terça-feira, agosto 04, 2009

CINEMA, ELEGIA

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ELEGIA

"O Animal Moribundo", de Philip Roth, que é definitivamente um dos maiores escritores norte-americanos vivos, está na base de “Elegia”, o novo filme de Isabel Coixet. Devo confessar que Philip Roth é escritor de minha muito particular estima, quer pelos temas abordados, quer pelo seu estilo, que muito bem se coaduna com o seu universo, quer ainda pelas suas posições políticas e preocupações sociais.
Quando li “O Animal Moribundo” afirmei que, por várias razões, o livro me tocou profundamente. Curiosamente, dias antes, alguém lera uns textos meus e me disse: “Relembram-me “O Animal Moribundo””. Fui ler e concordei: era verdade. Seguramente, com uma longa distância de talento a separar-nos. Mas as preocupações estão lá e as formas de as enfrentar também.
“O Animal Moribundo" é um escritor, professor universitário de literatura, semi-reformado, que já só dá um seminário de Crítica Prática, embora continue a ser um considerado crítico cultural, respeitado pelas suas intervenções semanais na televisão, e por uma ou outra ocasional crítica teatral. Tem sessenta e alguns anos, está divorciado há muito, desde os libertadores “anos 60”, tem um filho com quem se relaciona mal (que nunca lhe perdoou o divórcio da mãe), sente a velhice aproximar-se e a morte rondar. Vai rodando casos amorosos ou, melhor dizendo, vai multiplicando aventuras sexuais com alunas actuais e antigas. Até que um dia encontra, numa das suas aulas, Consuela, muito mais nova que ele, com vinte e quatro anos de origem cubana, ardentes e apaixonados. David Kepesh leva-a a jantar e depois para casa, fala de Kafka e de Velásquez, mas a obsessiva ideia inicial é levar Consuelo para a cama. Sexo duro e puro parece ser o horizonte, mas o que nasce dessa aproximação é algo de muito mais profundo, uma história de amor que tem o corpo e o sexo como origem, mas se transfigura à medida que o tempo passa e os sentimentos se fortalecem.
O que se conta no livro e no filme é o angustiante encontro de um homem a caminho da velhice e de uma mulher, na sua plenitude, ao encontro da morte. O resultado em livro é brilhante, notável, arrasador, escrito com a secura de um Hemingway, mas com o olhar do início de século XXI. Uma viagem ao mais secreto da alma humana, empreendida por um escritor verdadeiramente invulgar, numa obra de uma densidade e força inusitadas. A sua transposição para o cinema não é menosprezável, muito pelo contrário. Isabel Coixet é uma realizadora catalã com imenso talento e um definido gosto por histórias inesperadas de emoções conturbadas (são dela filmes muito interessantes como “Cosas que Nunca te Dije”, 1996, “Mi Vida sin Mí”, "A Minha Vida sem Mim", 2003, “La Vida Secreta de las Palabras”, "A Vida Secreta das Palavras", 2005).
Obviamente a adaptação não é fiel, na íntegra, ao texto literário, corta sequências, condensa outras, altera factos, reduz substancialmente o clima erótico e atenua a linguagem desbragada utilizada no romance, mas de um modo geral procura ser fiel ao espírito e à essência da obra. Isabel Coixet escolheu um elenco de grande maturidade e rigor, Ben Kingsley (David Kepesh) não é a figura que eu imaginei quando li o romance, mas é um actor magnífico, que se transmuda, que se adequa a cada nova situação, Penélope Cruz (Consuela Castillo) consegue conciliar a sensualidade e uma certa inocência de comportamento, ainda que lhe falte algum “fogo cubano”, e seja demasiado trintona para fazer de rapariga de vinte e quatro anos, Dennis Hopper (na composição da personagem George O'Hearn, poeta galardoado com um Pulitzer, amigo de Kepesh) é igualmente notável de bonomia e rigor, bem como Patricia Clarkson (a anterior amante Kepesh, Carolyn). Excelente é ainda Peter Sarsgaard (Kenny Kepesh, o filho).
Um elenco que oferece uma solidez inequívoca e uma eficácia notável na transmissão de emoções fortes e devastadoras e, por vezes, de um infinito desencanto. Um dos outros grandes méritos de Isabel Coixet é conseguir transmitir a todo o filme um ambiente de melancolia e solidão, de quase desespero, sem recorrer a truques ou efeitos fáceis. A toada do filme é lenta, nocturna, magoada, entrecortada por cenas de um ardor sensual visceral, de quem procurar morder a vida e a ela se agarrar, como forma de sobrevivência, não tanto frente à morte, mas sobretudo perante o inexorável declínio físico, à proximidade da doença e do que ela acarreta de perca de faculdades, de perca de juventude, de perca das potencialidades da vida. As sombras do entardecer dos corpos projectam-se nestas paisagens humanas em decadência. Neste caso, “fazer amor” (ou foder, como Philip Roth gosta de rectificar) não é só “fazer amor” ou foder, é afirmar uma vontade, é revoltar-se contar o destino, é erguer um desejo de imortalidade (certamente irrisório) diante do irremediável. É o próprio David Kepesh quem afirma: “Quando fazes amor com uma mulher vingas-te de todas as coisas que te destruíram durante a vida”
(When you make love to a woman you get revenge for all the things that defeated you in life”. )
Outro aspecto muito curioso neste filme, é que a adaptação cinematográfica é empreendida por uma mulher, baseada num livro que só podia ter sido escrito por um homem, onde aqui e ali se poderiam mesmo notar certas facetas de um machismo “domesticado”, “civilizado”. Mas David Kepesh é claramente uma personagem típica do universo de Philip Roth, muito parecida com Coleman Silk, o reitor reformado de “The Human Stain” (“Culpa Humana”, 2003), um filme de Robert Benton, curiosamente igualmente adaptado ao cinema por Nicholas Meyer (que acompanha Isabel Coixet nesta nova adaptação). A caminho da velhice, solitário, neurótico, obcecado pela juventude e as mulheres, ofuscado pelo sexo, através do qual procura afirmar-se, e mais do que isso, prolongar a sua vida, Kepesh é uma figura fascinante e de uma humanidade dilacerante. Esta personagem é muito bem entendida por uma mulher que a filma com uma enorme ternura e compreensão, que a olha de frente na sua frágil dignidade e na sua total solidão. Esta “Elegia”, que por definição é um poema triste, é também um belo poema triste sobre a descoberta do amor num homem de sessenta e muitos anos, empedernido por sucessivos casos descartáveis, mas que subitamente descobre dentro de si a força do amor, a incerteza da dúvida e do ciúme, a perenidade da carne, e até a força da paternidade. “O Último Tango em Paris”, de Bertolucci, entre alguns outros exemplos passíveis de citar, já abordava o caso de um homem maduro envolvido sexualmente com uma voluptuosa jovem muito mais nova, numa troca de experiências que revificava ambos. Esta “Elegia” retoma o tema com sensibilidade e uma dorida compreensão.
ELIGIA
Título original: Elegy
Realização: Isabel Coixet (EUA, 2008); Argumento: Nicholas Meyer, segundo romance de Philip Roth (“O Animal Moribundo – The Dying Animal); Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Eric Reid, Tom Rosenberg; Fotografia (cor): Jean-Claude Larrieu; Montagem: Amy E. Duddleston; Casting: Heike Brandstatter, Coreen Mayrs; Design de produção: Claude Pare; Direcção artística: Helen Jarvis; Decoração: Lin MacDonald; Guarda-roupa: Katia Stano; Maquilhagem: Gitte Axen, Martin Samuel, Susan Boyd; Direcção de Produção: Terra Abroms, Penny Gibbs; Assistentes de realização: Misha Bukowski, Sandra Mayo, Louisa Phung, Rhonda Taylor; Departamento de arte: Gordon Brunner, Jan Kobylka, Ray Lai, Sharon Thompson, Mario Tomas-Niedworok; Som: Karen Schell; Efeitos especiais: William H. Orr; Efeitos visuais: Alexandre Cancado, Vincent Cirelli, Payam Shohadai, Steven Swanson; Companhias de produção: Lakeshore Entertainment; Intérpretes: Penélope Cruz (Consuela Castillo), Ben Kingsley (David Kepesh), Dennis Hopper (George O'Hearn), Patricia Clarkson (Carolyn), Peter Sarsgaard (Kenny Kepesh), Deborah Harry (Amy O'Hearn), Charlie Rose (Charlie Rose), Antonio Cupo, Michelle Harrison, Sonja Bennett, Emily Holmes, Chelah Horsdal, Marci T. House, Alessandro Juliani, Tiffany Lyndall-Knight, Laura Mennell, Andre Lamal, Shaker Paleja, Kris Pope, Julian Richings, Tania Saulnier, Michael Teigen, Ryan McDonell, etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 3 de Julho de 2009; Locais de filmagens: Coquitlam, Vancouver Island, Vancouver, University of British Columbia, British Columbia, Canadá.
De Philip Roth, "O Animal Moribundo", citações:

“(…) Por muito que saibamos, por muito que pensemos, por muito que maquinemos, compactuemos e planeemos, não somos superiores ao sexo. É um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se aventurasse a ser fodido. É o sexo que traz a desordem às nossas vidas normalmente ordenadas. Eu sei isto tão bem como qualquer outra pessoa. Toda e qualquer vaidade regressa para troçar de nós. Lê o “DonJuan”, de Byron. No entanto, que podemos nós fazer se temos sessenta e dois anos e estamos convencidos de que nunca mais voltaremos a ter ao nosso alcance uma coisa tão perfeita? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e a ânsia de aproveitar seja o que for que seja aproveitável não poderia ser mais forte? Que fazemos se temos sessenta e dois anos e tomamos consciência de que todas aquelas partes do corpo até então invisíveis (rins, pulmões, veias, artérias, cérebro, intestinos, próstata, coração) estão a começar a tornar-se desoladoramente patentes, enquanto o órgão mais conspícuo ao longo de toda a nossa vida está condenado a mirrar até à insignificância?
Não me interpretes mal. Não se trata de, por intermédio de uma Consuela, podermos cair na ilusão de pensar que regressamos uma última vez à nossa juventude. Não é possível sentir mais a diferença relativamente à nossa juventude. Na energia dela, no seu entusiasmo, na sua ignorância juvenil, na sua sabedoria juvenil, a diferença é dramatizada em cada instante. Nunca há a mínima dúvida de que é ela, e não nós, quem tem vinte e quatro anos. Só um grande idiota sentiria que é de novo jovem. Se nos sentíssemos jovens, seria uma armadilha. Longe de nos sentirmos jovens, sentimos o tormento do futuro ilimitado dela em comparação com o nosso futuro limitado, sentimos ainda mais do que normalmente o tormento de todos os derradeiros dons que fomos perdendo. É como jogar basebol com um grupo de miúdos de vinte anos. Não que nos sintamos com vinte anos por jogarmos com eles. Notamos a diferença durante cada segundo de jogo. Mas pelo menos não estamos sentados nas linhas laterais.
O que acontece é o seguinte: sentimos lancinantemente que estamos velhos, mas de uma maneira nova.” (pag.s 36-37)
“(…) Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha de ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga. O conjunto de regras determinava que tínhamos de impor a nossa vontade à rapariga. Era assim que ela era ensinada a manter o espectáculo da sua virtude. Ficaria confuso se uma rapariga comum se oferecesse, sem uma infinita importunação, para quebrar o código e praticar o acto sexual. Porque ninguém, de qualquer dos sexos, tinha alguma noção de que recebia à nascença um direito erótico. Era desconhecido. Ela podia, se estivesse caída por nós, concordar com uma punheta - que significava essencialmente usar a nossa mão com a dela como um encaixe -, mas que alguém consentisse alguma coisa sem o ritual do cerco psicológico, de perseverante e monomaníaca tenacidade e exortação, bem, isso era impensável. Não havia, com certeza, possibilidade de conseguir um broche a não ser usando de uma perseverança sobre-humana. Eu consegui um em quatro anos de universidade. Era tudo quanto nos era permitido. Na cidade rústica das Catskill, onde a minha família tinha um pequeno hotel de férias e eu atingi a maioridade nos anos quarenta, a única maneira de ter sexo consensual era ou com uma prostituta ou com alguém que fora a nossa namorada durante a maior parte da nossa vida e com quem toda a gente calculava que íamos casar. E nesse caso pagávamos o que devía­mos, pois frequentemente casávamos com ela.” (pag.61)

“(…) A última pessoa a tomar estas questões a sério foi John Milton, há trezentos e cinquenta anos. Alguma vez leram os seus panfletos sobre o divórcio? No seu tempo, isso valeu-lhe muitos inimigos. Estão aqui, estão entre os meus livros com as margens densamente anotadas nos anos 60. “O nosso Salvador abriu para nós esta arriscada e acidental porta do casamento para no-la fechar como o portão da morte...?” Não, os homens não sabem nada - ou procedem voluntariamente como se não soubessem - a respeito do lado difícil e trágico daquilo em que vão entrar. Na melhor das hipóteses, pensam estoicamente: Sim, eu compreendo que mais cedo ou mais tarde vou renunciar ao sexo neste casamento, mas será a fim de ter outras coisas mais valiosas. Mas compreenderão aquilo de que estão a abdicar? Ser casto, viver sem sexo... bem, como encararão as derrotas, os compromissos, as frustrações? Ganhando mais dinheiro, ganhando todo o dinheiro que puderem? Fazendo todos os filhos que puderem? É uma ajuda, mas não é a mesma coisa. Porque a outra coisa se baseia no seu ser físico, na carne que nasce e na carne que morre. Porque só quando fodemos é que tudo aquilo de que não gostamos na vida e tudo aquilo que nela nos derrota é puramente, ainda que momentaneamente, vinga­do. Só então estamos mais limpamente vivos e somos mais limpamente nós mesmos. A corrupção não é o sexo, a corrupção é o resto. O sexo não é apenas fricção e divertimento superficial. O sexo é também vingança contra a morte. Não esqueçam a morte. Não a esqueçam nunca. Sim, o sexo também é limitado no seu poder. Eu sei muito bem a que ponto é limitado. Mas, digam-me, há algum poder maior? (pag. 63)

“(…) Tocava Beethoven e masturbava-me. Tocava Mozart e masturbava-me. Tocava Haydn, Schumann, Schubert e masturbava-me com a imagem dela no pensamento. Porque não podia esquecer os seios, os seios plenos, os mamilos e a maneira como ela conseguia envolver neles o meu pénis e acariciar-me assim. Outro pormenor. Um último pormenor e paro. Estou a tornar-me um pouco técnico, mas isto é importante. Este foi o contacto que fez de Consuela uma obra-prima de volupté. Ela é uma das poucas mulheres que conheci que se vinha empurrando a vulva para fora, empurrando-a involuntariamente como o corpo macio, não segmentado e espumoso de uma bivalve. A primeira vez apanhou-me de surpresa. Sentimo-la e temos uma sensação da fauna desse outro mundo, de qualquer coisa vinda do mar. Como se fosse relacionado com a ostra, o polvo ou a lula, uma criatura oriunda de quilómetros abaixo e eternidades atrás. Normalmente, vemos a vagina e podemos abri-la com as nossas mãos, mas no seu caso ela abria-se como se florescesse, a cona na sua própria forma, emergindo do seu esconderijo. Os pequem lábios eram expelidos para fora, entumesciam para fora, e era muito excitante, aquela tumefacção viscosa e sedosa, estimulante ao contacto e estimulante para os olhos. O segredo extasiadamente exposto. Schiele teria dado os seus caninos para o pintar. Picasso tê-lo-ia transformado numa guitarra.
Quase nos vimos de a ver vir-se. Consuela revirava os olhos quando era assim para ela. Os seus olhos voltavam-se para cima e só podíamos ver as escleróticas, e também isso valia a pena ver. Tudo nela valia a pena ver. Fosse qual fosse a agitação causada pelo ciúme, fosse qual fosse a humilhação e a infinda incerteza, sentia-me sempre orgulhoso quando a fazia vir-se. Às vezes nem sequer nos importamos se uma mulher se vem ou não: acontece apenas, a mulher parece encarregar-se disso por si mesma e não é da nossa responsabilidade. Não é um acontecimento com outras mulheres; a situação é suficiente, há excitação bastante e isso nunca está em questão. Mas com Consuela, sim, com ela era definitivamente uma responsabilidade que me cabia e sempre, sempre, uma questão de orgulho.” (pag. 88-89)
Philip Roth, "O Animal Moribundo", ed. Dom Quixote. Ficção Universal.

2 comentários:

Victor Afonso disse...

Excelente crítica a um filme que passou praticamente despercebido em Portugal.

isabel victor disse...

Excelente !


Um enorme (e saudoso) abraço




iv