quarta-feira, agosto 09, 2006



“MIAMI VICE”

O que fascinava nos policiais e nos “filmes negros” das décadas de 30 a 50 era, sobretudo, a atmosfera criada, o clima de um preto e branco pesado, de sinistros presságios. Havia grandes actores, notáveis realizadores, excelentes argumentistas, mas havia, por sobre tudo isso, um “tempo” físico, humano, social que era restituído por essas obras que ainda hoje mantêm a sua sedução intacta e reflectem muito da época em que foram criadas.
Uma obra de arte ou “fala de nós” de alguma forma, ou não tem grande interesse. Este “falar de nós” é que se pode expressar em muitas línguas. Às vezes até é preciso dicionário, mas vale a pena tentar compreender.

“Miami Vice”, à semelhança de algumas outras obras actuais (poucas, mas certamente algumas, entre elas as de Steven Soderberg, como “Ocean's Eleven” (2001) ou Ocean's Twelve (2004), consegue esse raro privilégio de ser uma obra de arte, um típico e brilhante produto de uma indústria que consegue por vezes ser espelho do seu tempo e do ambiente estético predominante. Nesse aspecto Michael Mann é uma boa referência, pois algumas outras películas suas, como “Heat” ou “Colateral”, já eram exemplos significativos de um tipo actual de “filme negro” norte-americano que tem características muito próprias e, sobretudo, uma estética muito definida. Estamos nos domínios do “tecno”, do “cool”, do “Postmodernismo”. Chame-se-lhe o que se quiser. Todos estão certos.
Este “Miami Vice” começa por ser a adaptação ao cinema da popular série televisiva que tinha o mesmo nome, produzida entre 1984 e 1989 pelo próprio Michael Mann, também realizador do actual filme. Sonny Crockett e Rico Tubbs, detectives, continuam a ser os protagonistas desta nova aventura. Um é branco, o outro negro, formam uma equipa de uma eficácia total, ambos funcionam como silhuetas de polícias incorruptíveis, mas sem grandes espessuras psicológicas, que se infiltram no sub mundo do tráfico de narcóticos e armas. A história também não é muito importante. Diria mesmo que não é nada. Nenhuma novidade especial, em relação às centenas de historietas sobre droga já vistas e revistas, com vilões sul e centro americanos, e policias norte-americanos a impor a lei. Não é por aí que se saúda o filme, mas sim pelo estilo que consegue impor, mas um estilo que é só por si uma forma de “falar de nós”.

Não é um filme onde se discurse muito, onde se “digam coisas muito importantes”. Ninguém afirma directamente que estamos numa sociedade fria, distante, desapiedada, brutal. Mas sentimos isso pela “forma”, pela maneira como Michael Mann trata a cidade, descreve os personagens, enquadra a solidão, regista a paisagem (interior e exterior), trata as cores, a iluminação, como coreografa esses bailados de carros, barcos, helicópteros, como monta sem complacências, como resolve cada cena de acção com uma economia de meios que chega a ser de uma brutalidade incomparável. Nesse aspecto, “Miami Vice” é sem dúvida um dos grandes filmes do ano, atrevo-me quase a dizer que uma das raras obras-primas que vi nos últimos meses.
A desolação deste azul metalizado que perpassa pelo filme, o canto desesperado desses corpos que se amam gritando uma cumplicidade de sangue, lágrimas e esperma, sem futuro aparente (mesmo quando o futuro parece ser um fugaz “happy end” sem continuidade), a terrível solidão de cada personagem, mesmo quando a seu lado tem o “partner” de sempre ou a amante de ocasião, tudo isso demonstra o brilhantismo consequente, cheio de ideias e de intenções de um cineasta como Michael Mann.

Por vezes há em “Miami Vice” planos de cortar a respiração, figuras enquadradas de costas, com o cenário ao fundo por onde investem as tempestades tropicais ou paisagens que relembram Chiricó. Despidas. Uma palmeira através de uma porta aberta. A solidão mais radical. A beleza mais austera. O vento. A chuva. Os elementos a fustigarem uma Humanidade sem inocência possível. Os sentimentos que se perseguem, num universo onde nada é como deve ser, mas onde o crime avassala, e a violência não pensa duas vezes. Raras vezes se vê, como aqui, a rapidez do tiro fulminante, da explosão imediata, do gesto irreparável.

Lembram-se todos daqueles filmes desesperantes em que o vilão aprisiona o herói, e em lugar de o liquidar de imediato (e acabar com o filme!), começa a falar com ele, até este ter hipótese de fuga e recomeçar a perseguição? Aqui nada disso é possível: inimigo aprisionado, inimigo abatido. Guerra total, sem prisioneiros. Nenhumas complacências. O deserto das emoções. Apenas a ambição do lucro, sem olhar a nada. O mais puro dos cinismos, o mais completo dos desamores. Quando a humanidade se perde, fica a tragédia. “Miami Vice” é Shakespeare, séc. XXI.
De resto, tudo é bom em “Miami Vice”, dos actores aos técnicos. Até a personagem meio “pimba” de Colin Farrell (o Detective James 'Sonny' Crockett), é um retrato brilhante, bem como o tom meio perdido, escolhido por Jamie Foxx (o Detective Ricardo Tubbs), ou a fabulosa personagem criada por Li Gong (Isabella), que, no meio deste deserto de emoções, desencadeia uma onda de um romantismo lancinante. Mas se as emoções parecem à deriva, sem porto de abrigo, já a sensualidade dos corpos transpira em duas ou três cenas de um sexo feroz e de um erotismo brutal. Faz-se amor de cada vez como se fosse a última. Há uma cena entre Tubbs e a sua colega Trudy, e outra entre Sonny com a inesperada Isabella que merecem figurar nas antologias do erotismo no cinema. E, no entanto, é só talento que se vê. Só sugestão. Só desejo. Como é belo o grande cinema!

MIAMI VICE, de Michael Mann (EUA, 2006); com Colin Farrell, Jamie Foxx, Li Gong, Naomie Harris, Ciarán Hinds, Justin Theroux, etc. 134 min; M/ 12 anos.

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