domingo, junho 07, 2009

HOSPITAL, III

:
CATETERISMO
Sexta-feira de manhã acordei mansamente. Continuava amarrado ao soro e a outros sacos de medicamentos pendentes do suporte, mas tinha permissão para andar, ir à casa de banho, tomar banho, comer na sala. Sabia que os enfermeiros faziam greve e já apontava que o meu cateterismo se efectuaria somente segunda ou terça-feira. Com um fim-de-semana pelo meio, a arrastar-me com o “bobi” atrás.
Saía descontraído de um banho revigorante (na medida do possível), quando duas enfermeiras me abordam a meio do corredor. “Estávamos à sua procura, o seu cateterismo está marcado para agora.” Gelei: “Não é só segunda-feira?” Não, não era, o meu caso foi considerado urgente, por causa de um medicamento qualquer que estava a tomar, que só podia ser administrado durante dois dias e esse prazo acabava nessa altura. Seria perigoso manter-me sem a observação do cateterismo e sem medicação. Pedi um minuto para telefonar à família e regressei. Há momentos que podem ser definitivos.
Tinham-me explicado que esta observação do estado do coração e das veias que a ele conduzem era coisa de pouca importância. Mas há filmes e livros e histórias de todos os dias que falam de pequenas cirurgias sem importância que acabam em tragédia. Nunca fiando. A sala de “pequena intervenção cirúrgica” fica mesmo ali ao pé, no oitavo andar. Foi andar uns passos e penetrar num espaço estranho, que me lembrava um armazém de produtos farmacêuticos, a bordo de uma nave espacial, com uma cama metálica ao centro, dominada por tonalidades verdes.
Segui as orientações: deitei-me, despi-me por completo, cobriram-me o peito com um tecido leve, raparam-se velozmente as virilhas com a segurança de quem já rapou centenas, pintaram-nas em gestualismo puro com betadine, e deixaram-me assim um bom tempo, a congelar. As enfermeiras perceberam que estava a enregelar com o ar condicionado e colocaram-me algo mais quente por cima, “enquanto espera.”
Que esperava eu? Parecia tudo a postos, mas não começavam. Um médico entrou, apresentou-se, disse que desta vez quem fazia o filme eram eles, eu poderia ver nos ecrãs que estavam à minha frente, não havia anestesia geral, apenas local, eu iria assistir a tudo, não custava nada, uma incisão na virilha, na veia, introduzir o cateter, orientá-lo até ao coração, verificar o estado geral, localizar estreitamentos, e depois, se tudo estivesse bem, eram dez minutos, se fosse preciso intervir, poderia ir até às duas horas, mas nas calmas, sem problemas, vamos falando, não dói nada, apenas uma ou outra pequena impressão.
Pois, mas a virilha era minha e a incisão era em mim. Nada de pânico, porém, pensei. Não tinha como fugir, como o faria, hospital fora, nu, com um “bobi” atrás? O melhor seria mesmo confiar. Ainda perguntei como é que se viam as veias no ecrã e como acertavam com as anilhas necessárias nos locais precisos, ao que me foi respondido que eram “quinze anos de prática”. Acreditei, e na verdade tudo correu bem.
A operação começou, a incisão, apesar da anestesia, senti-a, e foi estranho pensar que tinha nessa altura um cateter a percorrer-me as veias e a enviar sinais do meu estado interior. Maravilhas da medicina e da tecnologia moderna que salvam vidas. Sentia os dedos dos médicos massajarem a veia junto à virilha, e via no ecrã que o cateter subia ou descia, numa paisagem cinzenta, aqui mais esbranquiçada, ali mais escura, onde voavam estranhas aranhas tentaculares. Aquilo era o meu coração? A aorta? Nem perguntei, conservando os braços atrás das costas para que o pesado braço de mecânica geringonça pudesse movimentar-se à vontade sobre o meu peito. Não foram dez minutos, foram quase duas horas, três “stents” colocados em duas veias do lado esquerdo. “Ficou por reparar uma, do lado direito, depois logo se verá,” explicaram os médicos. “Você tinha isto muito entupido!”
Eficácia e eficiência, foi o que mais me chamou a atenção. Gestos precisos, e uma longa prática, certamente. Surpreende-me sempre a frieza com que certas profissões são desempenhadas. Não pode ser de outra maneira, eu sei. Mas fico, mesmo assim, surpreendido. Cortar a carne humana, enfiar objectos estranhos nas veias, olhar o interior desta cavidade que nos alimenta de vida e de emoções, e fazê-lo com a calma e a serenidade de quem domina por completo o ofício. O ofício, isso mesmo. É uma profissão como outra qualquer, mas, apesar de tudo, “não é uma profissão como qualquer outra.” Quem a exercer com rigor, deve chegar ao fim do dia exausto. Não se trata de aviar medicamentos ou de servir refeições, por exemplo. Trata-se de ter nas mãos, à sua mercê, a vida de uma pessoa. Um erro pode ser fatal. Um escritor pode dar um erro, apaga e volta atrás. Aqui, um erro, pode ser irremediável. Claro que pensei em tudo isso, enquanto ia observando a azáfama controlada de médicos e enfermeiras que me rodeavam. Até a curiosidade da jovem aluna de medicina que veio assistir à intervenção. Aqui estou eu a oferecer o corpo à ciência – sirvam-se no que eu poder ser útil.
Desfazer a feira foi o mais doloroso. Compressas e desinfectantes, a perna esquerda imobilizada, “não pode mexer esta perna até amanhã, cuidado por causa das hemorragias!”, foi a recomendação. Assim fiz, na medida do possível. Às tantas já não tinha posição possível, doía-me tudo, mas na manhã do dia seguinte estava melhor. Deram-me autorização para levantar novamente, ainda com a perna esquerda acorrentada em compressas. Almocei e jantei na sala de convívio, quatro mesas quadradas reunidas a formarem uma mesa quadrada maior, oito convivas em redor, tabuleiro com sopa e um prato, ora carne ora peixe, invariavelmente deslavado. Água e conversa: as maleitas de cada um vinham ali depor à hora da refeição, lá estavam quatro senhoras e quatro cavalheiros, todos em camisa de dormir e pijama, eles, o João, o Adelino, o Eurico (da Malveira, de rosto vincado, pelas rugas e pelo sol, e pelas agruras da vida, sete operações no activo, contadas a todos, uma delas à coluna, “claro, a acarretar sacos de cem quilos, desde a infância.”). À noite ficámos eu e o João, a ver um pouco de uma tourada transmitida pela televisão. A seguir, mais uma noite mal dormida. De silêncio. De espera. A rotina no domingo, as visitas do nosso contentamento, com os jornais do dia, as novas de quem se quer bem, a mão na mão, os olhares gratificantes que nos dão coragem, e aquelas frases aparentemente sem sentido, que ali fazem todo o sentido. “Amanhã já sais. Força!”
Uma noite a pensar no “amanhã já saio”. E se não sair? Se algo de errado acontecer entretanto? Se as analises, se o electrocardiograma, se a glicemia…? Na manhã seguinte é segunda-feira, as enfermeiras libertam-me de todos os empecilhos, colocam pensos nos múltiplos orifícios desimpedidos, as manchas negras nos braços e na barriga são agora muito visíveis. A médica cardiologista observa-me pela última vez, com últimos exames, e dá ordem de alta, depois de falar com a chefe de serviço. Falta somente preencher o formulário que me irá entregar à saída, com a descrição da doença, exames e prescrição médica. Saio à tarde, e à porta da enfermaria já se encontra, esperando numa maca no corredor, o próximo inquilino da cama nº 1.
Mas antes de sair sou novamente votado à ciência. A chefe de serviço, professora da faculdade de Medicina, entra da enfermaria com uma turma atrás, que divide pelos quatro pacientes. “Não se importam de responder a um questionário? Mas não revelem do que padecem, eles têm de tentar descobrir.” E assim foi. Durante cerca de uma hora perguntas de todo o tipo penetraram no íntimo mais íntimo de cada um. Fui respondendo a tudo o mais correcto que sabia, não fornecendo pistas, nem verdadeiras nem falsas. Os jovens ficavam atrofiados com algumas questões, “Doenças sexualmente transmissíveis?”, “Consome drogas?” (a esta respondi que sim, “todas, de todo o tipo, desde cafeína até charutos.”).
Depois, foi o adeus à cama nº 1, quando a Eduarda apareceu com a mesma roupa com que entrei no hospital, quase uma semana antes (fiz questão de lhe pedir a mesma roupa, com ligeiras alterações óbvias). Desci o elevador 12, percorri os corredores, sai para a rua. A cidade era a mesma que eu deixara e não era a mesma. Acabara uma viagem estranha por um mundo crepuscular que deixara pesadas marcas. Uma viagem que espero sem retorno, mas que, todavia, deixou sinais de perca, de nostalgia, de uma certa saudade dessa cumplicidade de desconhecidos que a ameaça uniu em redor de uma mesa quadrada ou numa enfermaria silenciosa. Afinal razão de ser destes escritos – uma forma de prolongar no exterior uma experiência vivida lá dentro.

(Não poderia terminar sem um agradecimento a todos quantos se cruzaram comigo nesse hospital, desde médicos, em especial Dr. Jacques, Drª Dulce Brito, Drª Doroteia Silva, Dr. Marques da Costa, ainda as enfermeiras Clara, Cristina, Rita e o enfermeiro Marcos, entre muitos outros, bem assim como a todo o pessoal auxiliar. Agradeço a competência e a simpatia, e agradeço sobretudo ter sido tratado como um entre vários. Espero voltar a vê-los, mas noutras situações!).

9 comentários:

Ouriço disse...

Ufffff!
bjs

Frioleiras disse...

Um abraço, esperando que já estejas quase refeito..........

BlueAngel disse...

O regresso a casa é sempre um descanso. Continuação de boa recuperação. beijos :-)

V. disse...

Qualquer susto modifica-nos (ou deveria). Um ambiente novo (ou desconhecido) como será um hospital faz-nos pensar -porque temos tempo para isso-, reaprender, indagar uma série de coisas...
Aprender a descansar é fundamental, eliminando ou não dando importância às possíveis fontes de stress. É crucial também que o descanso não seja encarado como uma imposição. Portanto, let it be.

"And when the night is cloudy, there is still a light, that shines on me,
shine until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music, mother Mary comes to me,
speaking words of wisdom, let it be.

Let it be, let it be"

Com um beijo.

Bandida disse...

aquele abraço!!

António Luís Lopes disse...

Meu caro amigo,

embora não o conheça pessoalmente, admiro-o desde sempre, acompanhei a sua obra cinematográfica, os seus artigos, os seus livros sobre cinema, etc. Posso, assim, dizer que, em parte, o Lauro António é uma "visita", não de casa, mas da alma, do gosto, da comunhão no prazer pelo cinema. Votos de boa e rápida recuperação.

Com um abraço grande

António Luís Lopes

Margarida Pereira disse...

:) Viu? Passou...
Eu fiquei tão 'apaixonada' pelo pessoal que escrevi ao director do hospital (que amavel e surpreendentemente me respondeu!) e encomendei um bolo gigante com o símbolo 'da casa'...
Foram excepcionais, todos.
A gente nunca esquece o susto, não é?...
Pois, mas voltei aos cafés e outros 'pecadilhos'...
A gente não se emenda... ;)

LS disse...

Boa noite Lauro António. Agora percebo porque é que não respondeu aos meus convites. Faço votos de rápidas melhoras. Cumprimentos. Luis Silva - Seia - Serra da Estrela.

Maria Antonieta disse...

Bom dia Maria Eduarda e Lauro

Ah que anos não vos encontro. Mas entretanto vou-vos "seguindo", como veem.

Felizmente correu tudo bem e a tempo. E agora cuidado

Um abraço
Maria Antonieta