domingo, novembro 18, 2007

CINEMA: AMERICAN GANGSTER

AMERICAN GANGSTER

Ridley Scott é um competente e respeitado cineasta norte-americano, autor de algumas obras extremamente curiosas, entre as quais se podem citar “The Duellists” (1977), “Alien” (1979), “Blade Runner”, sobretudo este (1982), “Someone to Watch Over Me” (1987), “Black Rain” (1989), “Thelma & Louise”, este também, claro (1991), “1492: Conquest of Paradise” (1992), “Gladiator”, de que gosto muito (2000), “Hannibal” (2001), “Black Hawk Down” (2001), “Matchstick Men” (2003), “Kingdom of Heaven” (2005) e agora este “American Gangster” (2007).
Vistas assim de relance, ressalta que o melhor da sua obra tem por cenário o mundo do crime organizado, com uma ou outra estimável incursão pelos terrenos da reconstituição histórica. Não lhe é igualmente estranha a fantasia inscrita na ficção científica e uma ou outra experiência, menos feliz, diga-se de passagem, pelas trincheiras da guerra. Mas globalmente o seu cinema é musculado, enérgico, violento, bem ritmado, nervoso, roçando a atmosfera ameaçadora e claustrofóbica de um fim de mundo planetário.
Isso mesmo se pressente em “American Gangster”, que, partindo de uma artigo de revista ("The Return of Superfly", de Mark Jacobson), e baseando-se em factos reais, reconstitui uma boa parte da vida de um dos mais célebres gangsters norte-americanos, Frank Lucas, o “The Superfly”, que criou um império em Nova Iorque, baseado na droga, após a morte de Ellsworth Raymond, conhecido por Bumpy (1906–1968), de quem era motorista e guarda costas. Inteligente, arguto, frio, pragmático, calculista, de rosto imperscrutável, sereno, mesmo nas súbitas e rápidas decisões que era obrigado a tomar, Frank Lucas tornou-se rapidamente senhor das ruas de Nova Iorque, admirado no Harlem, generoso chefe de família, amigo de celebridades do mundo do espectáculo e do desporto, da política e das instituições nacionais, companheiro de mafiosos de todas as origens, incluindo dos italianos, que subalternizou.
Nascido em 1930, na Carolina do Norte, foi no final da década de 60, inícios da de 70 que introduziu novas regras no disputado mercado de drogas. Estudioso das técnicas de marketing e publicidade, certamente conhecedor dos melhores processos de gestão, para ele o cliente estava acima de tudo: havia que se lhe reservar o melhor produto ao mais baixo preço. Criara assim uma competitividade sem precedentes. O seu pó, com a marca “Blue Magic”, era uma heroína cem por cento pura, como não se vira antes no mercado, e vendida a metade do preço. Facilmente se tornou um imperador, sem concorrência. Por isso mesmo invejado, cobiçado, prontamente colocado na mira de rivais sem escrúpulos (!?).
Qual a sua descoberta? O “produto” que era distribuído na América estava falsificado em percentagens variáveis. Ele iria arranjar produto cem por cento limpo, puro. Para isso havia que ir à fonte. A fonte eram as plantações do Vietname, onde na altura os americanos combatiam. Frank Lucas desloca-se ao Vietname, encomenda uma carga monumental, e não se preocupa com o transporte: serão os aviões militares norte americanos a transportá-la. Na América, ele naoq uer enriquecer de um dia para o outro. Basta-lhe de uma semana para a outra. Por isso baixa o preço do produto. Ganha o mercado. Ganha também mansões que paga a pronto e para onde convida a família que viaja da Carolina da Norte com armas e bagagens. Ou melhor, sem nada disso, que não precisavam. Umas e outras Frank Lucas lhes irá fornecer à chegada a N.Y., bem como empregos que escondam a distribuição o produto. Tem estatuto ainda para “escolher” para esposa uma Miss de Porto Rico que não hesita um minuto perante o convite. Claro que ao domingo vão todos à missa.
O filme é um bom entretenimento, acompanha-se com agrado, e reserva-nos algumas revelações muito curiosas sobre o papel de parte das tropas americanas no Vietname. Não todas, claro. Muitos morreram sem sequer desconfiarem do que se passava. Mas uma boa parte, entre duas rajadas de napalm a varrer aldeias do Vietcong, consumiam droga e prostitutas, ficavam dependentes de heroína, ópio e doenças venéreas, e ainda tinham tempo para comprar droga pura e colocarem-na nas ruas americanas, sem pagar taxas de importação, pois vinha em aviões militares que assim se transformavam em voos comerciais, que transportavam no seu bojo não só os que morreram no Vietname mas também os que iriam morrer na América. Instrutivo.
Nesse aspecto esta obra é uma pedrada no charco. Tardia mas ainda a tempo de se perceber o que quase sempre as guerras em nome de virtudes e princípios escondem por detrás da fachada legal.
Por outro lado, nas polícias estatal e federal, temos também alguns bons e muitos, mas mesmo muitos, mafiosos, comprados pelas “famílias” locais. Richie Roberts, em processo de divórcio, olhado com desconfiança pelos colegas por ser honesto, por ter entregue à policia muitos milhares de dólares que encontrou, um tipo arrufiado, mal e porcamente vestido, é o escolhido para enfrentar o crime organizado e chefiar a Brigada anti droga de Harlem, dando inicio à caçada ao “homem mais perigoso que anda nas ruas da nossa cidade”.
Denzel Washington é Frank Lucas e Russell Crowe é Richie Roberts. Não me admira que ambos apareçam nomeados, sobretudo o primeiro, notável na sobriedade e na violência contida. Mas há muito mais para satisfazer os jurados da próxima atribuição dos Oscars da Academia, onde “American Gangster” deve ficar bem colocado. Não será uma obra-prima, mas dignifica o cinema americano e uma certa consciência cívica liberal dos EUA. Que assim seja.
AMERICAN GANGSTER
Título original: American Gangster
Realização: Ridley Scott (EUA, 2007); Argumento: Steven Zaillian, segundo artigo de Mark Jacobson ("The Return of Superfly"); Música: Marc Streitenfeld; Fotografia (cor): Harris Savides; Montagem: Pietro Scalia; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Arthur Max; Direcção artística: Nicholas Lundy; Decoração: Sonja Klaus, Leslie E. Rollins, Beth A. Rubino; Guarda-roupa: Janty Yates, Maquilhagem: Belinda Anderson, John Caglione Jr., Don Kozma, Craig Lyman, Bernadette Mazur, Diana Sikes, Kenneth Walker; Direcção de produção: Jonathan Filley, Teresa Kelly, Branko Lustig, Lyn Pinezich; Assistentes de realização: Noreen R. Cheleden, Betsy Friedman, Kali Harrison, Christo Morse, Darin Rivetti, Phattana Sansumran; Alexander Witt; Departamento de arte: Madeline Austin-Kulat, Jasmine E. Ballou, Lek Chaiyan Chunsuttiwat, Julia G. Hickman, Derrick Kardos, Sonja Klaus, Erik Knight, Max Sherwood, Omar Vaid; Som: Christopher Assells, Karen M. Baker, Per Hallberg, Dan Hegeman; Efeitos especiais: Herbert Blank, Connie Brink, Matt Vogel; Efeitos visuais: Christopher Cram, Dick Edwards, Margaux Mackay, Gray Marshall, Christian Severin, Wesley Sewell; Produção: Michael Costigan, Jonathan Filley, Brian Grazer, Branko Lustig, Nicholas Pileggi, Ridley Scott, Kehela Sherwood, James Whitaker, Steven Zaillian; Companhia de produção: Universal Pictures; Imagine Entertainment; Relativity Media; Scott Free Productions.
Intérpretes: Denzel Washington (Frank Lucas), Russell Crowe (Richie Roberts), Chiwetel Ejiofor (Huey Lucas), Josh Brolin (Detective Trupo), Lymari Nadal (Eva), Ted Levine (Lou Toback), Roger Guenveur Smith (Nate), John Hawkes (Freddie), RZA (Moses Jones), Yul Vazquez (Alphonse Abruzzo), Malcolm Goodwin (Jimmy Zee), Ruby Dee (Mama Lucas), Ruben Santiago-Hudson (Doc), Carla Gugino (Laurie Roberts), Skyler Fortgang (Michael Roberts), John Ortiz (Javier J. Rivera), Cuba Gooding Jr. (Nicky Barnes), Armand Assante (Dominic Cattano), Kathleen Garrett (Mrs. Dominic Cattano), Joe Morton (Charlie Williams), Ritchie Coster (Joey Sadano), Bari K. Willerford (Joe Louis), Idris Elba (Tango), Common (Turner Lucas), Warner Miller (Melvin Lucas), Albert Jones (Terrence Lucas), J. Kyle Manzay (Dexter Lucas), T.I. (Stevie Lucas, Melissia Hill, Quisha Saunders, Kevin Corrigan, Robert Funaro, Jon Polito, Tom O'Rourke, Robert C. Kirk, Tom Stearns, KaDee Strickland, Jon DeVries, Jim R. Coleman, Lee Shepard, Gavin Grazer, Linda Powell, Roxanne Amandez, Norman Reedus, Pierra Francesca, Eddie Rouse, Maryann Urbano, Cedric Sanders, Jason Veasey, Roosevelt Davis, Roger Bart, Eric Silver, Mitchell Green, Saycon Sengbloh, Conor Romero, Daniel Hilt, Daniel Farcher, David Spearman, Maurice Ballard, Paul Doherty, William C. Tate, George Lee Miles, Jason Furlani, Chris McKinney, Ric Young, David Wayne Britton, Tommy Guiffre, Laurence Lowry, Dan Moran, Marjorie Johnson, Larry Mitchell, Chuck Cooper, Kevin Geer, Chance Kelly, Hamilton Clancy, Sam Freed, Joey Klein, Scott Dillin, Anthony Hamilton, Sarah Hudnut, Jeff Greene, Tyson Hall, Kirt Harding, Bryant Pearson, Al Santos, William Hudson, Christopher A. Sawyer, Dylan Gallagher, Jehan-Pierre Vassau, Robbie Neigeborn, Clinton Lowe, Wilhelm Lewis, James Hunter, Neville White, Lonnie Gaetano, Jeff Mantel, Serena Joan Springle, Ron Piretti, Nino Del Buono, Arthur Mercante, Panama Redd, Robert Wiggins, Fab 5 Freddy, Jonah Denizard, Steve McAuliff, Joseph Ferrante, etc.
Duração: 157 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Locais de filmagem: Briarcliff Manor; Briarcliff Manor; Bronx, New York City,; Brooklyn South Marine Terminal, Brooklyn, New York City,; Harlem, Manhattan, New York City; New York City; Old Westbury Gardens - 71 Old Westbury Road, Old Westbury, Long Island; Stewart Airport, New Windsor, tudo em Nova Iorque; Chiang Mai, Tailândia.

Frank Lucas, o verdadeiro e o outro

4 comentários:

Ana Paula disse...

É filme que quero ver, pois, à partida, os actores (sempre muito intensos) e o realizador merecem. Sou fã de qualquer deles há muito tempo. Por outro lado, gosto de filmes de acção quando com essa vertente coincide uma dimensão de crítica social. O realizador também nunca o pude esquecer, sobretudo a partir de Blade Runner, um filme que posso considerar de "culto" no que se refere ao género de ficção científica, o qual muito aprecio.
Muito obrigada pela informação colocada ao dispor num excelente texto de análise cinematográfica.

Beijinhos :)

Sony Hari disse...

Já vi o filme e gostei bastante da história, do ritmo, dos desempenhos, sobretudo, o de Denzel Washington. Quanto a Russel Crowe, devo confessar que o papel que mais me impressionou até hoje foi o d’ O Informador. Gostei muito desse filme, achei o tema muito interessante (Indústria tabaqueira) e a música era perturbadora. Mas avançando. Quem me parece não ter dúvidas do talento do rapaz é Ridley Scott, já lá vão três filmes, se não me engano: Gladiator, A good year e, agora, American Gangster. Bom, já escrevi mais do que devia mas há posts, assim, motivadores do comentário. E aprende-se sempre, é uma garantia!

Flávio disse...

Adorei o filme. Não suplantou a trilogia do Padrinho, mas perde por pouco.

Flávio disse...

E vai arrecadar uma quantidade de nomeações para os óscares, vão ver!