sexta-feira, janeiro 12, 2007

SER PROFESSOR

Este ano não estou a dar aulas por decisão minha. Mas adoro dar aulas. Nunca tive problemas com alunos. Mas as aulas que eu dou são especiais. Dar aulas na universidade, a alunos de cursos de cinema e audiovisual, é uma prenda dos céus. Só lá estão os que lutam por lá estar. Os que gostam do que vão aprender. Por isso, este "dar aulas" meu não tem paralelo com outros "dar aulas" de milhares de professores. Não só em Portugal, mas um pouco por todo o lado.
Mas estamos em Portugal, é aqui que é preciso fazer alguma coisa. Tem de ser feito alguma coisa, rapidamente. O estado a que o ensino chegou é alarmante. Por culpa de quem?
Acho que por culpa de todos, mas os menos culpados são os alunos. Governos, ministros, leis, professores, instalações, país, todos são muito mais "culpados".
O mais grave terão sido aqueles anos de completa barafunda que se seguiram ao "25 de Abril", onde, depois da prepotente ditadura chegou a demissão completa, muito por culpa de uma esquerda idiota que julgou que a autoridade não fazia falta a ninguém. Ora eu, que sou de esquerda, e não abdico de me considerar de esquerda, acho que a autoridade faz falta, sobretudo para que a sua ausência não conduza à ditadura.
Para se ensinar é preciso paz nas salas de aulas. Que não há. É preciso autoridade, disciplina, que não há. É preciso o aluno ouvir o professor, que não ouve. É preciso respeito pelo próximo, quer seja o colega, o professor ou o administrativo. Respeito, que não há.
No blogue "Divas e Contrabaixo", dei por um link para outro blogue, "Palavras em Linha", indicação que segui, e que proponho também aos meus leitores. É um belissimo "grito", muito bem escrito, assinado por uma professora, "Elipse", de Lisboa, que "tem de voltar lá amanhã", e depois de amanhã, e no dia seguinte.
É a condição de ser professora, hoje, em Portugal. É muito bem escrito. É terrível. FICA AQUI.
Na imagem, um filme maior, sobre o tema: "Sementes de Violência" (Blackboard Jungle), de 1955, uma realização de um mestre um pouco esquecido, Richard Brooks, com argumento de retirado de um romance de Evan Hunter, com interpretação de Glenn Ford. A não perder.

10 comentários:

Anónimo disse...

Vi o filme há muito tempo atrás, mas ficou como uma marca entranhada na pele.
E quanto ao papel do professor, à vida do professor, por vezes sinto que é uma montanha russa. Sou professora há 6 anos e sinto-me já desgastada, sinto que há muito fomos deixados para trás, há muito que apenas se lembram de nós para nos "cortar as pernas". Enfim, um desabafo.
Mas passei por aqui para dizer que fiz a minha lista de filmes de 2006, convido-o a passar por lá.
Abraços cinéfilos.

Anónimo disse...

Vi este filme há muito tempo mas ainda me lembro.Os professores passam actualmente por um amu bocado, isso é bem verdade.(A minha irmã é professora, estou a par.) Mas durante anos os menos vocacionados para o mister,os menos implicados ou mais desprendidos, não há uma forma ligeira de dizer isto, tiveram uma vida boa...Agora acabou-se porque quer do lado do Governo quer do lado de quem se senta nos bancos é tudo a dar-lhes em cima, coitados.Ser professor é agora bem mais extenuante e exigente.Bom fim de semana!

Elipse disse...

obrigada pelo eco do meu grito aqui.
não esperava vê-lo ecoar desta maneira, mas é bom que os testemunhos vão passando porque é mentira que estejamos assustaods com o estatuto, a avaliação ou a queda de alguns privilégios. Sim, sou privilegiada em trabalhar lá menos de oito horas por dia (em certos dias...)e sou privilegiada porque posso fazer oscilar o meu horário de ano para ano, e sou capaz de ter uns dias de férias a mais do que o cidadão comum.
Não me vou queixar mais.Nem taõ pouco sou caloira. Porém, não sei se chegarei aos 65 com a dignidade de uma profissional que se entregou à causa.

Esquerda... onde estás esquerda?!

Autoridade... onde estás autoridade!
Leu o que disse um pai lá nos comentários: a escola deve dar castigos ao meu filho se ele nãop se portar bem... é que um pai não dá castigos. É demasiado esforço!!!!!!!! A escola que os eduque!

Só queria que o meu material humano tivesse algum préstimo. Ou visse algum préstimo no meu trabalho.

isabel victor disse...

Esta engrenagem tritura alguma esperança que ainda possa existir em alguns " Clubes dos poetas mortos " que por aí resistem anónimos ...

Abraços

isabel victor disse...

"man writes Poetry not because it is cute, but because he is part of the Human Race." Keating


Volto aqui porque este relato dorido (visual/táctil)de alguém que julgo ser uma jovem professora, me impressionou imenso ! E, o que mais me impressiona é que, afinal, somos todos vítimas - professores e alunos !

O que fizemos ( ou deixámos de fazer ) para aqui chegar, trinta anos depois do 25 de Abril ?

Perdemos a capacidade de nos encantarmos e encantar os que nos rodeiam, temos medo (complexos) de assumir a directividade contrutiva que, em alguns momentos, exige o acto de educar, perdeu-se a confiança no " Mestre-escola ", timoneiro de caminhadas, sonhos e, também, combates (porque aprender tb custa !) ? O problema tem raízes hitóricas na sociedade portuguesa e começa na profunda estratificação social e nas expectativas (ou falta delas)mal orientadas.
Educar pessoas implica responsabilidades partilhadas em redes, completamente distintas de uma mega fábrica de "domesticação" de sobre(viventes ?)a que o ensino massificador conduz. Está tudo mal. Sofremos TODOS !Estamos a sacrificar uma geração de pessoas (potencialmente notáveis) e vamos ter o retorno disso...

Elipse disse...

se me permite, Lauro António, vinha só dizer à isabel victor que levo 24 anos de serviço, e que comecei aos 24. não sou caloira nem estou em fim de carreira. deveria ter ainda estaleca para muito mais.

BlueAngel disse...

Tenho um professor em casa. Agora já está reformado, mas nos últimos anos queixava-se de tudo isso que referiu. E este professor que tenho casa é daqueles que gostou muito um dia de dar aulas até que o sistema inventou, desinventou e estragou. Que pena! Eu sou filha dessa geração pós 25 de Abril e tenho plena consciência de que o "meu ensino" foi altamente prejudicado devido aos loucos que transformaram liberdade em libertinagem.

H. disse...

Tenho por cá o Blackboard Jungle para ver em breve...

wasted blues disse...

Vi há uns meses pela primeira vez. Filme muito actual e inteligente!

Manuel Anastácio disse...

Os professores nunca quiseram abdicar da sua autoridade. Foram apenas despojados dela. Terão culpa de muita coisa - não disso.