sexta-feira, fevereiro 13, 2009

CINEMA: O LEITOR


O LEITOR
"The Reader", de Stephen Daldry (que nos dera anteriormente dois filmes bastante interessantes, “Billy Elliot” e “As Horas”), parte de um excelente romance de Bernhard Schlink, de grande sucesso na Alemanha e no mundo (mais de quarenta traduções) que aborda, de forma um tanto invulgar, o traumatismo provocado nas gerações seguintes pela ascensão de Hitler e do III Reich e a tragédia do Holocausto.
Uma história amorosa está no cerne desta análise com muito de simbólica ou metafórica. História que se recria em três tempos: em 1958, Michael (David Kross), um jovem estudante de 15 anos, inicia uma relação sexual e depois também amorosa, com (Kate Winslet), uma cobradora de bilhetes de eléctricos. A ligação é explosiva, arrebatada. Tem de surpreendente um facto: Hanna, antes ou depois das relações sexuais, pede a Michael para este lhe ler livros, os livros que anda a estudar ou a ler.
Alguns anos depois, o mesmo Michael, agora estudante de Direito, assiste ao julgamento de umas quantas alemãs acusadas de serem responsáveis por mortes sistemáticas de mulheres judias em campos de concentração, nomeadamente durante um incêndio numa igreja depois de um bombardeamento. Elas controlavam o grupo como elementos das SS. Foram denunciadas pela publicação de um livro, escrito por uma das raras sobreviventes. Uma dessas alemãs acusadas é Hanna, que, não querendo confessar que é analfabeta, prefere assumir a mais pesada pena como autora de um ofício altamente comprometedor. Michael poderia intervir, mas não o faz. Por respeito para com a vontade de Hanna? Por vergonha de confessar a sua relação clandestina com aquela mulher? Ou seria pelo “embotamento” (como se lhe refere Bernhard Schlink) em que se encontravam os herdeiros desse pesadelo?
Hanna cumpre, pois, pena de muitos anos, durante os quais vai aprendendo a ler sozinha, ouvindo as cassetes que Michael lhe envia de livros que lê e grava para ela. Quando se reencontram, tempos depois, Michael pergunta-lhe: “Tens pensado muito no teu passado?”, ao que Hanna responde, primeiro com uma pergunta (“No nosso tempo?”), depois com uma conclusão (“Não importa o que penso, não importa o que sinto. Os mortos estão mortos e nada os fará regressar”).
O romance, adaptado ao cinema de forma muito fiel pelo dramaturgo inglês David Hare, procura julgar a responsabilidade pessoal nos crimes do nazismo, adiantando uma explicação para muito do que aconteceu: o comum das pessoas era pouco mais de analfabeta e, por falta de cultura e da ausência de uma consciência de si e dos outros que ela traz, não teve a percepção dos seus actos. Hanna parte do sexo puramente físico para a descoberta do amor, Hanna começa a tomar conhecimento de si e do mundo que a rodeia, primeiro ouvindo ler, depois lendo e escrevendo. Mas, como sempre, todos preferem o silêncio e o segredo.
O romance, como já o disse, é excelente. De grande densidade psicológica e filosófica (o pai de Michael é professor de filosofia e, apesar de muito “ausente”, introduz uma componente filosófica interessante, porque também ela anestesiada e cansada). O livro tem uma consistência e uma profundidade que o filme raramente atinge. Como enunciado poderia, portanto, ser muito interessante esta reflexão. No livro, toda a estrutura é particularmente robusta. O facto de ser narrado cronologicamente também ajuda. A fragmentação histórica do filme, com idas e regressos ao passado, não traz nada de novo, a não ser malabarismos gratuitos. No filme, esta desarrumação deixa muitas perplexidades em aberto. Claro que a falta de cultura desculpabiliza, mas será que o iletrado está isento de julgamento de ética de comportamento? As SS sem saber ler desconheciam a extensão do crime que cometiam? Enfim, questões que “O Leitor” coloca, entre outras, e que resolve de forma insatisfatória. Razão para que o filme não mereça a minha total adesão. A primeira.
A segunda, e mais visível, é a forma como o filme se estrutura, numa toada de melodrama lamechas que se torna para o fim insustentável. O que no romance nunca acontece, escrito com uma sobriedade e austeridade notáveis. Não está em causa o melodrama, nem o melodrama social (“A Troca” é-o de forma brilhante), está em causa este tipo de melodrama sem densidade, de rodriguinho, de estereótipo, de situações sem a grandeza humana que justificam o drama. A realização é culpada do parcial falhanço, mas a interpretação é-o igualmente. Sobretudo a personagem de Michael, desde que atinge a idade adulta (e passa a ser representado por Ralph Fiennes, aqui estranhamente insuportável).
Na verdade, o filme aguenta-se muito bem no primeiro terço, em tudo quanto toca ao encontro de Michael e Hanna, de forte conotação erótica, e à descrição da Alemanha do pós-guerra, em reconstrução dolorosa, e de que a aproximação desses seres é um reflexo, ambos carentes de companhia, herdeiros de um mundo devastado, sobretudo devastado emocionalmente naquela altura. Percebe-se o prazer que brota de duas peles que se tocam, dos suores que se trocam, das solidões que se extinguem uma na outra. Mas depois o filme torna-se aborrecido, empastelado, rodando sobre si próprio, sem destino aparente. A ida de Michael a Nova Iorque encontrar-se com uma judia, autora do livro incriminatório, para lhe entregar um legado de Hanna, é mesmo dolorosa de se acompanhar. Lena Olin é desastrosa, Ralph Fiennes atinge o auge de inexpressividade, e o frente a frente dos emplastros é digno de um museu de máscaras de cera.
Tecnicamente, “The Reader” tem bons apontamentos (nomeadamente a fotografia), mas as interpretações são muito desiguais, inclusive no próprio registo de um mesmo actor, caso de Kate Winslet, que é brilhante de início, e depois se vulgariza, com uma caracterização de velhice que não se coaduna com o nível do filme, ou do já citado Ralph Fiennes, normalmente muito bem (quem não o recorda dirigido por Cronenberg?), aqui muito frio e apagado. “Embotado”? David Kross, o jovem, esse sim é uma revelação certamente a acompanhar de futuro.
Curiosidade final: Este ano, os Golden Globes deram dois prémios a Kate Winslet, melhor actriz protagonista (em “Revolutionary Road”) e melhor actriz secundária.(em “The Reader”). Não se percebe muito bem como Kate Winslet foi nomeada e depois premiada como actriz “num papel secundário”, num filme que se passa todo em seu redor. Ela é obviamente protagonista, a menos que só levem em linha de conta os primeiros quarenta minutos do filme. Porque só durante esses minutos ela merece ser nomeada. Posto isto, “O Leitor” não é um mau filme, mas também só é um bom filme parcialmente.

O LEITOR
Título original: The Reader ou Der Vorleser
Realização: Stephen Daldry (EUA, Alemanha, 2008); Argumento: David Hare, segundo romance de Bernhard Schlink ("Der Vorleser"); Produção: Jason Blum, Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Henning Molfenter, Redmond Morris, Arno Neubauer, Sydney Pollack, Michael Simon de Normier, Nora Skinner, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Charlie Woebcken; Música: Nico Muhly; Fotografia (cor): Roger Deakins, Chris Menges; Montagem: Claire Simpson; Casting: Simone Bär, Jina Jay; Design de produção: Brigitte Broch; Direcção artística: Christian M. Goldbeck, Erwin Prib; Decoração: Eva Stiebler; Guarda-roupa: Donna Maloney, Ann Roth; Maquilhagem: Ivana Primorac; Direcção de Produção: Jan Enderlein, Jennifer Lane, Aaron Levine, Jeff Maynard, Arno Neubauer; Assistentes de realização: David Blazina, Carlos Fidel, Mara Fiedler, Tarik Karam, Josh Newport, Miguel Pate, Tonja Schürmann, Richard Styles; Departamento de arte: Susann Belaval, Katja Clos, Gabriele Roß, Anu Schwartz; Som: Blake Leyh; Efeitos especiais: Michael Apling, Adolf Wojtinek; Efeitos visuais: Peter Chiang, Paulina Kuszta, Jim Rider; Companhias de produção: Mirage Enterprises, Neunte Babelsberg Film, The Weinstein Company; Intérpretes: Kate Winslet (Hanna Schmitz), Ralph Fiennes (Michael Berg), Bruno Ganz (Professor Rohl), Lena Olin (Rose Mather / Ilana Mather), Vijessna Ferkic (Sophie), Jeanette Hain (Brigitte), David Kross (Michael Berg, em jovem), Susanne Lothar (Carla Berg), Alissa Wilms (Emily Berg), Florian Bartholomäi (Thomas Berg), Friederike Becht (Angela Berg), Matthias Habich (Peter Berg), Frieder Vénus, Marie-Anne Fliegel, Hendrik Arnst, Rainer Sellien, Torsten Michaelis, Moritz Grove, Joachim Tomaschewsky, Barbara Philipp, Hans Hohlbein, Jürgen Tarrach, Kirsten Block, Vanessa Berthold, Benjamin Trinks, Fritz Roth, Hannah Herzsprung, Jacqueline Macaulay, Volker Bruch, Karoline Herfurth, Max Mauff, Ludwig Blochberger, Jonas Jägermeyr, Alexander Kasprik, Burghart Klaußner, Sylvester Groth, Fabian Busch, Margarita Broich, Marie Gruber, Lena Lessing, Merelina Kendall, Hildegard Schroedter, Alexandra Maria Lara, Martin Brambach, Michael Schenk, Ava Eusepi-Harris, Nadja Engel, Anne-Kathrin Gummich, Carmen-Maja Antoni, Petra Hartung, Linda Bassett, Beata Lehmann, Heike Hanold, Bettina Scheuritzel, Robin Gooch, Rich Odell, Sam Luca Scollin, etc. Duração: 124minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 12 de Fevereiro de 2009;

3 comentários:

Frioleiras disse...

como sempore... gosto imenso de ler os teus artigos !...

tolilo disse...

Tio Lauro,

Não costuma ver filmes de desenhos animados?

É que, como sou pequenino, gosto muito.

Chuac!_

Helder Magalhaes disse...

Achei o filme bastante interessante e tenho uma pena enorme de (ainda) não ter lido o livro. Hei-de o fazer quando o tiver.

A Kate Winslet é interessantíssima assim como o sotaque meio Polaco que mete no Inglês.

Ralph Fiennes é, de facto, muito melhor quando dirigido por Cronenberg.

Infelizmente, tem toda a razão quando diz que, mais para o final, os actores se vulgarizam, a caracterização não está à altura, e o filme se torna quase insuportável, baseado no melodrama lamechas.
Stephen Daldry já fez muito melhor, além do "Billy Elliot" e de "As Horas", encenou o Musical do "Billy Elliot", que eu vi, é fantástico, diferente do filme, reinventado e igualmente divertido.

Ainda assim, o filme merece ser visto e confio no Óscar para a Kate Winslet.

Um abraço, do
Helder