quinta-feira, abril 03, 2008

CINEMA: ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS

ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
Um caçador que se aventura pelos arredores de uma cidadezinha americana do Rio Grande do Sul, com o deserto ao fundo, descobre um macabro e bizarro achado: carros abandonados, mortos vários, um moribundo que rapidamente passa a cadáver, à falta de água, quantidade de heroína em barda, 2 milhões de dólares numa mala, Tudo pode ser ignorado, excepto a mala que Llewelyn Moss resolve tornar sua. Essa mala, porém, irá desencadear perseguições variadas, entre elas a de um “serial killer” que mata friamente, sem emoção. O humano transformado num autómato do Mal, num “profeta da destruição”, como o xerife da localidade sugere, quando afirma: “Dizem que os olhos são as janelas da alma. Eu cá por mim não sei de que é que os olhos são as janelas e se calhar até prefiro não saber. Mas há uma outra maneira de ver o mundo e outros olhos para o ver e é por esse caminho que nós vamos. Eu próprio o trilhei e conduziu-me a um lugar na minha vida que nunca imaginei chegar a conhecer. Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar.”
Um profeta que, realmente, é melhor não enfrentar. Até porque todos os que o encaram não sobrevivem para contar. Pessoa não será, pelas suposições que de “pessoa” fazemos. Autómato poderia ser, mas que máquina teria esse poder de matar sistematicamente tudo o que se lhe atravessa no caminho? É, pois, algo de completamente desumano, uma máquina de destruição, um robot programado para assassinar, alguém para quem se olha e não se reconhece nele feições de gente. Este é Anton Chigurh que se passeia de mortífero pneumático na mão e uma única ideia na cabeça: matar.
Este é também o retrato de uma América de violência traumatizante, desconhecida, perturbante, que é atravessada primeiro pelas palavras secas e austeras de Cormac McCarthy neste romance, nervoso, agressivo, provocador, estimulante que nos recoloca na melhor tradição da literatura norte-americana. Hemingway, sim, pela aridez dos diálogos, pela poesia dos cenários, Falkneur, sem dúvida, pela descrição das paixões e das paisagens, mas também um pouco da violência ingénua de uns “Ratos e Homens”, mas reciclada para novos continentes de um total desencanto. Depois há quem fale de escritores actuais, como Don Delillo, Philip Roth ou Thomas Pynchon, é possível, sobretudo no retrato de uma sociedade doente, dada num registo sincopado, que mostra as aparências e deixa as chagas soterradas, à espera que o leitor as descubra por si só. Terríveis os tempos que geram obras como esta, de um cinzento pesado, de um ar poluído pelo desespero, de uma humanidade desgarrada e à deriva.
Há personagens absolutamente inesquecíveis, como o assassino Anton Chigurh, ou o ávido e “espertalhão” Llewelyn Moss (“O Tesouro da Sierra Madre”?), ou o desalentado xerife Ed Tom Bell, que conheceu a II Guerra Mundial, e que tem uma ideia do Vietname e dos EUA muito bem condensada nesta frase: “As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado. O Vietname foi só a cereja em cima do bolo. (…) Não sei o que vai acontecer quando vier a próxima. Não sei mesmo.” Ora a verdade é que a próxima já chegou e o que os escritores (e cineastas) norte-americanos reflectem é esse “não sei mesmo.” A América na encruzilhada, mas mais do que isso, nós todos na mesma encruzilhada.
Magnífico livro. E fiquei à espera de um igualmente magnífico filme. Que veio pela mão dos irmãos Coen. Com Óscar para melhor filme do ano, e ainda Óscar para melhor realização. No final, não tão brilhante como apregoaram, mas um filme muito interessante (nada comparado, é certo, com essa obra-prima de Paul Thomas Anderson, “Haverá Sangue”).
Acompanhando o percurso do livro quase a par e passo, apenas saltando aqui e ali um ou outro episódio e elidindo quase todos os solilóquios do velho xerife (o que acaba por empobrecer o filme, dado que é desse confronto de dois tempos de narrativa que nasce uma das iluminações mais fortes do romance e a ideia de que o homem pode transcender-se e permanecer "humano", apesar da brutalidade que o rodeia), o filme dos Coen é uma adaptação bastante fiel da obra de Cormac McCarthy, recriando a mesma terra seca, o mesmo ar saturado de poeira, a mesma solidão, a mesma violência climática, a mesma psicologia rasteira, a mesma rudeza de comportamento, a mesma agressividade de uns, o mesmo desalento de outros, a frustração de tantos, a desilusão de muitos, os gestos repetidos sem significado de alguns, o desespero, sim o desespero no olhar de quem morre e o olhar vítreo de quem mata. Estamos em que País afinal? Na América pós-Vietname, na América pós-11 de Setembro, na América pós-invasão do Afeganistão e do Iraque, na América dos adolescentes “serial killers”, que dizimam turmas de escolas, na América profunda da opressão, do racismo, do fanatismo, mas também na América da auto-crítica, da má consciência, na América que invariavelmente ergue a voz contra as injustiças, que discute, que recusa, que se insurge, que faz filmes como este ou “Haverá Sangue”.
Actores brilhantes e um Javier Bardem magnífico ajudam à festa. Mas fica a sensação de que o livro é melhor e o filme poderia ter ido um pouco além. Não é o melhor dos Coen, mas não deslustra. Apenas peca por participar de uma injustiça flagrante: “Haverá Sangue” é muito melhor, sob todos os pontos de vista. Na comparação, os Coen saem por baixo, mas foram eles que arrecadaram os Oscars.
ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
Título original: No Country for Old Men
Realização: Ethan Coen, Joel Coen (EUA, 2007); Argumento: Joel Coen, Ethan Coen, segundo romance homónimo de Cormac McCarthy; Música: Carter Burwell; Fotografia (cor): Roger Deakins; Montagem: Ethan Coen e Joel Coen (assinando ambos Roderick Jaynes); Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: Jess Gonchor; Direcção artística: John P. Goldsmith; Decoração: Nancy Haigh; Guarda-roupa: Mary Zophres; Maquilhagem: Brian Hillard, Geordie Sheffer, Dave Snyder, Christien Tinsley; Direcção de produção: Karen Ruth Getchell, Robert Graf, Omar Veytia; Assistentes de realização: Bac DeLorme, Peter Dress, Jai James, Betsy Magruder, Donald Murphy, Taylor Phillips; Departamento de arte: Mark Bankins, Sage Emmett Connell, James Fowler, Gregory Hill, Roberta Marquez; Som: Craig Berkey; Efeitos especiais: Peter Chesney, Megan Flagg, Jason Hamer, Diane Woodhouse; Efeitos visuais: Alexandre Cancado, Vincent Cirelli, Valy Lungoccia, Ashok Nayar, Ian Noe; Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin, David Diliberto, Robert Graf, Mark Roybal; Companhias de produção: Paramount Vantage, Miramax Films, Scott Rudin Productions, Mike Zoss Productions.
Intérpretes: Tommy Lee Jones (Ed Tom Bell), Javier Bardem (Anton Chigurh), Josh Brolin (Llewelyn Moss), Woody Harrelson (Carson Wells), Kelly Macdonald (Carla Jean Moss), Garret Dillahunt (Wendell), Tess Harper (Loretta Bell), Barry Corbin (Ellis), Stephen Root, Rodger Boyce, Beth Grant, Ana Reeder, Kit Gwin, Zach Hopkins, Chip Love, Eduardo Antonio Garcia, Gene Jones, Myk Watford, Boots Southerland, Kathy Lamkin, Johnnie Hector, Margaret Bowman, Thomas Kopache, Jason Douglas, Doris Hargrave, Rutherford Cravens, Matthew Posey, George Adelo, Mathew Greer, Trent Moore, Marc Miles, Luce Rains, Philip Bentham, Eric Reeves, Josh Meyer, Chris Warner, Brandon Smith, Roland Uribe, Richard Jackson, Josh Blaylock, Caleb Jones, Dorsey Ray, Angel H. Alvarado Jr., David A. Gomez, Milton Hernandez, John Mancha, Scott Flick, Elizabeth Slagsvol, etc.
Duração: 122 minutos; Classificação etária: M/18 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais; Locais de filmagem: Albuquerque, New Mexico (EUA); Estreia: 28 de Fevereiro de 2008 (Portugal).
***
Julgo que será interessante, e ajuda a compreender quer o livro, quer o filme, conhecer o poema que dá título às duas obras:

Sailing to Byzantium


That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
- Those dying generations - at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

William Butler Yeats, The Tower (1928)

Na tradução de José Agostinho Baptista

I

Este país não é para velhos. Jovens
Abraçados, pássaros que nas árvores cantam
- essas gerações moribundas -
Cascatas de salmões, mares de cavalas,
Peixe, carne, ave, celebrando ao longo do Verão
Tudo quanto se engendra, nasce e morre.
Prisioneiros de tão sensual música todos abandonam
Os monumentos de intemporal saber.

II

Um velho é coisa sem valor,
Um andrajo apoiado num bordão, a não ser que
A alma aplauda e cante, e cante mais alto
Cada farrapo da sua mortal veste.
Nem há escola de canto somente o estudo
Dos monumentos de seu próprio esplendor;
Por isso cruzei os mares e cheguei
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Oh, sábios que estais no sagrado fogo de Deus
Qual dourado mosaico sobre um muro,
Vinde desse fogo sagrado, roda que gira,
E sede os mestres do meu canto, da minha alma.
Devorai este meu coração; doente de desejo
E atado a um animal agonizante
Ele não sabe o que é; juntai-me
Ao artifício da eternidade.

IV

Da natureza liberto jamais de natural coisa
Retomarei minha forma, meu corpo,
Mas formas outras como as que o ourives grego
Em ouro forja e esmalta em ouro
Para que o sonolento Imperador não adormeça;
Ou em dourado ramo pousado, cantarei
Para damas e senhores de Bizâncio
Cantarei o que passou, o que passa, ou o que virá

5 comentários:

Ana Paula disse...

Suponho que terei de ver o filme, com tão estimulante exortação! :)

Mas confesso que não tenho muita vontade de o fazer, devido a esse olhar desencantado sobre a realidade que talvez seja ainda mais desencantada... A violência que perpassa por tudo o que sei acerca do filme, também não me atrai.
Quanto ao livro, estou certa de que será muito bom, mas também ainda não o li. Reconheço qualidade ao escritor, mas não creio que seja muito o estilo que aprecio. Na verdade, só lendo, mas tenho imensos em lista de espera... Talvez pelo Verão...

Uma nota a reter: O Tommy Lee Jones - actor que muito admiro!

Dá que pensar o facto de os cineastas e os escritores americanos, terem, actualmente, um olhar tão rude, cruel e brutal acerca dos nossos tempos...

Obrigada! E um beijinho amigo!

Lauro António disse...

Já sabia que não estarias muito inclinada a ver o filme, nem a ler o livro. Já tinha lido opiniões tuas noutros blogues. Na verdade tanto o livro como o filme são violentos, mais no clima que é constante, do que nas peripécias, onde algum humor (mesmo negro) atenua o ambiente.
Mas não percas Haverá Sangue, esse sim a verdadeira obra prima do cinema americano a lutar pelos Oscars. Curiosamente já só está numa sala.

Ana Paula disse...

Confesso, agora, que com o poema do magnífico e cativante Yeats, fiquei mais sensibilizada para me confrontar com um país, ou um outro qualquer lugar,que não seja para velhos! :) Existe isso?! Existirá, mas só a ideia me revolta.

A poesia foi importante. Passa a mensagem de uma forma mais humana, talvez...

Seguirei essa referência, que muito agradeço, a do filme "Haverá Sangue".
Obrigada! :)

Milton Ribeiro disse...

Excelente resenha. Não tenho nada a opor; nossas opiniões convergem.

Grande abraço desde o Rio Grande do Sul, só que no Brasil...

Milton Ribeiro disse...

Só mais uma coisinha rápida. As traduções dos títulos no Brasil, sempre ridículas: "No country for old men" transformou-se em "Onde os fracos não têm vez" e "There will be blood" em "Sangue negro". Mas há coisas piores...

Abraço.