segunda-feira, junho 30, 2008

CINEMA: O ACONTECIMENTO


O ACONTECIMENTO
Começam a avolumar-se os sintomas. Algo está a acontecer de estranho. A maioria do público de cinema está dominada por uma histeria de contornos perturbadores. Vamos ao cinema ver um filme que trate com um bocadinho mais de respeito actores e personagens, que procure ser um pouco mais inteligente e sensível, que dê tempo ao espectador para este pensar, e o digníssimo público não gosta, quer acção, quer ritmo rápido, quer que o cinema seja como a execranda televisão que coloca sobre um filme trepidante, violento e abrasivo, legendas em cima e em baixo a dar informações sobre o que aconteceu no dia e o programa que vem a seguir, e as horas, e o nome do canal que está a ver, sem qualquer tipo de respeito por nada do que está a apresentar, mas com a preocupação máxima de não perder o espectador, de não o deixar adormecer, de o entontecer, de o manipular de todas as formas e feitios. E o público, bem domesticado, está a aderir à onda, de olhos já vesgos, atordoado pelo ritmo, as cores, os sons. Um filme que tente ser um olhar mais respeitador sobre a realidade, é logo enxovalhado, injuriado, vilipendiado, acusado de isto e mais aquilo, mas sobretudo de ser uma chatice e de nele “não acontecer nada”. O público deixou de ter capacidade para sentir o que acontece quando parece que não acontece nada. No entanto há muitos filmes onde o que acontece parece não acontecer e aí está a sua magia.
Falemos do fantástico e do terror. Nos anos 30 (nos estúdios da Universal), mesmo até aos anos 60 (nos estúdios da Hammer), o fantástico alimentava-se de mitos maiores, como Frankenstein, Drácula, A Múmia, O Médico e o Monstro, O Homem Lobo, alguns mais. Havia castelos amaldiçoados, casas lúgubres, monstros psicológicos, duplas vidas, interpretações psicanalíticas, eros e tanatos, uma menina entregava uma flor a um monstro à beiro de um lago, um embuçado espetava os dentes num pescoço que deixava escorrer com voluptuosidade uma gota de sangue, um homem de bem em noites de lua cheia uivava como um animal com cio, um médico que salvava vidas de dia, de noite devotava-se às fantasias do seu subconsciente. E o público entregava-se ao deleite deste fantástico fecundo que puxava pelas meninges e, sobretudo, exigia sensibilidade e imaginação. Depois o fantástico transferiu-se para os matadores e os talhos e iniciou a época “gore” da facada funda e do esguicho de sangue contínuo. Não digo que não tenham aparecido obras interessantes, mas o conjunto é fraquinho. Mantiveram-se alguns cultores do género de qualidade, mas a média baixou. Acontece que sempre achei que o melhor fantástico, o melhor terror, o melhor “thriller” não precisa de mostrar tudo, mas sobretudo de sugerir muito. De inquietar, de criar “suspense” (como o mestre Hitchcock sabia fazer como poucos). Não é preciso ver-se a facada, e a outra facada e o sangue a jorrar, e a espirrar para o rosto dos espectadores das primeiras filas. Basta criar muito medo em quem o vê, levantar ondas de preocupação, mas para isso é preciso o filme ser muito bem construído narrativamente (o que raros sabem fazer), ter um sólido argumento, ser inteligente, e manter a inquietação com temas que preocupem o espectador, sem pactuar com os seus gostos mais baixos.
“O Acontecimento” (The Happening), de M. Night Shyamalan, pertence a este pequeno número de filmes que em lugar de manipular o horror causado pelo que se vê, procura explorar o medo e a inquietação provocados pelo desconhecido, o inexplicável, o inlocalizável, o não perceptível. Hitchcock já havia ido por esses terrenos muitas vezes. “Os Pássaros” é um caso exemplar. Uma revolta de pássaros, que se tornam assassinos e se precipitam sobre os transeuntes, põe em alvoroço uma pequena comunidade costeira. No novo filme de Shyamalan (que volta a ser muito criticado depois do excelente “A Senhora do Lago”, também ele injustamente mal recebido) parte de um “acontecimento” inexplicável: numa manhã como todas as outras em Central Parque, em Nova Iorque, o impensável acontece. Uma rabanada de vento, as pessoas imobilizam-se, têm reacções desconcertantes, emitem palavras e sons sem lógica, readquirem depois o movimento, mas para se precipitarem numa auto destruição colectiva. Operários saltam dos últimos andares de arranha-céus em construção e estatelam-se no cimento da avenida, transeuntes deixam-se atropelar, polícias suicidam-se com tiros de revólver, e tudo o mais que a imaginação possa sugerir. Inclusive um rural colocar-se à frente de um potente tractor ou cortador de relva ou um empregado do jardim zoológico imolar-se nas bocas dos leões. Mas nada disto é mais do que sugerido, levemente esboçado. O que fica no ar destes espantosos 40 minutos iniciais (mais ou menos cronometrados), é o clima criado desde as primeiras imagens.
Com meia dúzia de planos, uma banda sonora magnífica, enquadramentos soberbos, um ambiente de perfeito quotidiano onde parece imperar a felicidade de viver é transformado num pesadelo sem explicação e sem fim à vista. Anunciam-se terroristas os ataques (a psicose do 11 de Setembro sempre presente, e como não há-de estar?), mas depois já podem ser experiências governamentais mal sucedidas, um vírus, uma vingança da Natureza ameaçada pela depredação humana, e é por aqui, pela ameaça ambientalista que as motivações são mais fortes: as plantas, agredidas a toda a hora pela maligna convivência com a raça humana, explodem em fúria e libertam uma toxina que leva os humanos à auto-destruição programada. Tudo se resume a uma zona norte-americana, o noroeste, que vê a pandemia avançar dos grandes centros para as pequenas localidades, progredir pelas estradas, planar sobre os campos, até ser difícil encontrar sobreviventes. As autoridades não sabem como reagir, os cientistas não têm respostas, apenas sugestões. As cidades são despovoadas. Na fuga acompanhamos um grupo restrito com o qual nos vamos identificar e partilhar o sofrimento: Elliot Moore(Mark Wahlberg), professor de ciências, Alma (Zooey Deschanel), a mulher, Julian (John Leguizamo), um colega de escola de Elliot, e Jess (Ashlyn Sanchez), a filha de Julian. Partem de comboio de Nova Iorque para Filadélfia, mas são obrigados a parar na Pensilvânia, numa zona rural, sem saberem muito bem o que fazer. Assistem impotentes à morte de todos os que os rodeiam. Um cientista, uma mulher, uma criança – estão encontradas as vítimas do medo por excelência, aqueles com que mais facilmente se identificam as plateias.
M. Night Shyamalan, ao apresentar o seu filme, falou das séries B dos anos 50, de ficção científica, e não perdeu oportunidade para citar “A Terra em Perigo” (Invasion of the Body Snatchers), um clássico assinado por Donald Siegel, em 1956. Com toda a razão. Tanto mais que ambas as obras se identificam com dois períodos da história americana muito semelhantes: os anos 50 atormentados pela guerra-fria e o perigo que viria do ar, discos voadores, extra terrestres, aliens, ameaças sem rosto, e estes anos pós-11 de Setembro de 2001 que remetem para idênticos terrores e ameaças pressentidas de forma semelhante. Mas há ainda um outro factor a acrescentar a este terror que paralisa os humanos: a ameaça ambientalista que é hoje um alarmante sintoma de mal-estar para muita gente.
No caso de “The Happening” tudo se passa sem que apareça uma explicação cabal, como a maioria do público gosta de sentir, antes de sair da sala. O “acontecimento”, como veio, assim se vai, mas volta. Noutro ponto do mundo à sua escolha. A ideia é levar o espectador a pensar que à saída da projecção de “The Happening” pode deparar-se com “o acontecimento”. Ontem, à saída do Monumental, em Lisboa, imaginei uma revolta dos carros, que de um momento para o outro, sem explicação plausível, em lugar de correrem no asfalto das avenidas e ruas, começassem a ter vida própria, atirarem-se uns aos outros e subirem os passeios em perseguição dos peões. Que aconteceria?
É esta inquietação que filmes como este provocam e esta inquietação é saudável, ajuda a prevenir “acontecimentos” inexplicáveis. Liberta a imaginação do espectador, não o leva apaziguado até casa. Mas o público quer a papinha feita e regressar à normalidade do dia a dia sem novas preocupações. Por isso, o irrita filmes que não o tranquilizem, mas o perturbem.
De resto há um percurso muito curioso nesta obra: Shyamalan abre o filme com planos gerais e de conjunto, de Central Parque, de avenidas, e, sem que nunca feche o campo das suas personagens (a não ser nas cenas finais numa casa de campo), todo o filme se passa em campo aberto, e todavia tudo parece caminhar para um beco sem saída, um gueto, uma prisão irremediável, o que pode bem dar o sinal para a compreensão integral deste projecto. O homem está a conduzir-se a si e a todo o planeta para um “huis-clos” donde não haverá fuga possível.
Mas se o filme me parece particularmente interessante e estimulante, o mesmo não quererá dizer que o encontre isento de falhas. Parece-me que arranca muito bem, de forma excepcional, mas quando as personagens centrais se encontram numa encruzilhada de estradas, sem saberem muito bem que fazer, acho que o filme começa a partir daí a pecar pela mesma indefinição. A relação entre Elliot e Alma com algumas justificações sentimentais excessivas não funciona bem, assim como uma desnecessária conversa da televisão com um cientista que procura explicar demasiado o inexplicável. A sensação é a de que Shyamalan se perdeu um pouco na segunda metade da obra e que esta, globalmente, não tem a quase perfeição de alguns outros filmes seus, desde o surpreendente “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999) que levaria, da noite para o dia, o autor à glória, o fabuloso “O Protegido” (Unbreakable, 2000), “Sinais” (Signs, 2002) e os por vezes incompreendidos “A Vila” (The Village, 2004) e “Senhora da Água” (Lady in the Water, 2006).
Como sempre M. Night Shyamalan faz a sua aparição nesta obra. Desta feita ele é a voz de Joey, o amigo de Alma.
O ACONTECIMENTO
Título original: The Happening
Realização: M. Night Shyamalan (EUA, União indiana, 2008); Argumento: M. Night Shyamalan; Música: James Newton Howard; Fotografia (cor): Tak Fujimoto; Montagem: Conrad Buff; Casting: Douglas Aibel, Stephanie Holbrook; Design de produção: Jeannine Claudia Oppewall; Direcção artística: Anthony Dunne; Decoração: Jay Hart; Guarda-roupa: Betsy Heimann; Maquilhagem: Qodi Armstrong, Tom Denier Jr., Diane Dixon, Diane Heller, Craig Lyman, Clayton Martinez, Donald Mowat; Direcção de produção: Sam Mercer, Gerald Scaife, Lauren Scott; Assistentes de realização: Matthieu Charter, Ali Cherkaoui, Chris DeAngelis, Jeff Habberstad, Tudor Jones, William Lebeda, Marjorie Marramaque, Paviel Raymont, John Rusk; Departamento de arte: John DeMeo, Claire Kirk, Thomas D. Krausz; Som: Tod A. Maitland, Wyatt Sprague, Steven Visscher; Efeitos especiais: Steve Cremin; Efeitos visuais: Amit Dhawal, David Ebner, Katherine Farrar, Grzegorz Jonkajtys, Justine Whitehead; Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, Jose L. Rodriguez, John Rusk, M. Night Shyamalan; Companhias de produção: Barry Mendel Productions, Blinding Edge Pictures, Spyglass Entertainment, Twentieth Century-Fox Film Corporation, UTV Motion Pictures, UTV.
Intérpretes: Mark Wahlberg (Elliot Moore), Zooey Deschanel (Alma Moore), John Leguizamo (Julian), Ashlyn Sanchez (Jess), Betty Buckley (Mrs. Jones), Spencer Breslin (Josh), Robert Bailey Jr. (Jared), Frank Collison, Jeremy Strong, Alan Ruck, Victoria Clark, M. Night Shyamalan (Joey), Alison Folland, Kristen Connolly, Cornell Womack, Curtis McClarin, Robert Lenzi, Derege Harding, Kerry O'Malley, Shayna Levine, Stéphane Debac, Cyrille Thouvenin, Babita Hariani, Alicia Taylor, Edward James Hyland, Armand Schultz, Stephen Singer, Sophie Burke, Alex Van Kooy, Charlie Saxton, Kathy Lee Hart, Lisa Furst, Rick Foster, Marc H. Glick, Don Castro, Bill Chemerka, Jann Ellis, Whitney Sugarman, Mary Ellen Driscoll, Greg Wood, Peter Appel, Eoin O'Shea, Michael Quinlan, Lyman Chen, Brian O'Halloran, Megan Mazaika, Rich Chew, Keith Bullard, Joel de la Fuente, Ashley Brimfield, Mara Hobel, James Breen, Carmen Bitonti, Brian Anthony Wilson, Greg Smith, Ukee Washington, John Ottavino, Sid Doherty, Wes Heywood, Nancy Sokerka, Julia Yorks, Bill Shusta, Kirk Penberthy, Alex Craft, Allie Habberstad, Michael Biscardi, Chelsea Connell, Michael Den Dekker, Tony Devon, Robert Fazio, Mark Jacobson, Steven J. Klaszky, Chris McMullin, Susan Moses, Mauricio Ovalle, Eugene Smith, Robert Bizik, Anthony C. Brown, Lee Burkett, Richard Graves, Thomas M. Hagen, Michael J. Kraycik, Roberto Lombardi, Art Lyle, Charles Pendelton, Mark Pricskett, Vincent Riviezzo, Sam Rocco, Christina Sampson, Chuck Schanamann, Jennifer Wiener, etc.
Duração: 91 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes: Estreia em Portugal: 12 de Junho de 2008; Locais de filmagem: 100 W 18th St, New York City, New York; 30th Street Station - 3001 Market Street, Philadelphia, Pennsylvania; G-Lodge Diner - 1371 Valley Forge Road, Phoenixville, Pennsylvania; Julia Masterman High School - 1699 Spring Garden Street, Philadelphia, Pennsylvania; Literary Walk, Central Park, Manhattan, New York City, New York; Philadelphia, Pennsylvania; Ridley Creek State Park - 1023 Sycamore Mills Road, Media, Pennsylvania; Rittenhouse Square - 18th and S. Walnut Streets, Philadelphia, Pennsylvania; Route 23/Country Club Road, Phoenixville, Pennsylvania; Unionville, Pennsylvania; Wynnewood, Pennsylvania, todos nos EUA; Paris, França.

2 comentários:

n©n disse...

Temos de conversar....

:S

Ana Paula disse...

É um realizador que aprecio bastante devido ao seu interesse pelo domínio do insólito. Também aprecio o modo como faz decorrer o tempo nos seus filmes. Um olhar demorado e interiorizado.
Ainda não vi este mas anotei a sugestão que me interessou imenso.