segunda-feira, abril 14, 2008

TAKE (AWAY)

Uma revista sobre cinema, on line, feita por malta nova que me convidou a colaborar. Aí começam as minhas memórias cinematográficas, numa secção chamada "A Grande Ilusão". Neste número 2, "Manhã Submersa" em Hollywood."
Link: http://www.take.com.pt/

Um excerto desse texto para abrir o apetite (o texto integral só na revista):

No aeroporto de Los Angeles, uma “voluntária” do festival espera-me de cartão na mão com o meu nome e a indicação de pertencer ao Filmex. Para reconhecimento recíproco. Leva-me ao hotel que a organização marcou e pelo caminho vou descobrindo, primeiro um amontoado de armazéns dos arredores incaracterísticos de uma cidade sem história, depois uma metrópole estranha, invulgarmente diferente de tudo quanto conhecia na Europa, estendendo-se na horizontal, por milhares de quilómetros, carregada de referências que o cinema há trinta e tal anos me vincava na memória. O hotel é em Sunset Boulevard. Escusado será dizer que procuro (em vão) traços de Gloria Swanson e do seu imperturbável mordomo, que o rosto de Erich Von Stroheim imortalizou Não só eles não aparecem, como são raros os vestígios desse tempo, ainda que William Holden e Billy Wilder ali tenham regressado depois, à procura do tempo perdido e de “Fedora”. Mas o suave aroma do mito, esse lá está. É irresistível.
Numa América que convencionalmente conhecemos pelos seus arranha-céus, Los Angeles é uma cidade que sai desse mapa. Avenidas que chegam a ter mais 50 quilómetros, larguíssimas, moradias de não mais de dois andares, refugiadas atrás de pequenos jardins, o cimento por todo o lado, os desperdícios e o lixo, as luzes a incendiarem a imaginação. É conveniente não esquecer que estamos em 1981. A globalização era algo que se não imaginava ainda, tal como hoje a conhecemos. As distâncias eram uma realidade e as diferenças do modo de vida surpreendiam ainda. No conjunto, a primeira impressão é de uma certa hostilidade. Venho na perseguição de um sonho que a “fabrica” põe a circular há 80 anos e não encontro nada disso. É sempre desconfortante confirmar o que já se sabia, mas se julgava possível continuar a ignorar. Hollywood é aqui nome de “boulevard” e letras brancas a recortarem-se na encosta de uma colina. Tudo o resto vive somente na nossa imaginação. Os pés e as mãos das estrelas embutidos no cimento da entrada do Chinese Theatre são bicadas de um pássaro que ninguém consegue agarrar. E, no entanto, à medida que os dias irão passando, há qualquer coisa no ar que me vai habituando à cidade, que me atrai, que lentamente me fascina e me prende. Irremediavelmente.
Entrar no Chinese Theatre, o mais mítico cinema de todo o mundo, e ali assistir à estreia de “Excalibur”, de John Boorman, com um ecrã monumental, uma qualidade de imagem e de som nunca sequer pressentidos nas salas portuguesas, é uma experiência única. À saída andar alguns quilómetros em passeios atapetados por estrelas onde se encontram os nomes (e as mãos eternizadas no cimento) de todos os grandes actores e actrizes que povoam a nossa memória e aquecem os nossos sonhos desde criança, é algo que eleva até ao sufoco. Foi aqui que se filmou uma sequência célebre de “Serenata à Chuva”, lembram-se? Imaginamos as bancadas, as teenagers, os gritinhos, Gene Kelly. Mas quantas estreias mundiais, quantas entregas de Oscars, quanto da história do cinema e da história do mundo.
O “Grauman's Chinese Theatre” vem dos anos 20, julgo 1927, e foi a concretização de um sonho de um dos grandes homens do espectáculo dos EUA, Sid Grauman. Em 1958 foi ampliado, tornando-se mais confortável, mais amplo e melhor dotado de equipamento técnico, de imagem e som. Em Setembro de 2001 fechou para obras de recuperação e reabriu para os “Academy Awards” de 2004, depois de ali se terem gasto sete milhões de dólares em melhoramentos de vária ordem. Dizem que está um brinquinho. Por mim fico-me pela memória de 80.
O Hyatt on Sunset Hotel fica na parte alta da cidade. É um dos raros edifícios com mais de dois ou três andares. O nosso quarto (meu e da Eduarda) é no décimo primeiro andar, virado para a cidade. Esta estende-se até ao horizonte, para onde quer que me volte, juncada de pontos luminosos. As avenidas principais são fileiras compactas de luzes. Mesmo por debaixo da varanda, um anúncio enorme ao último filme de Jerry Lewis, que acabava de se estrear nos EUA: “Hardly Workíng”. Na Europa, Jerry era considerado um génio, na América, pouco menos que um palhaço.
Estamos em 1981. Voltamos a sublinhar. Em Portugal havia dois canais de televisão. Sento-me com a Eduarda aos pés da cama, uma cama com mais de dois metros de largura, e acendemos o televisor, com capacidade para mais de oitenta canais, apanhando nessa noite a funcionar mais de quarenta, com treze emissores principais, onde se sucedem os filmes, as séries, os concursos, os anúncios, as “news”. Em Hollywood são onze horas da noite. Em Lisboa, porém, são já oito da manhã seguinte. Sobrevivo ainda pela hora de Lisboa, e toda a possível magia do local e o ineditismo da situação não impedem o cansaço de avançar. Adormeço. Em Hollywood.
É difícil apercebermo-nos, à primeira, da configuração da cidade que se conhece por Los Angeles. Esta não é apenas “uma cidade”. É um espaço sem fim que reúne várias cidades. Uma avenida como a Wilshire vai atravessando diversos distritos (ou cidades), corno Downtown, Beverly Hills, Hollywood, Westwood, até ir morrer na praia de Santa Mónica, São, ao que recordo, mais de setenta quilómetros de avenida. Todos estes nomes (e muitos outros) correspondem a pequenas cidades que cresceram e se encontraram, misturando num mesmo tecido as suas veias. Hoje em dia, Los Angeles, com quase cerca de três milhões de habitantes, refere um espaço de metrópole que, em superfície ocupada, é o maior do mundo. Assente sobre uma crosta de forte actividade sísmica, os prédios não crescem na vertical, como em Nova Iorque, por exemplo, mas estendem-se na horizontal, Percebe-se que apesar de ser uma zona caríssima, onde existem as ruas mais valiosas de todo o mundo, não há falta de terreno, que ninguém economiza.
Tudo isto transfigura por completo a fisionomia da cidade, multiplicando as distâncias de forma inacreditável. Já me tinham avisado, ainda em Lisboa, que em Los Angeles quase não se podia andar a pé. Tudo fica longíssimo. Acredito, no entanto, que não há melhor processo de conhecer uma cidade do que percorrê-la a pé, um pouco à deriva. Quis fazer a experiência na primeira manhã passada em Los Angeles. Munido de um pequeno mapa que o Festival facultava aos convidados, com a indicação da localização dos diversos cinemas e hotéis onde se centralizavam pessoas e actos do certame, saí do hotel, em Sunset Boulevard em demanda do Fairfax Theatre, onde, no dia seguinte, iria passar a “Manhã Submersa”. O mapa era de fácil leitura. As ruas e avenidas estendiam-se direitas, cruzando-se numa textura rectilínea. Descia-se Sunset Boulevard até ao cruzamento com a Fairfax, tomava-se por esta abaixo e logo surgiria o cinema. Deixei o hotel por volta das oito e meia da manhã, cerca do meio-dia não tinha avistado ainda o cinema e, como combinara um almoço com a representante do Centro de Turismo de Portugal, telefonei-lhe para casa em busca de auxílio. O cinema escondia-se dois quarteirões a baixo (percorrer cada quarteirão levava cerca de dez minutos), mas descobri então que em Los Angeles não se anda mesmo a pé. Por isso as ruas permanecem quase sem peões, enquanto nas faixas de rodagem, se atropelam os automóveis e carrinhas de toda a espécie e feitio, mas sempre de largas dimensões.
No hotel, quando fizemos o check-in, um empregado da recepção entregara-me uma nota assinada por Warren Beatty e Buck Henry, que pedia para os procurar no secretariado do Festival logo que eu pudesse. Foi, claro, a primeira coisa que fiz. Falei com Buck Henry, nessa altura muito conhecido como argumentista e actor, nomeadamente de filmes de Warren Beatty, que me explicou o porquê da missiva: queria explicar-me algo de estranho que acontecera durante as votações para a eleição dos nomeados para o Óscar de “Melhor Filme de Língua Estrangeira”. Relatou-me então as peripécias e os arranjos políticos que estiveram na base do afastamento de “Manhã Submersa”, de que ambos gostavam muito e defenderam até final. Numa primeira votação, três filmes tinham tido votos que os destacavam dos outros: Kurosawa, Truffaut e Szabo. Depois, para dois lugares, surgiram três filmes com o mesmo número de votos, um espanhol, um soviético e o português. Fizeram-se tantas votações, quantas as necessárias para que o filme português ficasse de fora. Assim foi que um filme português não foi nomeado em 1981. Registei a explicação e as palavras de apreço.

3 comentários:

Sony Hari disse...

Jogada de mestre, deixar o texto no melhor da festa! lol
E já fiz o meu caminho até à Take.
Beijinhos

José Soares disse...

Muito viajei e sorri por essas linhas.

Um grande abraço!
Até breve.

Chico Freitas disse...

Qual é o link?