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domingo, dezembro 23, 2007

NATAL DE 2007



NATAL DE 2007

Quando eu era pequeno, “fazer o presépio” era participar de um conto de fadas, aprender um passe de magia, ouvir uma lição de amor e humildade que nos poderia inspirar pela vida fora.
Era sobretudo uma festa e uma festa com um mistério muito especial. Arrancava-se o musgo das pedras da paisagem para levar para casa e cobrir o chão, imaginando-se montanhas e vales, e rios de prata azulada. Construía-se a cabana com troncos e palhinhas, colocava-se com delicadeza o menino de barro na improvisada manjedoura, São José e Maria eram a projecção do amor de pai e mãe que ali se arrumavam para velarem por nós. E vinha ainda lá do fim dos tempos o calor da vaca e do burrinho, e os Reis Magos que chegavam conduzidos pela Estrela que anunciava a Boa Nova. E surgiam, como por encanto, figurinhas de populares, com ofertas simples, pastores com ovelhas, a samaritana com o cântaro à cabeça, ao lado do poço da água gelada daquela noite de Dezembro…
Era assim o presépio quando eu era pequeno. Uma excitação que nos arregalava os olhos de magia. Algo que não se compreendia bem, que estava para lá do nosso entendimento, mas que nos aquecia o coração, que se prolongava pelos dias, até chegar a tal noite onde, em redor da camilha, com uma braseira aos pés, se comia a consoada e se esperavam algumas prendas. Livros, sobretudo livros, era a minha esperança, sempre concretizada.
Fui feliz, muito feliz, envolvido pelo calor do pai e da mãe, alguns anos depois também ao lado da irmã. Era uma família aquecida da noite fria. Havia problemas como em todo o lado, mas era feliz. Coisa bonita de se dizer, mas sobretudo de se sentir.
Nunca soube, nem sei, se haverá algo de divino neste entremez, anualmente repetido, mas do que não duvido é da sua poderosa força magnética. O Natal fazia-me sentir bem. Quando eu era pequeno. Era frio e era quente, era gelado e tórrido, uma mistura magnifica que nunca esquecei.
Fui mantendo a tradição abnegadamente. Sem esforço. Com prazer. Ano após ano. O presépio nunca deixou de estar presente, ali no canto da sala, e sempre amorosamente retocado. A árvore de Natal, o Pai Natal, as filhozes, os bilharacos (sempre com a receita do pai), a consoada, o sacrificado peru, e o bacalhau da tradição… As crianças fazem-se homens, os filhos fazem-se pais, os pais vão ficando pelo caminho, mas o Natal continua marcando a esperança em algo de imutável. Será assim?
O olhar dos homens vai mudando. A magia vai cedendo a insinuações cada vez mais constantes. E torpes. Arrancam-nos a inocência dia a dia. É preciso desconfiar de tudo.
Olha-se agora o presépio e percebe-se que as figurinhas foram compradas numa loja de 300, já não feitas à mão, mas reproduzidas em moldes made in China. As decorações foram mesmo compradas numa outra loja chinesa e são o reflexo de trabalho escravo infantil. Olha-se a cabana em baclite e, lá atrás, dois políticos discutem se aquele é ou não terreno de Israel ou da Palestina. Como não conseguem chegar a um acordo, ameaçam, e cumprem a ameaça, com bombas que reinvidicam o território. E assassinam milhares.
Os três Reis Magos entregam ouro, incenso e mirra, mas nenhum deles chegou desinteressadamente por montes e vales, conduzidos por uma estrela. Todos vieram em jactos particulares e saíram das suas tendas oficiais há coisa de minutos. Os camelos são o exotismo que vende. É tudo uma montagem, uma encenação para impressionar os espectadores das dezenas de cadeias de televisão que cobrem o acontecimento.
Uma delas tentou o exclusivo, ofereceu milhares de dólares, euros ou rublos, mas não conseguiu. Aliás, esta cimeira destina-se a incrementar sobretudo os negócios. São homens de negócio que acodem ao chamamento. Disputam mercados e influências políticas e estratégicas.
O único pastor que por ali anda, balouça na mão direita um leitor de CDs e ouve Quim Barreiros. Um dos Reis, ditos Magos, publicita uma afamada marca de champanhe que se consome muito nesta quadra. O outro, tenta vender com soberba o seu petróleo, e ao terceiro descobriram olhares maliciosos e lúbricos, que levaram alguns a chamar-lhe pedófilo. Disfarçado.
A estrela? Não há estrela nenhuma, mas apenas um cintilante e pouco discreto satélite norte-americano que vai fotografando o evento. A CIA desconfia de armas nucleares.
Um grupo de senhoras, de uma qualquer organização dita moralista, parodia a um canto, sonoramente, o facto de Maria ter concebido sem pecado, e discorrem sobre situações várias, donde, em nenhuma delas, São José sai beneficiado.
A vaca é louca, afirmam as autoridades sanitárias, e o burro é mesmo burro, se não, não se prestaria a tal preparo. Tão burro que dois oficiais das finanças se preparam para o penhorar como veículo de transporte prioritário.
Num letreiro avisa-se: “É proibido fumar.”
Nem o menino está a salvo das iras de um grupo de jovens ecologistas que grita que o milho é trangénico e quer incendiar as palhinhas. Maria socorre-o e ampara-o no seu colo.
Esquecia-me do anjo. Que faz ali pespegado de asas abertas? “O que é um anjo?”, pergunta a criança à mãe que atende o telemóvel? E esta responde: “Alguém que nos guia na vida.” “Assim uma espécie de GPS?”, conclui a miúda.
Afasto de mim esta imagem e persisto no meu Natal de criança. Será ainda possível? Quero a inocência do musgo arrancado das rochas da montanha com uma faca da cozinha levada de casa. Quero o frio e o calor que sabem bem. Quero a minha infância de volta, quero essa idade aberta à esperança. Quero-a para mim e para as outras crianças. Quero que elas não percam a magia que me conduziu até aqui. Quero lá saber que as figurinhas tenham sido compradas numa loja de 300 e já não sejam de barro cozido à mão. O que eu queria sobretudo era acabar com o trabalho infantil escravo. Que existia há 2000 anos e permanece, apesar das prescrições da ASAE. O que eu desejava era que as crianças nascessem livres e iguais em direitos. E deveres. E fossem homens, e fossem velhos (velhos, sim!, não seniores ou da terceira idade) e fossem dignos. Para consigo e para com os outros. E houvesse Natal, todos os anos. E o espírito do Natal se estendesse por todos os dias dos anos. E que o Natal, divino ou não, fosse sobretudo humano.

Lauro António / Dezembro de 2007

(com votos de um Feliz Natal para os amigos bloguistas

e os leitores que por aqui passarem.)

imagens de Madonas de Tipolo, Perugino, Botticelli e Rafael.

Quero agradecer emocionado as transcrições

da Bandida, Sony Hary, Branco e Azul e Alexandra,

e as palavras que tenho recebido sobre este texto.

Obrigado a todas/os.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

UM FELIZ E PRÓSPERO 2007

gosé t

Uma proposta de "Feliz Ano Novo" inteiramente pirateada.
Um belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade, que a Isabel Victor tem no seu blogue “Caderno de Campo”, e um poema-canção, brasileiro, que a Inominável colocou no seu “Ponto de Saturação". E uma garrafa de champanhe da garrafeira do Tomás Vasques, no “Hoje Há Conquilhas.”
A ideia desta “piratagem” é mostrar como se pode ser solidário neste enorme conglomerado de palavras, ideias e emoções, e reunir amigos, uns aqui nascidos, outros que já vêm detrás.
Não me digam que é fácil ser-se solidário com o que é dos outros, estou aberto a todo o tipo de idêntica piratagem. :)
Um Feliz e Próspero 2007 para todos.


Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.
in http://www.releituras.com/drummond_dezembro.asp
posted by isabel victor at 7:52 PM 0 comments



O tempo que a gente perde pela vida a correr
O tempo que a gente sonha que é chegar e vencer
O tempo faz de nós um copo p’ra beber em paz
O tempo é um momento para nunca mais

O tempo mesmo agora fez a terra girar
O tempo sem demora traz as ondas do mar
O tempo que se inventa quando nunca se é capaz
O tempo é um carro novo sem a marcha-atrás

Voei p’ra te dizer
Sonhei p’ra te esquecer
Eu sei não vais parar para eu crescer
Eu sei esperei demais

Música: Donna Maria
Letra: Miguel A. Majer

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O NATAL CONTINUA


“Natal devia ser todo o ano”, ou “Natal é quando um homem quer”, afinal são máximas que se podem concretizar, lendo o jornal. Por exemplo, no DN de hoje, 28.12.2006, sob o título “Jovem dá à luz em comboio Lisboa-Porto”, Ilídia Pinto escreve:

“O revisor e os funcionários da carruagem-bar do comboio Intercidades número 521, que faz a ligação entre Lisboa e o Porto, com partida diária de Santa Apolónia às 8.55, viveram ontem momentos únicos de ansiedade, mas também de alegria, quando uma passageira deu à luz uma menina em plena viagem. O parto, que não durou mais de dez minutos, aconteceu à chegada à estação de Vila Nova de Gaia e foi assistido por um enfermeiro de Coruche que viajava no mesmo comboio. Mãe e filha encontram-se bem de saúde.
Mariana, assim será baptizada, nasceu com 3,270 quilogramas, cerca das 12.30, à chegada à estação de Vila Nova de Gaia. Segundo o revisor de serviço ao Comboio Intercidades 521, a jovem mãe, Sandra Rodrigues, dirigiu-se à carruagem-bar "logo que a composição saiu da estação de Espinho, pediu uma água e sentou-se". Dois ou três minutos depois, a senhora começou-se a queixar com dores e foi feito um anúncio pela instalação sonora do comboio questionado se haveria algum médico ou enfermeiro presente, explicou ao DN Jaime Serdoura. E adiantou: "Eram então cerca das 12.15 e estaríamos a passar na Granja ou na Aguda".
À chamada pela instalação sonora respondeu um enfermeiro residente em Coruche - José da Cunha - que se revelou o herói do dia, assegurando todo o processo de nascimento da pequena Mariana. "Foi ele que assistiu a senhora durante o parto. O Instituto Nacional de Emergência Médica foi chamado para que aguardasse a chegada do comboio na estação de Vila Nova de Gaia, mas a menina nasceu precisamente à paragem do comboio na estação. Os paramédicos subiram então já só para verificar o estado de saúde da mãe e da bebé e para as transportarem ao hospital", acrescentou o revisor.
A jovem mãe, de 21 anos, estava grávida de oito meses e meio e viajava sozinha. "Sabemos apenas que este é o seu segundo filho. A identificação da senhora foi, depois, feita pelos serviços hospitalares", referiu, ainda, Jaime Serdoura. Ambas estão internadas no serviço de Obstetrícia do Hospital de Gaia, onde foram visitadas por um agente da CP que transportava, especialmente para a Mariana, um ramo de flores. A CP - Caminhos de Ferro de Portugal tem prevista uma segunda iniciativa de felicitações à menina à sua jovem mãe, mas ainda está a estudar qual a medida mais apropriada.
Certo é que Jaime Serdoura, revisor há 20 anos, nunca mais esquecerá este dia. "Sou pai e avô mas é a primeira vez que ajudo ao nascimento de um bebé num comboio. Fica marcado na história da minha vida. Em dez minutos, fez-se tudo o que se podia e ficamos muitos felizes em saber que estão bem".

Só uma pequena correcção: Natal não é quando um homem quer. Tem de ser também quando a mulher quer. Se calhar, ultrapassa mesmo a vontade de um e outro. Às vezes é quando um homem e uma mulher não esperam. Mas esta carruagem-bar do Intercidade à passagem pela estação de Gaia devia parecer mesmo um presépio. Sem as figuras tradicionais, mas com o mesmo espírito de fraternal entreajuda.

imagem: "Madonna del parto", de Piero della Francesca (1420?-92)

quarta-feira, dezembro 27, 2006

OBRIGADO E BOM ANO

Um muito obrigado a todos os que enviaram
votos de Boas Festas e Feliz Natal,
recebidas em comentários e por mails.
Que as entradas no Novo Ano sejam as mais auspiciosas
e que todos os desejos se cumpram!
Enfim, se calhar nem era preciso todos, todos.
Bastava Paz, Saúde, Amor e Pão
(e já agora um dinheirito para livros, filmes, músicas,
umas viagens, umas festarolas,
nada de muito sumptuoso.
- O quê? Já estamos a pedir demais?
Ok, Socrates! Ficamos pelo essencial,
com promessas de melhores dias!)


Pode ter este calendário, tamanho BIG, aqui

segunda-feira, dezembro 25, 2006

NATAl, 7


LADAINHA
DOS PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
David Mourão Ferreira
Imagem: Tara Mcpherson, "The Pallor of Pear", 2006 (in "Ante & Post)

NATAL 2006 - BÉNARD DA COSTA

Em “A Casa Encantada”, que João Bénard da Costa semanalmente visita no "Público", podia ler-se esta semana:

“Este Natal surgiu um imprevisto. As minhas netas mais novas - a Vera de seis anos e a Leonor de oito - chegaram da escola bastante perturbadas. A professora - custa-me chamar-lhe assim, mas parece que é essa a profissão que lhe dá alimento - dissera-lhes que essas histórias de Natal, Pai Natal, presentes e Menino Jesus eram tudo tretas e que estavam em boa idade de deixar de acreditar nelas. As mães respectivas esforçaram-se a convencê-las que elas tinham percebido mal e que, em 2006, como em todos os Natais de que elas se lembram, o Menino Jesus voltaria a pôr-lhes nos sapatinhos os presentes que elas pedissem e merecessem. Ambas verificaram que foram vencedoras fáceis. Não pelos argumentos que usaram, não pela natural superioridade da palavra materna sobre a palavra escolar, mas porque elas queriam ser convencidas, porque elas não queriam outra coisa senão continuar a acreditar. Espero bem que este ano, talvez pela última vez, elas acreditem e que o Natal ainda seja para a Leonor e para a Vera aquele momento mágico em que tudo pode acontecer, porque se acredita que tudo pode acontecer.
Mas perguntei-me por que é que em três gerações (a minha, a dos meus filhos e a dos meus netos) era a primeira vez que a origem dos presentes de Natal não resultava de uma descoberta própria - mais ou menos dolorosa, mas própria -, mas fora denunciada por uma "professora", ou por alguém que ocupa essas funções, que se achava no direito -talvez no dever - de desmentir os país e de entrar na esfera privada da vida das crianças que é suposto educar.
Ignoro se a professora tem convicções ou as não tem. Suponhamos, no segundo caso, que ela resolve um dia dizer às crianças que essa história de Deus é outra leria, e as exorta a não acreditar em nada. A hipótese, agora, já não me parece nada inverosímil.”

O comentário que a seguir farei necessita de ser enquadrado
1º Fui, sou e gostaria de continuar a ser professor. Acho a profissão (melhor ainda: vocação) de profissão algo de magnifico. Por isso tenho pelos professores o maior dos respeitos e da admiração. Só idêntico ao desprezo que tenho pelos maus professores. Que os há, cada vez mais em maior número.
2º Não tenho uma particular estima pelo João Bénard da Costa. Acho que escreve brilhantemente, defende com argúcia e elegância tudo o que gosta, mas é um mau director de cinemateca, e um megalómano indesculpável que caminha a passos largos não sei para onde (um dia falarei do volume que consagrou ao excelente ciclo ‘Como o Cinema Era Belo’, da Fundação Calouste Gulbenkian, onde só falta dizer que inventou o cinema!). Mas desta feita tem razão, com em quase tudo o que defende. Pena é que tudo o que não gosta, não exista.
Falando do acontecimento que está na base deste comentário, não deixa de ser lamentável que uma chamada professora exerça uma tamanha prepotência e violência sobre os alunos. Se se pode defender a laicidade nas escolas, não é para impor uma nova religião, é para permitir a liberdade de escolha. Liberdade que não se compadece com atitudes patéticas de uma ditadora de pacotilha que quer impor aos alunos a sua visão do mundo.
Pois é Bénard da Costa: o mesmo se passa na Cinemateca Portuguesa e o mesmo se passa com a sua visão estética do cinema. Era bom que deixasse aos outros a liberdade de escolherem os seus próprios “deuses e santos” e de não impor os seus a toda a gente.

Voltando aos professores: mais dia, menos dia teremos greves gerais “contra” os professores. Contra alguns pelo menos. É que os exemplos de maus professores vão-se multiplicando.

NATAL, 6

DAVID MOURÃO-FERREIRA
"NATAL UP-TO-DATE"

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década.

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável que se apresentem nuas.

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco.

Imagem: "Natal", de Sandro Botticelli

domingo, dezembro 24, 2006

TRÊS NATAIS




NATAL, 5

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
"CARTA DE NATAL A MURILLO MENDES"


Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno e este dia.

Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
FERNANDO PESSOA
"NATAL"


Natal ... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Imagem: "Natal", de Beato Angelico, Museu de San Marco, Florença

UM QUENTE E FELIZ NATAL


Neste dia, Votos de um Feliz Natal.
Amigas e Amigos,
que já conhecia,
que vim a conhecer,
que conheço só pelos blogues,
que crêem,
que não sabem se crêem,
que descrêem,
que gostam do Natal,
que desconhecem o prazer de gostar do Natal
(prazer, apesar de tudo o que fazem
para lhe desvirtuar o seu espírito),
que sofrem,
que amam,
que nada têm,
que saboreiam a alegria,
que precisam de calor,
mas sobretudo
todos os que necessitam
que seja Natal todo o ano.
Recordações de um Natal em "Natal em Alcochete"
Imagem: "Natal", de Gerard Hornebout

sábado, dezembro 23, 2006

NATAL, 4


MIGUEL TORGA
"NATAL"

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Imagem: "Mural"

sexta-feira, dezembro 22, 2006

NATAL, 3


ANTÓNIO GEDEÃO
"NOITE DE NATAL"


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças.
de falar e de ouvir com mavioso tom.
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem.
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria.
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
Numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela vépera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura.
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a cairem ao chão como se fossem mortas:
tá - tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá- tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caiam
crivados de balas.

Dia de Confratenização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Imagem: "Natal" (1492) , de Domenico Ghirlandaio (n. Florença, 1449; m. Florença, 1494)

quinta-feira, dezembro 21, 2006

NATAL, 2

qui

JOSÉ RÉGIO
"NATAL"


Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, - do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos - não uma vez, mas cada -
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos;
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárneos e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lages;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos.
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, - e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos calar a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

Imagem: "Natal, à noite", de Geertgen (1460/65, Leiden; 1490, Haarlen)

Óleo, 34 x 25 cm National Gallery, Londres

quarta-feira, dezembro 20, 2006

NATAL, 1


ANTÓNIO NOBRE
"O MEU NATAL"


A noite de Natal. Em meu País, agora,
O que não vai até romper o dia, a aurora!
As mesas de jantar na cidade e na aldeia
à luza das velas, ou à luz duma candeia,
entre risadas de crianças e cristais
(de que me chegam até mim só ais, só ais!).
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
pondo de parte ódios,torturas, aflições,
que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
são todas em redor de uma toalha de linho!
Imagem: Adoração dos Magos, de Vicente Gil (1498 / 1518)
Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, Portugal

CINEMA E HISTÓRIA



MARIE ANTOINETTE,
“LOST IN VERSALHES”

“Marie Antoinette”, de Sofia Coppola, é, para mim, um filme extremamente interessante e uma obra de arte particularmente curiosa como reflexo do seu (nosso) tempo. Acredito que há muitos puristas da “verdade histórica” a quem vá chocar esta visão histórica de uma Marie Antoinette aparentemente muito pouco ortodoxa. O filme de Sofia Coppola desarma logo pelo “loook” que não se assemelha em nada ao dos filmes “históricos” que normalmente são soturnos e “pesados”, com uma iluminação ténue, privilegiando as zonas de sombras intensas, o que deve ser sintoma de dois aspectos que se reúnem para o efeito: um filme “histórico” penetra numa zona de penumbra da História, “portanto” deve ser mal iluminado; por outro lado, a escuridão facilita a reconstituição, vêem-se menos coisas, logo podem ficar na escuridão adereços indesejáveis. O filme de Sofia Coppola rompe com esse esquema e irrompe com uma luz que quase chega a encadear o espectador. Ou não estivéssemos em Versalhes, na corte que foi de um rei, Luís XIV, que se auto proclamou “Rei Sol”. O seu descendente Luís XVI, e a sua mulher Marie Antoinette, também quiseram gozar um pouco dessa luz e desse fausto, mas acabaram de forma bastante desagradável, como é do conhecimento de todos.
(este é o início de um longo texto meu a aparecer na revista "História" de Janeiro de 2007. Completam o texto, uma filmografia sobre "Maria Antonieta no Cinema e na Televisão", e uma curta bibliografia. À semelhança dos últimos quatro anos, onde todos os meses tem surgido um texto dobre "Cinema e História".)

Maria Antonieta em livro
Sobre a figura de Maria Antonieta parecem existirem algumas obras essenciais de um ponto de vista histórico. Digo parecem porque algumas delas não as li, apenas delas tenho um conhecimento por terceiros. Mas tudo aponta para que “Maria Antonietta, The Journey”, de Antónia Fraser (2001), seja um título indispensável, como o foi para Sofia Coppola (ler um interessante e informadíssimo artigo de Antona Fraser, “Sofia’s Choise”, no “Vanity Fair”, de Novembro de 2006, pags. 142 a 146, será uma óptima aproximação do livro e do filme e da forma com um terá influenciado o outro).
Os trabalhos de André Castelot, “Marie Antoinette” (1962), Walter Gérard, “Procès de Marie Antoinette” (1999), Gustave Leonotre, “La Captivité et la Mort de Marie Antoniette” (1897), os de Pierre de Nolhac, “Autour de la Reine” (1896), “La Reine Marie Antoinette” (1951), “Les Jardins de Versailles” (1906) e “Le Trinon de Marie Antoinette” (1914) e ainda o célebre “Marie Antoinette”, de Stefan Zweig (1933) devem merecer toda a atenção, mesmo que muitas vezes as interpretações possam parecer diversas, quase opostas.
Recentemente saíram em Portugal duas obras que tive oportunidade de ler e que, não sendo absolutamente indispensáveis, são interessantes.
“Maria Antonieta”, de Catalina de Habsburgo (Ed. A Esfera dos Livros, 2006), é uma reflexão em torno da figura da Rainha (e também de Luís XVI), com o seu quê de discreta parcialidade. Discreta a tender para indiscreta. Catalina é arquiduquesa de Áustria, descendente directa de Carlos V, neta do último imperador da Áustria, e ainda ligada por afinidades familiares a Maria Antonieta. O seu retrato da “Delfina” denota investigação histórica (ela é licenciada em Ciências Politicas e autora de outras obras sobre personagens históricas, como Napoleão, Bismark e Margaret Thatcher, que escolha!), mas um óbvio “interesse” numa tese determinada. A sua origem aristocrática e “imperial” não a deixam não defender a realeza e branquear a figura dos reis, particularmente o da jovem rainha.
“O Diário Secreto de Maria Antonieta”, de Carolly Erickson (Ed. Aletheia, 2006) é o que se chama um “romance histórico”, uma ficção baseada em factos históricos, mas que parte logo de uma hipótese: e se o padre Kunibert tivesse sugerido à jovem princesa a escrita de um “Diário” onde arquivasse todas as considerações sobre a sua vida e o seu tempo? Pois, admitindo que assim seria, o resultado poderia ter sido este, se a princesa tivesse cultura e formação para o fazer. Um romance que se lê com agrado, vivo, emocionante, com descrições interessantes dos principais percursos da vida de Maria Antonieta e do seu tempo histórico. Carolly Erickson é historiadora e biografa, com outras obras sobre “Alexandra, a Última Czarina”, e “Catarina, a Grande”.

terça-feira, dezembro 19, 2006

BOAS FESTAS, DAQUI PARA O MUNDO


BOAS FESTAS
UM NATAL DE PAZ
UM 2007
À MEDIDA DE TODOS