sábado, março 03, 2007

TEATRO EM LISBOA - Frozen



FROZEN - PRESOS NO GELO


Na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, “Frozen - Presos no Gelo”, a peça da britânica Bryony Lavery, é um espectáculo a não perder. Aborda questões essenciais como a vida e a morte, o pecado e a culpa, a vingança e o perdão, tendo como base o caso de um “serial killer” pedófilo que rapta, abusa sexualmente e mata uma miúda. Uma entre várias, mas é dessa que vamos acompanhar a dor da mãe, a sua relação com o assassino e com uma psicóloga que estuda o comportamento de “serial killers”.
Marcia Haufrecht, especialista no “Método” de Lee Strasberg, foi a encenadora, que sobre esta obra disse: “Tinha visto a peça representada em Nova Iorque e quando a Lídia Franco me pediu para pensar num texto que ela pudesse representar, e que ainda não tivesse sido feito em Portugal, este veio-me à cabeça. Tem um tema muito poderoso que, necessariamente, causa algum sofrimento aos actores.” “Aliás, acho que isso acontece na construção de qualquer espectáculo...”, acrescenta. “O sofrimento é inevitável. É verdade que aqui todas as personagens têm de se confrontar com perdas pessoais dolorosas, mas até nas comédias se sofre porque a maior parte delas tem como tema profundo as grandes tragédias humanas...” Marcia Haufrecht não pretendeu, portanto, um melodrama social, mas uma visão de um microcosmo da Humanidade com a sua complexidade própria, onde a tragédia e o humor coabitam, onde o desespero e a esperança andam lado a lado.
A peça funciona quase como três monólogos entrecruzados, em que cada personagem vai contando, a espaços, a sua razão de ser e fala dos seus propósitos. A encenação é sóbria, sem nada de muito especial a fazê-la sobressair. O que conta, e nisso o “Método” tem as suas vantagens, é o trabalho dos actores. Bruno Schiappa é Ralph, o assassino, de corpo tatuado e alma desfigurada, um obsessivo-compulsivo metódico, obcecado com a limpeza, meticuloso e explosivo quando contrariado. Quase sem se aperceber do que faz, sempre que a oportunidade surge, empurra uma miúda para dentro da sua furgoneta, leva-a consigo, grava as “conversas” com elas em vídeo, viola-as e mata-as, sem sequer perceber por que esta “actividade” é ilícita. É isso que a Drª Agnetha Gottmundsdottir, como psicóloga, e Nancy, mãe de uma das suas vítimas, vão tentar “ajudá-lo” a perceber. Vão também elas “torturá-lo” à sua maneira. É Lídia Franco quem interpreta Nancy, a mãe amargurada pelo desaparecimento da filha, depois destruída pela sua morte, finalmente vingada no confronto pessoal com o assassino. Para encontrar uma finalidade para a sua solidão e dor, inscreve-se numa associação de pais que perderam os filhos. Só vinte anos depois descobre a verdade, que Rhona, a filha desaparecida, morrera às mãos de um pedófilo coleccionador de cadáveres.
Suzana Borges é a mulher que dedica a vida a tentar perceber como funciona a mente de um assassino em série. A sua teoria é a de que os “serial killers” nem sempre são “pessoas más”, muitas vezes são apenas pessoas traumatizadas, também elas ofendidas, mal tratadas, que não sabem distinguir o Bem do Mal. Bruno Schiappa tem aqui “o” papel da sua vida (pelo menos até agora, e dentro do que dele vi). Um trabalho absolutamente invulgar, que vai desde a forma como assume o seu corpo, como interioriza a personagem, como fala, como persiste nos tiques, como lentamente vai deixando crescer a angústia e a instala em seu redor. Lídia Franco é igualmente brilhante, num dos melhores papeis que dela vimos (disse-lhe no final da sessão como gostaria de a dirigir em Blanche DuBois, de “O Eléctrico Chamado Desejo”, que ela faria brilhantemente, tenho a certeza). Suzana Borges, que muito admiro de obras anterior, é mais irregular, mas tem momentos muito bons, nesta representação de actores, num palco quase nu, onde as emoções se dilatam até extremos quase insuportáveis. Muito bom, ainda que doloroso. Mas a dor, em arte, pode ser um bom trampolim para o conhecimento de nós próprios.

2 comentários:

Ana Paula disse...

Vi uma reportagem sobre esta peça e, desde logo, pareceu-me muito interessante. Com uma temática carregada de densidade psicológica. Faço minhas as suas palavras,L.A.: "A dor, em arte, pode ser um bom trampolim para o conhecimento de nós próprios."
A.P.

M.M. disse...

Ainda não tive oportunidade de ir ver.
A Lídia tb ficou fã das Pedras, e falou-me numa possível colaboração. Seria interessante, quem sabe.