quinta-feira, abril 01, 2010

CINEMA: SHUTTER ISLAND

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SHUTTER ISLAND
Uma corveta ou um navio-patrulha de uma instituição militar ou policial atravessa as águas dirigindo-se para uma ilha. No interior do barco, dois “marshals” da polícia federal. O clima é, desde as primeiras imagens, ameaçador. As nuvens no céu, as cores densas, saturadas, que vão do castanho-escuro ao azul intenso, passando por várias gamas de cinzento. O ruído da corveta rasgando a água. A indisposição física de um dos polícias, que vomita, e se descobre visivelmente alterado, no rosto, no corpo. Roupas de um castanho sem vida e uma gravata verde, a contrastar, recordação de um casamento passado e de uma mulher morta num incêndio provocado por um lunático. Este é Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) que se aproxima de uma ilha, acompanhado por Chuck Aule (Mark Ruffalo). O filme chama-se “Shutter Island”, não se sabe nada sobre o que vai acontecer depois, mas o clima dirá que coisa boa não é. O espectador está completamente “apanhado”, agarrado de mãos e pés ao que se irá passar a seguir, e deve dizer-se que a ameaça de pesadelo se cumpre integralmente. Trata-se de mais um filme de Martin Scorsese, um realizador que nunca erra, e que voltará às suas geniais obsessões patológicas, com protagonistas perfeitamente enredados numa loucura contagiante. Quem não se lembra de “Taxi Driver”, “Touro Enraivecido”, “O Rei da Comédia”, “Nova Iorque Fora de Horas”, “A Cor do Dinheiro”, “O Cabo do Medo”, “A Última Tentação de Cristo”, “Por Um Fio”, “O Aviador” ou “Entre Inimigos”? Há por aqui obsessões para todos os gostos e um rasto de loucura que não se esquece facilmente. “Shutter Island” apenas prolonga este trajecto, mas agora num clima de “hui clos” que a situação geográfica de uma ilha e o isolamento da loucura acentuam.
Na verdade, Teddy Daniels e Chuck Aule dirigem-se para uma ilha, mas uma ilha muito especial, toda ela ocupada por uma fortaleza inexpugnável, um castelo muralhado por fios eléctricos de alta tensão, um hospício-prisão destinado a criminosos dados como “mentalmente inimputáveis”. Era para esta “Shutter Island” que, nos anos 50, se enviavam criminosos julgados, nos tribunais dos EUA, por diversas acusações e que eram dados como loucos. Nessa ilha desapareceu da sua cela, fechada a sete chaves, e sem deixar rasto, uma prisioneira (ou melhor, “uma paciente”, rectifica o director da clínica). Teddy e Chuck viajam para decifrar o enigma. Para tentar descobrir como essa criminosa que havia morto os filhos se conseguira esgueirar de um quarto fechado. Uma fuga sem levar sapatos. Uma fuga que parece ter deixado todo o pessoal da ilha, “pacientes” e guardas, enfermeiros e médicos, inquietos e apreensivos. “Parece”, digo bem, pois o que parece tem muita importância neste filme onde nada é o que parece, nem nada do que é, parece. O que vemos e ouvimos , o que nos mostram e nos contam, o que se confessa ou o que se investiga “parece” participar desse clima de loucura generalizada que esta ilha encerra. Mas será esta ilha uma ilha ou será esta ilha o interior de um homem, ou uma representação miniaturista deste nosso mundo? Pois esse será um dos percursos do filme, deste brilhante exercício de estilo (e não só de “estilo”, pois este “estilo” não sobrevive no vazio, mas entronca no mais íntimo de todos nós e na psicose colectiva de uma sociedade violenta e culpabilizada).
Martin Scorsese regressa, portanto, em grande forma, depois desse notável “Entre Inimigos”, e volta a revisitar a sua cinefília, os filmes que lhe marcaram a juventude, os policias brutais e os “thrillers” obsessivos, as intrigas asfixiantes, os hospitais psiquiátricos de Samuel Fuller, os Mabuses de Fritz Lang, as enredadas teias em que caíam Robert Mitchum ou Kirk Douglas, James Cagney ou Robert Ryan, Ray Milland ou Stephan Boyd.
O belíssimo argumento, desenvolvido com uma mestria ofegante, é da responsabilidade de Laeta Kalogridis, adaptando um “best seller” de Dennis Lehane (autor de “Mystic River” e “Vista pela Última Vez...”). Raras vezes um filme nos retira o tapete de debaixo dos pés com tal sapiência e habilidade. Sem sentirmos a sensação de artifício laboriosamente construído, mas com a perturbante certeza de que nada é certo e seguro no que vemos e envolve essas personagens “doentes” que vagueiam dentro e fora das celas, e sofrem lobotomias para neutralizar a “diferença” e as tornar vegetais sem vontade.
A passagem Teddy Daniels pelo hospício parece desenvolver uma certa animosidade ou, pelo menos, desconfiança. Teddy não aceita bem a forma como o hospício é gerido, vive abalado pela morte da mulher, que recorda amiúde, bem assim como por episódios traumáticos da sua vida militar, quando, durante a II Guerra Mundial, libertou um dos campos de concentração nazis, e descobriu o horror em Dachau nos olhos dos prisioneiros, nos cadáveres empilhados, nas fossas esventradas que gritavam por justiça, na impunidade dos guardas alemães, que imagina igualmente massacrados. Teddy acredita que um antigo general nazi (Max von Sydow) se encontra escondido no hospício. Acredita que o prestável e discreto Dr. Cawley, director da clínica (Ben Kingsley), tem algo a esconder. Intriga-o o farol que pode encobrir experiências inaceitáveis. Invoca a “caça às bruxas” para comprometer a direcção numa teoria de conspiração que tentaria calar vozes incómodas. Um apagão serve-lhe de pretexto para investigar suspeitas, viajar pela ilha, invadir zonas interditas. Da Ilha, da fortaleza ou do seu próprio cérebro? Ou do seu próprio passado?
O que está certo ou o que está errado? Viver a realidade de um pesadelo ou aceitar a liquidação da vontade, e sujeitar-se à lobotomia? Que se passa em “Shutter Island”? Que se passa no mundo? Que se passa em nós próprios?
Uma certeza: nada parece o que é, nada é o que parece.
Excelentes interpretações, uma fotografia invulgarmente soturna e angustiante (Robert Richardson), uma narrativa envolvente com os seus tentáculos de loucura, movimentos de câmara inquietantes (um “travelling” a entrar pela ilha e pelos corredores do hospício), enquadramentos de cortar a respiração (um “contre plongée” captando personagens no cima de uma ravina, olhando as falésias e o mar), uma banda sonora particularmente inspirada, uma montagem que não dá tréguas, mas quase se não nota (como sempre, da responsabilidade da velha cúmplice de Scorsese, Thelma Schoonmaker) transformam “Shutter Island” numa pequena pérola de absorvente angústia e perturbação. Martin Scorsese continua um mestre.
Sobre lobotomia

A lobotomia de que fala o filme foi uma invenção do médico português Egas Moniz, que fazia equipa com o cirurgião Almeida Lima, na Universidade de Lisboa. Corria o ano de 1935. Egas Moniz recebeu o Prémio Nobel da medicina por esta descoberta. A lobotomia, ou a leucotomia, é uma intervenção cirúrgica no cérebro, “onde são seccionadas as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo e outras vias frontais associadas”, foi utilizada no passado em casos graves de esquizofrenia. A lobotomia foi a técnica pioneira e com maior sucesso da psicocirurgia, mas conduzia a um estado letárgico que hoje em dia é muito contestado. Foi usada para tratar depressões severas e esquizofrenias, tendo Egas Moniz sempre defendido o seu uso apenas em casos graves em que houvesse risco de violência ou suicídio. Muitos pacientes não sobreviviam, mas mesmo assim foi prática muito utilizada nos EUA nos anos 40 e 50, popularizada pelo cirurgião Walter Freeman, que percorreu o país no seu “Lobotomobile”, e criando técnicas exclusivas de uma violência invulgar, como espetar, com a ajuda de um martelo, “um picador de gelo directamente no crânio do doente, localizado num ponto acima do canal lacrimal, para destruir as vias aí localizadas. Técnica muito em conta e que permitia ainda calar vozes incómodas que eram enviadas para hospícios para assim deixarem de perturbar a “paz social”. Nos EUA foram “tratados” mais de 50.000 pacientes e na Europa cerca de 10.000. Esta prática quase caiu em desuso, logo que surgiram os primeiros fármacos antipsicóticos.

Existe realmente “Shutter Island”?
Não. Martin Scorsese serviu-se de diversos cenários para criar a “sua” “Shutter Island”
Massachusetts foi o local central, mas as escolhas de cenários incidiram ainda em Connecticut e Nova Scotia. Acabaria por ser Boston Harbour (o porto de Boston e as ilhas circundantes) o local previligeado. As cenas de Dachau foram rodadas em instalações industriais, em Taunton, Massachusetts. Scorsese rodou cenas de hospital no abandonado Medfield State Hospital. Peddocks Island foi também muito utilizada, e a cena do Farol foi rodada em East Point, em Nahant. Houve ainda sequências e planos rodados no Acadia National Park, Bar Harbor, Maine; Boston Harbor; Hull, Massachusetts e Hyde Park, em Boston.

SHUTTER ISLAND
Título original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese (EUA, 2010); Argumento: Laeta Kalogridis, segundo romance de Dennis Lehane; Produção: Brad Fischer, Amy Herman, Mike Medavoy, Arnold Messer, Joseph P. Reidy, Martin Scorsese, Emma Tillinger; Fotiografia (cor): Robert Richardson; Montagem: Thelma Schoonmaker; Casting: Ellen Lewis, Meghan Rafferty; Design de produção: Dante Ferretti; Direcção artística: Max Biscoe, Robert Guerra, Christina Ann Wilson; Decoração: Francesca Lo Schiavo; Guarda-roupa: Sandy Powell; Maquilhagem: Alan D'Angerio, Christine Fennell, Aimee Macabeo, Michael Ornelaz, Manlio Rocchetti; Direcção de produção: Ron Ames, Amy Herman; Assistentes de realização: Ron Ames, Amy Lauritsen, Robert Legato, Joseph P. Reidy, John Silvestri; Departamento de arte: Frédéric Amblard; Som: Eugene Gearty, Philip Stockton; Efeitos especiais: R. Bruce Steinheimer, Amanda Treat, Stan Winston; Efeitos visuais: Steve Dellerson, Robert Legato, Ariane Rosier, Robert Stromberg; Companhias de produção: Paramount Pictures, Phoenix Pictures, Sikelia Productions, Appian Way; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels), Mark Ruffalo (Chuck Aule), Ben Kingsley (Dr. Cawley), Max von Sydow (Dr. Naehring), Michelle Williams (Dolores Chanal), Emily Mortimer (Rachel 1), Patricia Clarkson (Rachel 2), Jackie Earle Haley (George Noyce), Ted Levine (Warden), John Carroll Lynch (Warden McPherson), Elias Koteas (Laeddis), Robin Bartlett (Bridget Kearns), Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora, Curtiss Cook, Raymond Anthony Thomas, Joseph McKenna, Ruby Jerins, Tom Kemp, Bates Wilder, Lars Gerhard, Matthew Cowles, Jill Larson, Ziad Akl, Dennis Lynch, John Porell, Drew Beasley, Joseph P. Reidy, etc. Duração: 138 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/16 anos (Qualidade); Estreia em Portugal: 25 de Fevereiro de 2010.

3 comentários:

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Parabéns pelo magnífico artigo de opinião, o qual subscrevo na íntegra.

Jubylee disse...

Li há uns tempos, que a lobotomia está de novo a ser usada como método de tratamento para casos psiquiátricos e parece que o seu uso está a subir.

Bom artigo, como sempre. :)

António Bettencourt disse...

Só uma pequena correcção, o que Egas Moniz inventou nao foi o lobotomia mas sim a leucotomia pré-frontal, o que não é a mesma coisa.

Leucotomia pré-frontal e lobotomia frontal são duas técnicas absolutamente distintas. Leucotomia préfrontal (Egas Moniz, 1936) - do grego leuco = branco + tomos = corte - significa corte da substância branca localizada no região préfrontal do cérebro. Este corte é feito através de um pequeno instrumento desenvolvido por Egas Moniz designado por leucótomo.

Por outro lado, lobotomia frontal foi uma técnica desenvolvida por Walter Freeman (1895-1972) e James Watts (1904-1994) e amplamente executada nos EUA por estes dois cientistas (do grego lobos = porção, parte + tomos = corte, ou seja, corte do lobo frontal). O instrumento cirúrgico usado era uma espécie de picador gelo e o acesso era transorbital.