terça-feira, junho 20, 2006


"O CÓDIGO DA VINCI"
NO CINEMA

Começando pelo princípio: sou dos que gostou de ler “O Código Da Vinci” de Dan Brown. Gosto de policiais, este é bem construído, bem “montado” em capítulos curtos, num estilo de narrativa paralela, com várias acções a decorrerem em simultâneo (um pouco ao jeito das telenovelas brasileiras, ou das mais recentes séries policiais, como “24” ou “CSI”), um suspense bem doseado, que se projecta de capítulo para capítulo, até ao desenrolar final. Deixando-nos sem fôlego, agarrados às páginas da obra.
Por outro lado, não esquecendo nunca que é uma ficção (o livro nunca se apresenta como um ensaio ou obra de erudição histórica ou religiosa), “The Da Vinci Code” joga com elementos de duas índoles (como qualquer policial): factos reais, históricos, comprovados, e especulações sobre esses factos e sobre outros já de si especulativos. Quer dizer: os Cavaleiros Templários existiram, foram poderosos, depois perseguidos, dizimados, estão desde aí associados a teorias e práticas exotéricas. Fala-se de um herança maçónica, fala-se da permanência do seu poderio, da sua influência, fala-se da sua perseguição do Santo Graal. Ou seja há uma simbiose perfeita entre factos reais, historicamente comprovados, e referências que são meras deduções, ainda que apoiadas, ou não, em conjecturas com alguma base de razoabilidade. Mas há outros factos que partem de premissas que elas próprias já são meras especulações. Por exemplo: o Priorado do Sião, os seus Grão Mestres, as alusões a Newton e Da Vinci, a simples existência desta associação secreta é uma mera hipótese que muito boa gente contraria formalmente e refuta com dados. Acontece que, numa ficção, ser verdade ou mentira não vem para o caso. Quantas seitas diabólicas, quantos vilões disformes não defrontou 007 sem nunca cair na ira dos pregadores da verdade histórica?
“O Código da Vinci” vem da mesma área e deverá ser assim lido, com uma ressalva apenas, que faz toda a diferença: seja um bom ou mau romance, fale de verdades ou de elucubrações, este romance mudou o mundo. Ficará na História para sempre. Não apenas por ser o livro mais vendido (certamente, depois da Bíblia, ironia das ironias!), mas porque veio mexer com convicções e dogmas que, a partir de agora, deixaram de o ser para muitos milhões de pessoas. Muitas perguntas o livro faz e deixa respostas em suspenso (ainda que muitas vezes tente responder, mas aí… ficção é ficção!), mas muitas dessas perguntaram nunca mais deixarão de bailar no espírito dos seus leitores. Quem foi Maria Madalena? Que se “arranjou” no Concilio de Niceia? Quem foi Judas? Que representam Os Evangelhos Gnósticos? Por que razão há evangelhos que “valem” e outros que “não valem”? Que se esconde por detrás de certas associações? Da Opus Dei? Da Maçonaria? Do Priorado?
Há muitos anos que estas perguntas eram feitas por alguns. “O Código da Vinci” transformou alguns em milhões. Ninguém mais calará a curiosidade universal. Depois do “Código”, muitas obras se escreveram sobre estes temas, umas de puro embuste, outras sérias, umas ingénuas, outras eruditas. Muitas mais irão surgiu e a hierarquia da Igreja Católica vai certamente penar. Há quem diga que se entrou na era do Aquário e do “Sagrado Feminino”. Algo que nada nos repugnaria, para equilibrar séculos de prepotência masculina, ditada sobretudo pela Igreja Católica. Nisso “O Código Da Vinci” acertou e desencadeou uma polémica que só pode ser saudável.
Respira-se a necessidade de outros tempos, de um “sagrado feminino”, quem sabe?, maternal, humano, sensível, feito de tolerância e amor. O “sagrado masculino” de Bin Laden e Bush (para só falar nos que temos à porta) já provou que sabe mandar matar os seus filhos, em nome de um Deus. O “sagrado feminino” comportar-se-ia do mesmo modo?
Passemos ao filme. Pouco a dizer. Bom exercício para se ver como não fazer uma adaptação literária. O guião é desastroso, reduzindo o romance a uma sucessão de explicações descosidas, sem coerência, sem suspense, sem personagens dignos desse nome (Tom Hans não sabe o que fazer, não acredita em nada do que diz, o seu Robert Langdon é lamentável e atraiçoa inclusive o espírito do romance; Audrey Tautou é uma Sophie Neveu atarantada e sem graça; apenas Ian McKellen se comporta à altura do empreendimento, compondo com ironia uma figura com chama interior).
O realizador Ron Howard já fez coisas aceitáveis e outras fracas. Terá tido aqui o seu cabo das tormentas. Nunca foi um ás. Faltou-lhe sempre o golpe de asa. Desta feita permitiu que o argumentista Akiva Goldsman lhe cortasse as asas, deixando-o a arrastar-se na mais profunda banalidade, quando não mesmo na mediocridade. O romance tinha a virtude de ir descrevendo factos e especulações históricas como puro suspense para o leitor. Akiva Goldsman e Ron Howard transformam o suspense num rol de mercearia ou num corriqueiro índice de uma obra provocatória que “vira” bem comportada e temente a Deus (e sobretudo aos seus servidores da Terra!). Limadas todas as arestas, cuidadosamente branqueada toda a trama, que resta deste “Código”? Nem um bom policial. Uma mistela mais ou menos intragável, que derrotou todos quantos se atreveram a lá entrar. De actores a técnicos.
Depois de ver o filme, percebo porque gostei do livro e nunca achei que ele fosse tão rasteiro como queriam fazer crer. Afinal Dan Brown teve o talento de construir sozinho, com palavras, o que uma equipa monstruosa não conseguiu sequer aproximar-se com sons e imagens, palavras e tudo o mais. A diferença entre escrita e palavreado.

O Código Da Vinci ( The Da Vinci Code), de Ron Howard (EUA, 2006), com Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina, Jürgen Prochnow, Jean-Pierre Marielle, etc. 149 minutos; M/ 12 anos.

2 comentários:

Ana Melo disse...

Concordo consigo em tudo o que escreveu. O filme foi muito pobre, desiludiu-me bastante tendo em conta o livro.

Anónimo disse...

Não vi e não gostei