segunda-feira, dezembro 04, 2006

CINEMA: Entre Inimigos


THE DEPARTED:
ENTRE INIMIGOS

Em 2002, Wai Keung Lau e Siu Fai Mak, dois realizadores de Hong Kong, dirigiram um “thriller”, “Infiltrados” na tradução do título para português, “Infernal Affairs”, na sua versão internacional, que se afirmou rapidamente como uma obra de culto em todo o mundo, confirmando-se como um dos títulos mais interessantes do cinema de Hong Kong nas últimas décadas, no campo do cinema de acção e do policial. A história confundia-se com algumas outras, já vistas e revistas: Chan Wing-yan é escolhido, ainda na escola de cadetes da polícia de Hong Kong, para ser um infiltrado no submundo do crime e da Máfia local. Lau Kin-ming, por seu turno, é o homem da tríade de Sam seleccionado para se alistar na polícia, a fim de funcionar como informador. Uma década depois, Yan tenta afastar-se do crime, assumir-se como polícia e ter uma vida normal, mas a pressão de ambos os lados leva-o inclusive a frequentar sessões de psicanálise com a Dra. Lee. O Inspector Lau, por seu turno, sobe na carreira e é um respeitado oficial do Gabinete de Crime Organizado e Tríades, apesar de manter secreta a sua ligação a Sam. É nesta altura que, de um lado e do outro da lei, se inicia a caça ao “infiltrado”.
O filme consegue ter um clima de tragédia, bem dirigido e interpretado, e foi esta obra que esteve na base de “The Departed”, que assinala o regresso de Martin Scorsese a um ambiente que ele bem conhece e onde já dera destacadas provas de mestria: o sub mundo do crime organizado. No filme de Wai Keung Lau e Siu Fai Mak inscreve-se ainda uma curiosa metáfora sobre o sofrimento pessoal, o que fica desde logo indiciado por uma legenda de abertura que se refere “ao pior dos Oito Infernos – o Inferno Contínuo” (que está aliás na base do título original, chinês, “wujian dão”, via ou caminho infinito, sem fronteiras). Ora vemos que esse tema do sofrimento e da expiação individual é uma constante nas obsessões temáticas de Sorcese, que vai de “Boxcar Bertha” a “The Last Temptation of Christ”, de “Táxi Driver” a “Ragging Bull”, de “New York, New Tork” a “Bringing Out the Dead”.
Portanto muito de particularmente “pessoal” existia no “Infiltrados” de Hong Kong para Scorsese, sobretudo se o todo passasse pelo crivo do sentimento pessoal e do estilo do cineasta norte-americano. O que aconteceu: The Departed” é um filme genuinamente scorseseano, pela temática, pelo estilo, pelas obsessões, pelas personagens, pelas situações.

A acção passa-se em Boston, onde se assiste ao normal confronto da polícia e da Máfia local. Frank Costello (Jack Nicholson) é o chefe mafioso que controla a cidade e orienta Colin Sullivan (Matt Dillon) desde criança, agora um jovem policia que tem como missão subir na carreira policial com uma folha de serviços impecável, para deste modo permitir a Costello antecipar os movimentos da polícia e contrariá-los. Por outro lado existe Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), integro polícia descendente de uma família de corruptos, que resolve empreender viagem inversa, aceitando infiltrar-se na máfia, para conquistar a confiança de Costelo e ajudar a anular os seus negócios sujos que vão da droga às armas. A existência destes dois traidores não é obviamente fácil, mas torna-se muito mais difícil a partir da altura em que tanto a policia como a máfia descobrem que há entre eles um espião. As duas organizações vão tentar decifrar o enigma, mas são sobretudo Costigan e Sullivan que irão dar inicio a uma trágica e fatal perseguição, um jogo sem recuo nem perdão, onde gato e rato são eles próprios e que ambos sabem ter a ratoeira no final da linha. Aqui “Entre Inimigos” ganha a batalha, ao manter esse suspense até para lá do suportável, com cada um dos contendores a procurar antecipar a jogada do outro, para não só defender a instituição que serve, mas também a pele. As sequências sucedem-se com este jogo a apertar cada vez mais as malhas, cada perseguidor e perseguido a estrangular o antagonista, que sente o “huis clos” cada vez mais asfixiante. Este clima de tragédia latente que se pode precipitar a cada momento é magistralmente bem dado por Scorsese, sua equipa técnica e o seu elenco, onde todos arrancam desempenhos fabulosos, mas onde será de toda a justiça referir a composição de Jack Nicholson que ficará seguramente como uma das mais impressionastes da sua carreira e igualmente uma personagem de gangster inesquecível.

A seu lado, tanto Matt Damon como Leonardo DiCaprio são excelentes. O primeiro num registo que relembra a frieza e o pragmatismo de Ripley, desenhando um jovem ambicioso e amoral, que nada detém na sua luta pela subida na vida, rumo à sonhada respeitabilidade que o dinheiro confere, a casa e a mulher (médica psiquiatra!, anuncia gabarola) garantem, e a que a silhueta do edifício da Assembleia Legislativa dos EUA empresta grandeza mítica. Uma grandeza que a presença de um rato, no plano final, irá por em causa.

O William Costigan de Leonardo DiCaprio, é uma personagem mais nunanceada, trágica desde o seu início, desde que procura afastar-se de uma família de marginais e escolhe um caminho de supremo sacrifico e dor, para se redimir, a si, à sua família, à Humanidade. Costigan quer abandonar o local do crime, aceita passar por provações várias, apenas para regressar ao local do crime. Esta viagem de ida e volta, ainda que de sinal contrário, é bem um símbolo de todo o cinema de Scorsese.
Numa sociedade onde progressivamente se vão perdendo lealdade e fidelidade, e através dessa ausência de valores se perde a própria identidade, onde tudo resvala ameaçadoramente ao sabor dos interesses, será o mais traidor dos traidores a ser nomeado para ir investigar quem é o infiltrado da máfia em terreno da lei. Suprema ironia, num filme onde o tom desencantado de Scorsese se encontra com o estilo seco, nervoso, violento e sem complacência de uma câmara que acompanha rostos e acções procurando captar sobretudo emoções e tensões. Onde através da aparência se tenta tocar no fundamental, no primordial. O nervo essencial. O tendão de Aquiles de uma sociedade doente. Onde não deixa de haver vítimas e mártires, ao lado de sádicos carrascos e maléficos cérebros que tudo corrompem. Com uma filosofia de vida muito concreta. Frank Costello: “Eu não quero ser um produto do meu ambiente. Quero que o meu ambiente seja um produto meu. Há anos atrás tínhamos a igreja. Ou, como quem diz, tínhamo-nos uns aos outros. Os “Cavaleiros de Colombus” eram autênticos quebra gelos; verdadeiras cobaias. Ocuparam a sua zona da cidade. Vinte anos depois de nenhum irlandês conseguir arranjar uma merda de um trabalho, estávamos na Presidência. Que descanse em paz. É isso que os negros não compreendem. Se tenho alguma coisa contra os pretos é esta: Ninguém de dá nada. Tens de ser tu a conquistá-lo.”
Um excelente filme, onde tudo é quase perfeito. Da fotografia à montagem, passando por uma banda sonora que serve na perfeição as intenções de Scorsese.


THE DEPARTED: ENTRE INIMIGOS (The Departed), de Martin Scorsese (EUA, 2006), comLeonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Alec Baldwin, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Kevin Corrigan, Mark Rolston, etc. 152 minutos; M/ 16 anos.

2 comentários:

Anónimo disse...

Já vi o filme e também gostei muito.
Que bem que escreve Lauro António.
Fiz hoje o post sobre cozinheiras e A Festa de Babatte.
Obrigado por tudo. Espero que não fique muito desiludido.
Beijinho

Paulo disse...

Um dos melhores filmes do ano, sem qualquer dúvida.