segunda-feira, janeiro 04, 2010

DOSSIER SHERLOCK HOLMES, 1

:
SHERLOCK HOLMES, A CRIAÇÃO LITERÁRIA


1. NA CASA DE SHERLOCK HOLMES
Diz a lenda (e as histórias literárias) que Sherlock Holmes é uma criação de Sir Arthur Conan Doyle, portanto alguém que nunca teve uma existência física palpável. Engano. “Eu” estive na casa de Sherlock Holmes, subi as escadas íngremes do número 221B, de Baker Street, em Londres, atravessei a sala onde Holmes permaneceu dias e noites embrenhado nos seus casos, dialogando com o amigo Watson. Fui conduzido pela voz mecânica e automatizada de uma guia que nos ia indicando cada um dos objectos de culto, criteriosamente dispersos pela divisão. O jornal que diariamente lia, a bengala, o cachimbo, o tabaco, o chapéu, o improvisado laboratório, o violino das horas mortas, o cadeirão onde se sentava, a “chaise longue” onde adormecia. Diversos disfarces. Espreitei a rua da janela do primeiro andar. Senti o arrepio de pressentir a chegada de um novo cliente, de uma tímida jovem que atravessava a rua, tocava sofregamente à porta, era atendida pela governanta e mandada subir por Holmes que, depois de um rápido olhar, enunciava desde logo ao que vinha, donde vinha, e como tinha sido a jornada. A casa estava agora desabitada, é certo, sentia-se o vazio, eu que gosto de visitar casas museus, conheço este incómodo decorrente de invadir uma privacidade, de espiolhar uma vida e tentar descobri-la pelos despojos onde se procura um pouco da alma de quem por lá passou. Mas também sei que a maioria dos móveis já não são os originais, que muito do que vemos não tem correspondência com o que foi, mas sim com o que pensamos que foi, com o que nos dizem que foi. O que vemos é mais o que a lenda impõe, do que a realidade do que realmente existiu. Por exemplo, onde está a cocaína que Holmes consumia regularmente? Todos sabem que por essa altura não era crime, era mesmo prática corrente e remédio aconselhado por médicos e psicanalistas (veja-se o caso de Freud). Mas sabemos também que familiares do defunto e curadores dos museus fazem por esquecer ou encobrir certas práticas menos consentâneas com a faixa etária que frequenta estas visitas guiadas a casas ilustres. Fica, portanto, um vazio indizível, que anuncia apenas uma presença que todos querem sentir. A esta casa já fui pelo menos duas vezes, uma quando era ainda solteiro, outra com um filho que se interessa igualmente por estas curiosidades (sim, também visitámos a Old Curiosity Shop). Há obsessões que passam de geração em geração. Baker Street é lugar de peregrinação inadiável para qualquer admirador de Sherlock Holmes de passagem por Londres. Ou mesmo para os muitos londrinos que não esquecem um dos seus símbolos maiores. É impossível que esta casa com um ar tão desabitado, não tenha já sido habitada. Desabitada quer dizer que se sente a falta de quem a habitou anteriormente. O vazio é o vazio de uma ausência. Esta invasão de privacidade só o é porque houve anteriormente uma privacidade. Sherlock Holmes esteve aqui, seguramente, a falar com John Watson. Até retenho alguns traços fisionómicos, com um pouco de Basil Rathbone, algo de Peter Cushing, muito de Jeremy Brent, também de Robert Stephens ou Nicol Williamson, agora até de Robert Downey Jr. É, pois, um retrato estranho, uma espécie de puzzle que combina na memória rostos e silhuetas diferentes, mas que todas elas asseguram a individualidade de um ser. Sherlock Holmes existiu mesmo.

2. UMA CRIAÇÃO DE CONAN DOYLE

Dizem os factos, para lá da lenda, que Sherlock Holmes é uma criação de Sir Arthur Conan Doyle, médico e escritor, que apareceu pela primeira vez no romance “A Study in Scarlet” (Um Estudo em Vermelho), publicado originalmente na revista “Beeton's Christmas Annual”, em Novembro de 1887. Holmes não teve biografia traçada desde início, mas foi amealhando currículo ao longo da série de novelas, contos e romances que se lhe seguiram. Curiosamente, sabe-se que não era para ser assim chamado, pois existem rascunhos de um outro nome para a personagem: Sherringford Holmes.
O que se sabe, desde logo, é que Sherlock Holmes viveu em Londres, entre os anos 1881 e 1903, portanto nos derradeiros anos do período vitoriano, num apartamento no nº 221B, de Baker Street (onde, presentemente, se encontra instalado um museu dedicado a Sherlock Holmes). Dividiu, durante largo tempo, esse apartamento com um amigo e colega médico, o Dr. John H. Watson, recém-chegado do Afeganistão. Essa amizade de convívio diário, transforma Watson num companheiro de aventuras e no biógrafo encartado de Holmes.
Conan Doyle admitiu que a inspiração para a criação desta figura que rapidamente se tornaria lendária, a foi buscar a um seu professor de medicina, o Dr. Joseph Bell (1837-1911), um cirurgião de Edimburgo, que tinha excelentes capacidades dedutivas e era capaz de descobrir imensos aspectos da vida e dos hábitos dos seus pacientes. O Dr. Joseph Bell terá inspirado não só a criação da personalidade, mas até alguns aspectos físicos da figura do detective. Num texto publicado no periódico “The National Weekly”, em 1923, Doyle recorda os tempos passados na faculdade de medicina, e como iniciou então o processo de criação da sua célebre personagem. Ao descrever o seu professor Bell, afirma: “Era magro, vigoroso, com rosto agudo, nariz aquilino, olhos cinzentos penetrantes, ombros reptos e um jeito sacudido de andar. A voz era esganiçada. Era um cirurgião muito capaz, mas o seu ponto forte era o diagnóstico, não só das doenças, mas das ocupações e da personalidade dos doentes." Dr. Joseph Bell parece ter negado ser a fonte inspirativa e tomou mesmo a comparação como pejorativa – não se considerava arrogante.
Sherlock Holmes descreve-se a si mesmo como um "detective consultor". Diz: “Tenho um ofício próprio. Suponho que sou o único no mundo. Sou um detective consultor”. Não tinha realmente muita simpatia pelos detectives particulares que iam à procura de casos e clientes. Pode considerar-se um certo pretensiosismo da sua parte, uma jactância social. Não fazia parte da sua índole descer tão baixo. Não precisava. Não ia à procura de casos, esperava que eles viessem ter a si. Esperava-os no seu salão de Baker Street, folheando jornais, fumando tabaco em cachimbo ou drogando-se com cocaína (esta só seria proibida em 1930). Tocava violino ou aborrecia-se de morte em tempos de ociosidade. Era capaz de trabalhar dias e noites, sem comer nem dormir, quando se encontrava envolvido nalgum caso mais melindroso. Bastava, como nos conta Conan Doyle, recuperando os cadernos de apontamentos de Watson, ver entrar pela porta dentro uma mulher em desespero ou um homem em perigo de morte e olhar-lhe para os sapatos, a cor dos olhos, as manchas do casaco, o vestido amarrotado, para desatar a enumerar um infindável número de “evidências” que deixavam atónitos todos os circundantes. Doyle assegura que Holmes é capaz de resolver os mais complexos problemas sem sair do seu apartamento. Mas muitas vezes desloca-se ao local do crime, e não poucas vezes vê-se envolvido em episódios violentos.
Em todos os casos, a dedução é a base da sua estratégia alicerçada numa forte faculdade de observação dos mais pequenos sintomas ou pormenores. Senhor de uma vastíssima cultura geral, sobretudo científica, que é conveniente não indagar de onde lhe vem (certamente de dezenas de anos de estudo), Holmes identifica um aroma, um perfume, um cheiro, a marca de um tabaco, os vestígios de umas cinzas, a origem de um pedaço de terra, a textura de um pó. Estudou química e física, além de medicina, e não raro faz experiências, nem todas bem sucedidas. Mas no final acabarão por se tornar especialmente úteis. De vez em quando desaparece no nevoeiro londrino para reaparecer não se sabe como, disfarçado das mais diversas formas, para levar a bom porto as suas investigações, que, não raro, exigem dele o manejo da espada, ou mesmo umas boas cenas de pugilismo (Watson assevera mesmo que teria dado um bom pugilista profissional). Essa sua faceta de actor que lhe permitia o disfarce exemplar colheu-a certamente durante alguns meses como intérprete, na sua juventude, chegando a integrar o elenco de peças como “Hamlet”. Entre os disfarces mais conhecidos e relatados por Watson, contam-se alguns vagabundos, um velho bibliógrafo, um venerável padre italiano, uma velha senhora, um marinheiro, o capitão Basil, muito conhecido no East End, um fumador de ópio, um canalizador libertino de nome Escott, um operário francês mal barbeado, um espião irlando-americano, um oficial de marinha asmático, um clérigo não conformista, simplório e amável, um criado de quarto, dado à bebida, etc.
3. UMA CRONOLOGIA
Sherlock Holmes não teve existência física, nasceu da pena de um inspirado escritor, mas ao longo das suas aventuras pode inventariar-se uma história passada: terá nascido a 6 de Janeiro de 1854, ao norte de Yorshire, filho de um agricultor e de uma mãe de origem francesa, dado que a avó era filha do pintor Horace Vernet. É o próprio detective quem confidencia a Watson: “Os meus antepassados eram fidalgos de província que parecem ter levado o tipo de vida próprio de pessoas da sua classe social.”
6 de Janeiro de 1854? Obviamente que esta data de nascimento é calculada, com base em referências surgidas em obras que relatam as suas aventuras, pois não há nenhuma menção precisa. Entre 1852 e 1867 várias foram as hipóteses aventadas, mas a que reúne maior consenso é a de 1854. No conto “O Mistério do Vale Boscombe”, que se desenrola em Junho de 1889, Holmes descreve-se como um homem de "meia-idade”, o que na altura quereria dizer de cerca de 35 anos. Em “His Last Bow“, de 1914, Watson descreve Holmes como alguém de sessenta anos. Ambas as referências apontam para 1854.
Quanto ao dia e ao mês, as divagações não são menores. Em “O Vale do Terror”, há uma referência a um dia 7 de Janeiro, e Watson pergunta-se se o amigo terá festejado o seu aniversário na véspera. Logo, “elementar, meu caro Watson”... (frase que Conan Doyle nunca terá escrito!). Elementar? Nada disso. Nick Rennison, na sua recente “biografia não autorizada”, “Sherlock Holmes”, opta por uma outra data, 27 de Junho de 1854, para o nascimento de William Sherlock Holmes (1).
Tinha um irmão mais velho, Mycroft, que trabalhava para o serviço secreto inglês. É Holmes quem afirma que o irmão é muito superior a si em observação e dedução. Numa das suas aventuras, Holmes encontra-se com Mycroft, em frente do Diogenes Club, o clube onde o irmão passava os tempos livres, e os dois mantêm um diálogo repleto de deduções, cada uma mais bizarra que a outra, sobre um transeunte que se atravessa no seu caminho, conjecturas que deixam Watson profundamente intrigado e estupefacto.
Segundo o “Canon” de Sherlock Holmes (isto é, a globalidade das obras escritas realmente por Conan Doyle, excluindo todas as sequelas e derivações posteriores, assinadas por outros autores, que se inspiraram nas personagens e lhe deram continuação, e foram algumas), é possível estabelecer alguma cronologia para a vida do popular detective. Assim, por exemplo, dando crédito a uma cronologia estabelecida por Thierry Saint-Joanis (2), em 1877, Holmes instala-se como detective privado; em 1878, Watson obtém o seu diploma de médico na universidade de Londres, torna-se cirurgião e é incorporado no 5º Regimento de Fuzileiros de Northumberland; em 27 de Julho de 1880, inicia-se a segunda guerra do Afeganistão, Watson participa na batalha de Maïwand onde é ferido. Convalescença e regresso a Inglaterra com uma curta pensão.
Em 1881, um amigo comum apresenta Holmes a Watson e os dois decidem partilhar o aluguer de um apartamento em Baker Street, em Londres. “Um Estudo em Vermelho” é o primeiro caso que ambos resolvem. Seis anos mais tarde, em 1887, Watson vem em socorro do seu amigo, gravemente doente, em Lyon, durante o caso dos proprietários de Reigate. Voltam para Londres, onde os espera o caso do “Signo dos Quatro”, durante o qual Watson encontra Mary Morstan, com quem irá casar.
Em 1889, Holmes afirma ter completado mais de quinhentos inquéritos importantes desde o início da sua carreira. Em 1891, duplica. No dia 4 de Maio desse mesmo ano, Sherlock Holmes desaparece nas cataratas de Reichenbach, perto de Meiringen, na Suíça (episódio relatado em “The Adventure of the Final Problem”), quando lutava corpo a corpo com o professor James Moriarty, arqui-rival e génio do crime. Para os leitores é dado como morto.
Este período, entre 1891 a 1893, compreendido entre a "morte" e a "ressurreição" do detective, é conhecido pelos sherlockianos como o grande hiato (The Great Hiatus). Curiosamente, "O caso da Vila Glicínia" (The Adventure of Wisteria Lodge) é datado pelo Dr. Watson como ocorrido no ano de 1892. Sabe-se depois que, nesse grande hiato, o detective viaja incógnito pelo Tibete e a Pérsia, visita a Meca, espia em Cartum para o Foreign Office, depois regressa por Montpellier, onde faz pesquisas. Durante este período, em Londres, Watson, que acredita que o amigo morreu na Suíça, perde também a sua jovem e muito amada mulher.
Interessante aprofundar as razões do desaparecimento do detective. Arthur Conan Doyle quis realmente fazer desaparecer a sua personagem, interessado em explorar outros temas, aspirando a mudanças na sua obra literária. Julgava “The Adventure of the Final Problem” um final apropriado para o seu famoso detective que, finalmente, encontrava e vencia, ainda que à custa da própria vida, um adversário à altura, Moriarty.
Durante dez anos, Doyle volta-se para outras paisagens e outros personagens, e não se entrega a Sherlock Holmes a não ser em 1902, quando redige “O Cão dos Baskerville”, para satisfazer as imperiosas necessidades do seu público. Mas este não se sacia e quer mais. Os editores também querem e, em 1903, perante uma oferta irrecusável de direitos autorais, retorna com “O Regresso de Sherlock Holmes”. Holmes retoma oficialmente o seu trabalho com o “Caso da Casa Vazia”, onde captura o coronel Moran, último membro da organização de Moriarty. A República Francesa agracia-o com a Legião de Honra por ter preso Huret, o “assassino do boulevard”. Em 1895, será a Rainha Vitória a recompensá-lo com uma esmerada incrustada num alfinete de gravata pelo seu triunfo em “Os Planos do Submarino Bruce-Partington”.
Em 1897, para evitar a depressão, repousa. Confia a Watson que nunca amou, o que arruma assim sumariamente a sua questão com as mulheres (a única por quem terá sentido alguma atracção terá sido Irene Adler). Em Junho de 1902 recusa o título de Cavaleiro que o Rei lhe procura atribuir. No ano seguinte, Watson casa pela segunda vez e retoma a sua actividade de médico. A 6 de Janeiro de 1904, Holmes reforma-se e retira-se para uma herdade em Sussex, onde passa a dedicar-se à apicultura. Escreve mesmo um ensaio sobre o tema.
A 2 de Agosto de 1914, depois de dois anos de espionagem nos EUA, na Irlanda e em Inglaterra, Holmes reencontra Watson para prenderem um agente alemão, no início da Primeira Guerra Mundial. A seguir o mundo não voltará a ouvir falar de Sherlock Holmes e de John Watson. Esta foi a sua derradeira aventura.
Sherlock Holmes é portador de uma personalidade singular e perturbante, que faz dele certamente um ícone. Aparentemente sem defeitos e com enormes virtudes, culto e sabedor, mesmo erudito, é todavia arrogante, convencido e pretensioso, não raro de uma inteligência fria, optando quase sempre por ser racional em lugar de emocional. Faz justiça pelas próprias mãos, no que se julga deus, deixa em liberdade alguns criminosos, executa outros, ironiza com as poucas faculdades do inspector Lestrade, da Scotland Yard, que deixa sempre para trás e em dificuldades de raciocínio. Não é muito dado a práticas violentas, mas foi sensação no boxe, e alguns asseguravam-lhe um bom futuro na profissão, assim como, paradoxalmente, poderia ter sido um exímio executante musical, o que recorda amiúde com o seu violino.


4. AS OBRAS DE SIR ARTHUR CONAN DOYLE
As obras de Sir Arthur Conan Doyle, dedicadas a Sherlock Holmes são:
Um Estudo em Vermelho (A Study in Scarlet), romance (1887),
O Signo dos Quatro (The Sign of the Four), romance (1890)
O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles), romance (1902)
O Vale do Terror (The Valley of Fear), romance (1915)
E ainda:
As Aventuras de Sherlock Holmes (The Adventures of Sherlock Holmes), série de 12 contos (1892)
Memórias de Sherlock Holmes (The Memoirs of Sherlock Holmes), série de 11 contos (1894)
O Regresso de Sherlock Holmes (The Return of Sherlock Holmes), série de 13 contos (1905)
O Último Adeus de Sherlock Holmes (His Last Bow), série de 8 contos (1917)
Os Casos de Sherlock Holmes (The Case-Book of Sherlock Holmes), série de 12 contos (1927)
Mas Conan Doyle dedicou-se ainda como escritor a muitas outras áreas. Temos, por exemplo, a série dedicada ao Professor Challenger, com alguns romances:
O Mundo Perdido (The Lost World) (1912)
A Cintura de Veneno (The Poison Belt) (1913)
A Terra das Brumas (The Land of Mist) (1926)
Quando o Mundo Gritou (When the World Screamed) (1928)
A Máquina de Desintegração (The Disintegration Machine) (1929)

Outros romances:
Micah Clarke (Micah Clarke) (1888)
A Companhia Branca (The White Company) (1891)
Os Refugiados – Uma História de Dois Continentes (The Refugees – A Tale of two Continents)
Sir Nigel (1906)
J. Habakuk Jephson's Statement (1884)
The Mystery of Cloomber (1889)
The Firm of Girdlestone (1890)
The Parasite (1894)
Rodney Stone (1896)
The Exploits of Brigadier Gerard (1903)
The Maracot Deep (1929)
Nota: As obras de Arthur Conan Doyle estão editadas em português por diversas editoras, Publicações Europa-América, Livros do Brasil, mais recentemente, em 2009, pela Global Noticias (Colecção Sherlock Holmes, em 12 caprichados pequenos volumes).

5. SIDNEY PAGET E FREDERICK DORR STEELE
Quase todas as histórias de Sherlock Holmes apareceram inicialmente publicadas na mais importante revista literária inglesa dessa época, a “The Strand Magazine”. A capa era quase sempre ocupada por uma ilustração relativa a uma história com a assinatura de Conan Doyle e, no interior, surgiam pequenas ilustração quase sempre da autoria de Sidney Paget, que assim deu corpo e forma às personagens de Sherlock Holmes e Watson, moldando-as para sempre no imaginário colectivo. Sidney Paget, que começou a desenhar muito cedo, estudou no British Museum durante dois anos, e depois na Heatherley's School of Art, e na Royal Academy Schools, era o irmão do meio de uma talentosa ninhada de três, o mais famoso dos quais, Walter Paget, era igualmente ilustrador. Diz a lenda que era para este que deveria ter sido endereçado o convite para ilustrar "Adventures of Sherlock Holmes", mas a carta foi cair nas mãos de Sidney que aproveitou a oportunidade que não mais largou. Segundo a lenda teria sido o irmão Walter a servir de modelo para a figura de Sherlock Holmes, mas nada se sabe de certo. Os estudiosos atribuem a Sidney Paget a invenção do chapéu de caçador de veados (dito “Deerstalker” e mais tarde conhecido como chapéu de detective por associação com Sherlock Holmes) e a capa de inverno, elementos que não são referidos nos textos de Conana Doyle. Quando Sidney morreu, depois de ter desenhado 356 ilustrações para Sherlock Holmes, Walter Paget ilustrou finalmente uma história.
Entretanto, na América, as aventuras de Conan Doyle começaram igualmente a ser publicadas na “Collier's Weekly”, a partir de 1903, sendo ilustradas por Frederic Dorr Steele. Descendente de William Bradford, Frederic era natural do Michigan, estudou na National Academy of Design e depois em New York City, tornando-se um ds desenhadores do The Illustrated American, passando depois a “freelance”, tanto na “Scribner's Magazine” como na “Collier's Weekly”, onde foi convidado a ilustara “The Return of Sherlock Holmes”. Para Frederic Dorr Steele, o modelo que escolheu para Sherock Holmes foi colhê-lo a William Gillette, actor. Parece ter sido Frederic a criar a dependência do cachimbo, baseano-se precisamente na criação teatral de Gillete.
O excelente Frederic Dorr Steele, muito mais moderno e cosmopolita que Sidney Paget, e que utilizava uma leve coloração nas suas obras (ao contrário de Sidney Paget que preferia o preto e branco nuanceado), trabalhou ainda no “The Century Magazine”, “McClure's”, “The American Magazine”, “Metropolitan Magazine”, “Woman’s Home Companion” e “Everybody’s Magazine”.
Estas ilustrações de Sidney Paget e Frederic Dorr Steele tornaram-se raridades vendidas e compradas em leilões a preços invulgares. O original de Paget que captou e imortalizou a luta de Holmes e Moriarty nas cataratas de Reichenbach foi vendido, num leilão da Sotheby, em Nova Iorque, por 220.000 dólares, em 16 de Novembro de 2004.

3 comentários:

Maria Quintans disse...

adorei ler este post, Lauro. tão interessante!

beijo

luis filipe barros disse...

muito interesante!

carlos disse...

Bom trabalho sobre o detective dos detectives.