domingo, janeiro 06, 2008

ÀS VEZES SURREALISTA...

MORREU O LUÍS PACHECO
Eu gostava do Luiz Pacheco. Sei de muita gente que não o tolerava e de alguns outros que o mitificaram. Eu estimava o ar irreverente deste "enfant terrible" e dei-me sempre muito bem com ele. Durante uns tempos víamo-nos com regularidade, sobretudo na época de um saudoso “E Etc.”, do suplemento do “Jornal do Fundão”, da direcção o Victor Silva Tavares. Nalguns dos seus livros sou (sempre) simpaticamente citado, como naquele em que ele relembra uma ida minha e da Lia Gama ao hospital ver como ele estava de saúde e levar-lhe uns livros, ao que me recorda.
Nunca fui de lhe passar para as unhas mais do que uma nota de cem. Não o comprei, que ele não era de ser comprado, aceitava a nota e continua a dizer mal, cara a cara, se fosse caso disso. Ou à socapa. Com um sorriso de puto reguila, que achava que todos o deviam aceitar tal como ele era. As nossas relações foram sempre cordiais, tenho a quase totalidade das suas edições, muitas dedicadas com carinho, por este homem que de lambe botas nada tinha.
Cada vez mais são precisos (e preciosos) homens como o Luiz Pacheco. Com o seu quê de frontal, com o seu quê de ratice sábia, com o seu quê de "filhadeputice" crónica. Estamos a ficar todos muito "politicamente correctos", muito higienizados, muito CE, empacotados em celofane, muito hipócritas, muito diz mal de tudo porque é moda. Pacheco não era nada disso. Não criticava por criticar, não bajulava, mas atirava os tijolos (muitos injustos, mas quem é perfeito?) a quem os julgava dignos de os receber. Vão faltando Pachecos nesta terra.
Adeus, Luiz, até um dia, numa qualquer “comunidade” em Braga, onde “o Libertino Passeia a Idolátrica, o Seu Esplendor”.
Nota sobre o Luiz Pacheco, retirada da Wikipédia
Luíz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008) foi um escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura português.
Nasceu no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão [1].
Desde cedo manifestou enorme talento para a escrita. Chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno, [2] mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. (Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima.) Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles [3]. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista [4].
A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto [5], magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de Luiz de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco [1] em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.
Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2007, Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de Cruzeiro Seixas. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela RTP, encontrando-se num lar do Montijo. Morreu a 5 de Janeiro de 2008.
Notas
1,0 1,1 Entrevista ao Correio da Manhã
Vitorino Nemésio, na sua cadeira, atribuiu-lhe 18 valores (de 0 a 20).
Luiz Pacheco foi um compagnon de route dos surrealistas portugueses e o seu primeiro e apaixonado editor ("sacristão do surrealismo", chamou-lhe o crítico João Gaspar Simões). Foi amigo íntimo de António Maria Lisboa e de Mário Cesariny, tendo este cortado definitivamente relações com Pacheco, devido a desavenças intelectuais e pessoais (vd. Pacheco versus Cesariny, de Luiz Pacheco e Diário do Gato, de Mário Cesariny).
Depois do 25 de Abril de 1974, Pacheco tornou-se militante do Partido Comunista Português.
1,77 m, cf. bilhete de identidade.

Bibliografia
História antiga e conhecida in Bloco (vários autores). Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome "Os doutores, a salvação e o menino Jesus" (1946)
Caca, cuspo & Ramela (1958?)(com Natália Correia e Manuel de Lima)
Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958)
O Teodolito (1962)
Surrealismo/Abjeccionismo (antol.org: Mário Cesariny, c/versão abreviada d'O Teodolito (1963)
Comunidade (1964)
Crítica de Circunstância (1966)
Textos Locais (1967)
O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970; 1992)
Exercícios de Estilo (1971)
Literatura Comestível (1972)
Pacheco versus Cesariny (1974)
Carta a Gonelha (1977)
Textos de Circunstância (1977)
Textos Malditos (1977)
Textos de Guerrilha 1 (1979)
Textos de Guerrilha 2 (1981)
Textos do Barro (1984)
O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1986)
Textos Sadinos (1991)
O Uivo do Coiote (1992)
Carta a Fátima (1992)
Memorando, Mirabolando (1995)
Cartas na Mesa (1996)
Prazo de Validade (1998)
Isto de estar vivo (2000)
Uma Admirável Droga (2001)
Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal (2002)
Mano Forte (2002)
Raio de Luar (2003)
Figuras, Figurantes e Figurões (2004)
Diário Remendado 1971-1975 (2005)
Cartas ao Léu (2005)

A caricatura é de André Carrilho, a foto não sei de quem.

4 comentários:

Luís disse...

uma grande perda para a nossa cultura, com o desaparecimento de um dos nossos maiores escritores malditos!

Ana Paula disse...

Lamento dizer mas só conheci o Luiz Pacheco há cerca de um ano, a partir de um documentário na RTP 2. Fiquei algo fascinada pela figura polémica e radical que foi. Sobretudo porque a sua forma de vida (difícil de aceitar!) foi coerente com a sua crítica feroz. Se o foi com os outros, foi-o também consigo mesmo.
Vale a pena lembrá-lo, sem dúvida. Ou ficará desconhecido de tantos... Importante porque mal ou bem, o que escreveu, o que disse e o que fez, leva-nos a pensar...
Obrigada, L.A.!

Capitão-Mor disse...

Partilho da vénia!

inominável disse...

fica-me muito mal se disser que não me aquece nem me arrefece? não gosto nem desgosto? não corri a comprar as edições e re-edições? não me feriu ao de leve?

e fico a pensar porquê, eu, que até gosto de deboche...