sexta-feira, outubro 20, 2006

UM DEBATE: O ABORTO

O REFERENDO
SOBRE O ABORTO
ilustração da Xilla, pedida de emprestimo do seu blog "Confidências"
No "Divas & Contrabaixos", a MRF está a publicar um conjunto de textos sobre o aborto, ou a IVG, que merecem toda a nossa atenção, agora que a questão voltou à praça pública. De acordo com quase tudo, descordo de um ou outro ponto, sobretudo estratégico. Por isso lá deixei este comentário:
Bons “posts” sobre o IVG, mas julgo que o caminho não é o melhor. Há motivos para muitas dúvidas e equívocos. O que se invoca a nosso favor, também pode ser invocado contra. Por exemplo, a doutrina do “Probabilismo”. Explicas: “Elaborada por teólogos católicos no século XVII, baseia-se no conceito de que uma obrigação moral que provoque dúvida não se pode impor como se fosse indiscutível. O princípio fundamental é "Onde há dúvida, há liberdade". Já viste que a liberalização da IVG provoca dúvidas? Logo há liberdade para a proibir. De resto “ Estas são posições antigas, mas cada vez mais válidas, na sociedade plural em que vivemos.” Por que razão as “posições antigas” são cada vez mais válidas? Muito pelo contrário, acho intolerável a Inquisição, apesar de ser uma posição antiga. Logo, o simples facto de serem posições antigas, não as faz melhores ou piores. Como também muito bem dizes, as questões tem de ser colocadas no seu tempo. E enfrentar abertamente as posições do seu tempo, neste caso do nosso tempo. Aí a opinião da Igreja, oficial, papal, não deixa dúvidas e é sobre essa que teremos de reflectir.
O caso do aborto, ou da IVG, só tem uma questão a que nos devemos reportar: cada casal, porque não há IVG sem homem e mulher, tem de decidir em liberdade o que quer fazer. Para haver essa liberdade, é preciso que ela esteja consignada na lei. De resto, não discuto posições católicas ou feministas ou outras quaisquer, porque a partir do momento que exista essa liberdade de opção, cada um fará o que quiser, o que a sua consciência e a sua condição ditarem. Para quê discutir a posição dos católicos, dos ateus, os xiitas, dos turcos ou dos índios? Não tenho nada a ver com o que cada um pensa. Tenho a ver com a liberdade de cada um poder pensar o que quiser. E não vou rebater os argumentos dos outros, pois estou a entrar no seu jogo. Não quero ter “a consciência de outros”, quero poder “exercer a minha”.Não quero mudar “a consciência de outros”, porque também não quero que me obriguem a mudar a minha. Quero lá saber se o aborto era permitido no século XII ou no XVII. Não vivo no século XII nem no XVII, e nesses séculos havia tanta outra coisa de que discordo, que se concordo com uma é mera coincidência. Todas estas discussões visam apenas fornecer argumentos ao NÃO. Eu voto SIM, inclusive para os católicos poderem continuar a não exercer a IVG, se quiserem. E outros a praticarem, se assim o julgarem necessário. E outros ainda nunca praticarem a cópula sequer, se não tiverem prazer nisso e não quiserem aumentar o índice demográfico. Enfim, voto sim porque quero a liberdade de eu decidir como acho justo e o meu contrário decidir o inverso. Não discuto argumentos. Discuto a liberdade de decidir. É a única coisa em causa neste referendo.
De resto, o teu trabalho de investigação é óptimo, e chamar a atenção para a decisão homem-mulher excelente. Falar “no corpo”, “na barriga” e “na liberdade da mulher” é mais uma vez fazer o jogo dos que acham que a mulher é a causa de todos os pecados. E a impediam de votar. Além de que, numa gravidez, “a barriga não é só da mulher”. Que eu saiba ainda não se atingiu essa “perfeição”. Essa “barriga” é sempre de dois, mesmo que um tenha vindo em “ampola” laboratorial. Bjs. LA
(nota: coloquei "aborto" no motor de busca e fui procurar imagens para ilustrar este texto. Por que será que, contra ou a favor, é tudo tão horrível?)
Esclarecimento (da MRF) :
LA, provavelmente tens razão, mas a conclusão a que chego é esta: "Os católicos portugueses, polacos, irlandeses e malteses são a minoria que, na Europa, ainda está presa à visão mais intransigente da Santa Sé."Porque existe de facto, mesmo na Santa Sé, teólogos com um pensamento distinto do "oficial". O "recurso ao mal menor" não é dos séculos XI ou XVII, é de agora. De resto, é com base nesse postulado que a Igreja, noutros países ditos católicos, enquadrou a lei "laica" que permite a realização do aborto a pedido da mulher.Porquê que isto me parece importante? Para deixar claro que não existem verdades absolutas. Para tranquilizar aqueles que, como eu, porque educados em meios conservadores, se descobrem a defender a despenalização do aborto, sempre com um nó na garganta e um ligeiro sentimento de culpa.Eu acho que foi também por isso que em Junho de 1998, apenas 31% dos eleitores foram votar.


# posted by MRF : 09:15
Perdeu-se o referendo de 1998 porque se entrou nesse debate, e porque a grande maioria dos que votavam Sim achavam que a questão estava ganha, e muitos não foram votar. Entrar outra vez no mesmo debate, só me parece contraproducente. O debate é: ter ou não liberdade para cada um decidir. Não há que debater pontos de vista, já que todos podem ser legítimos, se estribados em questões de fé ou de consciência. O que não é legítimo é impedir a liberdade de decisão de quem quer que seja. Essa é a grande arrogância de quem quer que faça as leis. Vou mesmo mais longe: o que pretendo é que os católicos permitam a liberdade de outros pensarem diferentemente. Não quero mais radicalismos religiosos, nem de Maomé, nem de Cristo. Nem de feministas exacerbadas. A questão é só uma: posso ou não agir de acordo com o que penso e sinto? É isso a democracia. A questão seria ainda mais radical. Mesmo que 90% dos portugueses seja contra o aborto, os restantes 10% terão direito de agir consoante a sua consciência. É essa liberdade que o referendo deve consignar. LA 10.20.06 - 3:29 pm #

10 comentários:

Patrícia disse...

Eu voto sim. Voto pela vida. Voto pela liberdade de escolha. Voto sim.

xilla disse...

Fiz esta imagem para o meu blog a 10 de março de 2005
http://photos3.flickr.com/6220447_6c9560d89e_o.jpg

Mais uma vez vou votar sim

inominável disse...

bonita imagem, Xilla... Muito expressiva... e equilibrada. e falante. retórica...

vague disse...

off-topic e com todo o respeito pelo tema, sobre o qual já dei a minha modesta opinião,
e q tal o ciclo cinema documental na culturgest? :)

LA disse...

Vague:Estou em Seia com o Cine Eco. Nao vi nada na Culturgest. Mas os filmes de Seia têm sido óptimos. Filmes e fitas. Para todos os gostos. Um beijo.LA
Xilla: quando voltar vou adoptar a tua imagem. Um beijo.
inominável: então os textos? um beijo.
patricia: temos que falart mal eu volte. Portel nao pode esperar. Um beijo. LA

Anónimo disse...

Não tem nada a ver com o tema do seu post, mas soube que foi ver as Pedras nos Bolsos, que gostou e que comentou o trabalho de adaptação. Obrigada. :-)

LA disse...

m.m : Gostei pois. Boa tradução e boa "adaptação". Espero ver mais coisas suas. Um beijo. apareça sempre. Lauro é um bom nome. lol (agora veja lá qual a personagem!)LA

Anónimo disse...

Obrigada. E voltarei sim, com toda a certeza. Fica o convite para o meu espaço tb.
Obrigada pela dica, Lauro é um belo nome. lol
O meu próximo trabalho deverá estrear no Verão e sim, debato-me presentemente com os nomes das personagens também. :-)

MRF disse...

"acho esta discussão extremamente interessante, e isto sim, vale a pena comentar e polemizar. Neste campo os blogs podem ter um papel importante. Sobretudo se as pessoas que aqui botam faladura, o fizerem sem ser sob o cobarde anonimato. Acho mesmo que quem fala sob anónimato não deveria sequer ser ouvido. Dar crédito a quem não se expõe, aí sim, parece-me opção de uma leviandade total. Quem não dá a cara, não pode falar de educação. Não sabe o que é."

Lauro, acho que podias lançar no teu espaço o debate.

Anónimo disse...

Maria, seria extremamente interessante uma discussão deste tipo. Neste bolg ou no teu, sobre os que têm rosto e os que não têm. Afinal qual de nós não pecou já? Temos todos experiências enriquecedoras a relatar. Por agora tenho mais que fazer. Mas se quiseres, aproveita. Terás muitos contributos, no "Divas". E não só. Muitos outros blogs se podem associar ao debate. Excepto os que comentam, sem blog sequer. LA