domingo, julho 10, 2011

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA 2011 - 2

Notas rápidas


5. ICH SCHAU DIR IN DIE AUGEN, GESELLSCHAFTLICHER VERBLENDUNGSZUSAMMENHANG! (Olho-te nos olhos, contexto de ofuscação social!), de René Pollesch, com texto e encenação de René Pollesch. Criação do Volksbühne Am Rosa-Luxemburg –Platz Berlim (Alemanha).
Um palco aberto, sem cenários. Um piano e uma bateria ao fundo. Um actor. Vestido, despido, só de cuecas, ora fala ora evolui em silêncio, ora atira com a roupa e os sapatos para a plateia, ora invectiva os espectadores, ora filosofa sobre a essência da vida. Ora toca piano, ora ataca a bateria, ora evolui com uma laçada de balões ora é içado por uma gigantesca bola luminosa. “O teatro não é a sombra da vida”, começa por dizer, com o que parece arrumar com uma certa ideia de teatro representação da realidade.
Este exercício para um actor só pode parecer de início provocação gratuita. Não o é, descobre-se à medida que o tempo passa e as reflexões filosóficas, bem ao estilo alemão, se vão adensando. É provocação, bem humorada e por vezes irada, mas o que se repensa é a existência do homem neste mundo conflituoso, onde a crise económica e financeira se abate sobre todos de forma dramática. O jornal “Bild”, de Berlim, no dia seguinte à estreia, em Janeiro de 2010, na Volksbühne, escreveu: “A crise financeira acaba por se revelar como o tema real do espectáculo. Esta performance grandiosa parece tão sem sentido como pagar resgates a banqueiros falidos, mas é muito mais barata”.
René Pollesch, um dos mais prestigiados autores e encenadores do teatro alemão contemporâneo, escreveu e encenou este espectáculo que Fabian Hinrichs interpreta de forma brilhante, numa demonstração de “homem dos sete ofícios” que desarma a assistência e a conquista rapidamente.
As informações do Festival dizem que René Pollesch, nascido em 1967, “estudou no Instituto de Estudos Teatrais de Giessen, foi aluno de Heiner Müller e Georges Tabori, estagiou no Royal Court Theatre de Londres, traduziu e adaptou Ovídio, Shakespeare, Joe Orton, entre outros, e dirigiu o Teatro de Lucerna e o Schauspielhaus de Hamburgo. Entre 2002 e 2007 trabalhou na Volksbühne, como director artístico da Sala Prater, e foi considerado pela prestigiada revista Theater Heute como um dos melhores dramaturgos alemães, após inquérito realizado junto dos leitores. Em 2001 e 2006, Pollesch recebe o Dramatist Prize da cidade de Mülheim, e, em 2007, é-lhe atribuído o Viennese Nestroy Prize.”
Quanto a Fabian Hinrichs, a mesma fonte diz-nos que, nascido em 1976 em Hamburgo, estudou em Bochum e tem trabalhado nos principais teatros alemães, além de ter já uma vasta filmografia e numerosos prémios de representação no seu curriculum, nomeadamente o de Melhor Actor do Ano, em 2010, pela sua interpretação na peça agora apresentada no Festival de Almada. “Ao despersonalizar-me perante estranhos”, diz Hinrichs sobre o acto de representar, “fico mais próximo do público e mais próximo de mim próprio do que jamais poderia ficar em qualquer outra área da minha vida”.
A peça é uma provocação irónica sobre os desmandos do mundo, procura questionar a interactividade entre o palco e o público, mas até nesse aspecto é irónica, pois são raros os espectáculos mais interactivos. Fabian Hinrichs quebra a barreira tradicional da boca de cena e no final agradece, visivelmente entusiasmado, os aplausos frenéticos do público. Afinal, palco e plateia continuam a funcionar como sempre.

Intérprete: Fabian Hinrichs; Cenário e figurinos: Bert Neumann; Desenho de luz: Frank Novak; Dramaturgia: Aenne Quiñones; Tradução: José M. Vieira Mendes; Língua: Alemão, legendado em português; Duração: 1H30.


UN CERTAIN SONGE, UNE NUIT D’ÉTÉ (Um Certo Sonho, uma Noite de Verão), a partir de Shakespeare; Texto e encenação de Richard Demarcy; criação do “Le Naïf Théâtre” (Paris, França).

Excelente divertimento, politizado qb, este que Richard Demarcy e a sua multicultural companhia Naïf Théâtre nos oferecem, partindo de “Sonho de uma Noite de Verão”, do eterno Shakespeare. É o encenador quem o diz: “Shakespeare é o Mundo, os Mundos entrecruzados, inspirando-se no Grande Todo, tanto do cosmos estrelado e dos mistérios e poderes da natureza como das histórias, conflitos e sonhos dos homens”. Neste espectáculo, onde tudo se mistura num todo ao mesmo tempo caótico e homogéneo, há franceses, africanos, asiáticos, até portugueses (por sinal, um excelente), mesclam-se as cores da pele, as vozes, os idiomas, ao mesmo tempo que se amalgamam o teatro, a mímica, a música, o canto e a dança, casando-se a realidade com a fantasia, o burlesco com o feérico, a crítica com a ironia. E sempre poético.
Hora e meia de torrencial loucura cénica, onde a intriga de Shakespeare é reinventada mas respeitada na sua essência, revivida por um grupo de actores notáveis, extremamente bem dirigidos e orquestrados. Um regalo para os sentidos e um alerta para as consciências. O teatro é aqui uma lição de alegria e um estimulante refúgio para a aspereza do dia a dia. 
Richard Demarcy é um dos nomes de referência do teatro francês vanguardista e alternativo, a partir dos anos sessenta do século XX. Dramaturgo, ensaísta e encenador, é autor de mais de uma trintena de peças e encenou mais de quarenta espectáculos. Publicou, no final dos anos sessenta, um ensaio que foi importante para toda uma geração – “Elements d’une Sociologie du Spectacle”. É o autor do texto, e também o encenador, do primeiro espectáculo do Centro Cultural de Évora, em Janeiro de 1975: “A Noite do 28 de Setembro”. É também autor de quatro peças sobre a revolução portuguesa, apresentado em Portugal no Teatro “A Comuna”, no Festival d’Avignon e no Festival de Outono (Paris). Em 1999, participou no Festival de Almada com a companhia africana “Sanza Théâtre”, com a peça “Ubu dechâiné”, que escreveu e encenou. Alguns anos antes apresentou “Oyé Luna”, peça inspirada num conto português e criada em Cabo Verde. É pai do encenador Emmanuel Demarcy-Mota, director do Théâtre de La Ville e do Festival de Outono de Paris (sendo a mãe a actriz portuguesa Teresa Mota). (Biografia recolhida nas folhas do Festival).

Intérpretes: António da Silva, Bruno Daveze, Chrysogone Diangouaya, Léontina Fall, Jean Lacroix Kamga, Guy Lafrance, Nicolas Le Bossé, Gersende May, Lomani Mondonga, Ngau Domingas Afonsina, Aline Stinus, Yilin Yang; Cenário: Richard Demarcy; Figurinos: Jean Lacroix Kamga, Richard Demarcy; Música e canto: António da Silva, Léontina Fall, Yilin Yang; Fotografia: Brigitte Pougeoise; Direcção de cena: Kudzo do Tobias, Yvan Osadcii; Língua: Francês, legendado em português;    Duração: 1h40. 

Eu sei que pode ser de uma injustiça extrema destacar, de entre um elenco todo ele excelente, uma presença. Mas Aline Stinus, que vimos no espectáculo de Richard Demarcy, Tocou-me particularmente. Se olharem para a foto acho que percebem por quê. Aém do mais é de uma elegância extrema, tem este sorriso doce e sabe representar. Um bom futuro!

1 comentário:

Rui Luís Lima disse...

Caro Lauro António
O blogue "paixões e desejos" dedicado ao cinema, mudou-se para "A Memória do Cinema".
Para lá chegar basta clicar na foto do último post do "paixões e desejos".
Esperamos pela sua visita.
Cumprimentos cinéfilos.
Paula e Rui Lima