quarta-feira, janeiro 10, 2007

VIAGEM AO NORTE, 5 Serralves


ANOS 80 EM SERRALVES


“ANOS 80: UMA TOPOLOGIA”, inaugurou-se a 11 de Novembro do ano passado, na Fundação de Serralves, e vai estar patente ao público até 25 de Março de 2007. Comissariada por Ulrich Loock e Sandra Guimarães, esta produção da Fundação de Serralves revisita os anos 80 no campo das artes plásticas e procura mostrar como muita da arte de hoje reflecte “esse legado, embora negando ou ignorando esse passado.” Apesar de globalmente a mostra se apresentar algo decepcionante, não pela exposição em si, mas pelas próprias produções artísticas desse período, “reconsiderar os anos 80 pode servir como ferramenta para destacar e reflectir sobre alguma da arte do presente.” Esta exposição de grandes dimensões que utilizará todos os espaços do Museu, reúne pela primeira vez em Portugal um conjunto muito significativo de obras fundamentais de uma década que também enquadrou a abertura internacional da arte portuguesa, se bem que essas mesmas obras só agora sejam vistas pela primeira vez no país.
Uma panorâmica a não perder, é óbvio, quanto mais não seja para se perceber quão hesitantes e indefinidos foram os caminhos da arte nessa década. Nada excitantes, vistos agora de relance, os Anos 80 reflectem todavia uma época de transformações profundas em todos os campos. Para melhor se entender os propósitos da mostra, transcreve-se um texto introdutório fornecido pela Fundação de Serralves:

PORQUÊ OS ANOS 80?
Nessa década, o mundo assistiu a mudanças significativas nos campos político, social e cultural. Estas geraram novos desenvolvimentos, de grande alcance, cujos desfechos se têm revelado nos anos que agora vivemos.
Os anos 80 foram a década da maior mudança cultural e política no chamado mundo ocidental depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Foram um período de incubação para a globalização que marcaria o período seguinte até aos nossos dias.

Em 1978-79 tiveram lugar vários acontecimentos que marcaram o início da década de 80: a eleição de um papa polaco (1978) – um primeiro indício da erosão do poder soviético e da perturbação do equilíbrio de terror Leste/Oeste, até então mais ou menos estável; a revolução islâmica no Irão (1979) – a emergência do Islão como um novo poder; a primeira fertilização in vitro bem sucedida (1978) – a perda do sentido de um lugar natural para a vida humana; a publicação de A Condição Pós-Moderna de Jean-François Lyotard (1979) – a afirmação da desintegração das grandes narrativas de modernidade. Os anos 80 terminam nitidamente com a queda do Muro de Berlim em 1989 – com esse acontecimento o confronto Leste/Oeste tal como era visto até então dissolve-se, seguindo-se um período em que a predominância da cultura ocidental e dos respectivos valores é fundamentalmente posta em causa. Uma das primeiras expressões dessa nova situação é a exposição parisiense “Magiciens de la terre” (1989).

Apresentando obras pertencentes ao último momento histórico antes da globalização, “Anos 80: Uma Topologia” organiza-se em torno de grupos geográficos (o mapeamento geográfico da arte mundial, porém, é abandonado sempre que um argumento estético se revela mais forte do que o argumento topológico). A exposição mostra – com raras excepções – obras originárias da Europa e das Américas. Apesar de adoptar uma perspectiva europeia, inclui contributos de todo o universo da arte e ao mesmo tempo abre algumas janelas para locais de menor visibilidade, como Istambul (Gülsün Karamustafa), Atenas (George Hadjimichalis, Apóstolos Georgiou), Santiago do Chile (Eugenio Dittborn), Moscovo (Ilya Kabakov) ou Abidjan (Frédéric Bruly Bouabré).
A exposição centra-se em obras que dão forma, em particular, à incerteza contemporânea acerca do lugar da arte na sociedade contemporânea e, de uma maneira geral, às incertezas culturais e políticas da época. Assim, nem inclui obras que pretendem oferecer novas (velhas) certezas (por exemplo, o regresso a tradições e mitologias locais, formas de arte estabelecidas e representadas na Transavanguardia italiana, na Wilde Malerei alemã, ou a obra de americanos como Julian Schnabel, David Salle e Eric Fischl), nem inclui obras que reagem com um distanciamento cínico à situação contemporânea (Jeff Koons). Aquilo a que aqui se assiste (após o período da arte conceptual, baseada na linguagem dos anos 70) é o regresso do objecto – mas um objecto que gera um lugar suspenso, um lugar sem lugar, o não-lugar da atopia. Assiste--se ainda ao regresso do corpo – mas um corpo fragmentado, traumatizado, hibidrizado. Nessa medida “Anos 80: Uma Topologia” apresenta – em contradição com algumas das leituras comuns na década – uma perspectiva particular e partidária sobre um período rico em obras enformadas por referências críticas à arte mais avançada dos anos 60 e 70 (e não o seu desprezo ou a sua rejeição), criando novas constelações com base em precedentes da história recente.”


A acompanhar a exposição, um excelente volume antológico foi colocado á disposição do público e do leitor interessado. Como sempre, nas publicações saídas da Fundação Serralves, uma obra de referência, de consulta obrigatória
.

3 comentários:

Anónimo disse...

São belas as tuas cores, Lauro e as palavras...







beijo




B.
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isabel victor disse...

Visitei esta exposição, no Natal, no meio do maior alarido ! Conversas enviesadas, toques de telemóvel, crianças a correr ...

Ficou-me um vazio ... provocado pelo desnorte,dispersão, massificação das imagens, o rodopio labiríntico dos espaços expositivos e a ideia de que os museus-espectáculo, quando viram moda, são um caso sério - impressionam mas não emocionam !

Parece que a forma "avassala" o conteúdo !

Para além de que os anos 80 ...

G.S. disse...

Sem dúvida um olhar espantosamente diversificado e sensível sobre os 'Anos 80'.

Gostei sinceramente de percorrer aqueles espaços imersos em cores, formas e aromas na paisagem que se adentra pelas janelas rasgadas!

Quanto ao 'toque' das crianças... é saudável e enriquecedor! Para as crianças e para o espaço 'museu'.

saudações fraternas