sexta-feira, novembro 14, 2008

ENCONTRO DE BLOGUES

Hoje, às 15 horas, na Universidade Católica:
UMA NOVA FORMA DE CULTURA:
A BLOGOSFERA NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Quando gostosamente aceitei participar neste Encontro Sobre Blogues, em particular no painel “Blogues Culturais e Educação”, fi-lo pensando apostar essencialmente na minha experiência pessoal, quer como bloguer, ou como frequentador de blogues, quer ainda como defensor de uma nova comunicação que irá ter – já tem, neste momento – os blogues como um dos centros nevrálgicos desse percurso inter-pessoal.
Gostaria, pois, de falar em nome pessoal, isto é, na primeira pessoa do singular, por várias razões:
1 - porque os blogues são uma forma de escrita, ou de outro tipo de comunicação mais diversificada, essencialmente, individual;
2 - porque os blogues, lidos num computador, são uma forma de leitura, ou de comunicação mais vasta, igualmente individual;
3 - porque os blogues pressupõem uma forma de responsabilização pessoal específica, do autor do blogue;
Mas porquê este interesse especial no “eu”, numa altura em que tudo parece canalizar-se para o “nós”? Qual o significado sociológico deste “eu” numa matriz cultural contemporânea?
Pois bem, desde o alvorecer do mundo até à actualidade a história da comunicação social partiu do “eu” para chegar ao “nós”, com assinaláveis progressos e resultados práticos. Na pré-história comunicava-se por sinais e figurinhas incrustadas nas paredes, depois começou-se a falar e a transmitir-se a informação, o conhecimento, a emoção, a fantasia ou a realidade através da palavra, contaram-se histórias de um para um, ou de um para um grupo restrito, que se foi alargando até chegar a multidões, quando se iniciou a impressão de jornais, revistas e livros. Depois veio a rádio, que voltou a impor a comunicação oral do “um”, mas agora para muitos, para massas humanas, para essas multidões que foram arrastadas, de forma exemplar, pela fabulosa manipulação extraterrestre de Orson Welles, que inventou, com a ajuda de Herbert George Wells, marcianos a aterrar em território norte-americano. Da rádio passou-se à televisão, do “nós” para o “nós”, entrou-se abertamente na globalização, na sociedade da informação, na comunicação omnipresente, na demasiada informação e comunicação que é já ruído que se sobrepõe à compreensão da mensagem.
Hoje estamos aqui, numa sociedade onde quase nada se ouve, porque múltiplos são os estímulos e estrondosos de ruído. Jornais, revistas, livros, rádios, televisões, satélites, cabos, computadores tudo serve para veicular a informação, o comentário, a opinião, tudo parece servir para adormecer o agente receptor e deixá-lo estupefacto. Tudo muito rápido, muito ritmado, legendas por cima de imagens, com locução off, imagens sobrepostas, ilusões sobre fantasia, realidade trabalhada, manipulada como virtualidade, virtualidade oferecida como coisa tangível, “segunda vida”, apoteose do gótico gongórico, não dando ao leitor-ouvinte-espectador qualquer hipótese de pensar, de analisar criticamente, de usufruir de uma emoção, de se sentir projectado na notícia. Vertigem em lugar de análise ou fruição.
Na voragem do tempo, perderam-se vários valores, encontraram-se outros. Nada de saudosismos descabidos. Os tempos são os tempos que temos e vivemos. É neles que teremos de encontrar a nossa felicidade e de procurar interagir com a dos outros. Em busca do que de melhor há nele, nesse nosso tempo novo. As maravilhas da tecnologia impuseram-se em toda a linha, hoje os periódicos são “full colours”, os canais de televisão são às centenas, vindos de todo o lado e para todos os gostos, temáticos e generalistas, cinema, desporto e porno, soft e hard, mas começaram quase todos a serem iguais uns aos outros e a disputarem os mesmos públicos. E a serem disputados pelos mesmos poderes controladores. A multiplicidade de informação não diferencia as mensagens, já que por detrás da grande maioria dos grupos de comunicação se encontram grupos económicos que alinham todos pelo mesmo diapasão. Diferenciações políticas? Divergências ideológicas? Nada disso: uniformização económica e financeira. A globalização ao serviço do lucro, e se possível do lucro fácil. Não esperes por amanhã para lucrares com o que podes ganhar hoje.
A crise da comunicação é visível. Não falemos dos grandes periódicos que perdem terreno dia a dia. Fiquemo-nos por algo mais comezinho. A crise levou ao desaparecimento de muitos jornais de província, e à completa reformulação de muitos outros. Os semanários regionalistas, onde se sabia do obituário da cidade ou da vila, onde se publicitavam casamentos e baptizados, onde se escrevia em palavra de forma o diz-se diz-se das vizinhas que, ao fim da tarde, se sentavam na soleira das portas das casas da aldeia e punham em dia as (raras) novidades do dia, esses semanários regionalistas desapareceram ou snobizaram-se. Já não dão conta do casamento da prima, do falecimento do sogro, do baptizado da afilhada, nem sequer publicitam o fim de curso de fulano de tal, recém regressado de Coimbra, com o canudo debaixo do braço.
Neste universo sem tempo para o tempo, o computador veio trazer mudanças complexas na estrutura das sociedades. A troca de emails e as conversas em chats em tempo real foram um meio de ligar continentes, famílias, amigos, profissões, assim como de compensar solidões, de extravasar a timidez de uns tantos (deles mas, sobretudo, delas), de psicanalisar sem divã nem psicanalista pago à hora. Num mundo com rostos ou sem rostos, com nomes próprios ou disfarçadas em nicknames, as pessoas foram-se entendendo e/ ou desentendendo profissionalmente, criando amizades ou inimizades, namorando ou inventando o sexo virtual, ou simplesmente matando o tempo com um ou uma desconhecida com quem se discorre ao longo de uma noite. Foi uma caixa de Pandora que se abriu, com o fascínio do proibido sob disfarce e o perigo que resulta do anonimato sem escrúpulos. Foi um tempo que não passou, mas que cedeu lugar à coqueluche o momento, os blogues e a blogosfera.
O que são os blogues?
São poisos individuais a que cada um dá o seu serviço. Em Londres, no Hide Park, havia (não sei se caiu totalmente em desuso, nos últimos dois ou três anos, agora com os blogues), o cantinho do orador (the Speaker’s Corner). Antigamente era uma área de certo prestígio, onde se discutiam questões prementes da sociedade inglesa. Depois foi-se resumindo a um centro de peregrinação de turistas em busca do exotismo exibicionista local, isto é o sítio onde se podiam ouvir loucos varridos pregar no deserto, para gáudio de públicos sem pudor. Mas o princípio, nos seus melhores tempo, era o mesmo do dos blogues de agora: dar a voz a quem quer que seja que a queira tomar, para a usar da forma que pretender. Muito democrático, na aparência. Tal como os blogues. Estes com uma vantagem, ou desvantagem, consoante o prisma: podem ser anónimos.
Construir um blogue é facílimo; alimentá-lo depende do engenho e das intenções de quem o criou. Por isso “existe” e “não existe” “uma” blogosfera. Claro que existe uma blogosfera global, no interior da qual tudo é possível, uma blogosfera anárquica, pirata, onde se pilham fotos e textos como qualquer pilha-galinhas de outrora. Diga-se que não me atormenta muito essa majestosa nave de piratas, navegando no espaço etéreo, que se vai alimentando de uma enormíssima comunidade de dadores-consumidores que constantemente se renova.
Fazendo apenas um pequeno parêntesis: outras questões me atormentam e algumas de sentido contraditório. O que me preocupa é que se regularize, se regulamente, se normalize, se transforme numa plataforma do “politicamente correcto”, este armazém de energias diversas onde se sente palpitar a vida. Por outro lado, o que me põe fora de mim é algo diametralmente oposto: é o uso do anonimato e da cobardia para se transformar a blogosfera numa selva de ofensas públicas e privadas, de arruaça mesquinha, de vingança pessoal. Por isso espero que a liberdade continue a ser integral, mas a responsabilidade que o seja por igual total. Aplaudo de cada vez que um energúmeno sem nome nem rosto é descoberto e levado a julgamento e condenado, se se provar que agiu de má fé e deu mau uso á liberdade de opinião. A liberdade total só existe na total responsabilidade. Quem não tem unhas para tocar guitarra, ou quem não tem cara para apanhar um bom par de estaladas, como nos velhos tempos de Eça e Ramalho, não se deve meter onde não é chamado. Quem quer usufruir de direitos (e a liberdade é um dos mais sagrados) terá de responder com deveres (e a responsabilidade sobre o que se diz e se faz é um dos mais elementares).
Fechado o parêntesis, que me parece essencial, volto à comunidade de dadores-consumidores da Blogosfera.
Que se pode esperar dela? Tudo, e quase tudo será bem-vindo. O blogue é um espaço vazio que será preenchido pela essência de cada um. O blogue é um retrato de quem o cria. Há blogues para todos os gostos e feitios, e em quase todos encontro razões para por eles me interessar num momento ou noutro da minha viagem pela blogosfera.
Há o diarista, que conta o que o seu autor faz hora a hora, ou dia a dia; há o ensaísta, em que rigorosamente só se escreve sobre um tema predilecto (e devo dizer-vos que sobre cinema há muitos e muito interessantes, por vezes muito mais estimulantes do que a escrita institucional dos críticos encartados da comunicação social); há o rebelde, que passa da confidência pessoal, do registo de factos, à escrita opinativa, ao ensaio, ao lembrete (de certa forma confesso incluir-me neste campo); há os amorosos e românticos, que curtem paixões passadas à espera de novas oportunidades; há os de engate, mais ou menos claros, os ostensivos e os tímidos, que falam de poesia ou de filosofia, à espera que lhes apareça o “príncipe encantado” nos “comentários” do dia; há os ofensivos, irados, grosseiros, que não hesitam frente a nada, e que normalmente são anónimos, como está bem de ver; há os marginais, alternativos, uma imagem a preto e branco, uma frase entrecortada, uma referência muito intelectual apenas entrevista, para os super-dotados descobrirem e se sentirem super-dotados, tal como o autor do blogue se sente quando os evoca; há os diligentes, que se querem de “serviço público”, onde se lêem livros, vêem filmes, anotam estreias, inaugurações, lançamentos de livros, e se põe a circular uma autêntica agenda cultural de valor incontestável; há os poético-sornas, que transcrevem simplesmente poemas de outros e imagens de flores de jarras vizinhas; há os snobs, literariamente bem burilados, com estilo, pompa e circunstância; há os políticos, que tudo contestam, porque na contestação é que está o ganho, e há os outros políticos que defendem a ordem estabelecida, qualquer que ela seja, ou se ela está de acordo com a sua filiação partidária; há as franjas dos fanáticos de sado-masoquismo, do nazismo, das ditaduras, da Ku Klux Klan, do terrorismo, das bombas caseiras; há os desportivos, com o emblema que tem sempre razão encimando os comentários semanais a mais uma jogatana, injustamente perdida por causa de interposto árbitro; há os blogues de professores, os que organizam aulas e oferecem matérias de reflexão aos alunos e os que manifestam a sua repulsa pelo Ministério, qualquer que este seja; há os científicos, onde se trocam ideias e conceitos; há os literários, de “escrita criativa”, como agora se chama a essa disciplina que pode ser ensinada (para deixar de ser criativa); há os confessionais, congregando lamúrias sobre a vida e os infortúnios dos amores, choramingando baba e ranho a cada post; há os vitalistas, que se levantam cheios de energia e, antes de saírem para “a mágica manhã luminosa”, ainda conseguem tempo para anotar um pensamento positivo para o dia lhes correr bem; há... a variedade possível da infinita diversidade do ser humano.
Não se conhecem muitas vezes os rostos, não se sabe normalmente se há ou não batota na identificação do sexo, da idade, da profissão, e, todavia, na sua extrema fragilidade são seres humanos que procuram exprimir-se, falar de si, fazerem-se ouvir, mal ou bem, com erros gramáticas ou não. Professores universitários ou empregadinhas de caixa de supermercado, políticos ou estudantes em busca de veia literária, todos dispõem de um sítio onde se expressam. Realmente muito democrático, tanto mais que depois cada blogue ganha o crédito da sua própria qualidade e do seu poder de intervenção. Tudo muito relativo, até: quem me diz que o blogue do político muito mediático com 3000 visitas diárias tem mais importância real do que o blogue de uma ignorada cidadã que com um comentário certeiro salva o dia de alguém desesperado ou alimenta um sorriso num rosto desconhecido?
Todos podem ter uma função e ai de quem duvidar dessa possibilidade. Esta parece-me a grande revolução que irá desencadear uma profunda transformação cultural. Não mais existe o conselho redactorial ou a “agenda” do jornal ou do canal de TV. Não mais a censura do editor chefe que faz os cortes que entende em nome do espaço e do interesse que julga a notícia ou o comentário possuire. No blogue escreve-se o que entendemos, como entendemos. Escreve-se todos os dias, todas as semanas, mas sobretudo quando apetece. Escreve-se muito ou pouco e espera-se apenas que quem tiver interesse leia ou olhe: ninguém obriga ninguém a consumir. O produto está ali, à espera de quem o desfrute, mas não há drama se não aparecer clientela, nesse dia ou no outro.
Mais: uma das características dos blogues é que quase todos são construídos com enorme devoção e o saber e a intuição própria de cada um. Há os sóbrios e os góticos, há os das florinhas e os dos fundos brancos, há os que explodem de cor e os beges discretos, há os que levam aos seus proprietários horas a escolher uma imagem e os que publicam a que primeiro aparece na pesquisa do google; há os que escrevem uma frase burilada ao longo de um dia de pensamento e os que redigem testamentos sobre um tema que os assalta de momento. Há principalmente a diversidade que urge respeitar, porque é dessa diversidade que nasce o fascínio desta nova cultura, profundamente democrática, se bem entendida (e lá volta a maior liberdade para a maior responsabilidade).
Tal como na sociedade onde vivemos o nosso dia a dia, casa, automóvel, emprego, casa, televisão, computador, nesta nova sociedade dita “virtual” (porém “real”, bem “real”, pois nada mais é do que o reflexo mais profundo, mais íntimo e mais significativo de uma “consciência colectiva” que é o somatório de todas as consciências individuais) há de tudo. Navegar na Internet, surfar pelos blogues impõe uma mentalidade nova e um rigor cada vez maior. A ingenuidade não é mais possível e essa é uma das características para que urge alertar o consumidor passivo destas novas ferramentas tecnológicas. Sabe-se como jornais e canais de televisão podem manipular abertamente para atingirem os seus fins, quer sejam políticos, económicos, ou culturais. Podem até manipular apenas por ignorância, que é cada vez maior, ou por maldade, que sempre foi congénita ao ser humano. Há provedores dos leitores, dos ouvintes, dos telespectadores, há conselhos de redacção, há entidades reguladoras, há um manancial de entidades que procuram corrigir os erros, os lapsos, as mais grosseiras falcatruas, e, todavia, elas perssitem, cada vez mais subtis, mais maliciosas, mais traiçoeiras.
Na blogosfera não há nenhuma dessas ajudas, nenhum desses zeladores pelo bem público e a causa democrática. A blogosfera é terra de ninguém, terreno de pacatos cidadãos e de desordeiros flibusteiros. É importante ter muita atenção com o que se lê e no que se acredita. Há os blogues inofensivos. Que podem ou não ser anónimos. Nada me move contra um senhor ou uma senhora que queira compartilhar anonimamente o seu desgosto de amor, a sua propensão lírica, o seu gosto pela culinária, os cães e os gatos, as suas fantasias eróticas ou as suas meditações religiosas ou estéticas. O anonimato só é obsceno quando alguém se serve dele para atingir a dignidade de outro.
Por isso já me preocupo, e muito, com a escrita torpe, a manipulação das consciências e das boas fés, a defesa do indefensável, a apologia da devassidão entre jovens impreparados, o grotesco espectáculo do que há de mais infame no ser humano. A blogosfera, que vem dos homens, reflecte tudo o que há neles, do sublime ao maremoto da ignomínia. Eu que não acredito em censuras, acredito na educação, acredito na experiência, acredito que ao longo dos tempos sempre venceu o que há de melhor no Homem, nessa luta titânica e diária contra o Mal. Se assim não tivesse sido, há muito que a existência do Homem teria desaparecido da face da Terra. Mas, para meia dúzia de energúmenos que vão aperfeiçoando as armas do crime, há sempre batalhões de gente de bem que oferece o seu corpo às balas de toda a espécie para defender a dignidade, a liberdade, a justiça, o progresso.
Na blogosfera assim será. Sem optimismos desmedidos, mas tendo a noção de que se fala muito do Mal porque se conta pouco do Bem, que não é notícia, acredito que a blogosfera será um passo imenso no futuro da comunicação social. Cada um escrevendo como quer o que quer, cada um assumindo a responsabilidade do que coloca no ar, cada um procurando um outro que o leia e partilhe informações, conhecimentos, ideias, procurando um outro ou outra e com ele ou ela dividir a solidão, com ele ou ela comungar uma nova amizade, com ele ou ela descobrir um novo amor. Com ele ou ela, com eles ou elas construir projectos comuns, defender causas colectivas, impor rupturas na sociedade. Cada vez mais os políticos apelam à comunicação virtual, e significativamente são os que têm causas e valores a defender que a utilizam com maior empenho e melhores resultados.
Mas também com ele ou ela do outro lado da blogosfera cada um de nós continua a descobrir-se a si próprio. Descobrir-se a si próprio, eis o que penso ser um dos pontos essenciais da blogosfera. Não é acaso que o ecrã do computador, em atmosferas menos iluminadas, mais escuras, mais íntimas, reflecte o nosso rosto, o rosto de quem bate as teclas e olha o monitor, para ler o que acabou de escrever. Ao escrever o que pensa e ao publicá-lo no seu blogue, o bloguer está a dar-se a conhecer ao mundo (ao “mundo”, vasto ou diminuto, que o adopta, que o aceita, que o procura) e está a receber de volta essa imagem. Mais do que num jornal ou num livro ele reflecte-se ali por inteiro, e interage com outros “mundos” que o comentam, o adicionam às suas listas de links, o ignoram, o tentam seduzir, o contradizem, ou simplesmente o lêem em silêncio. Cada um de nós deve aprender que, na blogosfera, se aprende, e sobretudo se aprende a ler, olhar, respeitar, compreender, amar o outro, o igual a nós mas também o diferente, o que nos lê e compreende e o que nos lê e não nos aceita porque é diverso de nós.
A blogosfera por vezes irrita (irrita-me) quando a sedução mesquinha do comentário “amigalhaço” impera. Não devemos agenciar a unanimidade, sobretudo quando ela é apenas tradução de hipocrisia ou delicadeza de ocasião e nada representa de sincero e autêntico. A blogosfera é um terreno ímpar para se conhecer o que pensa o nosso vizinho do lado, mas também o desconhecido da Índia, dos EUA, do Afeganistão ou da China. Muitas vezes basta lê-los, deixar um comentário, se for caso disso. Trocam-se pontos de vista, em português, com a nossa amiga do Rio ou de Goiás, com o companheiro de trabalho que vive em Angola, com a Presidente da Câmara da cidade caboverdiana. E assim se sabe da saúde, da família, dos problemas, das ideias, do futuro, olhando o blogue. Perceber a sensibilidade tão distinta que se reflecte num blogue de uma brasileira extrovertida ou de uma snobérrima e recatada francesa são momentos importantes, ajudam-nos a compreender o mundo na sua diversidade e a aceitá-lo como tal, da mesma forma que outros nos aceitam a nós. A blogosfera tem de tender a ser essa terra de respeito mútuo, de construção colectiva, de utopia possível.
Numa altura em que quase todas as utopias ruíram, em que os valores se afundam, em que o materialismo guerreiro se tenta instalar com os resultados que todos vemos, é importante reinventar novas utopias, que sendo utopias todos sabemos não cumpridas a cem por cento no futuro, mas prováveis de concretizar em larga medida. Procuremos levar para a blogosfera a nossa diferença, o nosso contributo, descobrir dentro de nós a grandeza que cada homem e cada mulher comportam dentro de si.
A blogosfera é, por definição, dádiva. Haverá certamente, por vezes e em muitos casos, muito de humanamente mesquinho no acto de arquitectar um blogue. Não tenho ilusões que em muitos casos são sentimentos ruins que estão por detrás desse comportamento. Mas, na maioria dos casos, é de dádiva que se trata – é o caso de alguém que escreve, que cria, que movimenta ideias, palavras, imagens e sons para oferecer a um outro qualquer que, também maioritariamente, não conhece. É uma oferta ao desconhecido que fica a vogar da éterosesfera, em busca de um leitor possível para um texto que se escreveu dolorosamente, à procura de um ouvinte para uma área musical que se ama, para uma imagem que nos diz muito.
Delicadamente, discretamente, amorosamente alguém pesquisou uma área de uma ópera e a colocou no seu blogue. Acto aparentemente de pouco alcance, é certo. Acto de uma total gratuitidade. De uma enorme generosidade também. Quando clico no link e saltam do nada da noite as primeiras notas, percebo que é alguém de um ponto perdido no universo que me oferece uma mão e me toca com o seu carinho. Não me digam que evoluo num mundo de príncipes e fadas, porque não é verdade. Se há alguém causticado nalgumas intempéries da vida eu não deixarei de ser um deles. Mas é urgente não desbaratar esse potencial de generosidade que permanece no interior de cada um de nós e que transforma a blogosfera num universo de oportunidades invulgares.
Tudo o que é possível está à nossa frente. Tudo depende de uma opção nossa. Tudo provém da nossa liberdade de escolha. Eu sei que a liberdade deve ser dos valores mais difíceis de se viverem. A imposição de uma opção que se habita hora a hora, minuto a minuto, que remete para o mais profundo de nós, cansa e por vezes dói. Mas é essa liberdade que nos distingue e faz de nós seres diferentes. Porque entre o que se acha correcto e o que se sabe ignóbil vai a distância da nossa escolha. A blogosfera, porque se concebe apenas no confronto de mim comigo, é um território altamente pessoal, individual, de opção secreta e íntima. Aliciante, mas difícil. Não há chefe de redacção nem director, nem estagiário, nem livro de estilo, nem compêndio de ética que nos salve nos momentos de crise. Somos nós perante nós próprios. Um perigo. Um desafio.
Finalmente, o lado sumamente gratificante de escrever e ver publicado o que se compôs. Quando era miúdo vivi durante anos paredes-meias com dois jornais regionais, onde passava grande parte do meu tempo dito livre. Escrevia notícias, fazia pequenas entrevistas, apanhava sobretudo o bichinho da escrita e da leitura, bem assim como o vício de “fazer” jornais. Em casa escrevia-os à mão, dobrava-os e mostrava-os aos meus pais. Na tipografia dos hebdomadários, escrevia primeiro a notícia, quase sempre sobre cinema e as actrizes que já nessa altura me apaixonavam, e os realizadores que me emocionavam, e depois tentava compô-la, em caracteres de chumbo, para depois a ver impressa. Era uma autêntica alegria que, não tendo seguido eu a carreira de tipógrafo, julgava para sempre ter desaparecido do meu horizonte. Ledo engano. Muitos anos depois, volto a escrever, a compor, a paginar, a ilustrar, a musicar se assim o entender, e a publicar de imediato o que, com maior ou menor engenho, gerei. É uma alegria intensa, que vale o esforço, que compensa as horas despendidas.
Depois sente-se a liberdade do voo da ave.
Não se fica à espera da remuneração devida, ou de qualquer medalha por serviços prestados à comunidade, mas aguarda-se que alguém, secretamente, leia, abane com a cabeça, que sim ou que não e que comente ou não (mas por favor não comentem apenas porque sim, porque faz parte das regras da etiqueta, porque manda a sedução da praxe comentar aqui para receber a paga no blogue que deixa a marca). Comentar não se ensina. Comenta-se o que se acha que se deve comentar. E é perfeitamente legitimo comentar com um olá um amigo ou amiga que não vemos há tempos. Mas esvoaçar diariamente de blogue em blogue para deixar a marca da sua passagem, para receber horas depois a paga no seu espaço, não me parece muito sincero, e abomino hipocrisias. Mas se calhar, neste enorme divã de psiquiatra, esta é uma forma reconfortante de adormecer diariamente, imaginando os quantos amigos se tem, espalhados pelo mundo. A mim irrita-me, devo confessá-lo, mas quem sou eu para julgar estas miudezas sem especial significado?
E assim tenho de chegar ao fim deste depoimento pessoal que tempo não abunda e há mais contribuições a ouvir, já a seguir.
Muito obrigado pela atenção e uma última informação: ao fim da tarde, ao princípio da noite de hoje, já estará, em letra de forma, este texto disponível no meu blogue. Sirvam-se, se fazem favor.
Lauro António / 14 de Outubro de 2008
fotos do blogue Indústrias Culturais, de Rogério Santos, onde se pode colher muita informação sobre o "Encontro"

6 comentários:

Frioleiras disse...

Obrigada, Lauro !

Luis Eme disse...

isto é que foi escrever...

concordo com quase tudo, sem hipocrisias, LA.

Lauro António disse...

No blogue da minha querida amiga Lori, Rio de Janeiro, Brasil, pareceu esta prosa que julgo útil transcrever, já que versa este meu texto, bem como os comentários suscitados:

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
Sobre blogs e blogueiros

O Lauro Antonio Corado é um bloger inattendu e insuspeito pois não faz parte da geração blog padrão, também não passou a adolescência escrevendo pessoalidades e usando codificações duvidosas que só têm por mérito isolar em uma redoma de linguajar pequenos (ou grandes) grupos de semi-desocupados (ou de desajustados de qualquer espécie) como é o caso, em geral, do jargão adolescente de conteúdo, em geral, esvaziado.

E assim, escrevendo em linguagem impecável e usando textos, às vezes, longuíssimos - contra toda padronização bloguística - Lauro consegue o inesperado, ter um blog atualizado e interessante, multidomínios e agradável aos olhos, levando o caráter plurissemiótico do gênero às últimas conseqüências, mas sem cair no vulgar ou se descaracterizar. O LA apresenta tem uma identidade que não se perde e a não perder.

Tudo isto para dizer que ele nos ofereceu um excelente texto sobre o gênero blog que, apesar de longo, considero leitura necessária para quem se interessa genuinamente pelo gênero, seja para brincar de escritor de blogs, seja para exercer o papel de leitor público ou incógnito como tantos lurkers que conheço. Ou, para quem começa, como eu e outros, a criar sistematizações passíveis de serem utilizadas em aulas de práticas da linguagem, onde se ensina que a Internet e seus gêneros há muito deixou de ser brincadeira de adolescentes e "desocupados" - rótulo muito em uso na década passada - e se tornou coisa séria. Séria no que diz respeito aos processos de construção e aos seus conteúdos, mas ainda e sempre genuinamente lúdica na forma e nos conteúdos. Deixo, abaixo, uma provinha para quem tem pressa, mas tudo está aqui, é só clicar.


Navegar na Internet, surfar pelos blogues impõe uma mentalidade nova e um rigor cada vez maior. A ingenuidade não é mais possível e essa é uma das características para que urge alertar o consumidor passivo destas novas ferramentas tecnológicas.
(...)
A blogosfera tem de tender a ser essa terra de respeito mútuo, de construção colectiva, de utopia possível.
Numa altura em que quase todas as utopias ruíram, em que os valores se afundam, em que o materialismo guerreiro se tenta instalar com os resultados que todos vemos, é importante reinventar novas utopias, que sendo utopias todos sabemos não cumpridas a cem por cento no futuro, mas prováveis de concretizar em larga medida.

Postado por Lóri às 09:12
Marcadores: amigos, blogueando, futuro, linguagem

2 comentários:
Joca disse...
... saiu na revista Época que no mundo existem cerca de 900 mil blogs. Creio que deve existir muita coisa boa que jamais teremos oportunidade de ver, pois é impossível, simplesmente impossível. Uma grande utilidade que encontro são as postagens de albuns musicais, noutros tempos impossíveis de se acesso, além de causar enorme desperdicio de tempo nas vãs procuras por sebos (alfarrabios para nossos amigos lusos!). Isso me faz lembrar da biblioteca infinita de Borges, que espero reler quando possível.
O LA é uma importante referência cinematográfica, ao qual sempre recorro.

17 de Novembro de 2008 12:16
Luis Eme disse...
a blogosfera é o retrato do mundo que vai vivendo em democracia, com tudo o que existe de positivo e de negativo.

mas não tenho grandes ilusões utópicas, Lóri, a respeito da blogosfera.

porque este meio está tão à medida da gente boa como dos "filhos da puta", que se alimentam do insulto e da mentira. porque ainda se permite quase tudo na blogosfera...

a grande vantagem que existe é termos o mundo quase na palma da mão e podermos descobrir opiniões e notícias genuinas, sem a manipulação que existe nos média...
bjs Lóri

Lauro António disse...

Esqueci o link para o "Na Bronca", da Lori:
http://eranabronca.blogspot.com/2008/11/sobre-blogs-e-blogueiros.html

isabel victor disse...

Não devemos agenciar a unanimidade, sobretudo quando ela é apenas tradução de hipocrisia ou delicadeza de ocasião e nada representa de sincero e autêntico. A blogosfera é um terreno ímpar para se conhecer o que pensa o nosso vizinho do lado, mas também o desconhecido da Índia, dos EUA, do Afeganistão ou da China. Muitas vezes basta lê-los, deixar um comentário, se for caso disso.


_______________ Lauro, fiquei presa a esta belíssima e extensa reflexão sobre o impulso bloguista.


Penso que a blogesfera não será o olimpo da esperança, mas é uma grande criação ! Um outro céu ... uma poderosa dimensão, que comporta toda a diversidade humana naquilo que ela tem de melhor e pior.


e ainda embalada por Saramago ... " O mundo está cheio de respostas. O que demora é o tempo das perguntas " - ( Memorial do convento,1982)


Beijo, caríssimo Lauro


iv

isabel mendes ferreira disse...

a Net (leia-se blogues) deu-me o re.encontro contigo ao fim de muitos anos!



Valeu por isso.


___________________do resto?


rostos com tela telas sem rosto algumas com alma outras sem a dita...

mas tb muita descoberta. Gente a escrever muito bem em vários registos.

e gente claro a querer outras coisas.


afinal como a vida lá fora.


:)


beijo.Te.