Na tarde cálida, a terra castanha, de um castanho sangue, de uma castanho magoado, dorido.
Terra desentranhada, esventrada, cortada pelos golpes das enxadas, que abriram a vala.
Para se cumprir de novo o ritual, as enxadas subiam ao céu, e em rasgões certeiros, rigorosos, hipnóticos, desciam rápido à terra, enterravam-se nela, golpeavam, e num movimento súbito, ritmado, ritualizado, ganhavam força, suspendiam a terra-sangue no alto e faziam-na tombar nesse vão assombrado que medeia entre a memória e o esquecimento.
“Doutor, afaste-se”, ouvi dizer. Não me afastei, aguentei firme o golpear da terra, inebriado, a enxada a subir e a descer silvando, a enterrar-se na terra, a salpicar de dor o fato, a chicotear o sobretudo cinzento escuro, alguma bate-me de raspão na face, outra fulmina os presentes, e a enxada continua a carregar pelo ar blocos de terra castanha, sangrenta, sequiosa de vida e de morte para nova vida.
O rasgão aberto nessa terra-mãe está finalmente repleto, saciado de uma terra de um castanho pesado, duro, sangrento. São blocos soltos, de terra livre que respira, antes de, mais tarde, no silêncio dos actos que se escondem, ser rebatida, martirizada, espalmada, comprimida. Agora, ali fica à aragem da tarde, repleta de flores circunstanciais.
Comigo trago nos ouvidos o silvar das enxadas subindo ao céu com veemência, descendo depois à terra num bailado de uma violência ritualizada, vital. São quatro enxadas que sobem e descem, compassadas. Fulminantes. Da terra à terra. Cada gesto, o rasgar da memória. De golpe certeiro.























