voa em direcção à vitima desejada, a lâmina a enterrar-se na carne, a baleia a mergulhar até ao fundo do oceano, a baleeira cá em cima à espera do regresso do animal ferido, que vem à tona da água respirar e ganhar fôlego, e ser novamente arpoado, uma e outra vez, e mais ainda, até doer as mãos e os dedos ficarem em ferida, e assiste-se às tentativas da presa para se libertar das cordas que a tolhem, a resistência cada vez menor, mais rarefeita, a perca das forças, a entrega à faca até sentir já a carne retalhada, o sangue a explodir em jactos e a tingir o oceano, e a baleia ainda viva, a respirar na areia da praia, com os costados golpeados, a pele metalizada, a carne rubra, o sangue, as vísceras a descoberto, o âmbar escondido no interior dos intestinos, os ossos a esfarelarem-se no mecanismo triturador… A gesta trágica e violenta de uma caçada que foi legalmente extinta por decreto em 1984, mas que ainda hoje se pratica nalguns países. Furtivamente. A fábrica do Faial fechou, porém, dez anos antes, em 1974.
Nesta baía lutou-se, sofreu-se, amou-se, e houve mesmo uma mulher que ouviu um antigo pescador cantar numa voz de menino, como outrora cantara às moreias e as trazia ao engodo para a morte. Desta feita o pescador cantou, e uma mulher que provocava os seus desejos numa taberna do porto, abriu-lhe a porta de casa, deixou-o entrar e, encostada ao varandim da janela, deixou-se amar. Promessas que não cumpriria. Mais tarde, seria baleia arpoada ou moreia assassinada. Diz no final o pescador: “Só numa coisa não me tinha mentido, descobri-o no processo. Chamava-se mesmo Yeborath. Se isso pode ter importância. “
Por aqui passou a magia de mulheres fatais, de Casablanca ou Gilda.
Uns amigos do Cine Clube da Horta emprestaram-se, para ver no portátil, num quarto de hotel que acordava ao som de um galo insistente, o dvd de “Dama de Porto Pim” (2), uma realização do espanhol José Antonio Salgot, sobre o conto de Tabucchi. Emma Suárez (Lucía), Antonio Resines (Español) e Sergio Peris-Mencheta (Lucas) são os protagonistas desta tragédia cinematográfica que não tem ponta por onde pegar, a começar desde logo pelo desperdício de uma história que só pode mesmo ser filmada em Porto Pim, no Faial, e que o desinspirado realizador transladou para uma inexpressiva Tazones, nas Astúrias, o que retira qualquer ressonância mágica a esta fabulosa história de cantores-pescadores de moreias, de baleias e de mulheres, por onde perpassa um tom de destino que se cumpre, guiado pelo olhar cativante de um misterioso rosto feminino. O que fica não é nada de tão provável suculenta ementa.
No interior da Taberna do Pim (que quer dizer “abrigo” em flamengo), com a porta aberta sobre a baía, imagino a São José Lapa no papel da fatal desconhecida que destroça corações, vestida de branco, e o Rogério Samora no pescador que troca a caça à baleia por cantigas de amor numa taberna do porto, o “Bote”. E revejo a cena do encontro inicial. Ele olha-a e sente-se perdido. “Dei-lhe os bons-dias e perguntei-lhe em que podia ser-lhe útil. Indicou-me a mala que estava a seus pés. Leva-a ao “Bote”, disse-me na minha língua. O “Bote” não é um lugar para senhoras, disse eu. Eu não sou uma senhora, respondeu, sou a nova patroa. “
Situação digna de um clássico de culto. A mulher de porto Pim. A magia de porto Pim. Cai a noite. Corta!


(1) “Donna di Porto Pim” saiu em Itália em 1983. António Tabucci, italiano de Vecchiano (localidade perto de Pisa), nascido em 1943, era então director do Instituto Italiano di Cultura em Lisboa. Depois passou a professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Génova, e continua a ser um escritor muito bem recebido pelos portugueses, que dele conhecem a obra de ficcionista, onde se destacam, para lá de “A Mulher de Porto Pim”, “Notturno Indiano” (Nocturno Indiano, 1984), “Piccoli Equivoci Senza Importanza” (Pequenos Equívocos sem Importância, 1985), “Il Filo dell' Orizzonte” (O Fio do Horizonte, 1986), excelente adaptação ao cinema por Fernando Lopes, “I Volatili del Beato Angélico” (Os Voláteis do Beato Angélico, 1987), “I Dialoghi Mancati” (Chamam ao Telefone o Senhor Pirandello, 1988), “L'Angelo Nero” (O Anjo Negro, 1991), “Requiem: un'Allucinazione” (Requiem, 1992), “Sogni di Sogni” (Sonhos de Sonhos, 1992), “Sostiene Pereira” (Afirma Pereira, 1994), que deu também origem a um filme homónimo, realizado por Roberto Faenza, com Marcello Mastroianni, e igualmente rodado em Portugal, “Gli Ultimi Tre Giorni di Fernando Pessoa” (Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa, 1994) ou “La Testa Perduta di Damasceno Monteiro” (A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, 1997) ou “La Gastrite di Platone” (1998), “Marconi, se Ben mi Ricordo” (1997), “Si sta facendo sempre più tardi. Romanzo in forma di lettere” (2001), “Tristano muore. Una vita” (2004).
Apaixonado por Portugal, crítico e tradutor italiano de Fernando Pessoa. Tabucchi apaixona-se pela poesia de Pessoa nos anos 60, ainda na Sorbona, e no regresso a Itália frequenta aulas de português para melhor perceber melhor o poeta. Sobre Pessoa escreveu obra variada, para lá de ensaios: “Pessoana mínima” (1987), “Un baule pieno di gente. Scritti su Fernando Pessoa” (1990), (1994), “Dove va il romanzo” (1995, essay), “Carlos Gumpert, Conversaciones con Antonio Tabucchi” (1995), L'Automobile, la Nostalgie et l'Infini” (1998), “Gli Zingari e il Rinascimento” (1999), “Ena poukamiso gemato likedes (Una camicia piena di macchie. Conversazioni di A.T. con Anteos Chrysostomidis”, 1999), “Autobiografie altrui. Poetiche a posteriori” (2003), etc.

(2) Titulo original: Dama de Porto Pim
Realização: José Antonio Salgot (Espanha, 2001); Argumento: Jacobo López-Vilasaló, José Antonio Salgot, segundo conto de António Tabucchi; Música: Mario de Benito; Fotografia (Cor): Javier G. Salmones; Montagem: José María Biurrún; Casting: Julio Gavilanes; Design de produção: Gil Parrondo; Guarda-roupa: Gumersindo Andrés; Maquilhagem: Cristóbal Criado, Viuda de Ruiz; Direcção de produção: Salvador Ginés; Departamento de arte: Jose Antonio Mateos; Som: Jorge Lerner, José Nogueira; Efeitos visuais: El Khadir Palomo Yusef; Produção: Eduardo Campoy, Juan Gona; Companhias de produção: Creativos Asociados de Radio y Televisión, Gonafilm S.L.;
Intérpretes: Emma Suárez (Lucía), Antonio Resines (Español), Sergio Peris-Mencheta (Lucas), José Manuel Cervino (Eduino), Ismael Martínez (Miguel), May Heatherly (Mrs. Burnes), Armando del Río (Hans), Olegar Fedoro (Pierre), Bea Segura (Maria), Oriana Bonet (Mercedes), Denis Rafter (Mr. Perrin), Maite Blasco (Madame Perrin), José Antonio Izaguirre, Xavier Sandoval, Patricia Mendy, Pep Guinyol, Teresa del Olmo, etc.
Duração: 90 minutos, Estreia em Espanha: 9 de Novembro de 2001; Locais de filmagem: Tazones, Astúrias, Espanha.
(todas as fotos são do autor, com a compreensível excepção da baleia)

segunda-feira, junho 02, 2008

FAIAL, I

NO PETER CAFÉ SPORT

Um dos símbolos do Faial é o “Peter Café Sport”, local de romagem obrigatória para lobos-do-mar e turistas em peregrinação, mas também para os fiéis habitantes da ilha ou os simples apreciadores de referências gastronómicas.
Há cerca de uma dezena de anos estivera na Horta e daí para cá poucas diferenças senti. Neste caso não quer dizer que a terra não tenha evoluído. Apenas se manteve igual. Serena à superfície, com uma actividade sísmica intensa nos seus subterrâneos, mágica na sua paisagem, o límpido oceano a bordejá-la, o verde das pastagens e do (raro) arvoredo a subir encosta acima, as casas da cidade permanecem de um traçado nobre, da mais modesta à mais exuberante, a despertar a nossa curiosidade à medida que andamos, um comércio parado no tempo, cafés que recordam o passado, um porto de abrigo que se tornou escala entre a Europa e as Américas, a memória de milhares de viagens e de viajantes que deixam a sua colorida marca no chão e nas paredes deste ancoradoiro único onde nascem e morrem esperanças e se suspendem paixões. De paraísos perdidos, de mulheres ou homens de olhos faiscantes, de Moby Dicks que se perseguem até à morte. Assim é a história da Humanidade que aqui encontra registo miniaturista e “naif”.
Entre-se no “Peter Café Sport”. São velhas e sólidas cadeiras e mesas de madeira, estas com tampos de mármore, numa boa tradição de taberna reabilitada. Numa das paredes um mapa-mundo da “Cable and Wireless Limited”, e depois uma profusão imensa de estandartes e bandeirinhas que se sobrepõem, autocolantes, placas comemorativas, brasões de barcos, bilhetes escritos em todas as línguas, apelos, informações. Pedidos de “crew” para viagens. “Foi um prazer conhecer-te…”. “To Sophie”, ali se encontra um bilhete em papel fechado que todos aceitam como inviolável até à provável, ou improvável, chegada da anunciada Sophie. Uma enorme águia de madeira, num castanho-escuro e duro, de bem abertas e negras asas, segura nas fortes patas duas entrelaçadas bandeiras de Portugal. Está por cima do balcão principal, donde fumegam malgas brancas com uma excelente e forte sopa de peixe, mas também pastéis de bacalhau, rissóis, tartes várias, cervejas e gin tónico (o célebre “gin do mar” ou o “gin à memória”). Desse balcão sai e entra, com bandejas carregadas, uma empregada brasileira de olhos doces e t-shirt da casa, “Whale Whatching - Peter”, com as calças descaídas deixando entrever uma faixa da barriga, pele rosada e umbigo a descoberto. Há este balcão de bebidas e comidas ao fundo, e um outro, à esquerda de quem entra, este reservado a pagamentos, tabacos e “souvenirs.” O “Peter” não é só já um café, mas por cima do estabelecimento tem, no primeiro andar, um pequeno museu do mar, da pesca à baleia, da escultura em osso e dente de baleia, e, crescendo do seu lado esquerdo, estende-se também uma loja que vende um pouco de tudo, de t-shirts a brincos, de livros turísticos a objectos regionais.
No próprio café há pequenas vitrinas com as prateleiras repletas de objectos de dente de baleia, de madeira de figueira, alargando a recordação para o mar e os barcos, a caça à baleia, o horizonte do Atlântico. Um Atlântico que basta olhar através das portas para se vislumbrar para lá da esplanada.
A iluminação é discreta, mesmo de dia, mais clara do que à noite, onde impera o dourado velho das lâmpadas. Nas paredes e nas montras, lanternas antigas azuis e brancas, relógios e aparelhos vários da arte de marear. Nas mesas, a pausa para um café ou uma cerveja, os gins da tradição ou uma refeição mais demorada. Franceses, irlandeses, nórdicos à escolha, americanos e ingleses, uma babilónia de línguas, de olhares, de cabelos hirsutos ou de carecas rapadas à lamina, cabelos em rabo de cavalo, presos atrás, ou soltos, ou atados por uma fita vermelha em redor da testa. Há homens para todos os gostos, rostos tisnados pelo sol, barbas longas, ou simples bigodes, calções, calças militarizadas ou curtas, t-shirts lisas de cores claras ou escuras, ou estampadas com barcos e símbolos de companhias de navegação. Botas cardadas, chinelos, ténis, mais ligeiros ou mais carregados, sandálias, socas. Entra um casal que capta o olhar de todos: ele de cabeça rapada à máquina zero, de longos bigodes louros e farfalhudos, alto e espadaúdo, sacola às costas, ela loura, t-shirt azul-marinho a escorrer-lhe pelo corpo alto mas franzino, seios a anunciarem-se soltos por baixo do algodão, longos dias de travessia do oceano nos braços e nas mãos. No balcão pedem duas cervejas que trazem até à porta, onde se encostam confortavelmente, acendem cigarro e cigarrilha e ficam a olhar o mar e a beber.
Mas dentro do café, em diversas mesas, vão-se sucedendo os cabelos louros de mulheres de meia-idade e os grisalhos de homens que passaram grande parte da sua vida no mar ou em portos de abrigo como este. São velhos lobos-do-mar com muitas histórias para contar que as vão desfiando a mulheres louras, sempre louras, de longos cabelos escorridos, ou encaracolados, que os ouvem e os incitam com o olhar para novas aventuras. Marítimas ou não. Estes são os seres que vivem no habitat natural, onde se cruzam com burgueses de visita, burocratas em momentos de relaxe, artistas em busca de inspiração, turistas que registam o instante.
Lá ao fundo, ancorados no porto, os iates, os barcos de recreio, os botes de ilusão que atravessam os oceanos do mistério, de ondas encrespadas ou de cálidas marés que povoam os sonhos do homem, sonhos de conquistas e de aventuras que se estendem desde a “Odisseia” ou da “Ilíada” até “Moby Dick” ou “O Velho e o Mar”. Há ainda “Mau Tempo no Canal” que une o Faial ao Pico, mesmo ali à frente. E “Gente Feliz com Lágrimas”. Passando por “A Mulher de Porto Pim”. Mas esta fica para uma próxima história.

terça-feira, maio 27, 2008

E CÁ VOU EU A CAMINHO DO FAIAL


CINEECO - 28, 29 e 30 Maio no FAIAL
Numa iniciativa da Ecoteca do Faial e do Cineclube da Horta, um conjunto de filmes e documentários que alertam e sensibilizam a população para as questões ambientais vai ser exibidos, de 28 a 30 de Maio de 2008, na Horta, no âmbito do Festival de Cinema e Vídeo de Ambiente – Cine Eco, que teve no ano passado a sua 13ª edição em Seia, na Serra da Estrela. As sessões vão decorrer no auditório da Escola Secundária Dr. Manuel de Arriaga, para a comunidade escolar, e no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Horta, para o público em geral. Esta extensão do Festival Cineeco na Horta, está integrada nos Encontros de Porto Pim 2008.
Todas as sessões têm entrada gratuita.
Na ilha do Faial, na cidade da Horta serão cerca de 20 filmes a exibir onde se destacam os vencedores do Grande Prémio do Ambiente no CINEECO 2006 – “Ainda há pastores” de Jorge Pelicano e o vencedor do mesmo galardão em 2007 “Encontro com Milton Santos” do realizador Sílvio Tendler.
A todos aqueles que a visitarem será ainda dada a possibilidade de assistirem a uma mesa redonda no dia 30 (sexta-feira) pelas 22 horas com Lauro António logo após a sessão.
Promover o debate sobre diversas temáticas ambientais, discutir a produção cinematográfica a nível regional e fomentar uma maior produção com incidência nestas temáticas são alguns dos objectivos.
Venha. Está convidado!
Posted by Ecoteca do Faial

SESSÃO DE ENCERRAMENTO
MESA REDONDA - À conversa com….. Lauro António:
Tema em debate – “ Os Media e o Ambiente: a importância do Cinema na divulgação das
temáticas ambientais”
O cinema poderá apresentar-se como um importante instrumento pedagógico, pelo facto de criar um mundo de sons, de imagens e linguagens que nos proporcionam no seu conjunto a construção de histórias e personagens capazes de, em função de um determinado contexto, das vivências e da cultura dos espectadores, despertar determinadas emoções, proporcionando por vezes tomadas de consciência sobre os nossos valores, aguçando os nossos sentidos, e até mesmo, estimulando uma mudança de atitudes!
Apoios: Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e OMA - Observatório do Mar dos Açores

quinta-feira, maio 22, 2008

Cinema: Cartas a uma Ditadura

CARTAS A UMA DITADURA
“Cartas a uma Ditadura”, novo filme de Inês de Medeiros, é uma obra documental com interesse óbvio, mas que fica um pouco aquém do documento que poderia ter sido, sobretudo pela forma como manipula o material iconográfico colocado à sua disposição.
A ideia de base é curiosa. Vejamos então do que trata. Aqui há tempos, foi encontrada, num alfarrabista, uma caixa de cartão contendo cerca de uma centena de cartas, escritas por mulheres portuguesas em 1958, respondendo, ao que tudo leva a crer, a uma circular enviada por um desconhecido “Movimento Nacional das Mulheres Portuguesas”, o qual procurava angariar apoio feminino para Salazar e o Estado Novo, que passara recentemente por uma provação difícil, durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais que opusera o general Humberto Delgado ao almirante Américo Thomaz. Não se encontrou até hoje referência alguma a este “movimento”, nem à circular a que respondem as cartas, e o alfarrabista desfez-se delas pensando que eram missivas amorosas sem outro interesse especial.
Mas eram cartas de mulheres dirigidas a um ditador, umas apoiavam Salazar, e prometiam toda a ajuda, outras diziam que sim, mas que estavam muito ocupadas com a lide da casa e da família. Todas elogiavam a paz, a ordem, e enalteciam a figura do "salvador da pátria". Segundo apuraram os responsáveis pelo filme, assinavam as cartas uma costureira, muitas professoras primárias, algumas donas de casa e também várias mulheres de importantes nomes do regime.
Algumas, cinquenta anos depois, ainda vivem e foram confrontadas com as palavras que então escreverem. Umas recordam-se, outras já nem sabem o que disseram. O olhar da realizadora não é, justificadamente, de recriminação perante a acareação, o que é bonito. Todas são tratadas com dignidade e muitas com algum carinho que a idade impõe. Quase todas sabem muito pouco do que quer que seja ou fazem-se passar por isso, por ignorantes que nem distinguem a democracia da ditadura. Uma ou outra assume que não gosta desta “democracia” (o que é mais um voto na democracia que lhe permite dizer isso, ao contrário da ditadura que apoiou!), uma olimpicamente afirma-se salazarista, a maioria não sabe, não viu, desconhece. Uma diz-se mais ou menos enganada pela ditadura.
Estes eram os tempos (1958), estes continuam a ser os tempos (2008), para quem sobreviveu à História. Interessante esta viagem pelo passado, por entre névoas que nos vão permitindo vislumbrar, por detrás das nuvens, o medo, a desinformação, a solidão, o sofrimento, o alheamento. Os planos rodados na actualidade são como postais de um passado agora colorizados, por entre cenários sombrios e românticos, velhos reposteiros, vasos de flores, cadeirões antigos e olhares mortiços. Inês Medeiros consegue um enquadramento condigno, sem nunca ultrapassar a fotografia de uma memória magoada. Cada plano assemelha-se a uma fotografia de álbum antigo.
Muito mais discutível é todo o aproveitamento de algumas imagens de arquivo da RTP e de cinema, sem estarem enquadradas e sem sequer ser referido o momento histórico a que se reportam, o que torna o filme uma argamassa insignificante (ou com um significado distorcido) da realidade histórica. As imagens do Estádio Nacional, apinhado de gente, transbordante de bandeiras e estandartes, as das grandes manifestações de apoio a Salazar, mesmo as da eleição de Humberto Delgado (as únicas vagamente contextualizadas) acabam por não ter uma leitura coerente e impedem a compreensão final da obra.
De resto, mesmo para quem as saiba enquadrar historicamente, não deixam de ser perturbantes: as ruas tão depressa estão pejadas de povo a orar á Senhora da Saúde como a saudar Salazar, como a acompanhar euforicamente Humberto Delgado, tudo com tempos ridículos de intervalo. O povo parece ir para onde vai a festa, parece ser a conclusão a extrair, entendendo-se por festa o que é diferente, o que quebra a rotina. Sem nenhuma consciência crítica, sem uma finalidade ou uma orientação esclarecida.

terça-feira, maio 20, 2008

VAVADIANDO COM RIBEIRO TELLES


HUMBERTO DELGADO RECORDADO NO ISCTE


Humberto Delgado: 50 Anos Depois.
História e Memória
Colóquio Comemorativo do Cinquentenário das Eleições Presidenciais de 1958
ISCTE, Auditório Afonso de Barros - Ala Autónoma
20 de Maio de 2008
Organização: CEHCP e Fundação Humberto Delgado

«Empenhei nesta batalha a minha vida, as minhas estrelas de general
e toda a minha alma de patriota»
General Humberto Delgado, 14 de Maio de 1958

Humberto Delgado, ao regressar dos EUA, em 1957, tencionava preparar uma revolta armada contra o regime, mas foi afastado dos comandos militares e optou pelo combate político, candidatando-se à Presidência da República em 1958.
Despertou a consciência política do Povo Português ao proferir a célebre frase «Obviamente demito-o», referindo-se a Salazar. Durante a sua carismática campanha eleitoral, arrastou multidões de norte a sul e unificou toda a Oposição em redor da sua candidatura. Em 14 de Maio de 1958, a sua chegada ao Porto representou uma das maiores concentrações humanas da História de Portugal. No regresso à capital, milhares de lisboetas que o aguardavam foram vítimas da repressão policial da ditadura.
O Governo proibiu a fiscalização do acto eleitoral e atribuiu ao candidato do regime, Almirante Américo Tomás, uma vitória fraudulenta de 75,8% dos votos.

Programa do Colóquio
9H30 - Sessão de Abertura
10H00 - Eleições em Tempo de Ditadura
«As Eleições de 1958 e o seu impacto no Estado Novo», Luís Nuno Rodrigues
(CEHCP-ISCTE)
«Quem tem a tropa? Os militares e as Eleições de 58», Telmo Faria
(Historiador, Presidente da C.M. Óbidos)
«Eleições de 1958 no “Arquivo de Salazar”», Dalila Cabrita Mateus (CEHCP-ISCTE)

11H15 - Pausa
11H30 - Eleições em Tempo de Ditadura (cont.)
«Humberto Delgado teria um plano para África?», Carlos Pacheco
(Fundação Humberto Delgado)
«Eleições e oposição: o “Terramoto Delgado” visto de Espanha»,
Juan Carlos Jimenez Redondo (Univ. CEU e UNED - Madrid)
«A calma antes da tempestade. A posição internacional do Estado Novo
em finais da década de 1950», Pedro Aires de Oliveira (FCSH-UNL)

12H45 - Pausa para almoço
14H30 - Excertos de Vida em Imagens
Evocação Iconográfica de Humberto Delgado, Frederico Delgado Rosa
(Fundação Humberto Delgado)
15H00 - Memória Individual da Liberdade
Testemunhos de: António Melo (jornalista); Alcino Soutinho (arquitecto); António Brotas (professor do IST); Fernando Dacosta (escritor); José Aurélio (escultor)

16H30 - Pausa
16H15 - Memória Individual da Liberdade (cont.)
Testemunhos de: Maria Antónia Palla (jornalista); José Costa Martins
(coronel piloto aviador FAP); Lauro António (cineasta); Maria da Luz Veloso (jurista);
Silas Cerqueira (sociólogo)

18H15 – Encerramento
Paralelamente decorre no ISCTE uma exposição fotográfica intitulada
Humberto Delgado, o General sem medo
Comissão organizadora:
Dalila Cabrita Mateus Iva Delgado Maria João Vaz

Apoios:
Fundação para a Ciência e a Tecnologia Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento ISCTE

segunda-feira, maio 19, 2008

REVISTA "TAKE" COM "MEMÓRIAS"

Saiu mais um número da revista "Take" onde se recolhem mais umas páginas das minhas "Memórias à Solta". Desta vez recordo os tempos passados em Portalegre, entre os meus 8 e 15 anos, a propósito do documentário "Humberto Delgado: "Obviamente, Demito-o!". Deixo aqui apenas uma passagem, mas o melhor é mesmo ler o texto todo na revista, que merece inteiramente a visita. Magnificamente paginada, bem ordenada, escrita com entusiasmo e boa informação por um conjunto de, julgo, jovens, eis uma boa aposta. Mais de cem paginas para cinéfilos do todas as cores. O director é José Soares. Vale até a pena imprimir toda a revista para se ler com mais calma e melhor se apreciar.
Pode ser vista aqui: http://www.take.com.pt/
MEMÓRIAS DE PORTALEGRE

"(...) Foi em Portalegre que tive a minha primeira paixão por uma mulher, curiosamente uma Laura que partiu um dia da cidade e me deixou lavado em lágrimas a ver desaparecer o carro onde a família seguia rumo ao norte. O pai era Juiz, fora colocado noutra cidade, e a perca da Laura foi irremediável. Devíamos os dois andar pelos doze ou treze anos, mas foi imagem que não mais perdi (nem achei). A seguir a essa Laura, outras paixões se seguiram e me marcaram profundamente, ainda por essa cidade de ruas estreitas e serpenteantes, apesar da principal se chamar “Direita”. Colegas de liceu, houve algumas. Conservo a recordação de todas que me despertaram, nas emoções do espírito e na tentação da carne, para os prazeres do amor.
Foi também em Portalegre que comecei a escrever. Textos curtos, notícias sobre cinema, entrevistas breves, enfim, o que me ia interessando e os dois jornais da terra onde eu colaborava iam permitindo publicar. O que me apaixonava mais era “A Rabeca”, do senhor Casaca (João Diogo Casaca) velho republicano, que tinha a tipografia na rua 19 de Junho (antiga rua da Carreira). Fora na juventude actor dramático e cantor, e depois instalou-se como tipógrafo, editor e director de jornais. Foi nessa gráfica, de ambiente antigo, soturno, pesado, mesmo com o seu quê de misterioso, pejada de móveis escuros, onde se compunham jornais com letras de chumbo que se iam juntando até formarem palavras, frases, artigos, foi ai que comecei a escrever. Via os empregados a compor, com ágeis movimentos de mãos, trabalhando de pé, encostados a banquetas recheadas de gavetas de alto a baixo, com tipos de letra diferentes, e ficava fascinado com essa actividade mecânica, febril, incansável, que dava lugar a textos que se liam e transmitiam ideias, factos, pesadelos ou esperanças. Foi aí que aprendi, com dificuldade extrema, é certo, a manusear as letras de chumbo, e a compor as minhas próprias notícias sobre filmes e actrizes. Foi nas páginas de “A Rabeca” que vi as primeiras palavras escritas por mim circularem em folha de jornal. Assinava o nome que hoje uso ou as iniciais LA, ou ainda, sobretudo no outro jornal da terra, O…TAL (que era a inversão de Lató, diminutivo que reunia os meus dois nomes iniciais e pelo qual os meus pais por vezes me chamavam).
Um outro jornal da terra era “O Distrito de Portalegre” (o único desses tempos que ainda hoje se publica), ligado à diocese, onde pontificava o Cónego Anacleto, amigo da casa de meus pais. A tipografia era muito mais arejada, luminosa, ficava situada em frente à Sé Catedral. Os textos eram sobretudo de cariz religioso, e a linha do jornal era muito mais conservadora na sua orientação ideológica. Havia ainda um terceiro semanário na terra, “A Voz Portalegrense”, órgão da “União Nacional” no distrito, mas aí nunca escrevi nada, vá-se lá saber porquê. Não me puxava a mão para esses desígnios.
Escrever era já uma paixão, mas ler era compulsivo. Desde as revistas em quadradinhos, “O Papagaio”, “O Mosquito”, quando era mais novo, o “Mundo de Aventuras” e o “Cavaleiro Andante”, em meados dos anos 50, até romances de certo fôlego que ia desencantar na biblioteca dos pais, ou que eles me ofereciam, em doses massivas sobretudo pelos anos ou no Natal. Como o meu pai era pintor e se interessava muito por livros sobre arte, havia vários lá por casa que me fascinavam. Uns, de bolso, monografias sobre pintores. Outros, álbuns de certo peso. Um, sobre o “Aleijadinho”, o escultor desse fabuloso Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, obra inspirada em santuários portugueses, que se encontra em Congonhas do Campo, no Estado de Minas Gerais, impôs mesmo um desvio de rota, aquando da minha primeira viagem de férias no Brasil, tal era a admiração que me provocava desde essa altura.
Mas “Os Miseráveis”, “O Príncipe e o Pobre”, “O Romance de um Rapaz Pobre”, “A Dama das Camélias”, “Oliver Twist”, “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Os Maias”, um pouco de tudo ia passando sob os meus olhos maravilhados. E a poesia de José Régio, lida em livros autografados pelo próprio, e que ainda hoje conservo religiosamente. Por essa altura tinha jeitinho para desenhar e pintei, a lápis de cores, uma “Fuga para o Egipto” que ofereci a José Régio, tendo recebido em troca “O Príncipe das Orelhas de Burro”, autografado (“Ao Làtó, em troca duma sua pintura que representa a “Fugida para o Egipto”, sem burro, oferece o seu amigo Zé Régio, Portalegre, 1952), num volume cartonado que abre com um belíssimo desenho a cores que o romancista me ofertou também. Eu tinha dez anos.
E já gostava de futebol, nesses anos iniciais de liceu. Havia dois clubes em Portalegre, um, o “Portalegrense”, outro, o “Estrela de Portalegre”, com rivalidades óbvias. Apesar do verde ser a minha cor a nível nacional (Sporting Clube de Portugal, claro, e desde sempre e para sempre!), em Portalegre as simpatias penderam sempre mais para o azul do “Portalegrense”. Como desde miúdo fui alto, já nessa altura andaria pelo metro e oitenta, empurravam-me invariavelmente para a baliza, ignorando a minha ânsia de “meter golos”. Fui parar a guarda-redes da equipa do liceu, e ainda fiz alguns jogos nos juniores do “Portalegrense”, até que um frango monumental me afastou irremediavelmente de uma carreira gloriosa na selecção nacional, quiçá. Mas confiar no golpe de vista nunca foi apanágio de bom guarda-redes, e a bola entraria por entre as mãos despreocupadas de quem olha o esférico e pensa que ele passa por cima, e não tem em conta o movimento descendente de última hora. Nesse jogo perdeu-se um guarda-redes, marcado pela íntima ignomínia de um frango colossal. Nunca deixei, porém, de assistir aos jogos do Portalegrense, e ainda hoje procuro nas páginas dos desportivos os resultados dos clubes da terra. Infelizmente, não muito brilhantes.
Muito mais interessante foi a minha dedicação às salas de espectáculo da cidade. Quando cheguei a Portalegre, a que existia era o magnífico (enfim, assim o recordo, apesar de algo arruinado) “Teatro Portalegrense”, situado numa pequena praceta no centro da cidade. Era um teatro antigo, construído à italiana, na vertical, com plateia, frisas, camarotes e por aí acima. Havia normalmente quatro sessões semanais, às terças, quintas, sábados e domingos, e ocasionalmente teatro. As companhias de revista, de comédia ou mesmo de drama, faziam digressões pelo País e Portalegre estava inscrito no mapa. Passavam, portanto, inicialmente pelo palco do “Teatro Portalegrense”, depois pelo do “Cine Teatro Crisfal”, localizado ao cimo do Jardim da Corredoura, edifício típico dos anos 50 e da febre dos Cine Teatros que se espalharam pelo País em réplicas mais ou menos inspiradas do Cinema e Teatro Monumental de Lisboa. Assisti à inauguração do Crisfal, com uma actuação da companhia do Teatro Nacional de D. Maria II, de Amélia Rey Colaço que, para assinalar o facto, ali permaneceu uma pequena temporada com duas ou três peças do seu reportório. (...)

domingo, maio 18, 2008

A TAÇA É DO SPORTING CLUBE DE PORTUGAL


A TAÇA È NOSSA!
Ninguém nos agarrou!
Depois de um Campeonato bem entregue,
uma Taça que fica com quem a ganhou com justiça.
(um obrigado a todos, as amigas e os amigos, de todas as cores,
que felicitaram o leão que há em mim!)

HUMBERTO DELGADO, MAKING OFF

O Frederico acompanhou-me durante a realização do documentário
"Humberto Delgado: "Obviamente, Demito-o!"
(emitido pela RTP-1, a 10 de Maio de 2008)
Nesses dias foi recolhendo imagens de bastidores,
que reuniu num making off, que aqui fica.
Agradecido.

sexta-feira, maio 16, 2008

FRANÇA CHINA: CULTURAS COMPARADAS

INSTITUTO CONFUCIO - UNIVERSIDADE DO MINHO

Curso "Arts de Vivre. Cultures Comparées. France et Chine"
10 e 17 Maio 7 e 14 Junho 2008

O Curso Arts de vivre: Cultures comparées: France et Chine/ Artes de Viver. Culturas comparadas: França e China situa-se na área das culturas comparadas e é uma iniciativa conjunta do Instituto Confúcio da UMinho e do Departamento de Estudos Franceses do Instituto de Letras e Ciências Humanas da UMinho.
O Curso parte da constatação de que a China e a França ocupam no imaginário colectivo o prestigiado lugar das duas culturas mais sofisticadas do mundo. Pólos civilizadores do Oriente e do Ocidente respectivamente, os dois países criaram um conjunto de bens culturais associados a sensações e prazeres altamente apreciados e valorizados e, como tal, globalmente procurados. O caso mais conhecido é certamente o da gastronomia, pois as artes culinárias chinesa e francesa souberam criar os sabores mais famosos e requintados, sem esquecer a alquimia dos chás e dos vinhos. Souberam, além disso, envolver os prazeres do gosto num elevado grau de codificação que impregna tanto as práticas culinárias como les manières de table e manifesta que nos alimentamos também de representações e de valores.
De entre os produtos criados pela cultura chinesa e pela cultura francesa para satisfação dos sentidos e do intelecto destacam-se os jardins. As diferenças na composição, na estrutura e na simbólica dos jardins clássicos franceses e chineses exprimem diferenças de mais amplo alcance entre as duas culturas, nomeadamente no que toca à atitude face à natureza.
Também o cinema e a literatura constituem um campo privilegiado para a produção e análise de fenómenos de permeabilidade intercultural, como a construção e a desconstrução dos estereótipos e lugares-comuns que compõem os ecrãs através dos quais chineses e franceses, ocidentais e orientais, se contemplam mutuamente. Os romances de Dai Sijie, escritor chinês francófono, ocupam um lugar de destaque no seio desses fenómenos de permeabilidade intercultural.
O Curso dirige-se a pessoas de todas as idades que praticam a arte de viver, que gostam do mundo e de viagens, reais e/ou imaginárias, que desejam aprofundar os seus conhecimentos em matéria de culturas e que são capazes de fazer do saber um prazer e do prazer um saber.

Dia 17 de Maio:Cinema e Literatura

Apresentação de "BALZAC E A PRINCESA CHINESA" de Dai Sijie
10,00 h: Revolução cultural e Literatura Ocidental
por Cristina Álvares
14,30 h: Apresentação do filme por Lauro António
e projecção do mesmo, seguido de debate.

BALZAC E A PRINCESA CHINESA


1. DAI SIJIE
Devo confessar a abrir que “Balzac e a Princesa Chinesa”, filme, ou “Balzac e a Costureirinha Chinesa”, romance, não me convenceram muito, apesar de encontrar em ambas as obras aspectos interessantes a merecer a atenção de leitores e espectadores, sobretudo se estes se interessarem mais pela política e a sociologia do que por literatura e cinema. Mesmo assim acho que o filme é ligeiramente mais conseguido que o romance, muito embora este tenha sido a obra revelação de um chinês a viver em Paris, Dai Sijie de seu nome.
Nascido na China em 1954, Dai Sijie parece ter tido adolescência conturbada. Filho de uma família da classe média, caída em desgraça durante o início da década de 70, em virtude da Revolução Cultural comandada pelo camarada Mao Tse Tung, “Grande Timoneiro da Revolução”, enquanto os país eram presos ele foi enviado conjuntamente com outros jovens “burgueses” e “intelectuais” para campos de re-educação onde os “pobres camponeses” lhe ensinavam a verdade revolucionária. Dai Sijie esteve na província de Sichuan entre 1971 e 1974,acabando por ter a sorte de regressar à cidade e à universidade, onde acabou um curso de história de arte. Em 1984, porém, deixou a China e viajou até Paris onde se fixou, iniciando uma carreira de escritor e realizador de cinema.
O seu primeiro filme “Chine, ma Douleur” (China, my Sorrow) (1989) despertou interesse e ganhou o Prémio Jean Vigo, seguindo-se “Le Mangeur de Lune (1994) e Tang, le Onzième (The Eleventh Child) (1998). Em 2000 escreve o seu romance de estreia, que dois anos mais tarde adapta ao cinema e dirige: “Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise” (na edição portuguesa da Terramar, “Balzac e a Costureirinha Chinesa” numa tradução de Maria Filomena Duarte, ou “Balzac and the Little Chinese Seamstress”). Continua a escrever directamente em francês “Le Complexe de Di” (Mr. Muo's Traveling Couch) (2003), que foi Prémio Femina, e se ocupa das viagens de um chinês influenciado pela psicologia francesa e aborda o “complexo de Édipo”, e ainda “Par une Nuit où la Lune ne s'est pas Levée” (On a moonless night) (2007).
Em 2006 voltou ao cinema para rodar “Les Filles du Botaniste” (“As Filhas do Botânico”, The Chinese Botanist's Daughters).
Mas vamos por partes e falemos de “Balzac e a Princesa Chinesa” (o título do filme não é o mesmo que o do romance em Portugal, como já devem estar a calcular).


3. AS FILHAS DO BOTÂNICO
“Les Filles du Botaniste” é o filme seguinte de
Dai Sijie, que também estreou em P2. BALZAC E A PRINCESA CHINESA
“Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise” é, até agora, a sua obra mais conhecida. Obteve cinco prémios literários, foi vendida para dezanove países (excepto a China, pelo menos até há pouco tempo!), com adaptação ao cinema e passagem por Cannes, tudo isto para contar a história de dois jovens chineses, apanhados nas malhas da Revolução Cultural maoista, que são enviados para um campo de “re-educação” (o que aconteceu ao próprio Dai Sijie, como já vimos). Exilado em Paris, Sijie Dai não tem o que se chama boas recordações da sua China natal. Tanto “Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise” como “Les Filles du Botaniste” comprovam-no.
Portanto, no início dos anos 70, dois rapazes de famílias "burguesas e reaccionárias" são enviados para uma distante aldeia nas montanhas chinesas onde serão “reeducados” nos princípios do maoísmo. São dois “civilizados” que é urgente disciplinar no ruralismo profundo, numa dicotomia campo-cidade, demonizando-se esta. Este é um dos temas centrais da obra, que se irá desenvolver ao longo de várias vertentes: a cidade é vista pelos jovens como a civilização, a cultura, a sofisticação o espírito, o desenvolver dos sentimentos, enquanto o campo é a ingenuidade buçal, a terra como elemento primário, o esterco como adubo, o primitivismo. O filme coloca, porém, várias outras curiosas questões. Por exemplo: nestas condições, quem reeducar quem?, sabendo-se que o chefe da aldeia e os aldeões possuem uma muito rudimentar cultura e poucos meios de defesa contra a argúcia dos jovens que se fazem valer de expedientes criativos e irónicos para ultrapassar certas regras e preconceitos, não serão os dois jovens certamente a mudar de comportamento, mas possivelmente eles a influenciarem o comportamento alheio.
Quando o chefe da aldeia desconfia da utilidade do violino e o trata como “brincadeira burguesa” que urge destruir, um dos jovens avisa-o que o violino serve para tocar e que o companheiro executa nele lindas sonatas de Mozart. Mas então quem é Mozart, esse “burguês reaccionário”? E que é isso de sonatas?
Com alguma ironia e uma certa ternura distanciada pela ignorância, um deles improvisa ao sabor da época: aquela sonata chama-se: "Mozart está a pensar no camarada Mao", o que a torna não só logo executável, como possível de ser repetida até à exaustão. O que demonstra também que por vezes um simples título tudo modifica. Sobretudo quando a ignorância é crassa e a ditadura se serve dela para se impor. O relógio que o chefe da aldeia adopta como despertador, acabará por servir quem dele sabe retirar o melhor partido: os dois jovens atrasam-no ou adiantam-no conforme querem dormir mais de manhã ou regressar a penates mais cedo, ao fim de uma encurtada jornada de trabalho.
Mas há mais: um outro re-educando, que ali está porque os pais são igualmente escritores burgueses reaccionários, sendo a mãe poetisa que gosta de clássicos escritores do Ocidente (burgueses reaccionários como Balzac, Gogol, Dostoiévski, Flaubert, Kipling, Alexandre Dumas, Victor Hugo e tantos outros) possui um tesouro escondido numa mala: vários desses livros proscritos, que os dois jovens descobrem e desviam para seu grande prazer nocturno. E como ambos amam a bela costureirinha da aldeia lêem-lhe passagens de romances que lhe vão modificar a vida. A busca da literatura proibida obedece a um curioso programa, a uma indecifrável atracão pelo proibido: não é só a literatura ocidental, é o amor, o desejo, o sexo, a cidade, a música, a beleza, o que fica longe, o inacessível (a costureirinha ouve os aviões no ar e constrói aviões para uma eminente fuga desse mundo redutor que ela pressente ser o seu).
Por isso o filme tem o título que ostenta. Mas esses romances franceses tidos por infernais pelos diabólicos censores da altura, são contados como se edificantes histórias revolucionárias se tratassem sem a mínima desconfiança. Passo a explicar melhor: como são algo letrados e como não há cinema na aldeia os dois jovens são enviados à vila vizinha para ver filmes chineses e coreanos (do Norte!) que, no regresso contam pormenorizadamente perante o extasiado público da aldeia. Da primeira vez contam o filme que viram, mas das outras exploram com requinte os romances que leram como se dos filmes se tratasse. E ninguém nota a diferença. Ou seja: através da desconstrução dos preconceitos ditos revolucionários fica-se a perceber da inoperância e da insignificância dos mesmos, que sendo esses ou os contrários, funcionam do mesmo modo. Ninguém dá pela substituição.
Ma e Luo, os dois jovens chineses, acabam mesmo por levar uma vida sem grandes provações ou sobressaltos de tratamento, longe das pesadas prisões, das grilhetas e dos dísticos pendurados ao pescoço que os pais suportaram nas grandes cidades. Têm ainda tempo para espiar belas jovens nuas a tomar banho, apesar de diariamente carregarem com baldes transbordantes de excrementos, humanos e animais, que levavam para os campos a fertilizar com esse estrume fresco. Entre a descoberta do esterco e o dealbar do desejo, deparam também com o amor, personificado aqui por uma desconcertante Zhou Xun, já a caminho de se transformar numa das mais belas e talentosas actrizes chinesas da actualidade.
Curioso acrescentar algo mais a esta ideia do aparecimento do desejo, através da leitura de clássicos franceses. O sexo obviamente existe na aldeia, pois que a reprodução (controlada, um filho por casal) acontece. Mas não existe o outro lado do sexo, o que lhe é dado pela consciência do acto, pela imaginação à deriva, pelo prazer que se explora para lá do pragmatismo da procriação. É a literatura que liberta o espírito, que ilumina a sensibilidade, que desperta a sensualidade, o prazer do jogo erótico. Por isso Luo diz: “Estes livros vão transformar a costureirinha.”
Neste período negro de uma "Revolução Cultural" sem sentido, onde os livros são proibidos e os casamentos ilegais antes dos 25 anos, Ma e Lou vão descobrir clandestinamente, com a intensidade da sua juventude, uma paixão pela literatura e pelo amor proibido... Algo que relembra a espaços, um rural “Jules et Jim” (de François Truffaut), ambientado na China. Quando a costureirinha estende as mãos aos dois amigos, todos deitados na relva, olhando o céu, num momento de tréguas e paz, é o amor que circula entre todos, um mais impulsivo e viril, que conquista a costureirinha, um mais passivo e contemplativo, ela vistosa (é a única mulher que veste vermelho na aldeia) e provocadora (é ela que toma a iniciativa de roubar a mala, essa maçã proibida de um Éden perdido nas montanhas). De resto, uma referência ao primeiro imperador homossexual da China introduz uma nota que merece ser tida em conta: há obviamente uma atmosfera de homossexualidade latente, que abre o triângulo a outras dimensões. Luo e Ma amam-se por interposta pessoa, ou como um deles diz no final, “cada um amou-a de forma diferente.”
Há muitas diferenças entre o filme e o livro, demonstrando que o adaptador e realizador tiveram a noção precisa de que se tratava de duas formas de narrativa e de duas maneiras de dialogar, comunicar com o público. O romance começa de forma súbita com a chegada dos dois jovens à aldeia e com a cena do violino, o que desde logo define um tom, e um estilo. O filme é mais explicativo no seu arranque. Há muitas cenas no livro que não são transportas para o cinema, sendo o inverso igualmente verdade: o filme desenvolve episódios que não existem no romance.
“Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise” serve-se magnificamente da paisagem e dos cenários naturais da China para criar um clima poético e humano de certa intensidade emotiva, utiliza a força da juventude dos seus personagens centrais como trampolim para chegar facilmente ao publico, e joga com a duplicidade de duas culturas que lhe estão na base, a chinesa e a francesa, para recriar uma curiosa sensação de aculturação: o melhor da secular China com a modernidade da cultura francesa. A costureirinha inventa um “soutien” para realçar as formas do peito, numa altura que na China as mulheres eram obrigadas a apagar a sua feminilidade, abafando os seios. Esse foi o principio de uma contaminação cultural que a leva a partir para a cidade com a justificação “balzaquiana” de que a beleza feminina é um bem inestimável.”
Coloca ainda uma outra interessante duplicidade: sendo um filme retirado de um romance, é ele mesmo um filme que joga com a literatura e o cinema como veículos de cultura e de crescimento comportamental, ao esmo tempo que se denunciam aspectos de miscigenação narrativa. São os romances de Balzac e outros, sobretudo franceses, que fazem crescer a costureirinha (e os próprios dois jovens e todo o público da aldeia que ouve esses romances serem contados como revolucionários filmes da Coreia do Norte!), e é ainda através de filmes, contados como se de romances se tratasse, que os aldeões se abastessem de imaginação e emoção. São os filmes contados como romances e os romances transpostos para filmes, em longas noites de vigília, que sustentam um povo em carência de um maravilhoso que o faça suportar a aspereza da realidade concreta do dia a dia.
Digamos que sem ser um romance excepcional e um filme invulgar ambos enunciam, com humor e ternura, um período de densas trevas, onde para sobreviver foi necessário um heróico sentido de resistência e também de ironia e distanciamento. Infelizmente o final do filme não está à altura do resto da obra, caindo numa banal vulgaridade que, de certa maneira, restringe o alcance do todo.
3. AS FILHAS DO BOTÂNICO
“Les Filles du Botaniste” é o filme seguinte de Dai Sijie, que também estreou em Portugal.
Estamos na década de 80, do século passado, mas o cenário e as personagens parecem evoluir numa Idade Média perigosamente real. Min, órfã desde os três anos, quando um tremor de terra lhe mata os pais, vive durante anos num orfanato. Um dia sai dali para ser estagiária de um célebre professor botânico, que mora desterrado do mundo, com An, uma abnegada filha que cuida do jardim, das plantas e sementes, e do pai. O botânico é homem austero, seco, rígido na pontualidade e na disciplina, amante das suas plantas, mas pouco dado a grandes emoções com os seus semelhantes. A estagiária traz-lhe, sem disso se aperceber, o melhor presente possível, um pássaro que não se cansa de repetir, sem ironia, “Viva o Presidente Mão!” Alias, ironia é algo que não há por aqueles lados. Nem ironia, nem sentimentos. Uma órfã de facto e uma órfã por circunstância encontram-se, acham-se atraentes (o que não é difícil, são-no mesmo) e acabam a esfregar as costas uma à outra, prosseguindo depois noutras intimidades que as deixam à beira do êxtase. Ou mesmo em plena erupção do êxtase. Compreende-se. Mas há pelo meio umas derivações que estragam o romance: Mr. Chen, o botânico, também tem um filho no exército, de nome Dan, que um dia regressa do Tibete (outra piscadela de olho) e se descobre igualmente muito agradado pela beleza de Min. Obviamente, Mr. Chen, que quer o melhor para os filhos, desde que dentro da normalidade, quer Min para Dan, e o casamento realiza-se, perante a infelicidade do elenco feminino. Em viagem de núpcias, Min queria a companhia de An, mas Dan não quer e fica furioso quando, nessa noite, descobre que Min já não é virgem. Conversa daqui, bofetada dalém, pendura Min pelos braços do tecto e regressa ao Tibete (supõe-se, onde todos são virgens!). Neste entretém, Min regressa a An, a coisa compõem-se (compõe-se até muito bem, devo dizer!), até ao dia em que Mr. Chen deixa de ter patas de pato para comer, e o jornal para ler, porque a filha anda completamente na lua. E assim, uma noite, ao procurar um medicamento para o coração, acaba por ir ter a um ataque de coração fatal, quando descobre Min e An a lavar as costas uma da outra, por entre vapores que não disfarçavam o acto. Mas Mr. Chen, antes de morrer, ainda tem tempo de acusar as amantes do crime e enviá-las para a morte, através de um “justo e sereno julgamento” das autoridades maoistas da época, que não toleravam esses amores “anti-naturais”.
Pois que a homossexualidade não era tolerada na China e era punida com a pena de morte, eis algo que é, no mínimo, interessante saber. Este caso poderia ser paradigmático, se o realizador não fosse neste filme tão retórico (o tremor de terra, o orfanato, o pai autoritário e prepotente, as raízes de Ginsen tão fálicas, as plantas carnívoras tão sexy, o militar bruto como as portas, o Tibete como referência de ocupação, etc. etc.). Dai Sijie tem medo que o espectador não perceba tudo e vai distribuindo pistas. Depois, transforma este jardim das delícias num cenário das mil e uma noites que chateia de tão rebuscado e decorativosinho. As meninas lambuzam-se ao som de uma musiquinha piegas que nunca mais acaba. Os rodriguinhos sucedem-se. O filme termina por se afundar com eles. Se o tema não fosse sério, quase apetecia gritar: “Viva o presidente Mao!” Entediante, é o termo.
BALZAC E A PRINCESA CHINESA
Titulo original: “Xiao cai feng” ou “Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise” ou “Balzac and the Little Chinese Seamstress”
Realização: Sijie Dai (França, China, 2002); Argumento: Sijie Dai, Nadine Perront; Música: Pujian Wang; Fotografia (cor): Jean-Marie Dreujou; Montagem: Luc Barnier, Julia Gregory; Direcção de produção: Didier Hoarau; Design de produção: Juiping Cão; Guarda-roupa: Huamiao Tong; Assistentes de realização: Chunlin Zhao; Som: Nicolas Naegelen, Daniel Sobrino, Lala Wu; Efeitos visuais: Stephane Bidault, Pierre Blain, Christophe Chanvin;Produção: Lise Fayolle, Bernard Lorain, Pujian Wang; Companhias de produção: Les Films de la Suane, TF1 Films Productions.
Intérpretes: Xun Zhou (costureirinha), Kun Chen (Luo), Ye Liu (Ma), Shuangbao Wang (chefe da aldeia), Zhijun Cong (velho costureiro), Hong Wei Wang (Quatro Olhos), Xiong Xiao, Zuohui Tang, Wei Chen, Tianlu Chen, Qing-yun Fan, etc.
Duração: 110 min; Distribuição em Portugal: Vitória Filmes, Prisvideo (DVD); Classificação: M/ 12 anos.
AS FILHAS DO BOTÂNICO
Titulo original: “Les Filles du Botaniste” ou “The Chinese Bothanist's Daughters”
Realização: Sijie Dai (França, Canadá, 2006); Argumento: Sijie Dai, Nadine Perront; Música: Eric Levi; Fotografia (cor): Guy Dufaux; Montagem: Dominique Fortin; Direcção de produão: Didier Hoarau; Assistentes de realização: Robin Sykes; Som: Adrien Arnaud, Daniel Sobrino; Produção: Lise Fayolle, Roger Frappier, Maurice Illouz, Mario Sotela, Luc Vandal, Luc Besson, Pierre-Ange Le Pogam.
Intérpretes: Mylène Jampanoï (Min Li), Xiao Ran Li (Cheng Na), Ling Dong Fu (Mr. Chen), Wei-chang Wang (Dan), Chu Hung, Tuo Jilin, Yang Jun, Lê Tung Linh, Nhu Quynh Nguyen, Nguyen Van Quang, etc.
Duração: 105 min; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação: M/ 16 anos.