sexta-feira, julho 14, 2006


UTE LEMPER
NO CASINO DE LISBOA

Hoje fui ao Casino de Lisboa, e ganhei. Raras vezes me acontece. Mas quando se vai ao Casino para ouvir e ver Ute Lemper, ganha-se sempre. Um fabuloso espectáculo que começou em Jacques Brel e Edit Piaf, continuou com Marlene, passou por canções francesas, alemãs, americanas, árabes, israelitas, e terminou em Kurt Weill. Uma voz de arrepiar, uma presença sublime, um corpo vibrátil, uns braços de uma elegancia sem par que se erguem para o céu e esvoaçam em redor de uma mulher que é só emoção, glamour, sensualidade, charme, sedução...

Chorar de prazer é óptimo. Choro imenso, felizmente (desde que seja de prazer). A ver dramas e épicos, em musicais e comédias, no circo ou no teatro, no cinema e à noite, na cama, a ler um livro. Chorar de prazer é óptimo. Sim, desse prazer, obviamente. Mas também de um prazer puramente estético. (Não sei se o outro será puramente estético, mas se calhar até é..! Tantas vezes se cruzam!). É muito bom sentir alguém que nos faz vibrar acima da média. Alguém que consegue tocar lá onde a dor é boa, onde o prazer se desdobra e se distende até ao infinito. Alguém que transforma o mais banal real (uma voz a exercitar-se, um corpo a mexer-se) em algo absolutamente irreal.

Já ouvi Ute Lemper no São Carlos cantar Kurt Weill e Bertolt Brecht, já a ouvi duas vezes no Casino do Estoril, já a ouvi em Londres, como protagista de "Chicago", o musical, já a ouvi em CD e DVD, já a ouvi em sonhos, e não me canso de chorar a cada nova modelação da voz, a cada jogo de palavras, a cada nova "interpetação" sua de uma canção de outro (com Ute Lemper não há canções de ninguém, há interpretações que só podem ser dela).

No Casino de Lisboa, hoje, não sei que diga. ganhei. Vi a Diva. Como um miúdo de cinco anos perante o seu ídolo, no final do espectáculo, corri ao camarim (foi fácil lá chegar, eu sei, prerrogativas que se conseguem com a carreira atrás de nós), e esperei à porta para ver uma das mulheres da minha vida, em carne e osso, despida dos ouropeis dos palcos, sem as luzes nem as lantejoulas. Apenas a mulher, com aquela voz de espanto, a chamar pela filhita que corria pelos corredores, ou agarrando numa caneta para assinar duas fotos que dois outros colegas admiradores lhes estenderem. Trocámos meia dúzia de olhares, disse que "a amava há mais de vinte anos", ela sorriu, trocámos endereços para o futuro e estendeu-me a cara para um beijo. Tudo em francês (por falar nisso, que bem fala Ute Lemper qualquer lingua, que bem que soletra, que saboreia, que transmite. Eu, que sou péssimo para linguas, percebi tudo o que ela disse, até o alemão que nunca estudei, ou o yiddish). Depois lamentou não ter fotografias com ela, agarrou num teaser do Casino e escreveu Ute Lemper. Para mim.

Hoje ganhei no Casino. (que, diga-se, tem uma sala de espectáculos brilhante, com um som admirável: parabéns Mário Assis Ferreira! Nunca tinha assim ouvido a palavra de Ute Lemper, nem o som do seu quarteto de músicos que ajudam à magia).


4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Parabéns! Foi realmente a sorte grande!

Espero que ela passe na casa das artes de famalidog o mais brevemente possível!

Cumprimentos a todos: LA, D. Helena Corado e Frederico!

CSD

MRF disse...

sortudo! :)

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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