quarta-feira, maio 30, 2007

LIVROS: "CIDADE PROIBIDA", DE EDUARDO PITTA

“CIDADE PROIBIDA”


Devo confessar: comprei o livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase na íntegra, um bom blogue, “Da Literatura”, e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se Eduardo Pitta, o romance de estreia é “Cidade Proibida”, e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão catalogar de “literatura gay” e colocá-la na banca assim denominada. Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para facilitar vendas: os gays que procuram “literatura gay” vão àquela banca e escusam de se perder no meio da “literatura hetero”. Mas haverá “literatura gay”? Óscar Wilde e E.M. Forster são “literatura gay”? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura?
Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li “Cidade Proibida” de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Óscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o “Maurice”, de E.M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90, como Bret Easton Ellis (“Psicopata Americano”, entre outros), repleta de referências muito precisas a cidades, locais, marcas… Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página: “Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da Misericórdia.” Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma “Tábua de personagens” onde refere e sinaliza cada personagem e cada família: Martim, dos bem instalados Moncadas, português dos Estoris, que estuda em Inglaterra e encontra em Portugal Rupert, dos Davies, proleta inglês que dá aulas no British Council (e não no Instituto Britânico, pormenor que faz toda a diferença no tom do livro). Vivem juntos, são homossexuais, cruzam-se com um vasto elenco de personagens e não há muito a contar desta história que poderia ser igual a tantas outras se não a distinguisse o tom em que está contada. O que transforma este romance, para mim, numa das revelações dos últimos anos.
É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto.
Um excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário do jornal Público, escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2007 lançou oito livros de poesia, uma colectânea de contos, quatro volumes de ensaio e crítica, e um diário veneziano. Num desses ensaios, “Em Fractura, ensaio sobre a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea”, “sinaliza representações da homotextualidade nacional numa perspectiva que não elide a “negociação de identidade”. Colaborou em publicações literárias de vária índole. Entre 1994 e 2005 manteve na revista LER a coluna de crítica O Som & o Sentido. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Em ficção, Eduardo Pitta, editou, e reeditou agora, livro de contos “Persona”. Vou procurar.



Um excerto de “Cidade Proibida”

“Assim que decidiram viver juntos, Martim e Rupert procuraram casa num triângulo cujos vértices eram o Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha. A escolha recaiu num andar da Rua Mouzinho da Silveira, originalmente destinado a um arquitecto que desis­tira dele. Rupert continuava a achar absurdo o preço das casas portu­guesas, e não queria comprar, mas um dia Martim apareceu-lhe nas aulas com as chaves.
- Podes passar a vir a pé para o emprego...
Rupert vivera até então em Carcavelos, numa espécie de comuna que partilhara com professores ingleses de ambos os sexos. Apanhava o comboio todos os dias, seguindo depois a pé do Cais do Sodré para o Instituto.
- Anda, vem ver. Depois almoçamos no Pabe.
Com o skyline das colinas a toda a largura das janelas e o rio ao fundo, a vista do 4.° andar era magnífica. A casa estava vazia, só se mudaram ao fim de dez dias, mas Rupert ficou logo impressionado com a luminosidade, o soalho, o recorte dos estuques, o fogão de sala com sólidas guardas de bronze, o granito rosa das casas de banho e a tralha hi-tech da cozinha. Foi justamente na cozinha que Martim o comeu. A mesa era larga, tinha boa altura e um tampo surpreenden­temente macio. Não se lembra qual dos dois chupou primeiro o outro. Lembra-se da luz crua do sol, de ter arrancado as calças e os briefs de Rupert, obrigando-o a dobrar-se no tampo de pedra negra, ao mesmo tempo que com a mão aberta lhe apertava a garganta à medida que o penetrava. Nunca tinham fodido de pé. O orgasmo foi praticamente simultâneo, sem que Rupert tivesse necessidade de se tocar. Nessas ocasiões, Martim afrouxava a pressão dos dedos para melhor sentir estremecer o corpo do companheiro.
Quando entraram no restaurante, a mesa predilecta de ambos, no canto à esquerda de quem entra, estava vazia. Milagre! Martim largou a pasta junto ao vitral e dirigiu-se ao balcão.
- Farinha, prepare dois Bloody Mary. Também queremos almoçar, eu sei que é um pouco tarde, mas diga ao Lopes que somos nós.
- Então o senhor doutor não sabe?
- Não sei o quê? Era o 11 de Setembro.
Nessa manhã Martim não tinha ido à empresa, viera para Lisboa com o fito de mostrar a casa a Rupert. O telemóvel continuava na pasta, provavelmente desligado, e Rupert, com a pressa da saída, esquecera-se do seu no Instituto. A notícia provocou neles um estupor que durou dias. Esqueceram o almoço e foram para casa de Nora. A televisão repetia incessantemente as imagens dos aviões a embater nas torres. Quando a primeira desabou já eles estavam em casa. Martim julgou ouvir ranger os dentes de Rupert mas o eco da reportagem triturava tudo. Nora, que também tinha ido para o Estoril, entrou na biblioteca no exacto momento em que uma gigantesca onda de detritos engolia as ruas à volta do WTC. Ficou parada a ver de longe, as mãos apoiadas na mesa de jogo, e depois avançou devagar, colocando-se no meio dos dois e enlaçando-os pela cintura. Nenhum dos três falou, olhos vazados no ecrã.
Martim saiu de casa da mãe no dia 21.”
In “Cidade Proibida”, de Eduardo Pitta, pag. 33-34, Ed. Quidnovi, Matosinhos, Lisboa, 2007

Ver mais sobre Eduardo Pitta em: http://www.eduardopitta.com/index.html

6 comentários:

Salvador disse...

este gajo(conheco bem) têm um ego do tamanho do mundo.os livros alguns não são maus. mas nada de especial. leitura leve, para não fazer bem a digestão.:S

Menina_marota disse...

Excelente a forma de abordar a "Cidade Proíbida".
Já li o livro e gostei.
Fazer qualquer comentário depois de ler o seu, seria impensável...
Um abraço ;)

alice disse...

boa tarde, lauro antónio. tive ocasião de citar um excerto deste romance no meu blog e agora que li o seu post só me resta subscrever cada uma das suas palavras. bela análise literária! um beijinho.

Ana Paula disse...

Não li mas tenho o Eduardo Pitta em muito boa conta. Conheço o blog que acho muito interessante.
Gostei imenso de ler a sua apreciação, pela qual posso ficar a par.
A capa do livro fez-me lembrar "O Grande Gatsby" do S.Fitzgerald. :)
Obrigada.

Arion disse...

Já comprei. Agora preciso é de tempo para o ler...

isabel victor disse...

"A capa do livro fez-me lembrar "O Grande Gatsby"
concordo com a Ana Paula ...

Abriu-me o apetite

Beijo *