sexta-feira, maio 18, 2007

AUGUSTO BOAL



A PAIXÃO E A ARTE
[…] A arte pode ser entendida de muitas maneiras. Eu prefiro dizer que a Arte, qualquer arte, é sempre um conjunto de sistemas sensoriais que permitem aos seres humanos – e só a eles! – fazer representações do real!
[…] Mesmo os primeiros pintores rupestres que, nos tetos de suas cavernas, pintavam bisontes, leões e outros animais, mesmo eles sabiam que uma coisa é o real e outra, diferente, sua representação pictórica: sem medo, o pintor cavernícola se aproximava do chifre e do dente da fera, quando pintada, mas fugia assustado do seu modelo, solto no descampado.
As artes são representações do real, não são o real: mas, que real é este que elas representam? Existem artes, como a pintura, que organizam a forma e a cor, no espaço. E existem artes, como o teatro, que organizam ações humanas, no espaço e no tempo.
Se nisto consiste a Arte – na organização e na representação do real – e se o teatro representa ações humanas, quais destas ações serão dignas da representação teatral?
Evidentemente, só aquelas nas quais os seres humanos revelam suas paixões. Lope de Vega, escritor espanhol do Século de Ouro, costumava dizer que o essencial ao teatro são dois atores, um tablado e… uma paixão.
Mas… o que é a Paixão? A Paixão, como a Arte, pode ser definida de muitas maneiras; eu prefiro dizer que a paixão é cada um dos sentimentos extremos dos quais o ser humano é capaz. O amor e o ódio, a busca de um ideal e a solidariedade fraterna, a curiosidade científica e a realização esportiva podem ser paixões, se forem extremos. O artista, quando o é de verdade, é um apaixonado.
É preciso reabilitar a Paixão, restaurar seu sentido primeiro de força vital, danificado pela semântica que faz da palavra grega pathos a origem de paixão e patologia.
Paixão não é sofrimento, não é doença: é vida! A Paixão de Cristo não foram doze quedas, percalços no caminho do Calvário: Paixão era a sua determinação em realizar o desejo do Pai e salvar o ser humano do pecado original.
Quem vos fala não é um religioso: é um apaixonado! Sou um homem apaixonado pelas paixões, e juro que não são elas que causam meu sofrimento: são os obstáculos que entre mim e elas são erguidos.
Não é a paixão de Romeu e Julieta que os faz sofrer e lhes traz a morte: é o ódio voraz entre Montequios e Capuletos, suas famílias latifundiárias, seus sequazes e capangas, que lutam por mais terra e mais poder.
O obstáculo faz sofrer: a paixão vivifica! Foi a paixão de Che Guevara que o levou à felicidade cubana; foram os obstáculos imperialistas que o levaram à morte boliviana. Foi a paixão do Tiradentes que o levou à Inconfidência Mineira; foi D. Maria, a Louca, que o levou à forca!
A paixão faz sofrer, é certo; não, porém, porque seja paixão, mas por ser libertária!
O ser humano, na sua luta inclemente contra a Natureza, luta pela sobrevivência e pelo gozo, pelo seu legítimo desejo de fruir a vida, que é tão fugaz – desejo que é nosso direito e dever!
Augusto Boal, in “O Teatro como Arte Marcial”

3 comentários:

Anónimo disse...

A paixão faz sofrer, é certo; não, porém, porque seja paixão, mas por ser libertária!
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obviamente sagesse!!!!!!!!!!!!



beijos Lauríssimo.

e tb à M.



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piano.

isabel victor disse...

"Paixão não é sofrimento, não é doença: é vida!"

Mas faz sofrer ...

Bjs * em noite de MUsas e MUseUs

isabel

CAO1/APPACDM - Setúbal disse...

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