quinta-feira, junho 11, 2009

ELEIÇÕES EUROPEIAS

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NOVAS LEITURAS PARA AS EUROPEIAS
Conhecidos os resultados das eleições europeias, e digeridos os mesmos, pode dizer-se, ao contrário do muito que por aí se apregoa, que ninguém ganhou nada, e só o PS perdeu. Na verdade, estas foram umas eleições que pouco significaram por um lado e que, por outro, se mostraram particularmente ricas de ensinamentos. Para quem quiser ler os resultados finais à luz de um certo realismo político.
Claro que ninguém ganhou nada. Os descontentes do PS engrossaram as fileiras da abstenção, do PSD, do BE, do PCP, e mesmo de algum CDS-PP. E ainda sobraram alguns votos para os partidos mais pequenos. Basta fazer contas, para se perceber isto. Será muito mais estimulante perceber porque se deu esta hecatombe no seio do PS, ainda que as causas estejam à vista: desgaste político junto de sectores que votam PS normalmente (professores, juristas, classe médica, funcionários públicos, etc.), desgaste moral com “casos de polícia” não resolvidos (Freeport, por exemplo), crise económica internacional, imagem de certa arrogância do governo e má imagem de alguns ministros, péssima escolha do cabeça de lista para as Europeias, e etc. Com tantos contras, apetece perguntar como o PS conseguiu ainda segurar 26, 6 % do seu eleitorado. Certamente à custa de gajos como eu que votaram PS na impossibilidade de votar outra lista, e porque, apesar de tudo, se identificam com uma proposta ideológica programática, não acreditam em tudo quanto se disse sobre o Freeport (e esperam pacientemente pelos resultados das investigações), e encontram virtudes em muitas das tomadas de posição deste governo (em muitas, não em todas!).
Mas os resultados das eleições europeias, que sei não se poderem extrapolar para outras eleições que se avizinham, permitem outras leituras interessantes. O eleitorado descontente, por exemplo, dispersou-se à esquerda e à direita, indistintamente. O que mostra bem como não houve uma deriva ideológica, mas sim um voto de protesto generalizado. O que tem uma outra leitura. Vendo e olhando as campanhas dos partidos da direita e da esquerda do PS, não se descobriam diferenças acentuadas. Havia apenas uma intenção declarada – bater no PS, deitar abaixo a maioria absoluta.
Parecia a União Nacional do reviralho. Se os resultados se mantiverem para as legislativas, não será de estranhar uma coligação PSD-CDS, nem uma PSD-BE, ou mesmo PSD-PC (o que aliás se verifica já, subtilmente, nalgumas autarquias!).
Mas há sinais muito preocupantes para o futuro, depois de 7 de Junho de 2009. A nível nacional, um país ingovernável, numa altura de crise nacional e internacional que não vai abrandar tão cedo, e sem dirigentes políticos confiáveis (competentes e carismáticos) no horizonte. Finalmente, num plano europeu, os resultados destas eleições são ainda mais ameaçadores, com a subida galopante da extrema-direita anti-democrática. Obviamente que também aqui funcionou o voto de desagrado para com a crise. Mas a leitura dos eleitores é paradoxal: a crise internacional é indiscutivelmente uma crise moral de uma certa ideia de capitalismo selvagem que se vem impondo desde a ascensão dos yuppies na década de 80. Foi o neo-capitalismo desregrado que nos conduziu a esta renda de bilros bancária e financeira. Foi a avidez do lucro fácil que impôs esta histeria bolsista com bolhas a explodir por todo o lado. Curiosamente, alguns eleitores (milhares de eleitores pela Europa fora), para castigarem os prevaricadores, votam na direita ditatorial.
Algo não anda bem por estes lados, decididamente.


2 comentários:

António Garcia Barreto disse...

Sou de opinião idêntica. Veremos o que nos traz o futuro próximo.

Helder Magalhaes disse...

Só há uma justificação plausível: a desacreditação em massa para com os políticos...

Um abraço!, do
Helder