quarta-feira, agosto 23, 2006

CINEMA


“OS AMANTES REGULARES”


Nos quadros de estrelas de alguns jornais portugueses, aparece classificado “Les Amants Réguliers” com uma bola preta (“de fugir”, de Eurico de Barros) ou 5 estrelas (“Excepcional”, de João Lopes). Mais uma vez o leitor desprevenido se interroga como é possível a discrepância, mas este filme de Philippe Garrel explica bem como é possível. Este é o tipo de filme que ou se ama ou se ignora. Ia a escrever odeia, mas julgo que é impossível, em boa fé, odiar este filme. Por isso não compreendo de forma alguma o comentário de Eurico de Barros (“Ainda há por aí quem faça filmes nostálgicos–“autoristas” sobre o Maio de 68 e os estados de alma das criaturas que o perpetraram. Depois do risível “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, eis agora o trombudo “Os Amantes Regulares”, de Philippe Garrel, rodado a preto e branco e interpretado, pelo menos, por metade da família, com o filho Louis à frente. Uma verdadeira múmia paralítica.”), por muito que possa compreender e aceitar a sua bola preta. Na verdade julgo que qualquer espectador “normal” pode até passar por fases de amar e de ignorar o filme durante a sua projecção. São três horas de uma obra densa, rodada num preto e branco magnífico, sem qualquer tipo de concessão ao espectador, muito pelo contrário, provocando a sua atenção e a sua disponibilidade. A mim aconteceu-me tão depressa ficar deslumbrado com um plano, como sentir de uma forma física, daí a pouco, o “tempo” desse plano. Mas no final, ponderadas todas as questões, inclino-me mais para as 5 estrelas do que para a bola negra. “Os Amantes Regulares” é uma proposta ambiciosa, sobretudo para ser concebida com os meios de que Garrel dispunha. Mas Garrel não queria outros meios, nunca terá pensado numa superprodução com reconstituições de multidões. O seu cinema é este: quase artesanal, feito mais de sugestão do que realismo. Por isso reconstituir a época de Maio de 68, em Paris, só poderia ser para ele reconstituir uma certa ambiência humana e intelectual. Um pouco de auto-biografia, pessoal e colectiva, que se estenderia depois pelo “desarmar da feira”, esses tempos de decepção e desilusão que se seguiram à grande libertação. Portanto a ideia era conciliar duas vertentes: uma história de amor, nascida durante a revolução de Maio 68, e a própria evocação desses tempos. A mim soa-me familiar esta ideia, por que também a tentei num filme meu, com resultados que parece não terem sido os melhores, mas com intenções muito semelhantes: uma história de amor fracassada, no interior de uma revolução frustrada, ou seja, personagens sem estofo para as aventuras, colectivas ou individuais, exteriores ou interiores, em que se envolvem. O filme chama-se “O Vestido Cor de Fogo”, para quem tiver curiosidade em saber.

François (Louis Garrel), jovem poeta, é um dos arruaceiros de Maio de 68. Está nas barricadas, nos distúrbios de rua, no lançamento de pedras e cocktails Molotov, é dos que a polícia persegue, é dos que sofre com o matraquear dos bastões e dos que é preso e julgado sumariamente. Para Garrel tudo se passa no filme como se Maio de 68 fosse uma noite de que se acorda na manhã seguinte, estremunhado e desiludido, carpindo as mágoas no colo da mãe. Mas com uma namorada e um amor louco nas mãos. Lilie (Clotilde Hesme), a estudante de escultura, que trabalha no atelier de um pintor a quem serve de modelo nas horas vagas, será a sua paixão, a que se entrega com o mesmo fervor com que se ofertara à revolução. Garrel não é particularmente simpático para com estes jovens (ele próprio e a sua geração) que perderam a hipótese de transformar o mundo, porque não estavam preparados para o fazer. Existe uma certa ternura no olhar, mas também uma visão crítica e agressiva, nalguns aspectos. Muito mais anarquistas e libertários do que comunistas (há conversas no filme que denunciam este afastamento do PCF: “não precisamos de ser dirigidos, primeiro tomamos o poder, depois organizamo-nos”; e mais adiante: “tomar o poder para o proletariado, contra o próprio proletariado”, que Garrel acusa de só querer mais dinheiro e de se ter aburguesado), muitos deles filhos de família cheios de dinheiro, que entravam na revolução mais por excitação de aventura do que por convicção profunda, são seres frágeis na sua deliberação de violência, que depois de voltarem para casa, se entregam a exercícios individualistas de sexo e drogas (o ópio circula livremente por entre estes “artistas” individualistas e solitários que se colocam à margem da sociedade e que aceitam viver numa parasitagem tolerada). Garrel tinha a idade do protagonista (interpretado pelo seu filho Louis) em Maio de 68. Fala do que sabe. Sem nostalgias e sem amargura pelas esperanças perdidas. Mas o conhecimento directo dos factos e, sobretudo, da atmosfera permite-lhe criar, num plano único, de uma duração invulgar, todo o clima de fim do mundo das ruas de Paris nessas noites de pesadelo e euforia. A reconstituição de Paris, Maio, 68, é absolutamente deslumbrante: um plano quase fixo, três jovens de costas, um cenário suburbano, meia dúzia de carros virados, a arder, uma fogueira volumosa à direita do ecrã, vultos que atravessam o campo, atirando pedras, cadeiras, projécteis incendiários, e com tão pouco se cria um ambiente que roça a tragédia. A fotografia, a preto e branco, de William Lubtchanski, contribui em muito para este resultado, como a música de Jean-Claude Vannier, e o tratamento sonoro de Alain Villeval. Mas o talento de Garrel é indiscutível. E mostra-se em muitas sequências brilhantes: um pequeno-almoço com os pais, uma busca da polícia para cobrar uma multa, a audiência, as reuniões políticas, os encontros em casa de Antoine, as cenas de amor entre Louis e Lilie. Sobretudo de referir a subtileza com que trata essa desilusão de revolta e de amor, uma sobrepondo-se à outra, uma derivando da outra, ambas resultando em processos de amadurecimento e perca de inocência, ambas mostrando que as boas intenções e os bons sentimentos dificilmente vingam num mundo de oportunismo e de domínio opressivo de quem detém o poder. “Os Amantes Regulares” mantém com "The Dreamers" de Bernardo Bertolucci algumas semelhanças (a começar desde logo pela presença de Louis Garrel entre os intérpretes), mas globalmente os projectos afastam-se, ainda que abordando realidades semelhantes. O seu cinema coloca-se muito mais na linha de um Rivette ou Jean Eustache de “La Maman et la Putain”.

Garrel, o filho
Garrel, o pai

OS AMANTES REGULARES (Les Amants Reguliers), de Philippe Garrel (França, 2005), com Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Mathieu Genet, Marc Barbe, etc. 184 min; M/ 12 anos.

2 comentários:

Hugo Alves disse...

Definitivamente, este é dos que se ama. Quem conheça um pouco das principais obras da Nouvelle Vague verá um piscar de olhos a filmes míticos. "la maman et la putain" de Jean Eustache, à cabeça.

Para além do mais o contraste entre o idílio de François e Lily e a casa do jovem burguês decadente e viciado em ópio.

Um filme indispensável

H. disse...

Também consigo compreender essas divergências de sentires do filme, mas incluo-me no grupo dos que o amou, pela sua humanidade tão bruta e ao mesmo tempo poeticamente nostálgica.
É um dos filmes mais interessantes e "únicos" a chegar às salas este ano, sem dúvida.