terça-feira, fevereiro 17, 2009

CINEMA: REVOLUTIONARY ROAD

REVOLUTIONARY ROAD
América, meados dos anos 50: numa festa de jovens, um homem e uma mulher olham-se, aproximam-se, falam, confessam sonhos. Paris, onde ele já esteve mobilizado, durante a II Guerra Mundial. Os anos passam, casaram, são os Wheelers, Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet), vivem numa agradável casa nos subúrbios de Connecticut, dois filhos, ele empregado num escritório de uma grande empresa, ela dona de casa com aspirações a actriz que falham rotundamente na noite de estreia do grupo teatral local. A simpática senhora que lhes vendeu a casa (Kathy Bates), em Revolutionary Road, acha-os “especiais”, eles também se acham, mas começam a sentir a terra a fugir-lhes debaixo dos pés. Os sonhos vão ficando para trás, as promessas de felicidade restringem-se ao mínimo. A vida dos subúrbios asfixia-os, lentamente. O sonho de Paris regressa. Vender a casa, largar o emprego, pegar nos miúdos, viajar até à Europa (como os sonhos se cruzam: na Europa, por essa altura, alimenta-se o sonho de viajar até à América, “a terra das possibilidades para todos”). Ela promete que trabalha como secretária da OTAN, ele pode cumprir o destino que traçara para si, e que não sabe muito bem qual é, mas não é de certeza estar fechado o dia todo num escritório “open space”, com jaulas envidraçadas onde se multiplicam as vendas de electrodomésticos. Por isso se impõe o sonho de partir, a miragem da aventura, de viver perigosamente (na frente da batalha, Frank confessa que sentiu medo, mas acrescenta que foi nesse momento que soube o que era a vida e April olha-o fascinada, apaixonada). Frank recorda o pai e os “sábios” conselhos que este lhe dava e lembra como o detestava nesse seu sentir sem horizontes. Nunca seria como o pai a servir fielmente durante 20 anos a mesma empresa, jura.
Mas o homem sonha, e a obra quase nunca nasce. A vida, a vidinha de todos os dias, as promoções no emprego, os filhos, a comodidade do adquirido, os preconceitos do ambiente mesquinho destas aldeias em jeito de cidades satélites, muito convencionais, muito patéticas na sua arrumação (cidades que Tim Burton tão bem caricatura, nalguns dos seus filmes, cidades que Sam Mendes tão subtil e violentamente escalpelizara já em “Beleza Americana”), vão minando a resistência de uns e o equilíbrio emocional de outros. As frustrações instalam-se. A neurose progride. Até à loucura, como no caso do matemático, que os choques eléctricos, no hospital psiquiátrico, já limitaram a meras recordações. Ele faz seus os sonhos dos Wheelers, ele é o único que os compreende plenamente, será portanto o que menos compreende a sua renúncia. Ele que está preso, anseia voar. Os Wheelers que podiam voar e já tinham os bilhetes na mão, recusam o sonho. Não ela, April, mas sobretudo Frank. Porque há a possibilidade da promoção, e a promessa de um novo lugar, a anunciada chegada de outro filho, a vida de todos os dias que às vezes é madrasta para os sonhos. De quem os pressente, porque há muitos que vivem (ou parecem viver) felizes com o que têm. Tomem-se como exemplo alguns colegas de escritório de Frank, e alguns vizinhos, onde, todavia, há sempre dramas, o filho no psiquiatra, ou o desejo refreado do vizinho do lado, que explode uma noite, no interior de um carro, para continuar domesticado e bem comportado, no seu lar, deixando, no entanto, os olhos vaguear dolorosamente pelo horizonte. Que não existe.
Este é um retrato magoado e confrangedor de uma América que abafa a felicidade em casinhas modelares e electrodomésticos? Claro que é. Estes bairros higienizados de subúrbios só existem assim nos EUA, e tanto Richard Yates no seu magnífico romance, tanto Sam Mendes no seu belíssimo filme, falam essencialmente da América. Mas, este é um problema próprio da condição humana, mais do que de um só país. É próprio do homem desejar o que não tem. Procurar sempre mais. Há os que se adaptam, há os que sofrem a cada revés, há os que se acomodam e os que explodem, há os raros que partem para Paris, e lá chegados descobrem que afinal a vida está além, porque a vida está sempre além para os insatisfeitos. E não se trata sequer de uma questão de classe social.
Ao ver a progressiva erosão dos sentimentos nesta família de bairro dos arredores, veio-me à lembrança uma genial sequência de Orson Welles, em “Citizen Kane”, vários pequenos-almoços ao longo de anos, ligados por “travellings” laterais que vão, de movimento em movimento, mostrando o gradual afastamento, a distância, o alheamento total de um casal, ele um dos homens mais ricos e poderosos dos EUA, ela a sobrinha do Presidente. O desgaste é algo que ataca os sentimentos como a ferrugem os metais. E fica sempre a sensação de que tudo poderia ter sido de outra maneira, que o presente e o futuro poderiam ter sido diferentes, que houve sempre o erro original da deficiente avaliação das causas e o fracasso assumido, ou não, das consequências não calculadas. Por isso, entre os americanos das cidades satélites, ou ingleses, os franceses, os portugueses, os chineses ou os brasileiros, os problemas são os mesmos, ainda que os cenários variem.
E depois há ainda os que não conseguem “perceber” sequer os problemas que estes romances e estes filmes abordam, e que são esses deserdados da terra, para quem o sonho é ter comida para os filhos e para si todos os dias, ter água corrente e luz eléctrica, ou mais grave ainda não estarem sujeitos a torturas diárias numa qualquer prisão miserável, ou não assistirem diariamente ao massacre de milhares de inocentes. Sem se compreender por quê.
É, todavia, a insatisfação constante e o sonho do impossível que faz mover o Homem, por muito diferentes (por vezes contraditórios) que sejam esses sonhos. Um exemplo de colheita pessoal: em 1974, em Portugal, nos muros das ruas e nos quartos dos jovens, estavam afixados cartazes de Marx, Lenine e Che Guevara. Numa viagem que fiz à Hungria, nas paredes das ruas, nada se via, a não ser propaganda estatal, e nas camaratas dos estudantes, cartazes da Coca-Cola e de Jeans. De cada lado do muro, os sonhos eram não só diferentes, como antagónicos. Cada um sonhava com o que não tinha, e quando passaram a ter, nenhum dos lados ficou feliz. Muito pelo contrário. Cada homem e mulher, quando sonha, se sonha, sonha com um Paris diferente.
Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que já se tinham encontrado a bordo de “Titanic”, voltam a reunir-se numa nova aventura sentimental num cenário onde tudo se afunda à sua volta. Julgo que ambos são absolutamente notáveis, mais ela, que aqui tem uma interpretação perfeita, controlada, rigorosa, interiorizada. A forma como “sente” a solidão do tigre enjaulado, e a transmite de forma tão contida nos processos, e tão profunda nos resultados é simplesmente brilhante. Muito acima do seu trabalho em “O Leitor”, onde tudo é mais estereotipado.
Depois há um conjunto de secundários notáveis, desde logo Michael Shannon, é certo, na composição de John Givings, o revoltado matemático que é, na sua loucura, um dos mais lúcidos arautos do inconformismo, mas também todos os outros companheiros de cárcere dourado. Kathy Bates é brilhante, na figura dessa mulher que aluga sonhos de apartamentos “muito especiais”, para casais “muito especiais”, que rapidamente o deixam de ser. Mas o marido dela é igualmente notável, tão notável que o filme dá-lhe a honra de terminar sobre ele, desligando o aparelho auditivo, para mais facilmente suportar o ruído que o rodeia. Há ainda o casal vizinho, a mulher que se aconchega na vida como no sofá da sala, e o marido, que concretizou o sonho de uma vida nuns minutos de felicidade sexual num banco de carro, para voltar depois ao cinzentismo de sempre (diga-se que as cenas dele com April, a dançarem num bar e a fazerem amor no carro, são das imagens mais violentamente eróticas do cinema nos últimos anos). Saliente-se ainda a jovem secretária, que é desviada uma tarde para uma tórrida cama onde transpirou o seu sonho de sexo e amor impossível. Tudo fragilidades da condição humana, que a tornam tão fugazmente feliz e tão intensamente desditosa.
A fotografia é deslumbrante na forma como descreve ambientes e os filtra em solidões deserdadas, a direcção artística brilhante a restituir os anos 50, e a partitura musical (por vezes um pouco excessiva, na sua omnipresença) igualmente muito inspirada. Um grande filme, ternamente emocionado sobre a vacuidade da vida, sobre a tortura dos sonhos, sobre a fatalidade de existir, numa constante busca de amor e felicidade. Própria do Homem.

REVOLUTIONARY ROAD
Título original: Revolutionary Road
Realização: Sam Mendes (EUA, Inglaterra, 2008); Argumento: Justin Haythe, segundo romance de Richard Yates; Produção: Gina Amoroso, Bobby Cohen, Henry Fernaine, Karen Gehres, Pippa Harris, John Hart, Peter Kalmbach, Sam Mendes, Marion Rosenberg, Scott Rudin, David M. Thompson, Nina Wolarsky; Música: Thomas Newman; Fotografia (cor): Roger Deakins; Montagem: Tariq Anwar; Casting: Ellen Lewis, Debra Zane; Design de produção: Kristi Zea; Direcção artística: Teresa Carriker-Thayer, John Kasarda, Nicholas Lundy; Decoração: Debra Schutt; Guarda-roupa: Albert Wolsky; Maquilhagem: Alan D'Angerio, Linda Melazzo; Direcção de Produção: Meryl Emmerton, Jennifer Lane; Assistentes de realização: Amy Lauritsen, Joseph P. Reidy, John Silvestri, Christian Vendetti; Departamento de arte: Derrick Kardos, Tina Khayat, Erik Knight; Som: Jacob Ribicoff, Warren Shaw; Efeitos especiais: John Stifanich; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer, J. John Corbett, Adrienne Winterhalter; Companhias de produção: DreamWorks SKG, BBC Films, Evamere Entertainment, Neal Street Productions, Goldcrest Pictures, Scott Rudin Productions; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Frank Wheeler), Kate Winslet (April Wheeler), Michael Shannon (John Givings), Ryan Simpkins (Jennifer Wheeler), Ty Simpkins (Michael Wheeler), Kathy Bates (Mrs. Helen Givings), Richard Easton (Mr. Howard Givings), Sam Rosen, Maria Rusolo, Gena Oppenheim, Kathryn Dunn, Joe Komara, Allison Twyford, David Harbour (Shep Campbell), John Ottavino, Adam Mucci, Jo Twiss, Frank Girardeau, Catherine Curtin, Jonathan Roumie, Samantha Soule, Heidi Armbruster, Kathryn Hahn (Milly Campbell), Zoe Kazan (Maureen Grube), Dan Da Silva, Dylan Baker (Jack Ordway), Keith Reddin (Ted Bandy), Neal Bledsoe, Marin Ireland, Max Casella, Max Baker (Vince Lathrop), Jon Sampson, Peter Barton, Kevin Barton, Evan Covey, Dylan Clark Marshall, Jay O. Sanders (Bart Pollack), Christopher Fitzgerald, Chandler Vinton, Kelsey Robinson, Duffy Jackson, Dan Zanes, Vince Giordano, Jon-Erik Kellso, Andrew Burton, Will Sanderson, Alex Hoffman, Kristen Connolly (Mrs. Brace), John Behlmann (Mr. Brace), David Campbell, Michael Ciesla, Mary DeBellis, Jay Ferraro, Zoe Hartman, Cristina Marie, Chris Miskiewicz, Jared Morrison, Joel Ney, Ted Yudain, Jonathan Yvon, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 29 de Janeiro de 2009.
Nota: Sobre este filme será interessante ler "Os críticos que odeiam cinema", no blogue "Delito de Opinião". Leia Aqui.

15 comentários:

Margarida Pereira disse...

... fico com a sensação de ter visto o filme...!

Helder Magalhaes disse...

É mesmo um filme extraordinário!

Mais uma razão para a Kate Winslet ser premiada.

E escuso de dizer mais o que quer que seja, porque aqui já tem tudo dito. E bem dito, como sempre.

Abraços, grandes, do
Helder

Hugo Pires disse...

Este filme é asfixiantemente humano. Tocou-me muito. O seu texto também.

Hugo Cunha disse...

É tudo isso e muito mais, mas os votantes dos Oscares assim não acharam, talvez a temática os tenha afastado. A Kate aqui está muito melhor que no Leitor,mas que ganhe o Oscar que bem o merece, tem tido uma carreira excelente.

Bandida disse...

também gostei imenso.

casa de passe disse...

Caro amigo,

Os teus conselhos são ordens!

E o que eu gosto de cinema!

Abracinho

(Loulou)

- desta vez eu e os da Casa não poderemos ir ao Vavádiando...

Fica para a próxima! Não esqueças de nos avisar !

Lauro António disse...

Obrigado Margarida. Mas veja o filme, se puder, vale mesmo a pena.

Lauro António disse...

Um abraço Helder, e continua a aparecer por aqui. Encontramo-nos em famalicão, daqui a dias.

Lauro António disse...

Um abraço Helder, e continua a aparecer por aqui. Encontramo-nos em famalicão, daqui a dias.

Lauro António disse...

O comentário que vem com o nome de Hugo Pires no texto sobre o "Revolucionary road" é da minha autoria. O que passou é que não reparei que o meu marido estava "loggado" no momento em que deixei o comentário no seu blogue. As minhas desculpas.

Um abraço
Cristina Nobre Soares

Obrigado, Cristina. Tomei nota. Não te de pedir desculpas...

Lauro António disse...

Hugo Cunha, também a acho muito melhor neste filme, mas nao voto para os Oscars! Abraço.

Lauro António disse...

Bandida, claro que tinhas de gostar. omo bandida sensível!... Beijo.

Lauro António disse...

Loulou, mesmo que quissesses aparecer, já não ha lugares há uma semana - lotação esgotada e lista de espera. Fica para a próxima. Beijos às meninas e elas que não esqueçam o "tio" da capital.

Izzi disse...

Concordo plenamente com a análise. Ainda não vi "The Reader", mas acho muito difícil ver Winslet melhor do neste filme. Está soberba!

**

BlueAngel disse...

Ainda não vi. Já tinha lido que se sai do cinema como se se tivesse levado um murro no estômago. Foi exactamente o que senti quando li o seu texto. Doeu-me tudo por dentro. A não perder mesmo!!!