segunda-feira, janeiro 22, 2007

LIVROS - Philip Roth

Philip Roth:

"O Animal Moribundo"
Philip Roth é definitivamente um dos maiores escritores norte americanos vivos. Li dele agora “O Animal Moribundo” e devo confessar que, por várias razões, o livro me tocou profundamente. Alguém leu uns textos meus e me disse: “Relembram-me “O Animal Moribundo””. Fui ler. È verdade. Seguramente, com a distância do talento a distinguir-nos. Mas as preocupações estão lá e as formas de as enfrentar também.
“O Animal Moribundo" é um escritor, professor universitário, de sessenta e alguns anos, que sente a velhice aproximar-se e a morte rondar. Encontra Consuela, de origem cubana, muito mais nova que ele, ardente e apaixonada. O que se conta é o angustiante encontro de um homem a caminho da velhice e de uma mulher, na sua plenitude, ao encontro da morte. O resultado é brilhante, notável, arrasador, escrito com a secura de um Hemingway, mas com o olhar do início de século XXI. Não percam esta viagem ao mais secreto da alma humana. Um escritor verdadeiramente invulgar, um romance de uma densidade e força inusitadas.
Deixo-vos aqui três pinceladas que me marcaram sobremaneira. Funcionem elas como aperitivo para a lauta refeição.


Philip Roth, O Animal Moribundo

“(…) Por muito que saibamos, por muito que pensemos, por muito que maquinemos, compactuemos e planeemos, não somos superiores ao sexo. É um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se aventurasse a ser fodido. É o sexo que traz a desordem às nossas vidas normalmente ordenadas. Eu sei isto tão bem como qualquer outra pessoa. Toda e qualquer vaidade regressa para troçar de nós. Lê o “DonJuan”, de Byron. No entanto, que podemos nós fazer se temos sessenta e dois anos e estamos convencidos de que nunca mais voltaremos a ter ao nosso alcance uma coisa tão perfeita? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e a ânsia de aproveitar seja o que for que seja aproveitável não poderia ser mais forte? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e tomamos consciência de que todas aquelas partes do corpo até então invisíveis (rins, pulmões, veias, artérias, cérebro, intestinos, próstata, coração) estão a começar a tornar-se desoladoramente patentes, enquanto o órgão mais conspícuo ao longo de toda a nossa vida está condenado a mirrar até à insignificância?
Não me interpretes mal. Não se trata de, por intermédio de uma Consuela, podermos cair na ilusão de pensar que regressamos uma última vez à nossa juventude. Não é possível sentir mais a diferença relativamente à nossa juventude. Na energia dela, no seu entusiasmo, na sua ignorância juvenil, na sua sabedoria juvenil, a diferença é dramatizada em cada instante. Nunca há a mínima dúvida de que é ela, e não nós, quem tem vinte e quatro anos. Só um grande idiota sentiria que é de novo jovem. Se nos sentíssemos jovens, seria uma armadilha. Longe de nos sentirmos jovens, sentimos o tormento do futuro ilimitado dela em comparação com o nosso futuro limitado, sentimos ainda mais do que normalmente o tormento de todos os derradeiros dons que fomos perdendo. É como jogar basebol com um grupo de miúdos de vinte anos. Não que nos sintamos com vinte anos por jogarmos com eles. Notamos a diferença durante cada segundo de jogo. Mas pelo menos não estamos sentados nas linhas laterais.
O que acontece é o seguinte: sentimos lancinantemente que estamos velhos, mas de uma maneira nova.” (pag.s 36-37)

“(…) Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha de ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga. O conjunto de regras determinava que tínhamos de impor a nossa vontade à rapariga. Era assim que ela era ensinada a manter o espectáculo da sua virtude. Ficaria con­fuso se uma rapariga comum se oferecesse, sem uma infinita importunação, para quebrar o código e praticar o acto sexual. Porque ninguém, de qualquer dos sexos, tinha alguma noção de que recebia à nascença um direito erótico. Era desconhecido. Ela podia, se estivesse caída por nós, concordar com uma punhe­ta - que significava essencialmente usar a nossa mão com a dela como um encaixe -, mas que alguém consentisse alguma coisa sem o ritual do cerco psicológico, de perseverante e monomaníaca tenacidade e exortação, bem, isso era impensável. Não havia, com certeza, possibilidade de conseguir um broche a não ser usando de uma perseverança sobre-humana. Eu consegui um em quatro anos de universidade. Era tudo quanto nos era permi­tido. Na cidade rústica das Catskill, onde a minha família tinha um pequeno hotel de férias e eu atingi a maioridade nos anos quarenta, a única maneira de ter sexo consensual era ou com uma prostituta ou com alguém que fora a nossa namorada durante a maior parte da nossa vida e com quem toda a gente calculava que íamos casar. E nesse caso pagávamos o que devía­mos, pois frequentemente casávamos com ela.” (pag.61)

“(…) A última pessoa a tomar estas questões a sério foi John Milton, há trezentos e cinquenta anos. Alguma vez leram os seus panfletos sobre o divórcio? No seu tempo, isso valeu-lhe muitos inimigos. Estão aqui, estão entre os meus livros com as margens densamente anotadas nos anos 60. “O nosso Salvador abriu para nós esta arriscada e acidental porta do casamento para no-la fechar como o portão da morte...?” Não, os homens não sabem nada - ou procedem voluntariamente como se não soubessem - a respeito do lado difícil e trágico daquilo em que vão entrar. Na melhor das hipóteses, pensam estoicamente: Sim, eu compreendo que mais cedo ou mais tarde vou renun­ciar ao sexo neste casamento, mas será a fim de ter outras coisas mais valiosas. Mas compreenderão aquilo de que estão a abdicar? Ser casto, viver sem sexo... bem, como encararão as derrotas, os compromissos, as frustrações? Ganhando mais dinheiro, ganhando todo o dinheiro que puderem? Fazendo todos os filhos que puderem? É uma ajuda, mas não é a mesma coisa. Porque a outra coisa se baseia no seu ser físico, na carne que nasce e na carne que morre. Porque só quando fodemos é que tudo aquilo de que não gostamos na vida e tudo aquilo que nela nos derrota é puramente, ainda que momentaneamente, vinga­do. Só então estamos mais limpamente vivos e somos mais lim­pamente nós mesmos. A corrupção não é o sexo, a corrupção é o resto. O sexo não é apenas fricção e divertimento superficial. O sexo é também vingança contra a morte. Não esqueçam a morte. Não a esqueçam nunca. Sim, o sexo também é limita­do no seu poder. Eu sei muito bem a que ponto é limitado. Mas, digam-me, há algum poder maior? (pag. 63)

“(…) Tocava Beethoven e masturbava-me. Tocava Mozart e masturbava-me. Tocava Haydn, Schumann, Schubert e masturbava-me com a imagem dela no pensamento. Porque não podia esquecer os seios, os seios plenos, os mamilos e a maneira como ela con­seguia envolver neles o meu pénis e acariciar-me assim. Outro pormenor. Um último pormenor e paro. Estou a tornar-me um pouco técnico, mas isto é importante. Este foi o contacto que fez de Consuela uma obra-prima de volupté. Ela é uma das poucas mulheres que conheci que se vinha empurrando a vulva para fora, empurrando-a involuntariamente como o corpo macio, não segmentado e espumoso de uma bivalve. A primeira vez apanhou-me de surpresa. Sentimo-la e temos uma sensação da fauna desse outro mundo, de qualquer coisa vinda do mar. Como se fosse relacionado com a ostra, o polvo ou a lula, uma criatura oriunda de quilómetros abaixo e eternidades atrás. Normalmente, vemos a vagina e podemos abri-la com as nossas mãos, mas no seu caso ela abria-se como se florescesse, a cona na sua própria forma, emergindo do seu esconderijo. Os pequem lábios eram expelidos para fora, entumesciam para fora, e era muito excitante, aquela tumefacção viscosa e sedosa, estimulante ao contacto e estimulante para os olhos. O segredo extasiadamente exposto. Schiele teria dado os seus caninos para o pintar. Picasso tê-lo-ia transformado numa guitarra.
Quase nos vimos de a ver vir-se. Consuela revirava os olhos quando era assim para ela. Os seus olhos voltavam-se para cima e só podíamos ver as escleróticas, e também isso valia a pena ver. Tudo nela valia a pena ver. Fosse qual fosse a agitação causada pelo ciúme, fosse qual fosse a humilhação e a infinda incerteza, sentia-me sempre orgulhoso quando a fazia vir-se. Às vezes nem sequer nos importamos se uma mulher se vem ou não: acontece apenas, a mulher parece encarregar-se disso por si mesma e não é da nossa responsabilidade. Não é um acontecimento com outras mulheres; a situação é suficiente, há excitação bastante e isso nunca está em questão. Mas com Consuela, sim, com ela era definitivamente uma responsabilidade que me cabia e sempre, sempre, uma questão de orgulho.” (pag. 88-89)
Philip Roth, "O Animal Moribundo", ed. Dom Quixote. Ficção Universal.

(ver mais sobre PHILIP ROTH AQUI)

9 comentários:

Anónimo disse...

Depois de tão escaldantes palavras, estou curiosa por ler este romance.
Quando um homem de 60 anos diz que esta no fim, começa o outro de 20 a dizer que não pode perder, sera a idade ????

LA disse...

Cuidado, anónima: quando um homem de sessenta escreve este livro, os de 20 que se cuidem. Não há muitos para estabelecer concorrência.

MRF disse...

Lê a Pastoral Americana, Conspiração contra América, Casei com uma Comunista. Este já está à espera. Os primeiros li "de uma só vez". Escrita clara, incisiva, mesmo num universo "fantástico" (como no "Conspiração...").

LA disse...

Pois, já li esses todos há tempos. Este, tão magnificamente escrito, como os outros, tocou-me particularmente. Os outros, sim, são recomendáveis. Philip Roth deve ser um dos mais recomendáveis escritores norte-americanos vivos. Ainda por cima, muito ligado ao cinema. Um dia destes falarei disso, se me apetecer.

Anónimo disse...

Esse alguém continua a estabecer uma ponte entre ti e esse livro.
É sem dúvida, como já te disse, um dos melhores livros que li nos últimos anos. Mas também penso que não será um livro de um gosto comum... É demasiado forte para isso. Talvez por isso, tenha gostado tanto de o ler...

Beijo

lobices disse...

...depois dos excertos que li, fiquei (na verdade) com curiosidade de ler Roth (até porque tb tenho 61 anos...)
...mas, atenção: quando um homem de 60 anos escreve assim (e eu falo por mim...) os mais novos que se cuidem :))) (secundo o Lauro)

Anónimo disse...

Nada a propósito, apenas para deixar um recado: Dois convites para O Beijo da Mulher Aranha, dia 31 às 21 h, reservados na bilheteira do Mundial, em nome de Lauro António. Podes confirmar?
Os ensaios correm bem.
Bjs e até lá.

Anónimo disse...

Philip Roth, " O Animal Moribundo" : Escrita soberba, depuração extrema. Todas as mulheres deviam ler. Um impressionante registo da alma humana no masculino. Um livro forte para digerir devagar se não quisermos voltar costas à vida.
Obrigada pela dica.
"Devoradora de livros"

iLoveMyShoes disse...

Ouvi falar deste autor pela primeira vez quando fui ver a peça "Via Dolorosa" de David Hare, encenada por Carlos Afonso Pereira (excelente peça e excelente encenação). O autor (P. Roth) era citado mais do que uma vez, pelo que acabei por procurar os seus livros nas prateleiras das livrarias. E foi uma agradável descoberta.