domingo, setembro 14, 2008

CINEMA: SEDUÇÃO, CONSPIRAÇÂO

SEDUÇÃO, CONSPIRAÇÂO
Depois de uma permanência na América que lhe permitiu rodar dois filmes de seguida, “Hulk” (2003) e “O Segredo de Brokeback Mountain” (2006), Ang Lee parece ter tido necessidade de refundar a sua individualidade, regressando à China, para filmar “Sedução, Conspiração”, baseado num romance da escritora Eileen Chang, que aborda um tempo dramático da história da sua pátria, precisamente a época da II Guerra Mundial, durante a qual a China foi ocupada pelo Japão, e onde se incubou igualmente a China contemporânea, divida entre a República Popular da China e Taiwan, ou simplesmente República da China.
Diga-se de passagem que Ang Lee não é um nado da China comunista, da comandada por Mao Tsé-Tung, mas sim da China nacionalista de Chiang Kai-Shek, pois foi em Pingtung (Taiwan), que nasceu em 23 de Outubro de 1954, tendo estudado no National Taiwan College of Arts, emigrando depois, ainda novo, com a família para os Estados Unidos da América, onde cursaria “realização”, na University of Illinois, e produção cinematográfica na New York University. Durante o tempo da faculdade foi assistente de realização no filme de fim de curso de Spike Lee, "Joe's Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads". Em 1992 estreia-se na longa-metragem com "A Arte de Viver", a que se segue um pequeno grupo de filmes que lhe traçam uma sólida reputação: em 1993 dirige "O Banquete de Casamento", que ganhou o Urso de Ouro em Berlim, em 1994, "Comer, Beber, Homem, Mulher”, que recebeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (rodado em Taiwan), adaptando depois, no ano seguinte, uma obra de Jane Austen, " Sensibilidade e Bom Senso", até que, depois de ter assinado ainda, em 1997, "A Tempestade de Gelo", vê confirmado e reconhecido o seu talento, com “O Tigre e o Dragão" (2000), filme com que ganha dois Globos de Ouro, triunfando igualmente no Festival de Cannes. A sua excelente versão de “Hulk” é de 2003, a que se segue, em 2005, "O Segredo de Brokeback Mountain", com apoteóticos Óscar e Globo de Ouro para Ang Lee. Casado e pai de dois filhos, divide a sua existência pelos EUA e a China.
Realizador de uma extrema sensibilidade, voltado para as minorias e para os seus problemas, voluptuoso no seu cinema, quer nas imagens, quer nos temas abordados, onde o amor e a sexualidade impõem presença absorvente, Ang Lee é um dos grandes cineastas actuais, mais um a contribuir para o progressivo peso que a cultura e as artes orientais ocupam presenemente no panorama mundial contemporâneo, com uma ressonância muito especial nas culturas ocidentais. “Sedução, Conspiração” regressa aos tempos da II Guerra Mundial, precisamente a Xangai, 1942, durante a ocupação japonesa. O filme revela de início uma construção relativamente complexa com o recurso a “flash backs” nem sempre muito perceptíveis. Uma senhora de porte burguês, de nome Mak, passeia por uma das ruas de Xangai, entra num café, telefona de forma misteriosa, despoletando uma qualquer acção, e senta-se, olhando a rua através da vidraça. Boa altura para o seu pensamento, e nós com ele, retrocedermos a 1938, quando essa assumida senhora Mak não passava de uma estudante universitária de nome Wong Chia Chi, que é convidada se juntar ao elenco de um grupo de teatro nacionalista e revolucionário, que não aceita representar “esse burguês drama que é “A Casa de Bonecas””, e opta por algo que faz levantar todas as noite o fervoroso público, entusiasmado, que grita “Viva a China!”. A jovem está igualmente arrebatada com a revelação da arte dramática, e timidamente apaixonado pelo colega Kuang, o mesmo que a convidara a integrar o grupo e a desvia para uma acção não já de representação em palco, mas na perigoso e sedutora vida real.
Wong Chia Chi aceita associar-se à conspiração urdida para matar um importante político chinês, Mr. Yee, que é um dos mais relevantes colaboracionistas chineses com o governo japonês. Wong passará a ser a senhora Mak, a quem cabe a difícil tarefa de se insinuar no restrito e muito bem guardado grupo de senhoras que joga todos os dias “majong”, entre as quais se conta a mulher de Mr. Yee. Será através dela que irá mais longe, até junto de Yee, tornando-se sua amante. A ligação leva tempo a assumir-se e não será nessa primeira tentativa que o assassinato resultará. Anos depois, em 1941, Kuang reencontra Wong, esta volta a vestir a pele da senhora Mak, e desta feita a relação amorosa com Yee resulta plenamente, para desilusão de ambos os amantes: Wong nunca terá pensado deixar-se submeter por esse desejo mórbido que a entrega literalmente nas mãos torturadoras de Yee, este deixa-se finalmente sucumbir aos encantos da dita senhora Mak que o entrega à morte. Nem tudo será, porém, tão simples, há muitas outras peripécias e um final que não se revela, mas o breve resumo permite prever várias questões: um filme de fundo político, sobre a China esmagada pelo Japão, que tenta sobreviver como nação, e será deste cadilho de paixões políticas extremadas que irão surgir as duas Chinas até hoje inconciliáveis. Por outro lado, desenvolvendo-se em paralelo, uma outra história de submissão e tortura, mas esta a um nível pessoal, e atormentadamente desejada pela vitima.
O filme não tem a desenvoltura formal de algumas outras obras de Ang Lee, arranca mal, é muito lenta e relativamente confusa na sua meia hora inicial, revela nalgumas sequências, um academismo não muito conforme ao autor em questão, mas é uma obra interessante, com uma boa descrição histórica de China desta época, e sobretudo um estudo muito curioso de uma relação intimamente conflituosa entre um torturador sádico e uma mulher submissa no seu intimo, mas revolucionária na sua conduta, o que torna toda a relação muito complexa. Wong deseja sexualmente a presença de Yee, que a domina, a brutaliza e a satisfaz, mas entrega-o enquanto carrasco do seu povo. O conflito entre o seu desejo e o seu dever nunca se resolve até final e ela (e os seus camaradas) vem a ser vítima desse descontrolo. O que relembra o fascinante “Senso”, de Visconti, sem o fulgor melodramático do mestre italiano. Mas as relações entre vítima e carrasco, e a sedução que delas pode advir, inclusive para o submisso, isso aponta para Liliana Cavani e “O Porteiro da Noite”, na altura um filme tão incompreendido e maltratado e hoje em dia tão “in” nas sexualidades alternativas.
Mais uma vez Ang Lee se embrenha num universo de uma sexualidade reprimida (e repressora: uma não existe sem a outra!), demonstrando não só tacto, como uma grande agilidade e sensibilidade a filmar cenas de sexo explícito, que nunca caem no pornográfico de mau gosto, apesar de rondarem perigosamente esse abismo. Excelentes actores, com especial destaque para Tony Leung Chiu Wai, um Mr. Yee de uma frieza e de um rigor de composição notáveis, que deixa explodir na cama toda a sua agressividade, e para a estreante Wei Tang, que consegue transmitir toda a perturbante duplicidade de sentimentos.

SEDUÇÃO, CONSPIRAÇÂO
Título original: Se, jie ou Se jie ou Lust, Caution
Realização: Ang Lee (EUA, China, Taiwan, Hong Kong, 2007); Argumento: James Schamus, Hui-Ling Wang, segundo romance de Eileen Chang ; Produção: Lloyd Chao, William Kong, Ang Lee, David Lee, Zhong-lun Ren, James Schamus, Darren Shaw, Dai Song, Doris Tse; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Rodrigo Prieto; Montagem: Tim Squyres; Casting: Rosanna Ng; Design de produção: Lai Pan; Direcção artística: Kwok-wing Chong, Eric Lam, Sai-Wan Lau, Bill Lui, Alex Mok; Guarda-roupa: Lai Pan; Direcção de produção: Gerry Robert Byrne, Eric Fong, Chiu Wah Lee, Wai Luen Pang; Assistentes de Realização: Tze Hung Lam, Rosanna Ng; Departamento de arte: Sai Kit Wong; Som: Eugene Gearty, Philip Stockton; Efeitos visuais: Jeff Briant, Zachary J. Gans, Matt Glover, Sarah McMurdo, Ben Simons, Brendan Taylor, Fiona Campbell Westgate; Companhias de produção: Hai Sheng Film Production Company, Focus Features, Haishang Films, Mr. Yee Productions, River Road Entertainment, Sil-Metropole Organisation.
Intérpretes: Tony Leung Chiu Wai (Mr. Yee), Wei Tang (Wong Chia Chi / Mak Tai Tai), Joan Chen (Yee Tai Tai), Lee-Hom Wang (Kuang Yu Min), Chung Hua Tou (Old Wu), Chih-ying Chu (Lai Shu Jin), Ying-hsien Kao (Huang Lei), Yue-Lin Ko, Johnson Yuen, Kar Lok Chin, Su Yan, Caifei He, Ruhui Song, Anupam Kher, Liu Jie, Hui-Ling Wang, Akiko Takeshita, Hayato Fujiki, Yu Lai Cheng, Li Dou, Yuji Kojima, Lisa Lu, Jacob J Ziacan, etc.
Duração: 157 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 18 anos; Data de estreia: 31 de Janeiro de 2008 (Portugal); Data de estreia: 24 de Setembro de 2007 (mundial).

7 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

mas que blog mai lindo.....


sério-


ENCANTADA.


Lauro!!!!!

isabel mendes ferreira disse...

corrijo:



sedutor!!!!!!

Helder Magalhaes disse...

Pois bem... esta crítica está, como sempre, muito bem construída e bem justificada e não haverá mais a acrescentar. Achei este "Se, Jie" uma das melhores, se não a melhor, obras do Ang Lee que tenha visto. Está bem realizada, com bons actores, boa fotografia, bons cenários e uma música excepcional.

Permita-me apenas que deixe aqui uma pequena questão que vem a caso: Em 1998, a actriz Joan Chen (que neste filme do Ang Lee interpreta Yee Tai Tai) realizou um filme de seu nome "Tian yu" (em Inglês, Xiu Xiu - The Sent Down Girl). Acontece que "Tyan yu" é incrivelmente bom e, por conter algumas politiquiçes e sexualidades (não explícitas), foi banido na China! Politiquiçes e sexualidades essas que são, visivelmente, de realçe muito inferior quando comparadas com este "Se, Jie" do Ang Lee.
Mas a gente já sabe como isto funciona, os tempos também seriam outros (certamente) e não vale a pena continuar a falar disso (ou valerá?)
É um filme particularmente dificil de encontrar porque nunca estreou em Portugal nem há uma edição do DVD por cá(parece-me). Eu consegui arranjar uma cópia pela internet e foi assim que o vi. Se estiver interessado, eu arranjo uma também para si (com todo o gosto).
Dou particular relevância à capa do DVD, onde vem estampado um "selo de qualidade" bem à vista de todos, onde se lê: "Banido na China por conteúdos politicos e sexuais". Muito sinceramente, nunca tinha visto nada assim, mas aposto que deve ser uma das melhores formas de publicitar o filme...

A quem interessar, fica aqui informação extra do filme:
http://www.imdb.com/title/tt0115005/

E aqui fica a capa do DVD:
http://1.bp.blogspot.com/_9FKE12SZmyQ/SK9GNnLdTYI/AAAAAAAAAGc/_MhWNm7UlSU/s1600-h/xiucover.jpg

Sem mais a acrescentar,

um abraço do

Helder M.

Bandida disse...

gostei muito!!

e acho que a isabel tem toda a razão... :)


beijosssssssssss

Luis Eme disse...

depois de ler, apetece muito ir ver...

Ricardo Revez disse...

Este blog foi uma agradável surpresa. Só agora tive conhecimento da sua existência e fiquei desde já fã.
Fico contente por poder, novamente, ouvir, ou melhor neste caso, ler, as análises cinematográficas sempre fantásticas do Lauro António.
Nunca mais me esqueci que foi graças a si que tomei contacto com os filmes do Roger Corman, com o Vincent Price, baseados em obras de Edgar Allan Poe. Devia ter aí uns 13 anos, julgo, quando os vi no seu programa da TVI. Tinha começado a ler à pouco tempo o Poe e fiquei maravilhado com os filmes de Corman e com o fantástico Mr. Price (mesmo quando os argumentos dos filmes era adaptados com alguma liberdade).
Aqui fica o endereço do meu blog. Não tem muita regularidade de escrita, mas é o que se consegue arranjar. Será bem vindo por lá.

http://acasadeusher.blogspot.com/

Mateso disse...

Despertou-me o apetite.
Obrigada.

Abraço.