segunda-feira, março 12, 2012

FLORBELA



NOTAS PESSOAIS SOBRE DUAS "FLORBELAS"

Em 1979, quando andava ainda à procura de locais para filmagem de sequências para o meu filme “Manhã Submersa”, encontrei num alfarrabista um pequeno opúsculo com a vida de Florbela Espanca, escritora de uma obra que já tinha lido parcialmente, mas cuja vida, carregada de peripécias e de um significado muito especial, me fascinou sobremaneira. Nessa altura julgava que fazer cinema em Portugal poderia ser difícil, mas ainda assim possível. Enquanto organizava a pré-produção da “Manhã Submersa” resolvi ler tudo quanto havia sobre Florbela, e visitar, com o meu então assistente de realização, Mário Damas Nunes, os locais por onde passou Florbela Espanca. Passamos por Vila Viçosa, Évora e Matosinhos, para lá de vários locais de Lisboa e, inclusivé, uma localidade no Algarve. Compilei elementos, falei com familiares e amigos, descobri histórias que nunca tinham sido contadas. Um velho barbeiro de Vila Viçosa contou-me que, ainda miúdo, ele e Florbela, juntos com outros jovens, costumavam brincar perto do cemitério local e que, já sedutora e apreciadora de flores, Florbela o levava a saltar o muro do cemitério, e ir buscar flores que depois ofertava à bela futura poetisa.
Depois foram os tempos de rodagem de “Manhã Submersa” e tempos depois comecei a escrever um guião para um filme intitulado “Florbela”. Enviado o mesmo a um concurso do IPC, tive um pequeno subsídio para a sua rodagem que, no entanto, não permitiria nunca terminar a obra (o subsídio era de 12.000 contos!). Nunca toquei no subsídio e tentei, por várias formas, arranjar uma co-produção. Nessa altura um produtor e distribuidor, Fernando Fernandes, da Imperial Filmes, procurou, na medida das suas possibilidades, encontrar parceiros estrangeiros para o projecto. Um dia, apareceu-me com uma proposta de um produtor espanhol a quem dera a ler o guião, e que estaria disposto a comparticipar desde que se “fizessem alguns acertos” e o filme fosse sobre uma poetisa ninfomaníaca, e que se introduzissem algumas cenas para condimentar o projecto à sua maneira. Expliquei, delicadamente, que esse não era o propósito do meu projecto e que agradecia muito, mas muito obrigado e até à próxima. Depois apareceu um brasileiro, igualmente interessado, desde que a protagonista fosse uma actriz brasileira. Ainda hoje estou em duvida se fiz bem, mas recusei. Florbela era uma poetisa portuguesa e eu queria uma actriz portuguesa para o papel (na altura tinha pensado em Lia Gama ou Teresa Madruga, e se há coisa que sou é teimoso nas minhas ideias). Mais uma recusa e assim se foi passando o tempo e o subsídio prescreveu. 
Nunca fiz o filme, que pretendia ser um vasto painel sobre a vida de Florbela desde o seu nascimento em Vila Viçosa até à sua morte em Matosinhos. A minha ideia era uma viagem entre o sol alentejano e a sua luz forte de planície em flor, até ao soturno e lúgubre quarto nortenho onde se terá ou não suicidado. No filme ficaria a dúvida que eu próprio tenho (e mantenho). Apeles seria então João Perry, e relembro ainda outros actores com quem gostaria de ter contado nesta aventura, como Rui Mendes, um dos maridos, José Severino, Sinde Filipe, José Nuno Martins, João Maria Tudela, José Wallenstein, Jorge Vale, Ana Zanati, entre outros. Haveria uma curta aparição da Rainha D. Amélia (destinado a Milú ou a Maria Dulce) e D. Carlos (David Silva). E uma das cenas que me tinha apaixonado na altura seria Florbela a passear pela planície alentejana e ouvir um poema seu cantado num acampamento de ciganos (Cidália Moreia a cantar “Amar, Amar, Perdidamente”). Apareceria, igualmente, o encenador Jorge Listopad, que iria interpretar o papel do italiano Guido Batteli. A música seria de Carlos Paredes, com um ou outro excerto da ópera “Traviata”. De resto, o filme estava todo na minha cabeça, local onde se escrevem, filmam e montam os filmes antes de se dar início à primeira take. Depois, é fazer coincidir, o mais aproximadamente que se possa, o que se tem em mente com as possibilidades da realidade, tendo em conta sempre que por vezes a improvisação pode ser boa conselheira, tirando partido de um ou outro ajustamento de última hora.
O filme não se fez. Não houve ajustamento possível à realidade.
Uma das poucas coisas boas que o projecto me trouxe foram algumas conversa com Agustina Bessa Luís, que tinha escrito uma biografia sobre Florbela, e que leu o meu argumento e sobre ele manifestou a sua opinião. Foram conversas muito curiosas, algo divergentes na interpretação, que todavia me aproximaram da escritora, de que sou profundo admirador e amigo incondicional.
Anos depois, retirei do argumento uma peça de teatro que mantenho inédita. Assim creio que se manterá, pois mobilizava um vasto elenco e uma multiplicidade de cenas. 

Correram os anos, e em meados de 2011, recebi um telefonema do Vicente Alves do Ó para interpretar um pequenino papel no seu projecto, já em final de rodagem, “Florbela”. Explicou-me que era uma forma de não esquecer o meu projecto. Achei muito simpático e generoso da sua parte e assim apareci, nas vestes de “visconde”, a fazer um perninha no filme agora em exibição. A simpatia de Vicente Alves do Ó levou-o a convidar-me a subir ao palco do S. Jorge na noite da antestreia, ao lado do elenco e da equipa técnica. Não esqueço a amizade demonstrada e não muito vulgar entre oficiais do mesmo ofício. Acho que os meus camaradas de geração a única coisa que fizeram (alguns deles, os mais influentes) foi dizer entre eles que “esse gajo (eu) nunca mais volta a filmar” e até agora cumpriram a praga. Por isso, soube-me bem este aceno vindo de um jovem que nem sequer me conhecia pessoalmente.
Creio que, apesar disso, posso ter uma opinião serena sobre o filme. Um projecto completamente diferente do meu, mas que julgo muito interessante, filmado com sensibilidade, um certo pendor classicista, romântico e efusivo como se impunha, sensual e misterioso, como deveria ser, confinando-se a um curto período da vida da poetisa, uma época marcada pelo seu casamento com Carlos Lage e a morte do irmão Apeles. Não pretende, pois, ser uma visão da vida e obra de Florbela Espanca, mas apenas um assomo, um sobrevoar sobre momentos furtivos, mas intensos de uma atribulada existência que marcaria gerações de portugueses.
A cuidada reconstituição dos ambientes, a qualidade da fotografia, o colorido, o sentido plástico de (quase) toda a obra fazem deste filme uma aposta ganha e do seu realizador um nome a seguir com todo o interesse. É um cinema de autor que procura público e o merece. Sobretudo ainda porque conta com um elenco magnífico. Dalila Carmo é esplêndida em Florbela Espanca, e a sua interpretação ficará para sempre como referência. Nunca tive dúvidas do seu talento, desde os seus tempos de menina e moça, quando a convidei para membro do júri do Cine Eco. Apenas cumpriu as promessas. Mas Ivo Canelas, em Apeles, Albano Jerónimo, em Mário Lage, António Fonseca, em João Espanca, Rita Loureiro, em Sophia D'Arriaga, Anabela Teixeira, em Júlia Alves, e restantes actores, mostram como estamos bem representados nesta área. O seu trabalho por vezes é brilhante, de eficiência e sobriedade, de segurança e entrega. Sem excessos, sem vedetismos fáceis. Sabe bem ver representar assim. Em português. 
Para o meu gosto, mas como digo, é apenas para o meu gosto, existem apenas duas ou três cenas que acho que descolam um pouco de todo o restante estilo e que maculam um pouco o resultado final. Refiro-me a certas sequências “oníricas”, com folhas de papel a voar ou focos de neve e mãos pelo ar, que julgo tentarem recriar uma “poética” florbeleana e que é o que de mais discutível tem alguma Florbela e este “Florbela”. Mas, mesmo assim, “Florbela” de Vicente Alves do Ó é um belo filme que julgo merecer ser visto por todos. Já é altura do cinema português ter um sucesso comercial que nos prestigie e não nos envergonhe.
Um abraço amigo para o Vicente, do seu (improvisado) “visconde”.

6 comentários:

Nazaré Oliveira disse...

Olá Lauro António!
Peço dsculpa por tratá-lo assim mas, de facto, há pessoas com as quais nos familiarizámos, através do seu trabalho, do seu trabalho em prol da cultura do nosso país, que, sinceramente, até me soa mal tratá-lo por Sr embora, claro, seja e continue a ser um GRANDE SENHOR.
Descobri este seu fantástico há pouco tempo. Gostei muito.
Já está meu blogue, na lista das minhas visitas frequentes.
Um abraço!

Nazaré Oliveira disse...

Olá Lauro António!
Peço dsculpa por tratá-lo assim mas, de facto, há pessoas com as quais nos familiarizámos, através do seu trabalho, do seu trabalho em prol da cultura do nosso país, que, sinceramente, até me soa mal tratá-lo por Sr embora, claro, seja e continue a ser um GRANDE SENHOR.
Descobri este seu fantástico há pouco tempo. Gostei muito.
Já está meu blogue, na lista das minhas visitas frequentes.
Um abraço!

Luis Eme disse...

gostei muito de o ler, Lauro António, como de costume.

abraço

carlitos disse...

Gostei de saber desse projecto e do gesto do seu colega realizador.

isabel victor disse...

Ainda não vi o filme , com muita pena minha. Mas adorei esta história de um filme anunciado e a critica a este "Florbela" já rodado.

Um beijo, Lauro António. Registei _________

"Não pretende, pois, ser uma visão da vida e obra de Florbela Espanca, mas apenas um assomo, um sobrevoar sobre momentos furtivos ... "

isabel victor disse...

Adorei esta história de um filme anunciado e da critica sobre " Florbela" ja rodado.

Um beijo , Lauro António

" Não pretende, pois, ser uma visão da vida e obra de Florbela Espanca, mas apenas um assomo, um sobrevoar sobre momentos furtivos (...) "