quinta-feira, setembro 25, 2008

FICAP

FESTIVAL DE CINEMA SOBRE ARTES PERFOMATIVAS
Desde sábado (e até ao próximo domingo) cumpro a tarefa de Jurado no I FICAP (Festival Internacional de Cinema de Artes Performativas), dirigido pelo Frederico Corado, meu filho (para que conste), que teve a ideia e a concretizou com a cumplicidade do director do Museu do Teatro, de alguns jovens voluntários (ainda dizem que a juventude está toda virada do avesso!), meia dúzia de euros de apoiantes (não oficiais e, sobretudo, estrangeiros, imagine-se!).
O Festival está a ser um sucesso e um deleite para todos os que por lá têm passado (e não sendo multidões, são bastantes para uma primeira edição, sem qualquer apoio publicitário, sem um único cartaz, por exemplo!). O Museu fica quase ao fim da Calçada de Carriche, vira à esquerda, entra nos chamados Paços do Lumiar, quase pegado ao Museu do Traje, e é belíssimo. Um palácio no meio de um jardim fabuloso, com uns fins de tarde dourados e dengosos e umas noites soberbamente mansas neste pouco outonal mês de Setembro, transpirando ainda calor. Passear pelo jardim, ou ficar sentado num banco, ao cair da noite, enquanto se espera pela sessão seguinte, é uma experiência magnífica.
Mas há uma outra experiência inesquecível e a que se deve dar todo o mérito ao Frederico que, teimoso como o pai, levou a sua avante, mesmo contra a minha opinião inicial. Quis o Frederico meter todo o Festival nas instalações do Museu, com várias secções a concurso, e duas fabulosas retrospectivas que ele milagrosamente “inventou” com a invulgar cooperação dos homenageados (Peter Brook e Bob Wilson). Apenas há repetições na Malaposta. Ora sempre previ que umas sessões podiam interferir sonoramente noutras. Depois há sessões improvisadas em salas do próprio Museu, além das do Auditório, propriamente dito. Previa algum incómodo e concorrência sonora desleal.
Ora, no primeiro dia de concurso, a sessão deste, que decorria no Auditório, na cave, acabou primeiro do que a sessão do Bob Wilson, no rés-do-chão. E foi uma experiência única sair de uma sala de cinema, subir umas escadas e dar de frente com a traseira de um outro ecrã, onde se projectavam outras imagens, tudo envolvido numa total semi-obscuridade, mas viva, animada, misteriosa. Quase uma instalação. Sair de um filme sobre o espantoso Theatre Equestre Zíngaro, ou sobre a notável companhia de bailado de Marie Chrouinard, assistir ao registo de um concerto-entrevista do virtuoso russo Boris Berezovski, que compara a música ao jogo num Casino, olhar para os serenos bailados das indianas de Kerala, passar uma noite com o Tango de um mestre argentino, Rodolfo Mederos, recordar a geração de 1968 num belíssimo filme de Simon Brook (filho de Peter Brook), evocar os tempos de “Hair” e de uma juventude que acreditava que o mundo se podia mudar (e pôde, e mudou!), descobrir uma família que vive (duplamente) perigosamente do circo nas aldeias longínquas do Uzbequistão, desvendar a aventura de um pianista indiano que se retira para a sua pobre e distante cidade natal e aí cria uma escola de música para crianças que dali partem à conquista do mundo com concertos nas mais variadas capitais do mundo… é algo de extraordinário. Acabada a sessão, subir uns degraus e dar de caras com uma prodigiosa encenação de Bob Wilson ou Peter Brook, que mais se pode pedir, para o dia ser perfeito? Ver um museu vivo, a respirar em todas as salas, a animar as suas paredes, enfim… passear com um realizador brasileiro, que veio jantar connosco e que partia para Brasília na manhã seguinte, e dar uma escapadela nocturna pelas salas do Museu, na companhia do director que apaixonadamente ia referindo pequenos apontamentos sobre algumas peça…a que mais se pode aspirar?
Eu sei que sai do pêlo: à meia-noite chego a casa e fico acordado a trabalhar na preparação do Cine Eco até as seis. Ouvindo “Il Trovador”. Esperando pelo dia de amanhã. Para ir à tipografia antes de voltar ao FICAP ás 15 h. Pois, morre-se, eu sei, todos sabemos, mas morre-se a fazer o que se gosta e a desfrutar o que de melhor existe nesta Humanidade tão contraditória. Depois há ainda a alegria de ver o filho a singrar caminho solitário. Feliz. Sem um euro no bolso. Mais um a funcionar como mecenas da cultura em Portugal.

2 comentários:

Bandida disse...

um imagem fantástica que nos dás, do museu, do cinema, da arte, da magnífica teimosia do Frederico. para não variar os apoios oficiais ficam à espera de... tempo... ou qualquer outra coisa que nunca percebemos muito bem...

ainda bem que há teimosos! :)

beijos para o Frederico, para ti e MEC!


p.s. adorei este teu texto.

Sony Hari disse...

Depois de ler este texto tão bonito parece-me que o FICAP é para visitar e ponto final. Ainda não faço parte desse grupo tocado pela magia que este primeiro festival sobre Artes Performativas trouxe ao museu do Teatro, pela ideia e perseverança do Frederico, e também não senti ainda o conforto dos tão bem descritos fins de tarde ou noites de Setembro, mas vou fazer por isso.
Acho é lamentável que os apoios para este tipo de projectos culturais sejam tão escassos, quase inexistentes, o que parece não corresponder à crescente (às tantas é só aparente) preocupação das empresas de grandes lucros com a responsabilidade social, cultural, educacional que tantas vezes vemos em destaque nos respectivos sites.