sexta-feira, junho 05, 2009

HOSPITAL, II

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SALA DE INSUFICIÊNCIA CARDIACA – CAMA 1
No braço esquerdo, uma pulseira amarela, colocada ainda na triagem, anunciava que o estado era grave, mas não extremamente grave (teria sido então uma pulseira laranja). Não sei bem porquê, a verdade é que nunca entrei em pânico generalizado, ainda que desde há muito tenha horror a hospitais. Não me apanham com facilidade a ver séries como “Serviço de Urgência”, “Anatomia de Grey” ou “Dr. House”. Acho depressivos os ambientes e não sou o que se possa considerar um apreciador de sangue derramado nem de presenciar sofrimentos alheios. Claro que em qualquer filme há sofrimento e drama, mas nos filmes hospitalares parece haver “mais realismo”, mesmo quando não há nenhum.
Passando ao largo: foi ainda de braçadeira amarela que entrei na sala de insuficiência cardíaca, do oitavo andar do Hospital. Tinha “reservada” a cama 1, numa enfermaria com companheiros discretos e simpáticos, cada um com o seu caso às costas, ou ao peito, dado que todos os casos passavam pelo coração. Nos dias que ali estive, Rui, Adelino (de Ponte de Lima) e, posteriormente, João foram os camaradas das farras nocturnas que duravam aí até às 22 horas. Uma loucura!
Nessa primeira noite, comecei a ser medicado e controlado ao milímetro por um estendal de máquinas, tubos e vasos comunicantes que me aparentavam muito a qualquer ser de um filme de terror. Frankenstein, por exemplo. Mas o resultado foi surpreendente. Expliquei à médica que eu normalmente adormecia tarde e acordava tarde, o que ali não iria acontecer, ela aconselhou um tranquilizante para sossegar e a verdade é que a noite se passou bem. Terá sido mesmo a melhor noite da minha permanência. Relembro-a como algo de mágico. Uma enfermaria quase completamente silenciosa, as grandes janelas com os estores a deixarem atravessar uma ligeira luz dourada que vinha do exterior, e que se projectava em serenas barras pelas paredes, e o silêncio, o silêncio, o silêncio. Uma noite sem gemidos ou tosse, sem ressonar ou gritos. Um silêncio reconfortante para quem acabava de atravessar uma zona de penumbra indecifrável e ancorara ali, entre completos desconhecidos, irmanados no mesmo secreto medo do que seria o seu futuro próximo.
Às seis e meia da manhã soou a alvorada. Recolhem-se os recipientes de urina, mede-se a temperatura, a tensão e a glicemia. Tudo mais ou menos controlado, excepto o açúcar, 300 e tal. O primeiro comprimido do dia, em jejum. A seguir vem o iogurte magro, para os diabéticos, mais uma hora e meia de repouso, o pequeno-almoço com leite e café, ou chá, e um pão escuro com manteiga. E comprimidos. Entra o pessoal da limpeza que lava o chão, arruma o quarto e faz as camas. Os “hóspedes” que se podem levantar vão à casa de banho, sozinhos, mas com a companhia do que chamam o seu “bobi”, o suporte de soro que arrastam, presos por tubos às mãos. Não me permitem levantar nesse primeiro dia, mas recuso terminantemente a arrastadeira “para emergências”. Veremos como tudo se passa. Tiram sangue para análises. Com toda esta azáfama são onze horas. Aparece a médica para o electrocardiograma. Os pés e as mãos agrilhoados, a zona do peito juncada de sanguessugas de borracha. Vou-me habituando. É estranho como me vou “habituando” a tudo, às seringas, aos discos, às picadas na barriga, para os diabetes, para o sangue circular, para a tensão. Aos comprimidos, ao pão escuro com manteiga. Ao almoço completamente deslavado e sem graça, que como com apetite, sim com avidez, sem deixar uma colher de sopa ou uma réstia de um peixe sem sabor e uma batatas que outros acusam de estar duras. Não me parece. Apenas descoloridas. Por volta das duas da tarde, começam as visitas. As minhas, as dos meus camaradas de cela. Vemos caras conhecidas, que amamos, que nos visitam para falar um pouco sobre o quotidiano (Oh, como é admirável, ali dentro, o quotidiano de cá de fora!), para se inteirarem do nosso estado de saúde, e de espírito, para nos olharmos apenas, para as pequenas minúcias de estarmos vivos e respirarmos. Como são agradáveis de ouvir, mesmo quando não acreditamos muito no que ouvimos, as frases do costume, “Estás com bom aspecto!”, “O pior já passou!”, “O que é preciso é coragem!”
Às quatro e meia vem o lanche, chá com um pão com manteiga, não inventam muito por aquelas bandas, aceito, tem de ser assim. Como o que me dão. Não penso em cozido à portuguesa ou numa feijoada à brasileira, nem mesmo quando o meu colega, em deambulatório, regressa ao quarto suspirando por uma dessas iguarias ou um bom whisky para “fechar a noite”.
Às sete horas, mais coisa menos coisa, encerra o período de visitas, mas nada é muito rigoroso quanto a horários desses. Há um regulamento “humano” para cumprir, e assim se cumpre, caso não exista por ali nada de muito grave. É o caso. Somos doentes graves, mas não desesperados. Depois regressamos à nossa solidão. Na cama, sem me poder levantar nesse dia, olho em redor. Já tenho comigo jornais e revistas, alguns livros, um pijama de casa (o casaco do pijama que me fora atribuído pelo hospital não conseguia apertar à frente, quatro números abaixo do meu!), uns chinelos, e pouco mais. Mas são elementos essenciais para o meu equilíbrio. Sobretudo ter que ler. Mesmo que não leia, mas é fundamental saber que tenho ali à mão algo que ler. E um caderno para apontar o que houver a apontar. Pouca coisa, até ao dia da saída. Tudo fica registado na memória.
A noite cai, os dias aquecem, quem me visita chega esfalfado com o calor. Vem o jantar, pelas sete e meia, oito horas, igual ao almoço, mais comprimidos, injecções, tirar a febre, a tensão, medir a glicemia, a rotina que se impõe até à exaustão. Os comprimidos antes da ceia, a ceia, leite ou chá e um pacotinho de bolachas “Maria”, o silêncio, mas desta vez não dormirei quase nada e a luz do quarto nunca mais voltará a ser a mesma. Nem o silêncio. Antes do semi-silêncio, a médica cardiologista vem-me dizer mansamente que tenho de fazer um cateterismo. Estamos numa quarta-feira, “a intervenção cirúrgica poderia ser feita no dia seguinte, mas quinta e sexta os técnicos enfermeiros estão de greve, segue-se sábado e domingo, tudo indica que só será na segunda. Depois, na melhor das hipóteses há que recuperar.” Faço contas de cabeça e são cerca de dez dias de internamento. O que será um cateterismo? Nunca tinha ouvido falar ou então fizera por esquecer. O que tinha resultado, até essa noite.
Passo quinta-feira já levantando, para ir tomar banho ou à casa de banho para outras necessidades, já almoço e janto com os companheiros na salinha da TV, com alguma galhofa pelo meio.
Mas o que será um cateterismo? Explicam-me que é um exame de cardiologia, que injecta um cateter numa veia principal que o leva até ao coração onde se diagnosticam, in loco, possíveis problemas cardiovasculares. A intervenção cirúrgica pode demorar 10 minutos, se nada de especial ocorrer, até duas horas se houver que corrigir um estreitamento de uma artéria coronária. Correcção que se faz através da colocação de “stenters” (espécie de anilhas que alargam a zona afectada) ou de “bypasses”. Saber isto, não é uma boa forma de adormecer, mas a noite cai.

4 comentários:

Margarida Pereira disse...

Dois. Cateterismos - dois.
Um 'exploratório' ("ver-o-que-se-passa-por-lá").
Outro, de 'resolução' ("cauterizar- tecido-com-laser - brrrrrr...).
Sentir a quentura a escorrer pela perna, depois ver os fios a bulir com 'o tambor'. Horas.
Doíam-me as costas.
Disso ninguém fala, das mesas frias em que esperamos o tempo passar.

Xi-coração. (Sempre)

BlueAngel disse...

Lendo-o na primeira pessoa consigo reconhecer alguns dos momentos que já vivi num hospital (apesar de a patologia ser diferente). A forma como descreve o silêncio arrepia-me, porque o silêncio do hospital é diferente de todos os outros silêncios e isso só reconhece quem lá esteve. Continuação de boas melhoras. beijos :-)

Frioleiras disse...

o que me custou no hospital (estive 2 semanas em santa maria na sequência duma miningite viral que apanhei na china...)
era o barulho das enfermeiras, as conversas dumas para as outras, a qualquer hora da noite, não respeitando quem estava doente ou tinha dores de cabeça impensáveis e quase mortais........

e ver as baratas subir pelas cortinas da cama...........

passei horrores, sim passei horrores neste hospital e na cuf descobertas (quando fui operada a uma hérnia discal e vomitei toda a noite sem que alguma enfermeira ou auxiliar me ajudasse, a mim q nem me mexer podia )
e
passei horas solitárias e impotentes deitada numa maca que esqueceram num dos corredores do s. josé, à espera de um tac à região lombar (na sequência dum jantereco belíssimo com amigos em que escorreguei em frente ao Luca, nas calçadinhas tortas do passeio, em cima duns saltos altos impróprios para Lisboa...)
depois disseram que eu tinha partido o sacro. transferiram-me para o s francisco xavier aos tombos. de lá queriam transferir-me para o da parede. afinal, não tinha nada partido, apenas dorido....

horrores que se passam ...

tu estás bem, graças a deus (desculpa invocar o nome de deus ... talvez não gostes..)

bj

um beijo lauro e outro para a eduarda...

gosto de sentir que apesar de tudo estás bem desperto e sensível a toda a espécie de mundo que te rodeia.

Frank aka Pakko disse...

Apenas e tão simplesmente, as melhoras e rápida recuperação!!!