domingo, dezembro 24, 2006

NATAL, 5

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
"CARTA DE NATAL A MURILLO MENDES"


Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno e este dia.

Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
FERNANDO PESSOA
"NATAL"


Natal ... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Imagem: "Natal", de Beato Angelico, Museu de San Marco, Florença

4 comentários:

Ida disse...

Lindo o poema da Sophia. Obrigada pelo carinho. Beijo.

LA disse...

Ida, todos os carinhos para ti. E um Bom Natal.

Y. disse...

beijo____________________te.




(fugida mas não esquecida)

Rolls disse...

Desejo-lhe um bom Natal e um bom ano 2007!
Beijinhos
Ana Melo