quinta-feira, abril 09, 2009

CINEMA: GRAN TORINO

:
UMA (QUASE) OBRA-PRIMA
Clint Eastwood teve, nos seus tempos de actor iniciado, dois belíssimos mestres, Don Siegel e Sergio Leone. Depois começou o seu próprio percurso como realizador, herdando de um e outros certas características, mas criando um caminho muito pessoal. Homem de visão conservadora e de estilo clássico, enveredou por um tipo de cinema que, oscilando entre o policial e o western, se podia colocar entre o mais reaccionário americanismo, algo racista e mesmo um pouco afascistizado, sobretudo nas aventuras do “justiceiro” “Dirty Harry”. Já então, todavia, excelente realizador e brilhante actor. Conservador continua, americano até à medula também, excelente realizador e brilhante actor igualmente, refinando com o passar dos anos. Insurgi-me (e insurjo-me hoje em dia) com a mentalidade Dirty Harry, mas este cineasta conquistou-me completamente.
“Gran Torino” não sei se será uma obra-prima ou não, sei que é um dos grandes filmes que vi recentemente (acrescentando que não há muito também vira “A Troca”, que me deixara igualmente emudecido pela grandeza do porte ético deste homem que sabe lidar como poucos com as emoções extremadas e com o que de mais profundo e secreto existe na alma humana).
Com argumento de Nick Schenk, sobre história sua e de Dave Johannson, “Gran Torino” tem como protagonista Walt Kowalski (Clint Eastwood), veterano da Guerra da Coreia, que nos é apresentado de forma magistral no velório da mulher, onde grunhe de desaprovação perante os piercings e o telemóvel da neta e os impropérios de um outro neto. Kowalski, assim mesmo para os que não são seus amigos, é homem de outros tempos e de outras maneiras. Não gosta do comportamento dos filhos e demais família, no que tem razão, diga-se em abono da verdade, não é preciso ser conservador, racista e reaccionário, vive sozinho numa vivenda de um bairro de Detroit invadido por orientais e latino americanos, infestado por bandos de jovens violentos e desbragados. Não tolera que os americanos actuais comprem carros japoneses, ele que trabalhou na Ford e conserva como relíquia o “Gran Torino”, modelo de 1972, que ele próprio ajudou a montar. Não conserva só o carro, símbolo que dá o nome ao filme, conserva também armas e relíquias da guerra da Coreia, onde matou e viu morrer, em nome da pátria e da sobrevivência.
Kowalski é um duro, daqueles de antes quebrar que torcer. O espírito de Dirty Harry anda por ali e pensamos mesmo que pode ir até ao fim, mas o fim será outro, e com esta obra Clint Eastwood parece ter assinado o seu testamento (ainda que não tenha arrumado as botas, já está na África do Sul a filmar “The Human Factor”, com argumento de Anthony Peckham, segundo romance de John Carlin, que fala de Nelson Mandela e da forma como este lutou contra o “apartheid” e conseguiu unir o seu país, durante o campeonato do mundo de rugby de 1995). Um testamento que reforça o que acha justo e contrapõe algumas ideias à sua imagem de justiceiro por conta própria ou de proto-racista. O que o leva mesmo a dizer como é possível gostar mais destes “hmongs” (refugiados vietnamitas de uma etnia do sudeste da Ásia, que combateu no Vietname ao lado dos americanos) do que da própria família. Mas a verdade é que se não escolhe a família, mas se pode escolher quem nos trate por Walt. Portanto, o filme é uma longa (ou rápida) aprendizagem da vida e dos seus valores, que tanto pode ser levada a cabo por um duro americano de 78 anos, como por um adolescente “hmong”.
A personagem de Kowalski é admiravelmente composta por Clint Eastwood, num misto de herói solitário e de velho marreta (o humor está sempre presente neste retrato de amargo ressentimento e de apego à vida) que oscila entre a figura enraivecida de uma desencantada ruína dos anos 70 que aponta uma arma à cabeça de um gang de facínoras e a desenvolta personagem de um familiar cliente de barbeiro, com quem troca insultos de fraterna cumplicidade (a iniciação do jovem “hmong”, que deve entrar na barbearia como um “homem”, é divertidíssima, e mostra bem a faceta de humor deste cineasta).
De resto, “Gran Torino” é uma lição de cinema, sereno, vigoroso, profundo, dramático, angustiante, perverso e inocente, maduro, clássico e moderno. Cinema que apetece ver e ficar a apreciar durante dias, sonhando recordá-lo anos depois.
O que faz a grandeza de certos Homens que nos fazem ultrapassar todas as barreiras? 53 anos como actor, 37 como realizador, vários Oscars, dezenas de prémios nos maiores festivais, alguns dos melhores filmes do mundo, uma silhueta inesquecível e inimitável, um nome que se venera – Clint Eastwood!
GRAN TORINO
Título original: Gran Torino
Realização: Clint Eastwood (EUA, Austrália, 2008); Argumento: Nick Schenk, Dave Johannson; Produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Jenette Kahn, Robert Lorenz, Tim Moore, Adam Richman; Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens; Fotografia (cor): Tom Stern; Montagem: Joel Cox, Gary Roach; Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: James J. Murakami; Direcção artística: John Warnke; Decoração: Gary Fettis; Guarda-roupa: Deborah Hopper; Maquilhagem: Tania McComas; Direcção de Produção: Tim Moore; Assistentes de realização: Peter Dress Michael Judd, Donald Murphy; Departamento de arte: Kai Blomberg, Steven Ladish, Scott Schutzki; Som: Bub Asman, Walt Martin, Alan Robert Murray; Efeitos especiais: Hank Atterbury, Steve Riley; Efeitos visuais: Kelly Port; Companhias de produção: Matten Productions, Double Nickel Entertainment, Gerber Pictures, Malpaso Productions, Media Magik Entertainment, Village Roadshow Pictures, Warner Bros.;
Intérpretes: Clint Eastwood (Walt Kowalski), Christopher Carley (padre Janovich), Bee Vang (Thao Vang Lor), Ahney Her (Sue Lor), Brian Haley (Mitch Kowalski), Geraldine Hughes (Karen Kowalski), Dreama Walker (Ashley Kowalski), Brian Howe (Steve Kowalski), John Carroll Lynch (barbeiro Martin), William Hill (Tim Kennedy), Brooke Chia Thao (Vu), Chee Thao (avó), Choua Kue (Youa), Scott Eastwood (Trey), Xia Soua Chang, Sonny Vue, Doua Moua, Greg Trzaskoma, John Johns, Davis Gloff, Thomas D. Mahard, Cory Hardrict, Nana Gbewonyo, Arthur Cartwright, Austin Douglas Smith, Conor Liam Callaghan, Michael E. Kurowski, Julia Ho, Maykao K. Lytongpao, Carlos Guadarrama, Andrew Tamez-Hull, Ramon Camacho, Antonio Mireles, Ia Vue Yang, Zoua Kue, Elvis Thao, Jerry Lee, Lee Mong Vang, Tru Hang, Alice Lor, Tong Pao Kue, Douacha Ly, Parng D. Yarng, Nelly Yang Sao Yia, Marty Bufalini, etc.
Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 12 de Março de 2009.

10 comentários:

nieves disse...

O melhor que fiz nos últimos tempos foi deslocar-me até Mérida para ver este filme porque aqui ainda não estava no cinema e não podia esperar.

innername disse...

sem dúvida....
Não vi mencionados todos os filmes que este Sir protagonizou, realizou e etc's.....mas existe um, entre os outros de que falaste, caso do Dirty Harry, que me ficou no "goto": As pontes de Madison County - claro que não será o melhor filme dele, mas tb já genuinamente americano, indo ás profundezas dos sentimentos provocados pelo adultério e a forma como se convive com essa situação. Este é um homem grande. Não vi, ainda e infelizmente o Gran Torino, e nem a troca - que já sei que é com John Malkovitch -
mas depois da paixão com que descreves os sentimentos tratados nos filmes, tenho que ver e rápido. Obrigado.

Hugo Cunha disse...

Olhe o que eu encontrei que saudades tenho disto http://www.youtube.com/watch?v=SaJj2BfMvWw

isabel victor disse...

Lauro, venho desejar uma boa Páscoa e nem digo mais nada.
Estou em falta com uma programação fílmica anunciada ...

((:

um beijo e mil desculpas


iv

Helder Magalhaes disse...

O filme é extraordinário!
Mas "A Troca" tocou-me mais. É mais contido, mais ponderado, mais à Sergio Leone, que eu tanto admiro. Este "Gran Torino" está mais virado para o que Don Siegel ensinou ao Clint, parece-me, mas não deixa de ser um filme magnífico que marca (e bem) o seu último papel...

Votos de uma Feliz Páscoa, do
Helder

Rato disse...

O melhor Cinema é aquele que nos fica na memória e que nos obriga, de vez em quando, a irmos buscar determinado DVD à estante lá de casa. O grande teste é portanto o tempo, pois sem ele não existe memória. É por isso que muitas vezes me surpreende a leviandade com que certos "críticos" recém-encartados apelidam de "obras primas" a filmes recentes e que por isso ainda não se expuseram ao "juízo final".
CLINT EASTWOOD é uma excepção a esse conceito. Os seus filmes, sobretudo os que detêm a sua marca como realizador, não precisam de muito tempo para nos convencerem. Será talvez por isso que este post tem aquele "quase" entre parêntesis - que provavelmente Lauro António retirará daqui a alguns anos mais.
"As Pontes de Madison County" é mesmo um dos melhores filmes de Eastwood, está lá bem no topo, não haja qualquer dúvida sobre isso. Podemos conhecê-lo de cor e salteado mas cada nova visão traz-nos sempre aquele gostinho especial do prazer antecipado.
Mas o mesmo se passa com os outros, apelidados de "menores", vá-se lá saber por que razão. Por exemplo, já perdi a conta as vezes a que assisti ao seu primeiro filme, "Play Misty For Me", que ainda hoje, 38 anos depois, continua a constituir um dos melhores thrillers de que tenho memória. E que nos é servido em formas simples e lineares, sem toda a parafernália em que o cinema americano se afunda cada vez mais nos dias que correm.

Claudia disse...

Fiquei estarrecida com o filme!
Beijo meu para ti

Victor Afonso disse...

Sem dúvida o filme do ano. A obra crepuscular, mas cintinlante, de Clint.

belinha disse...

Olá!Já disse e já escrevi várias vezes, Clint Eastwood no Cinema e Stuart Staples na música.Quando vi um e ouvi outro pela primeira vez detestei-os.Com o tempo e no momento certo descobri-os e hoje venero um e outro quase incompreensivelmente ou pelo menos além do que a razão consegue explicar.Vi a Troca e hoje vi este Gran Torino.A Troca é magistral na forma como nos lembra o que é contar uma história e fazê-la funcionar em todos os seus elementos. Gran Torino é mais outra celebração da capacidade interpretativa e de composição de personagem que Clint possui que aqui parece ter um bocadinho de rebelde do Kansas e de Harry!É admirável em muitos aspectos,pequenos detalhes...no sentido de humor a par do drama...Obra prima ou não,isso não sei, mas é muito bom cinema!

Maria Bacelar disse...

Um CLINT,que consegue mostrar neste filme RAIVA, TERNURA ,BRAVURA, e no FINAL,meu Deus tanta CORAGEM !!
E tanta a capacidade de nos fazer ACREDITAR !!